3.6 Relasjon og kommunikasjon
3.6.2 Relasjoner og atferdsvansker
Também no caso do conto “Desenredo” há uma lista de elementos que não entraram em seu enredo. Com o título de “Ex Desenredo”, a listagem datilografada consta de 43 itens, sendo que quatorze deles têm notaçao m% (Anexo II, p. 218). Em geral, essa lista tem a mesma característica da que descrevi anteriormente: traz fragmentos de frases que supõe seu modo de inserção no texto (por exemplo, estas que já trazem a pontuação: “ , por aí o que fôsse,” ; “m% -, se é que se”) outras com feição de completude (“Acostumaram-se românticamente com aquilo”; “Quis fechar o coração”); outras são semelhantes a provérbios (“Toda boa declaração de amor consiste de anacoltos (contém))”.
A lista faz imaginar onde esses itens se encaixariam no conto, acentuando ainda mais a curiosidade sobre o processo de seleção e combinação que guiou sua escrita. Com esse título (“Ex Desenredo”), sabemos que o documento, além de trazer elementos com possibilidade de estar no conto, em algum momento estes realmente estiveram ou foram eleitos para tal.
Quando leio trechos como “m% - melamadurar”; “caíra nas garras do incompreensível”; “tinha-a sob olho e ferrolho” ou ainda “aprendeu a ida das idéias ao nada” , não entendo sua ausência no conto, já que são esteticamente semelhantes às que foram escolhidas e aceitas para a narrativa.
Entretanto, acredito que a interdição desses elementos diz respeito, em sua maior parte, à produção de indeterminação. Isso porque alguns dos itens listados trabalhariam para a determinação de categorias narrativas que, como afirmei ao analisar o conto, são programaticamente indeterminadas e paradoxais. Tal procedimento altera continuamente a perspectiva do leitor ao produzir choques entre perspectivas e, logo, lugares vazios.
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É o caso da frase “Acostumaram-se românticamente com aquilo”, pois ela informaria ao leitor sobre uma passagem de tempo própria ao fato de “acostumar-se”. Além disso, se pensarmos que essa frase talvez se relacionasse com o modo como se encontravam escondidos do marido, ela apontaria para o repertório literário dos amantes que acreditam encontrar na relação clandestina o amor procurado. O mesmo aconteceria com a passagem “Borboleta em teia-de-aranha”, já que determinaria por seus contornos a definição de características dos amantes: Jó Joaquim seria o inocente que caíra na armadilha de Livíria. Ora, como tentei mostrar, a caracterização das personagens é apenas delineada, deixando para o leitor completar as lacunas quanto ao seu caráter e meios de ação.
O mesmo fenômeno acontece com a passagem “um poço de constância (m%)”, pois, afirmar essa constância seria demasiado facilitador para a criação da imagem de Jó Joaquim. Isso porque só compreendemos bem o uso do nome Jó ao final da leitura do conto, quando vemos que, além da paciência em perdoar a mulher, emprega um método para mudar o passado fundado na paciência e perseverança.
Quanto à descrição das ações das personagens, chamo atenção para duas passagens desse manuscrito: “Sorriram-se sem fazer pontaria.” e “m% - e trocavam olhares com tolice, ao que se entrepassarem fluidos”. Isso porque vejo nelas a descrição do modo como se enamoraram: o acaso e a inépcia guiaram um ao outro. No conto, há o enxugamento desse processo e afirma apenas que “sorriram-se, viram-se”, ocultando ao leitor a especificação das condições envolvidas no encantamento mútuo dos amantes.
Outra renúncia interessante é a que se refere aos contornos do sofrimento de Jó Joaquim. Nessa lista de passagens abandonadas há três expressões que chamam atenção: “Atirado às mágoas - m%”, “m% - às mil mágoas” e “na esquina da amargura”. Todas elas afirmam a mágoa, podemos supor, como o sentimento de Jó Joaquim frente às
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traições. Em “Desenredo” há dois momentos de descrição das dores de Jó Joaquim. No primeiro temos sua reação ao saber da traição inicial de Livíria:
Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o inefável e o infando. Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudopersonagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude (p. 38). Fica claro o sofrimento na descrição centrada nas dores sentidas (até fisicamente) por ele, mas tudo se mistura ao choque em torno da surpresa frente ao acontecido. A mesma inversão de expectativas é provocada pelo segundo momento de traição:
expulsou-a apenas, apostrofando- se, como inédito poeta e homem (...).
Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste, pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se (p. 39).
Aqui o narrador afirma o motivo da não violência (“de amor não a matou”), focalizando novamente as avaliações de Jó Joaquim sobre ele mesmo no que tange a sua culpa e não à de Livíria, já que ele é “quase criminoso, reincidente”.
Assim, se no primeiro momento há as etapas do choque sofrido por Jó, acentuando a surpresa pelo absurdo da situação de amante e pessoa traída, no segundo há a focalização da reincidência dos fatos e a tristeza, mas tudo pautado pela declaração de amor. A única frase de ambas as passagens mais próxima a uma definição do sentimento é “triste, pois que tão calado”, também determinando o sentimento pela ausência de sua declaração.
Outra passagem desse manuscrito parece ter sido suprimida da redação do conto para a produção de indeterminação: “m% - Enfim juraram-se <compl> supérfluas e incompletas frases”. Não sabemos se o trecho refere-se à ação dos amantes ou das pessoas frente às histórias de Jó Joaquim para mudar o passado da mulher, mas podemos supor uma reação (“juraram-se”). Além disso, o julgamento quanto ao processo empreendido por Jó Joaquim nos é dado: “supérfluas e incompletas frases”, ou seja, como já afirmei antes, a vida do casal é encarada como um texto que precisava de outro autor, no caso Jó Joaquim, para
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escolher o quê dar importância (abandonando o supérfluo das traições) e completando os sentidos do que ficou apenas na superfície do senso comum e do bom senso (“sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto”).
São por esses exemplos que gostaria de enfatizar que a ausência dos trechos listados no manuscrito “Ex Desenredo” atestam o planejamento de uma abertura interpretativa própria da linguagem paradoxal usada por Guimarães Rosa.
Toda essa descrição de manuscritos serviu para sustentar a discussão que faremos a seguir sobre como esse procedimento de criação pode ser decisivo para a programática de lugares vazios e para a reflexão sobre a leitura na prosa rosiana.