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El yo, las relaciones de género y la familia

2. La sociedad del riesgo como proyecto teórico-empírico

2.3. El proceso de individualización como proceso de destradicionalización. destradicionalización

2.3.2. El yo, las relaciones de género y la familia

O que é preciso para se fazer comércio? Um sujeito, munido de mercadoria que ele mesmo tenha produzido ou adquirido de outro; um comprador, que tenha interesse no produto; e o local, para testemunhar o encontro. O mercado público, afã do vendedor e necessidade de qualquer citadino, realiza sua mais nobre função: lugar do encontro.

Em Uberaba, documentos mostram que o comércio de mercadorias vindas de longe e dos arredores era feito na Rua Direita, diante de um rancho, onde eram guardadas as mercadorias. Pode-se imaginar chacareiros e caixeiros viajantes trazendo seus produtos nos carros de boi, fazendo trocas e realizando o encontro. Ainda no século XIX, em 1882, o Mercado ganhou uma sede.

A precariedade da construção e a falta de água foram alguns dos problemas apontados para o fechamento desse espaço, apenas 30 anos depois de sua abertura. Um novo e definitivo prédio foi entregue somente em 1924, em um projeto da firma paulistana de engenharia Salles Oliveira & Valle Ltda (APU, 2004).

Compreendendo construção de 1.200 metros quadrados no formato de um octógono, coberta por telhas romanas, o Mercado Municipal de Uberaba é a história viva presente nas memórias de gerações. Antes, quando a cidade se resumia ao Centro e aos poucos bairros do entorno, o Mercado Municipal era o principal centro de abastecimento local (Figura 120).

Servido diariamente por chacareiros e carroceiros que forneciam produtos frescos, cultivados ou produzidos nos arredores da cidade, era lugar também de se encontrar frutas exóticas, pescados, doces e queijos. Seu papel foi muito além de simples entreposto comercial, tornando-se importante lugar de encontro. Famílias inteiras recorriam àquele espaço para comprar mantimentos frescos e especiarias. Isso marcou significativamente o “Mercadão” e mais ainda, a memória dos uberabenses.

De 1960 a1970, a cidade cresceu em ritmo intenso. Surgiram novos locais de abastecimento nos bairros distantes do Centro. Novos hábitos e costumes fizeram do Mercado um local ultrapassado. O edifício tornou-se decadente, atendendo precariamente os clientes. O resgate desse espaço foi possível por ampla reforma feita no ano de 1993, que consistiu em remodelações internas, construção de sanitários e de mezanino metálico, que proporcionou a ampliação espacial e que hoje abriga lojas de artesanatos.

As telhas francesas do projeto original foram substituídas por telhas romanas. O trânsito ao redor foi organizado de modo a facilitar o acesso do público. (APU, 2004).

Figura 120: Mercado Municipal de Uberaba – MG, 2014.

Anteriormente à reforma, o antigo Mercado Municipal de Uberaba tinha corredores apertados, lotados de mercadorias e pessoas; iluminação precária; teto de telhas aparentes enegrecidas e carregadas de picumã; piso escuro, que denotava higiene duvidável.

O local tornara-se lúgubre demais para os novos tempos, sendo facilmente superado pelos supermercados iluminados e saneados, pelas quitandas e açougues nos bairros, sem falar das galerias comerciais. Era preciso adequar as estruturas para que se mantivessem funcionando. A reforma aferiu-lhe um novo status: o de representante da memória local. Não lhe cabia mais o papel exclusivo de abastecedor de víveres, que imperou por décadas. O Mercado reformado conservou paredes e janelas, saneou teto e piso, preservou também os permissionários. Na prática, houve processo de adaptação de um espaço comercial tradicional para uma nova forma de uso, garantindo a permanência do comércio.

Empregando a abordagem fenomenológica, Silveira e Garrefa (2014) procuraram compreender como o espaço do Mercado manteve sua forma espacial em meio a oferta de outras formas, ditas “modernas”. Utilizando questionários que comparavam a percepção de frequentadores, lojistas e trabalhadores do mercado, chegou-se às seguintes considerações:

a) Percebe-se que atualmente os frequentadores do Mercado restringem-se a pequena parcela da população, que já tinha por hábito comprar naquele estabelecimento e, principalmente, aos turistas, que adquirem doces, queijos, e artesanatos. O Mercado não é mais espaço cotidiano, mas ponto turístico.

b) Na pesquisa, os entrevistados informaram desde quando frequentam o Mercadão. No caso dos comerciários, um dado interessante é que a maioria somente conheceu o local quando da contratação. Isso possivelmente estende-se ao restante da população, o que leva a inferir que a simbologia histórica do local, de fato, está ligada mais às memórias, do que à própria função na cidade.

c) O elemento comum que responde a afeição de freqüentadores/clientes do local, permissionários e comerciários é o forte valor simbólico atribuído a esse espaço por meio da memória. As lembranças do passado, as histórias dos antigos, dos causos, do que foi vivido, dos corredores, das paredes e portas é sintetizado em uma palavra: saudade.

d) A forma como o espaço apresenta-se é única. Ele é antigo e moderno ao mesmo tempo, como lembrou um entrevistado. Não por acaso, comenta Silvana Pintaud, a versatilidade dessa forma de comércio atravessa séculos.

A reforma experimentada pelo Mercadão na década de 1990 teve grande êxito ao modernizar sua estrutura sem alterar ou comprometer as relações existentes entre

comerciantes e frequentadores. O espaço, que perdera sua função principal de centro de abastecimento, após reformado, tornou-se local turístico. A cidade, que possui supermercados, hipermercados, shoppings centers, galerias, não precisa e possivelmente não comportaria novo mercado, desprovido de atributos que o tornasse viável.

Fala-se em construir um novo espaço, maior e mais moderno, substituindo o Mercado antigo, contudo, o que garante a permanência e até mesmo o sucesso dessa forma de comercio é o lugar, portador de espessura e valor históricos inalienáveis.

Figura 121: Corredores do Mercado Municipal de Uberaba.

CAPÍTULO IV