E aquele homem fez uma palestra [...]. Num dado momento, eu comecei a ver uma abóbada, como se tivesse uma abóbada em cima, ela se abria em luz. E aquele era um banho de luz, as pétalas caindo em cima da gente. E ele, naquela hora, ele disse: ‘A espiritualidade está proporcionando uma maravilha pra nós...’. E descreveu o que eu estava vendo. (Sol).
É, porque é uma viagem interior que a gente faz. Com certeza! É uma viagem que não tem porto de parada, porque, quanto mais a gente aprende, mais a gente quer aprender. Que aquela frase, eu não lembro se é de Einstein, não, não tô lembrando agora quem disse... Acho que foi Isaac Newton, que: ‘O que eu sei é uma gota, o que eu ignoro é um oceano’. (Amarelo).
[...] teve um período... assim... eu tinha uma salivação, que eu não sabia explicar o que era, e eu sentia aquilo muito intenso, minha boca enchia d’água, e era o tempo todo, e me vinham palavras que eu não tinha a mínima ideia do que significavam. Palavras, frases, e eu ficava elucubrando comigo mesmo, no meu pensamento, e falando, falando, falando. Depois eu fui entender que eu na verdade não estava sozinho; já estava conversando com outros amigos, e tal, e tinha um compromisso nessa área da divulgação, da Comunicação, e eu pude fazer o link. (Verde).
Se nos seus antecedentes históricos, e no solo mesmo de sua expansão, a Doutrina Espírita, no Brasil, chega de mãos dadas com o sobrenatural, a proposta registrada na codificação cunhada por Allan Kardec aponta para outro universo – racional, filosófico e moral – que em muito se afasta da confusão por desconhecimento de que normalmente os espíritas são vítimas.
Fruto de anseios maravilhosos do povo nascido de uma mestiçagem peculiar, a história registra a afeição à presença daqueles que, devido ao desconhecimento da população em geral, são confundidos com espíritas, entretanto, são cartomantes e médiuns de conduta duvidosa que proliferavam nos espaços recém-republicanos do país e estavam na ordem do dia, sem compromisso com o preconizado nos anais kardecistas da codificação69.
Se o Espiritismo é apenas sessão mediúnica ou a crença nos espíritos desencarnados, basta ser médium ou participar de sessões, sejam quais forem, para que alguém seja espírita; se, porém, Espiritismo é o corpo de doutrina organizado por Allan Kardec, com todas as suas consequências filosóficas e religiosas, com todas as suas implicações de ordem moral, é claro que não basta ser frequentador de sessões ou ter faculdades mediúnicas desenvolvidas para ser espírita, na exata acepção doutrinária. (AMORIM, 1992, grifo do autor).
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A propósito da afirmação, vale sabermos que “[...] o choque de três culturas fertilizava as imaginações. Ao fetichismo do indígena e ao animismo fetichista do negro somava-se a histeria do sebastianismo, que exaltava o colonizador” (MACHADO, 1996, p. 24).
Por isso, dada a importância de conhecermos a realidade das coisas e dos contextos para não incorrermos no erro de criticar por desconhecimento, a realidade das casas espíritas difere muito da que usual e tradicionalmente se deduz sobre ela, pois, esta possui muitos trabalhos assistenciais (sopas, passes, visitas fraternas, evangelho itinerante em visita a casas de adeptos) e tipos de estudo, quais sejam: Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita (ESDE), Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita (EADE), Grupo de Estudos Mediúnicos (GEM), Assistência Espiritual (AE), estudos de obras complementares às da codificação, Evangelização infantojuvenil.
Todas as atividades educativas seguem parâmetros e orientações determinados pela FEB, em acordo com as lideranças espíritas que anualmente se reúnem no Conselho Federativo Nacional (CFN), com a finalidade de definir estratégias, campanhas e conteúdos a serem desenvolvidos e abordados durante todo o ano nas casas espíritas brasileiras, dando às casas federalizadas um caráter homogêneo e unificado em suas linhas de ação.
Allan Kardec se preocupou com essa organização necessária a que se evitassem as possíveis dissenções dentro do Espiritismo e sugeriu que uma comissão fosse soberana em detrimento das individualidades que pudessem surgir no seio da doutrina, assim:
[...] para o público de adeptos, a aprovação ou a desaprovação, o consentimento ou a recusa, as decisões, em uma palavra, de um corpo constituído, representando uma opinião coletiva, terão forçosamente uma autoridade que elas jamais teriam emanando de único indivíduo, que não representa senão uma opinião pessoal. (KARDEC, 2008, p. 250).
A fundação da Federação Espírita Brasileira, no dia 2 de janeiro de 1884, no Rio de Janeiro, capital da República, teria respondido a esse temor das classes dirigentes do
movimento que já representava “[...] um potencial sócio-político relativamente importante em número” (AUBRÉE; LAPLANTINE, 2009, p. 146).
DaMatta (1986) consegue traduzir esse universo mágico-formal que permeia as práticas religiosas, os cultos e os sacramentos no Brasil, tentando responder a uma pergunta cuja resposta é no mínimo intrigante para os que não compreendem a particularidade étnica
que referenda nossas ações individuais e coletivas: “Mas como se chega a Deus no Brasil?”.
