4. Destellos del jardín y del mar
4.2 Caminando entre bosques
4.2.5 Relaciones entre el 2º movimiento y el 3º
Em julho de 1906, Rocha Lima partiu novamente à Alemanha com a finalidade, desta vez, de completar seus estudos em anatomia patológica. Um dos motivos que impulsionaram essa viagem foi a intenção de analisar seções histopatológicas de doenças infecciosas e aprofundar as investigações sobre as lesões hepáticas da febre amarela. Desconfiava que elas pudessem ser patognomônicas – ou seja, características da doença, podendo ser empregadas no diagnóstico da mesma; no caso, no diagnóstico necroscópico.
Antes de chegar a seu destino, Rocha Lima passou por Londres. Procurou Frederick von Theobald, no Museu de História Natural, para entregar um mosquito remetido por Oswaldo Cruz e explicações solicitadas por ele.79 Não encontrando Theobald, falou com seu assistente responsável pela seção de mosquitos. Por orientação de Oswaldo Cruz propôs o intercâmbio de espécies, mas o assistente afirmou que, apesar de dispostos, havia dificuldades devido à grande quantidade de remessas proveninentes do mundo todo. Conforme demonstram Benchimol & Sá (2005), Theobald coordenava o esforço de catalogação de espécies de mosquitos de todo o mundo, um empreendimento que envolvia colaboradores de vários países. Os autores demonstram que Lutz foi um dos parceiros mais ativos do entomologista britânico, com quem intercambiou espécimes e conhecimentos. Oswaldo Cruz, que também participava desse esforço, trocando insetos e informações com Lutz e descrevendo novas espécies, queria participar diretamente da rede armada pelos cientistas britânicos. O intercâmbio transatlântico de culicídeos consistia à época numa das facetas mais internacionalizadas das pesquisas em medicina tropical. O conhecimento sobre aquela família de insetos de recente importância médica demandava esforços e conhecimentos de locais. A agenda da medicina tropical tinha nesse aspecto uma clara contrapartida local, pois a definição da epidemiologia da malária, por exemplo, requeria necessariamente o conhecimento das espécies de mosquitos que ocorriam na região afetada e seus hábitos biológicos. No caso da febre amarela, permanecia nebulosa a questão da transmissão exclusiva pelo Stegomyia fasciata. Rocha Lima manifestou a Oswaldo Cruz a opinião de que
seria mais prático alguém de Manguinhos passar uma temporada de estudos no Museu Britânico e ali colecionar exemplares. Lamentou na carta não poder conhecer Londres, “que até agora só me impressionou pelo movimento colossal de veículos e pela suntuosidade dos hotéis e outros estabelecimentos.” Não perdeu a oportunidade de dar vazão à sua grande paixão – a ópera – e assistir a Boheme cantada por Caruso, Melba e Scoti, a qual considerou “sem comentários”.80
Em Paris teve nova oportunidade de assistir a uma ópera, desta vez no suntuoso edifício da Opera, que o entusiasmou, “apesar da inferioridade na interpretação dos mestres cantores”. Achou muito agradável passear pela capital francesa, embora considerasse suas ruas inferiores às de Berlim. A mesma atitude quase esnobe mostrou em relação ao Instituto Pasteur, que achou igual a todos os demais, ficando impressionado apenas com o túmulo de Pasteur e “o culto quase religioso que fazem à sua grande memória” e ao fato de que meio dia e meia não havia gente trabalhando, emendou com certo sarcasmo. De Paris dirigiu-se a Berlim, onde encontrou o ex-professor Martin Ficker, que lhe mostrou as instalações do novo Instituto de Higiene, convidando-o para inaugurar a seção de peste. Mostrou-lhe fotografias de Manguinhos e amostras de soro e vacina. “É um bom elemento para tornar conhecido o nosso Instituto”, escreveu a Oswaldo Cruz.81 Apresentava aqui a tônica do que seria aquela estadia na Alemanha – o “reclame de Manguinhos”, ou seja, o esforço em divulgar entre os pesquisadores alemães a instituição brasileira e as atividades ali desenvolvidas, com a finalidade de fortalecer sua internacionalidade. Destaca-se aqui uma convicção comum a ambos os personagens e que tornar-se-á mais clara à medida em seguirmos os rastros de Rocha Lima nesse percurso. Da mesma carta, depreende-se que os objetivos de estudo não se restringiam à anatomia patológica, mas incluíam outros aspectos da microbiologia e imunologia. Não havia um roteiro pre-fixado, nem objetivos claramente definidos. O aprofundamento numa ou noutra especialidade da medicina experimental estava mais ligado à disponibilidade de um representante de prestígio. Iria a Munique, onde pretendia passar um tempo com o patologista Hermann Dürck (1869-1941). Se não pudesse trabalhar com ele, voltaria a Berlim onde estavam dois assistentes de Ehrlich. Não ia ser possível estudar protozoários – informou a Oswaldo Cruz -, pois um dos principais especialistas em seu estudo, Stanislas von Prowazek, sobre o qual falaremos mais adiante, não se encontrava na
80 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 28.07.1906. 81 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 08.08.1906.
