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A questão da recepção não pode ser trabalhada seguindo unicamente a busca de uma audiência reduzida a um tratamento quantitativo e mercadológico. Os estudos de recepção, naturalmente interdisciplinares, incluem metodologias qualitativas que abordam a questão cultural e a produção de estratégias e práticas de natureza social. Mirian Goldenberg 136 reforça que a integração da pesquisa qualitativa e quantitativa permite que o pesquisador faça um cruzamento de suas conclusões de modo a ter maior confiança que seus dados não são produto de um procedimento específico ou de alguma situação particular.

De acordo com Martin Bauer e George Gaskell, as entrevistas e as pesquisas qualitativas têm a sua versatilidade e seu valor significativo evidenciados porque são amplamente aplicadas como método em muitas disciplinas sociais científicas e na pesquisa social comercial, nas áreas de pesquisa de audiência da mídia, relações públicas, marketing e publicidade.

Na pesquisa social, estamos interessados na maneira como as pessoas espontaneamente se expressam e falam sobre o que é importante para elas e como elas pensam sobre suas ações, as do outro e sobre o objeto (BAUER e GASKELL, 2002, p. 21) 137.

Nas pesquisas que focalizam como os receptores e as audiências interpretam um mesmo conteúdo, no caso aqui proposto o telejornal DFTV, o uso de metodologias qualitativas vem cobrir uma lacuna ainda inexplorada pelos estudos de recepção. Para Escosteguy 138, a perspectiva qualitativa, centrada principalmente nas falas dos receptores, é uma opção metodológica que facilita o acesso desses sujeitos no processo de produção de sentido, comprovando a existência de ação no espaço da recepção. Entendemos que os telejornais não são apenas produtos para serem consumidos, eles são também mensagens para serem compreendidas e interpretadas. A análise da apropriação quotidiana dessas mensagens deve se interessar em parte pelas maneiras como elas são entendidas pelas

136 GOLDENBERG, Mirian. A Arte de Pesquisar: Como fazer pesquisa Qualitativa em Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 62.

137 BAUER, Martin e GASKELL, George. Pesquisa Qualitativa com Texto, Imagem e Som – Um manual prático. Rio de Janeiro: Vozes, 2002. p. 21.

pessoas que, no seu dia-a-dia, as recebem. A pesquisa qualitativa lida com interpretação da realidade social.

Toma em consideração tanto as condições sócio-históricas em que as mensagens são recebidas pelas pessoas, como as maneiras como essas pessoas entendem as mensagens e as incorporam em suas vidas. O processo de interpretação pode procurar explicar as conexões entre mensagens particulares, que são produzidas em determinadas circunstâncias e construídas de determinada maneira, e as relações sociais dentro das quais as mensagens são recebidas e compreendidas pelas pessoas na vida cotidiana (THOMPSON, 1995, p. 396 e 406) 139.

A pesquisa qualitativa deve ser usada quando o pesquisador deseja entender o que é importante para um grupo e porque é importante. Revela áreas de consenso nos padrões de respostas, privilegia a interpretação dos dados e ressalta as significações que estão contidas nos atos e nas práticas. Ela também determina quais idéias geram uma forte reação emocional. A tradição metodológica qualitativa favorece ver o mundo através dos olhos dos atores sociais e dos sentidos que eles atribuem aos objetos e às ações sociais que desenvolvem.

Uma das vantagens do método qualitativo apontado por Eva Lakatos 140 é que o trabalho com grupos permite que investigador entre em contato direto e prolongado com o indivíduo e com os grupos humanos, com o ambiente e com a situação que está sendo investigada. Com isso, o pesquisador interpreta, analisa e enfatiza o significado dos dados obtidos com mais clareza e confiabilidade.

A pesquisa qualitativa parte do pressuposto de que há uma relação dinâmica, uma interdependência entre o mundo real, o objeto da pesquisa e a subjetividade do sujeito. O sujeito é considerado como integrante do processo de conhecimento, atribuindo significados àquilo que pesquisa. A importância da pesquisa qualitativa não é contar opiniões ou pessoas, mas ao contrário, explorar o espectro de opiniões, as diferentes representações sobre o assunto em questão.

A pesquisa qualitativa costuma ser seguida de um estudo quantitativo menor no sentido de conhecer as características do grupo.

139 THOMPSON, 1995, op. cit., p. 396 e 406.

Formulações mais recentes consideram a pesquisa qualitativa como igualmente importante depois do levantamento, para guiar a análise dos dados levantados, ou para fundamentar a interpretação com observações mais detalhadas (BAUER e GASKELL, 2002, p. 26) 141.

A pesquisa qualitativa é vista como uma maneira de dar poder ou dar voz às pessoas, em vez de tratá-las como objetos, cujo comportamento deve ser quantificado e estatisticamente modelado. Interessa-se em entender como é produzido o sentido do ponto de vista dos receptores. Lakatos 142 enfatiza que a metodologia qualitativa preocupa-se em analisar e interpretar aspectos mais profundos, descrevendo a complexidade do comportamento humano, e fornecer análise mais detalhada sobre as investigações, hábitos, atitudes, tendências de comportamento, etc.

A metodologia qualitativa usada nos estudos de recepção, na medida em que procura analisar a maneira como são recebidas e interpretadas as mensagens, possibilita a reconstrução do sentido que esses receptores dão à mensagem que recebem, torna explícitas as convenções implicitamente usadas na decodificação das mensagens e examina as atitudes que eles tomam diante das mensagens.

Os estudos de recepção com base nos grupos focais têm como universo de pesquisa um grupo que é montado para ouvir, assistir e discutir determinada mensagem (...) Trata-se de uma abordagem qualitativa tradicional muito usada (FACHEL, 2002, p. 117) 143.

Para Nilda Jacks 144, o estudo da recepção em nível local é importante porque permite verificar como a identidade cultural criada pela vivência de uma cultura regional se relaciona com os conteúdos emitidos em caráter nacional. O foco no cotidiano regional amplia as possibilidades de compreensão das inúmeras condições de recepção a que estão sujeitas as mensagens, acrescentando às diferenças socioculturais determinadas pelas classes e a questão da inserção do receptor em um contexto histórico geográfico com especificidades próprias.

141 BAUER e GASKELL, 2002, op. cit., p. 26. 142 LAKATOS, 2004, op. cit., p. 269.

143 FACHEL, Ondina. Etnografia de Audiência: uma Discussão Metodológica. In: SOUZA, 2002, op. cit., p. 117.

144 JACKS, Nilda. Pesquisa de Recepção e Cultura Regional. In: SOUSA, Mauro Wilton. Sujeito, O Lado Oculto do Receptor. São Paulo: Brasiliense, 2002. p. 157.

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