M. Portanto, quando significa que é o que é, significa o que deve. D. É evidente.
M. Mas quando significa o que deve, significa retamente. D. Assim é.
M. Mas quando significa retamente, reta é a significação. D. Não há dúvida.
M. Portanto, quando significa que é o que é, reta é a significação. D. Assim se conclui.
M. Igualmente, quando significa que é o que é, verdadeira é a significação. D. É verdadeiramente reta e verdadeira, quando significa que é o que é.
M. Logo, é o mesmo para ela ser reta e verdadeira, isto é, significar que é o que é. D. Verdadeiramente o mesmo.
M. A verdade não é, portanto, para ela outra coisa que retidão. D. Vejo agora com clareza que essa verdade é retidão.
M. O mesmo ocorre quando a enunciação significa que não é o que não é104.
O primeiro passo para fazer a passagem da verdade à retidão é mostrar que fazer o que se deve também é fazer retamente, o que Anselmo se empenhará em demonstrar nas linhas iniciais do trecho acima. Quando a enunciação significa que é o que é, ela faz o que deve. Se ela significa o que deve, então ela significa retamente. No entanto, o que permite 104 “MAGISTER. Cum ergo significat esse quod est, significat quod debet. DISCIPULUS. Palam est.
MAGISTER. At cum significat quod debet, recte significat. DISCIPULUS. Ita est. MAGISTER. Cum autem recte significat, recta est significatio. DISCIPULUS. Non est dubium. MAGISTER. Cum ergo significat esse quod est, recta est significatio. DISCIPULUS. Ita sequitur. MAGISTER. Item cum significat esse quod est, uera est significatio. DISCIPULUS. Vere et recta et uera est, cum significat esse quod est. MAGISTER. Idem igitur est illi et rectam et ueram esse, id est significare esse quod est. DISCIPULUS. Vere idem. MAGISTER. Ergo non est illi aliud ueritas quam rectitudo. DISCIPULUS. Aperte nunc uideo ueritatem hanc esse rectitudinem. MAGISTER. Similiter est, cum enuntiatio significat non esse quod non est”. DV, II, 178, 12-27. Ênfase nossa.
essa passagem? Por que é suficiente mostrar que a significação faz o que deve, para afirmar que ela o faz retamente?
Basta que nos perguntemos “o que é reto?” para que descubramos a razão da passagem do dever à retidão. O que é reto senão aquilo que o próprio Deus quer, pois “nada é reto ou conveniente senão o que ele mesmo quer”105. Como o dever nada mais é do que o cumprimento da vontade de Deus, segue-se que se algo faz o que deve também o faz retamente. Desse modo, quando a proposição significa que é o que é, sua significação é reta.
Desse modo, o Mestre já tem os dois elementos necessários para reduzir a verdade à retidão: por um lado, quando a enunciação significa que é o que é, reta é sua significação, por outro lado, quando a enunciação significa que é o que é, verdadeira é sua significação. “Logo, é o mesmo para ela ser reta e verdadeira, isto é, significar que é o que é”. Portanto, a verdade da enunciação é retidão.
Retomando a pergunta do Mestre que buscava o “em vista de” da enunciação, é possível dizer que a enunciação é destinada à verdade, isto é, destinada a significar que é o que é. Logo, uma enunciação é verdadeira quando ao significar a coisa segundo a coisa é (secundum quod est) ela se conforma à sua destinação. Todavia, isso não é um retorno ao mesmo que dissera o Discípulo no início do capítulo. O Mestre não está apenas reafirmando as palavras do Discípulo, quais sejam, que uma enunciação verdadeira é aquela que diz que é aquilo que é.
Antes de tudo, é preciso ter em mente que as retidões são retidões porque as coisas em que estão presentes são ou fazem aquilo que devem ser ou fazer. Desse modo, quando predicada de algo, a rectitudo “leva à expressão de uma relação de conformidade ou de
concordância entre duas diferentes grandezas: entre o ser e os atos de uma entidade finito- transitória e por isso criada e seu respectivo “dever”, isto é, seu “dever” específico”106. Dessa maneira, pode-se dizer que a retidão, ao menos nas criaturas, é um conceito de adequação. A adequação da criatura a seu fim.
Aceitar que o Mestre simplesmente retoma o que já fora dito é perder de vista aquilo que torna sua visão sobre a verdade original. “Ao se conformar à coisa que ela [a palavra] significa, a palavra envia essa coisa a seu ser. Deixando-a se colocar em seu ser, se ela é o que ela é, a palavra acolhe esse acontecimento de ser em um ultrapassamento lingüístico (redoublement linguistique)”107.
Quando uma enunciação significa que é aquilo que é ela faz o que deve porque age de acordo com sua essência, que é dom divino. Dessa forma, quando se enuncia que é aquilo que é há um movimento que se direciona para além da coisa, e então, verdadeira é a significação. Ao enunciar a coisa segundo o que ela é a ultrapassa, isso porque a coisa é o que é segundo sua essência, e essa é o que é devido à suma essência. O “ultrapassamento” ao qual Corbin se refere é esse transbordamento que ocorre com o verbo esse. Ao afirmar que é aquilo que é, a coisa é elevada a seu ser. Longe de simplesmente repetir as palavras do Discípulo, o Mestre avança na direção do ser da verdade (quid sit veritas).
A virada que se dá no texto só é possível por meio da idéia de debitum, que permite ao Mestre identificar as noções de verdade e retidão. De fato, uma enunciação é verdadeira quando diz que é o que é, mas não porque se trate de uma relação de correspondência entre intelecto e coisa, mas porque ao significar desse modo a enunciação remete a seu próprio
106 ENDERS, M., Wahrheit und Notwendigkeit, p. 290.
107 CORBIN, M., “Introduction” in L’œuvre de saint Anselme de Cantorbery, vol. II, pp. 110..” CORBIN, M., t.
verbo e, conseqüentemente, ao verbo daquilo que é. Vê-se de que maneira o debitum modifica o registro do signum. Desse modo, o conceito de retidão, definido como X quod debet X, está longe de um formalismo frio, pois essa fórmula é a expressão mesma desse transbordar.