3.0 Teoretisk grunnlag
3.1.2 Forståelse av atferdsvansker
Até aqui apontei que Tutaméia propõe pelos paratextos e pelos incipits um “pacto de leitura” no sentido de, ciente da fragilidade narrativa, fazer o leitor engajar-se, inclusive investindo na releitura. Veremos mais adiante, através da leitura mais detalhada de um conto, alguns mecanismos que constroem a solicitação diferenciada do leitor. Mas antes gostaria de definir teoricamente o que entendo por ‘participação do leitor’.
Para isso, é preciso esclarecer que não trato do leitor real, mas sim de uma estratégia textual que pode confirmar, interferir ou romper e desestruturar os padrões culturais de comunicação já internalizados pelo receptor empírico/individual. Nesse sentido, apóio-me nas teorias de Wolfgang Iser, de Umberto Eco e de Gérard Genette, pois, mesmo que cada um deles apresente uma nominação diferente (leitor implícito, leitor modelo e narratário, respectivamente) suas reflexões acerca do papel do receptor no mecanismo literário em muito se aproximam.
Os três autores têm em comum a idéia de que o texto pode receber várias interpretações, mas que elas estão de alguma forma previstas na estrutura do texto, sobretudo pelo não-dito, pelos lugares vazios que precisam ser completados pelo leitor.
Gérard Genette, não de maneira tão sistematizada quanto Eco e Iser, elabora o conceito de narratário, o qual se configuraria como receptor, tanto dentro, quanto fora da situação narrativa (narratário intradiegético e extradiegético). Mesmo que defina esse
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narratário extradiegético como um “princípio indefinido”114, Genette afirma que cada texto conteria em sua estrutura as condições próprias para sua recepção.
Umberto Eco usa a imagem de uma “máquina preguiçosa” para descrever a relação entre texto e leitor: o texto espera daquele que lê um trabalho cooperativo de preenchimento desses espaços deixados em branco (o não-dito ou o já dito) que o tornam mecanismo pressuposicional. Esses vazios do texto contam com a significação dada pelo leitor, mas há um choque entre as suas competências e as do emissor. Assim, o autor deverá prever um leitor-modelo que consiga preencher esses espaços e que desencadeie uma série de significações. Não se trata apenas de “esperar que exista [esse leitor modelo], significa também conduzir o texto de forma a construí-lo”115. A liberdade do leitor aparece assim descrita: “por muitas que sejam as interpretações possíveis, umas repercutem sobre as outras, de tal modo que não se excluam, mas que, pelo contrário, se reforcem mutuamente”116.
Dessa maneira, a interpretação de um texto, para Eco, advém da dialética entre a estratégia do autor e a resposta do leitor-modelo – é preciso então definir que autores e leitores são estratégias textuais presentes no enunciado.
Por fim, Iser entende o texto literário enquanto organização plena de vazios, de hiatos potencialmente relacionáveis pelo leitor que seguem uma série de “dispositivos de orientação”, os quais direcionam relativamente ao pedir ou privilegiar algumas respostas desse leitor. Esse dinamismo da interação entre texto e leitor caracteriza-se por estimular atos interpretativos – segundo Iser, o leitor não só compara e avalia o que está sendo apreendido, mas também constitui, constrói o sentido.
A reação do leitor, na teoria da recepção de Iser, é proveniente da tentativa de síntese entre o que está determinado no texto com aquilo que não está – o lugar vazio. Assim, categorias narrativas que nos fornecem perspectivas textuais (personagens, trama, narrador,
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Genette, Gérard. Figures III. Paris : Éditions du Seuil, 1972. 115
Eco, Umberto. Lector in fabula – leitura do texto literário, Lisboa : Editorial Presença, 1979, p. 59. 116
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leitor fictício) passam continuamente pela tentativa de relacionamento. É nesse esforço que se dá a ver os hiatos na narrativa, ou seja, a ausência de conexões que forçam a imaginação à complementação, ou melhor, de combinação das diferentes perspectivas em busca de um sentido. Isso porque o leitor movimenta-se dentro da narrativa à medida que apreende o que está sendo contado:
a relação entre o texto e o leitor se caracteriza pelo fato de estarmos diretamente envolvidos e, ao mesmo tempo, de sermos transcendidos por aquilo em que nos envolvemos. O leitor se move constantemente no texto, presenciado-o somente em fases; os dados do texto estão presentes em cada uma delas, mas ao mesmo tempo parecem ser inadequadas.117
Já no interior de um texto, o leitor tem o ponto de vista em movimento que organiza a seqüência das frases, tendo suas expectativas modificadas ao mesmo tempo em que suas lembranças são novamente transformadas – perspectivas como as do narrador, personagens ou leitor fictício são dispostas como espaço de mútua projeção, ou seja, cada segmento com sua própria perspectiva é enfocado pela percepção de sua diferença com o anterior. Daí que, para Iser “cada momento da leitura representa uma dialética entre protensão e retenção, entre um futuro horizonte que ainda é vazio, porém passível de ser preenchido, e um horizonte que foi anteriormente estabelecido e satisfeito, mas que se esvazia continuamente”118. O ato de leitura é formado, para Iser, pela projeção para um futuro possível e a modificação de uma memória passada.
O leitor-implícito funciona como instância narrativa, ou seja, como estratégia comunicativa do universo textual, e organiza-se por vazios – portanto, permite reação a essa instância pelo leitor empírico – para a abertura de uma rede de relações e, conseqüentemente, para a formação de representações.
Acredito que esta breve exposição tenha sido importante no sentido de criar bases para a compreensão do que chamei de participação do leitor: o texto literário traz, estrategicamente, as condições de sua recepção através do jogo entre as determinações de
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Iser, W. Op. cit., p. 13. 118
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perspectivas e os espaços indeterminados deixados para a criatividade daquele que ativa essa rede de textual. Dessa forma, os contos de Tutaméia dialogam com o leitor por meio de interrogações diretas e constroem um modelo de recepção do texto (leitura e releitura) fundado na dúvida quanto ao conteúdo (lembremos da frase que encerra o primeiro texto do volume “o livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber”).
Guimarães Rosa reúne nesse livro 44 histórias que têm a concisão narrativa como aspecto em comum. Ora, a redução dos conteúdos narrativos a apenas pouco mais de duas páginas (em geral é esse o espaço material dos textos) prevê um texto que necessita de uma atividade intensa da imaginação do leitor.
Para melhor compreensão os fenômenos que acabamos de apontar, apresento a seguir a leitura do conto “Desenredo”. A escolha deve-se ao fato de tratar-se, acredito, de um caso exemplar entre os contos do livro quanto à problematização do lugar do leitor, seja pela metáfora da atividade da leitura nele presente, seja pela ficção de uma situação enunciativa.