Toda pesquisa com entrevistas com grupos focais é um processo social, uma interação ou um empreendimento cooperativo em que as palavras são o meio principal da troca. Não é apenas um processo de informação de mão única passando de um (o entrevistador) para outros (os entrevistados). É uma troca de idéias e de significados, em que várias realidades e percepções são exploradas e desenvolvidas.
Por isso, é importante que o entrevistador seja um moderador, um facilitador, que estimule as pessoas que compõem os grupos focais a falar e a reagir frente àquilo que diz a mensagem e os outros participantes. Coube ao pesquisador, com a ajuda do moderador, o processo de interpretação do objeto simbólico, a construção ativa do sentido, a explicação e como é percebido o que é explicado. “O sentido é determinado e predeterminado através de um processo contínuo de interpretação” 156. As matérias do telejornal DFTV assistidas pelos entrevistados podem não ter um significado e uma identidade fixa. Por esse motivo, as suas respostas oferecem significados possíveis. As discussões em grupo possibilitaram o aprofundamento nas questões mais subjetivas e específicas para se analisar o processo de interação com o DFTV e o impacto do telejornal na vida cotidiana dos receptores dos grupos focais.
Em termos metodológicos, os grupos focais são formados com um determinado número de pessoas reunidas num mesmo local. Entrevistas em grupo formam uma sinergia no sentido de uma identidade compartilhada, sem menosprezar os pontos de vistas, as opiniões próprias, enfatizando a espontaneidade. Os participantes acabam levando em consideração os pontos de vista dos outros na formulação de suas respostas. As discussões com grupos focais podem ser precedidas de uma entrevista individual para conhecer cada participante (delinear as características relevantes, como hábitos, atitudes e comportamentos iniciais frente ao objeto de pesquisa, o DFTV). As sessões deverão durar entre 15 a 90 minutos.
Essa técnica é um instrumento de valor por sua capacidade de reproduzir um espaço sociocultural que produz sentido aos participantes, facilitando a transparência de
emoções, cognições e ações. Para Duarte e Barros 157, os grupos focais são um tipo de pesquisa qualitativa que tem como objetivo perceber os aspectos valorativos e normativos que são referência de um grupo em particular. São, na verdade, uma entrevista coletiva que busca identificar tendências.
O telejornal DFTV é o objeto/tema de interesse comum do cotidiano da audiência e isso, sem dúvida, facilitará o debate e a troca de idéias e experiências entre os participantes. O moderador não privilegiará indivíduos particulares ou posições, e sim encoraja os participantes a falar e a responder aos comentários, buscando um diálogo aberto e criativo.
O grupo deve ser heterogêneo, mas não fundamentalmente formado por pessoas desconhecidas. Na verdade, algum tipo de familiaridade anterior é uma vantagem. Quando pessoas partilham de um meio social comum, tornam-se mais abertas e desinibidas para opinar sobre um produto cultural conhecido por eles e externo ao convívio deles como grupo. Eles não se reúnem para assistir ao telejornal DFTV. O modo, a freqüência e a maneira como recebem as informações são individuais e diferenciadas. O momento do trabalho em grupo será para que o grupo exponha o que pensa e quais entraves apontam as mediações que se processam. Essa característica de familiaridade foi determinante na estratégia de escolha e seleção dos participantes pesquisados, com todas as qualidades e pré- requisitos necessários dentro da metodologia de grupos focais.
As mensagens transmitidas pela televisão não são apenas recebidas por pessoas particulares em contexto específicos, mas são também discutidas em comum pelos receptores durante a recepção ou depois dela, e são, por isso, elaboradas discursivamente e partilhadas com um círculo mais amplo de pessoas que podem, ou não, ter vivenciado diretamente o processo de recepção (THOMPSON, 1995, p. 407) 158.
Pesquisadores apontam alguns problemas para o trabalho com grupos focais. Um deles é o risco dos entrevistados dizerem o que pensam que o entrevistador gostaria de ouvir. São as “falsas falas”, que podem dizer mais sobre o pesquisador e sobre o processo de pesquisa, do que sobre o tema pesquisado. Por isso, fechei uma parceria com a psicóloga Andréa Lara (que atualmente desenvolve o estudo “As Representações de Mulheres na Publicidade Automobilística Brasileira” no Programa de Pós-Graduação em Comunicação
157 DUARTE, Jorge e BARROS, Antônio (Org). Métodos e Técnicas de Pesquisa em Comunicação. São Paulo: Atlas, 2005. p. 181.
da Universidade de Brasília). A psicóloga municiou a pesquisador de material teórico sobre o tema, acompanhou a seleção dos 30 entrevistados e participou das reuniões com o grupo focal de Taguatinga como mediadora do processo dialógico que ali se instalou.
Para a excelência dos resultados, o pesquisador manteve um distanciamento e um estranhamento com os grupos. Dois colaboradores selecionados dentro dos grupos de Brasília e de Santa Maria participaram como entrevistados e como mediadores na pesquisa a fim de recolher as opiniões dos receptores. Com a entrevista em profundidade com os grupos focais, os mediadores exploraram as atitudes e opiniões, observaram os processos de consenso e divergência e abordaram assuntos de interesse comum relacionados ao objeto de pesquisa, o telejornal DFTV.
Os passos metodológicos:
- Integraram a amostra desta pesquisa as matérias jornalísticas veiculadas em 6 edições do telejornal DFTV 1ª edição, totalizando 68 reportagens.
- Foram realizados três encontros com os grupos de Brasília e Taguatinga e dois encontros com o grupo de Santa Maria.
- No início das reuniões, cada mediador apresentou os membros do seu grupo e exibiu aos participantes à peça de comunicação alvo da análise, a íntegra do telejornal DFTV 1ª edição.
- Nas reuniões, os mediadores levaram equipamentos necessários para projeção das matérias do DFTV e o armazenamento das respostas. Os materiais utilizados nas reuniões com os grupos focais foram: televisão 29 polegadas tela plana, aparelho leitor de DVD, gravador, caixas de som, microfone sem fio, fitas cassete, pranchetas, crachás, canetas, lápis, borrachas e canetas “pincel”.
- Todas as reuniões com os grupos focais foram gravadas. O gravador foi acionado após a exibição do telejornal. Duarte e Barros 159 reforçam que a gravação possibilita o registro literal e integral. O gravador possui a vantagem de evitar perdas de informação, minimizar distorções, facilitar a condução da entrevista, permitindo que o moderador e o pesquisador façam anotações sobre aspectos não verbalizados. As gravações totalizaram 4 fitas, o que corresponde a 6 horas.
- As fitas foram degravadas e as falas transcritas. As fitas foram numeradas, registrando a lista dos entrevistados e a cidade pesquisada.
- Os resultados obtidos na pesquisa qualitativa foram cruzados com as análises de conteúdo e de discurso do DFTV e com os dados das pesquisas quantitativas oficiais para obter indicações preliminares, pontos de convergência e possíveis respostas para a análise final.
Por último, o objetivo desse tipo de pesquisa é descobrir como os membros dos grupos focais têm recebido e compreendido as mensagens do DFTV, que significado oferecem as mensagens, que identidade e representações existem nessas mensagens e como elas são utilizadas pelos participantes.