Alemanha.82 Nosso personagem construía sua identidade científica em referência ao prestígio dos mais reputados nomes da ciência alemã nas suas respectivas especialidades. Sabia da legitimidade que a associação com eles conferia à identidade profissional.
Rocha Lima optara estudar anatomia patológica com Hermann Dürck devido ao renome que este adquirira no estudo da patogênese de doenças infecciosas e tropicais. Publicara entre 1900 e 1903 três volumes do “Atlas de Histologia Patológica”, e dedicara-se ao estudo minucioso da etiologia e histopatologia da pneumonia, da peste e do beribéri.83 Dürck havia estudado a peste e o beribéri em expedições à Índia e Sumatra. Registrara as graves lesões degenerativas observadas no sistema nervoso periférico de pacientes com beribéri, estudo no qual contaria com a colaboração de Rocha Lima (Dhom 2001, p. 280).
Antes de começar os estudos com Dürck, Rocha Lima fez um périplo por algumas instituições, e aproveitou para desfrutar um pouco da arte. Esteve por 15 dias em Bayreuth, principal centro da ópera wagneriana que ele tanto admirava. Em Munique, onde não conseguiu encontrar Dürck, visitou o Instituto de Higiene.84 O olhar de Rocha Lima estava claramente orientado pelo objetivo de captar os detalhes na organização física das instituições, suas atribuições, organograma e métodos de pesquisa e produção dos imunobiológicos. A intenção era registrar aquilo que poderia ser útil para Manguinhos, que encontrava-se naquele momento na formação de sua estrutura material e perfil institucional. Em carta a Oswaldo Cruz, Rocha Lima relatou que no Instituto de Higiene de Munique faziam-se pesquisas bacteriológicas públicas e privadas. “Nada de interessante vi”, relatou. Em sua opinião o Instituto era velho e não tinha nada de aproveitável.85 Passou quatro dias em Bonn e dirigiu-se dali para Berna, onde visitou o Instituto Suíço de Soroterapia no qual atuava o já mencionado Wilhelm Kolle. Kolle foi um dos discípulos de Koch, havendo se destacado no estudo dos fenômenos da imunidade. Foi um dos formuladores da idéia de que a cada doença correspondia um material infeccioso específico, e descreveu a capacidade do organismo de se
82 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 08.08.1906.
83 Hermann Dürck nasceu em Munique em 11 de fevereiro de 1869. Estudou com o reputado patologista Böllinger, em Munique e H. Chiari, em Praga. Doutorou-se em Munique, em 1892, e habilitou-se em anatomia e bacteriologia, em 1897. Em 1902, tornou-se professor extraordinário nessa especialidade. Em 1909, ocupou a direção do Instituto de Patologia da Universidade de Jena. Dois anos depois, retornou à Munique, onde assumiu a direção do Instituto Patológico, anexo ao Hospital Isar. Em 1919, tornou-se professor honorário da Universidade de Munique. Além dos aqui mencionados estudos sobre a histopatologia da peste e beribéri, aprofundou as investigações sobre a histopatologia do sistema nervoso. Descreveu no sistema nervoso de pacientes com malária, uma formação granulomatosa batizada com seu nome. Gruber, G. B. Hermann Dürck. In Neue Deutsche Biographie, p. 163.
84 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 07.09.1906. 85 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 07.09.1906.
tornar imune pela assimilação do patógeno.86. No Instituto de Doenças Infecciosas em Berlim, produziu, com Richard Pfeiffer, um método de imunização contra o cólera e a febre tifóide, que teria sua eficácia demonstrada durante a Primeira Guerra. Estudara, com Koch, a peste bovina na África do Sul, doença contra a qual desenvolveu um método de imunização, junto com Turner. Havia sido recém-nomeado diretor do Instituto de Soroterapia (1906) (Laubenheimer, 1935).