Ao que responde:
Aqui, como em outros lugares, temos uma religião dominante e que até bem pouco tempo (até 1890, para ser preciso) foi oficial. Trata-se, conforme sabemos, do Catolicismo Romano, denominação religiosa formadora da própria sociedade brasileira e, naturalmente, de um conjunto de valores que são essenciais no Brasil. Naturalmente que tal forma de denominação religiosa é acompanhada de outras que a ela estão referidas [...]. Assim, essas experiências religiosas são todas complementares entre si, nunca mutuamente excludentes. O que uma delas fornece
em excesso, a outra nega. E o que uma permite, a outra pode proibir. O que uma intelectualiza, a outra traduz num código de sensual devoção. Aqui também nós, brasileiros, buscamos o ambíguo e a relação entre esse mundo e o outro. (DAMATTA, 1986, p. 115-118).
Essa mesma confusão envolve o exercício vulgar das faculdades mediúnicas, em contraponto com a condição delineada pela Doutrina Espírita e que caracteriza o verdadeiro espírita-cristão como aquele que conhece a natureza do fenômeno e a ele se dedica através do estudo, da prática e do recolhimento e observação necessários.
No trabalho de recepção de energias provenientes do plano espiritual, em que médium, o espírito e aquele que recebe os fluidos encontram-se em conexão, se tomarmos como exemplo o passe, vemos essa como uma transmissão de energia do plano espiritual para o indivíduo beneficiado, em que o médium atua como doador de recursos materiais para o pleno intento deste processo, mas, com mais refino, quanto for a melhor sintonia que ele mantiver com os bons propósitos.
De acordo com Goidanich e Campetti (2007, p. 15), “[...] los pases son, por lo tanto, transfusiones de energías psíquicas. La mente desempeña un papel central en los pases
y estabelece el nível de la sintonía del pasista con la espitualidad”, sendo, portanto, “[...]
movimentos que se fazem com as mãos sobre o corpo do doente com o pensamento e a vontade de curá-lo” (MICHAELUS, 1995).
Ser espírita não é simplesmente aceitar a existência dos espíritos e manter com estes relações, mas, ao contrário, sendo esta uma das últimas etapas do processo, importa destacarmos que, anterior a estas relações, e para que se garanta que a comunicação com os seres domiciliados no plano espiritual possua natureza e finalidade nobres – jamais para deleite de satisfações egocêntricas – cabe que o espírita aprofunde o conhecimento sobre os mecanismos envolvidos neste processo, desde as balizas inauguradas por Kardec (2008) através da observação das mesas girantes até as obras especializadas e complementares ao tema.
Segundo o codificador, e que seria simplesmente um avivamento das prédicas cristãs na consciência do espírita:
[...] não se reconhece por seus adeptos senão aqueles que colocam em prática os seus ensinos, quer dizer, que trabalham para o seu adiantamento moral, esforçando-se por vencer as suas más inclinações, serem menos egoístas e menos orgulhosos, mais dóceis, mais humildes, mais pacientes, mais benevolentes, mais caridosos com o próximo, mais moderados em todas as coisas [...]. (KARDEC, 2008, p. 181). Vemos que tal indicação já carrega em si o embrião da proposta de transformação espiritual, cara à reorientação educacional que defendemos, e que consiste na interface entre Educação e Doutrina Espírita.
O preâmbulo referente aos atributos do espírita, a organização burocrática da Doutrina Espírita, bem como o trato coerente da mediunidade, são de suma importância, pois também atesta que o envolvimento com um fenômeno desde sempre tratado com tabu pelas religiões tradicionais, não teria tratamento diverso ao que o corpo doutrinário orienta em termos institucionais.
Cabe argumentarmos veementemente que a experiência mediúnica, que enseja como causa e efeito o conhecimento de nossas fragilidades morais e psicológicas a serem revistas, é uma relação que se estabelece todos os dias, todos os momentos, pois, este não é um fenômeno que possamos efetivamente descartar de nossas experiências cotidianas, pois que encontra seu reduto na constituição orgânica daquele que a possui, em quase que a maioria de nós.
É importante considerarmos a baliza de Allan Kardec (2008) sobre os fenômenos implicados na mediunidade, esta faculdade orgânica e inerente a todos os seres humanos, em maior ou em menor grau, e os seus intervenientes, pois, ao longo da história da humanidade, uma aura de especulação se criou em torno dessa condição, variando da recepção às cegas do fenômeno ao rechaço por simples ignorância, nunca, todavia, se realizando um estudo de fato sério para que se desse um status coerente a ela.
A mediunidade pode apresentar-se em qualquer fase da vida, “e, frequentemente, entre crianças muito jovens, [...] [em que] esta faculdade não é, por ela mesma, indício de um
estado patológico, porque não é incompatível com uma saúde perfeita” (KARDEC, 2008, p.
136), mas o desprezo dela, principalmente quando presente com traços muito expressivos, pode produzir certas disfunções orgânicas e comportamentais decorrentes do mau uso que se faça de suas potencialidades.
As chamadas disfunções não têm relação com a faculdade propriamente dita, mas, com o mau uso que se lhe faz, principalmente se o médium possui predisposição para uma dada patologia ou psicopatologia70 ou faz uso de substâncias que alteram o seu estado de consciência, como drogas, álcool ou outros princípios ativos.
Em última instância, para além da ausência ou da presença da mediunidade em nossas vidas, têm-se um indivíduo que a contém, e suas relações, suas escolhas, suas opções de vida, serão fundamentais para a definição de sua saúde espiritual, de modo que o equilíbrio ou não no que diz respeito aos seus atos cotidianos, atestarão a natureza dos espíritos que lhe serão afins e, acima de tudo, a forma como eles manterão contato.
5.2 Internacionalização e Interconexão Espiritual: por uma Educação universal do