Rocha Lima relatou a Oswaldo Cruz que foi muito bem recebido por Kolle, o que atribuiu à facilidade com o idioma alemão. Descreveu ao diretor de Manguinhos a organização do Instituto de Berna, vinculado ao mesmo tempo ao governo, à universidade e a instâncias privadas e observou com atenção as seções dedicadas à produção dos soros e vacinas. Informou minuciosamente a forma de preparo, sempre comparando com aquela empregada em Manguinhos. Em muitos casos, considerou as instalações e procedimentos da instituição do Rio superiores aos de Berna. Aquilo que via de interessante e mais adequado, sugeriu que copiassem, como os livrinhos e álbuns de divulgação que observou tanto em Berna, como no Instituto Pasteur de Paris. Indicou a maneira mais conveniente de confeccioná-los, com uma edição em francês e outra em alemão, com fotografias e descrições didáticas. “Isto causa boa impressão aqui”, assegurou, desde que se tratasse de algo bem feito e “não daqueles péssimos álbuns, sem o menor esclarecimento, com os titulos em português que ninguém entende”. Dispôs-se a cuidar da impressão e tradução para o alemão.No Instituto, Rocha Lima discutiu longamente com Kolle sobre os métodos de combate à febre
86 Wilhem Kolle nasceu em Lerbach, em 02 de novembro de 1868. Ingressou, em 1893, no Instituto de Doenças Infecciosas criado por Robert Koch, onde estabeleceu estreitas relações com Emil von Behring e Richard Pfeiffer. Estudou, com Koch ,a peste bovina na África do Sul, por incumbência do governo inglês. Em 1900, convocado pelo governo egípcio para combater a mesma epizootia, realizou os estudos que levaram, junto com Turner, ao desenvolvimento de um método imunizante contra doença. Atuou na Primeira Guerra como médico de tropas, higienista (Körperhygieniker) e conselheiro de higiene (beratender Hygieniker). O método de imunização desenvolvido junto com Pfeiffer contra a febre tifóide e o cólera foram uma das principais armas do exército alemão contra essas doenças. Em 1917, sucedeu Paul Ehrlich na direção do Instituto Estatal de Terapia Experimental e do Instituto de Pesquisa “Georg-Speyer-Haus”, ambos em Frankfurt a.M. Datam desse período seus trabalhos sobre peste, cólera, toxinas e antixonas na difteria, disenteria, antraz, estudos sobre imunidade na sífilis e sobre a tuberculose e a tuberculina. Na quimioterapia, desenvolveu derivados do salvarsan, e na imunoterapia, destacou-se pelo método de imunização contra a difteria, usando vacina inativada com formol. Destacou-se, ainda, como higienista, prestando grandes serviços à organização sanitária do exército, e foi um dos responsáveis por sistematizar em manuais os conhecimentos da recente ciência da bacteriologia e imunologia. Entre 1902 e 1904, veio a lume o Manual de Microrganismos Patogênicos (Handbuch der pathogenen Mikroorganismen), que editou com August Wassermann. O mesmo manual editaria, entre 1927 e 1931, com Rudolf Kraus e Paul Uhlenhuth, o qual teve 3 edições. O Manual de Bacteriologia Experimental e Doenças infecciosas (Lehrbuch der experimentellen Bakteriologie und Infektionskrankheiten), editado com Hetsch, teve7 edições e foi traduzido para 5 idiomas. Com Ziegler escreveu o Manual da Terapia com Salvarsan (Handbuch der Salvarsantherapie). Faleceu em Wiesbaden, em 1935. Laubenheimer, 1935 e “Deutsche Ärzte”, In Die Woche, n. 26, p. 776-7, 1932.
amarela na capital brasileira e sobre o soro-antipestoso, contra o qual o bacteriologista alemão mantinha-se cético, em virtude dos resultados negativos obtidos na Índia. Ele sugeriu que publicassem nos jornais alemães sobre o método de produção do imunizante desenvolvido em Manguinhos. O mais proveitoso da visita, na visão de Rocha Lima, foi a possibilidade de divulgar entre Kolle e seus colaboradores, aquilo que vinham fazendo na instituição brasileira e que segundo ele, era praticamente desconhecido. 87
De volta a Munique, Rocha Lima procurou novamente Dürck no Instituto de Patologia. Ao propor a ele um curso de histopatologia, o alemão negou, alegando falta de tempo. Convenceu-o a demonstrar conhecimentos básicos sobre o assunto e o mero interesse de que alguém o orientasse no estudo de suas peças. Dali em diante, teve início uma intensa jornada de trabalho, que começava de manhã e acabava só pela noite, quando finalmente Dürck podia ver com ele alguns preparados e ditar protocolos. O patologista concedeu-lhe todas as facilidades, inclusive o acesso a qualquer hora ao museu de patologia. “O Dürck excedeu à minha expectativa, pois até agora só o Ficker me tem agradado tanto”, confessou a Oswaldo Cruz.88 Contou ainda a este que o alemão estava a estudar a histopatologia do beribéri e possuía uma coleção de peças anátomo-patológicas da peste, que gozavam de grande reputação ali, mas que considerou inferiores às de Manguinhos.
A relação com Dürck progrediu gradual e continuamente. Em carta de outubro de 1906, Rocha Lima escreveu a Oswaldo Cruz que estava cada vez mais satisfeito com o professor.89 O patologista colocou à sua disposição a coleção de 14 mil preparados para estudo. As facilidades concedidas por Dürck tornaram-se fonte de enorme dilema, pois o brasileiro tinha vontade de ir a Berlim para aperfeiçoar os conhecimentos em bacteriologia. Em Munique, havia poucas possibilidades de aprender essa disciplina, não permitindo um estudo integrado dos dois ramos da pesquisa médica. A vantagem da capital da Baviera em relação a Berlim era que na primeira podia adquirir treinamento mais consistente na anatomia patológica “porque não há lá, senão o Orth que valha o Dürck, e o Orth é velho e pouco acessível, ao passo que o Dürck é moço e se mostra interessado por mim, tem uma segurança admirável no que diz e faz, tem enorme coleção de preparados (dele, particular).” Angustiado com a dúvida, pediu a opinião de Oswaldo Cruz: “O que lhe parece melhor para
87 Ainda em Berna visitou a Escola de Veterinária e o Instituto Patológico da Universidade Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 07.09.1906.
88 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 07.09.1906 89 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 05.10.1906.
Manguinhos? Que me firme e aprofunde em anatomia patológica, o que farei aqui, ou que aprenda um pouco de cada coisa?90
Antes mesmo de receber resposta do Rio, Rocha Lima decidiu obter um aperfeiçoamento mais sólido em anatomia patológica do que conhecimentos superficiais em diferentes assuntos. “Passar três anos a desejar Berlim para cair em Munique não é propriamente o que se chama ter sorte”, comentou com Oswaldo Cruz. Reclamou por diversas vezes do caráter pacato da capital bávara em relação à do Reich.91 Ali não tinha as opções abundantes de diversão que encontrava em Berlim. Mesmo assim, ficou satisfeito com a escolha. Confessou ao superior que ela foi em grande medida determinada pelo interesse com que Dürck e os colegas viram seus preparados de febre amarela. O patologista chegou a convidá-lo a escrever um trabalho num periódico alemão sobre a histopatologia daquela doença, mas ele sentiu-se inseguro. A oportunidade de compartilhar seus preparados e conhecimentos com Dürck e os demais colegas consistiria num “reclame mais sólido para Manguinhos do que histórias e figuras.”92 Oswaldo Cruz considerou a decisão de Rocha Lima acertada. Incentivou-o a publicar o trabalho, o qual sugeriu registrar como colaboração entre os dois institutos.93 Ao que tudo indica tal trabalho não veio a lume.
À medida em que conquistou a confiança de Dürck, Rocha Lima integrou-se à vida do instituto e obteve privilégios. Os avanços foram sendo obtidos à custa de muito trabalho. Ele assumiu o serviço chamado “Einlauf” (algo como ‘entrada’, ‘correio’), que consistia na análise de todo o material enviado ao instituto. Firmava o diagnóstico, verificado por Dürck, e fazia preparados daquilo que havia de mais interessante para a instituição e para sua coleção. Era um trabalho bastante dispendioso, mas que viu como o mais compensador de tudo que realizava ali.94 Também fazia autópsias dos casos mais interessantes em companhia de dois colegas alemães. Aos sábados, assistia as aulas do renomado Böllinger. Ao mesmo tempo em que o aprofundamento na anátomo-patologiaencantou Rocha Lima, deixou-o aflito, em face da vastidão e complexidade da disciplina. “...Tendo todos os elementos para aprender cada vez mais, sei cada vez menos, cada vez me parece mais difícil a tal anatomia patológica, cada vez tenho menos esperanças de passar de um sofrível cortador de parafina (...) Acho que
90 Idem
91 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 03.12.1906. 92 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 23.10.1906. 93 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Oswaldo Cruz a Rocha Lima de 21.11.1906. 94 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 03.12.1906.
tenho miofragia cerebral...” confessou, amargurado, a Oswaldo Cruz.95 A dificuldade fez com que estabelecesse como objetivo aprendê-la a qualquer custo, mas o fato de ter um prazo limitado vinha de encontro às suas ambições, tornando-se uma fonte de angústia:
Quanto aos meus trabalhos, se não fora a impossibilidade de fazer tudo o que desejo e precisava, o que me ataca os nervos, diria que estou satisfeitíssimo. Principalmente com o serviço do “Einlauf”, que tomei a meu cargo, estou encantado e apenas sinto ser a anatomia patológica tão difícil e tão vasta, e o meu tempo curto, porque do contrário levaria um cabedal sólido e precioso.96
Aprender anatomia patológica, obter material de pesquisa e ensino para Manguinhos e aprofundar as investigações sobre a histopatologia da febre amarela, tornaram-se as três prioridades que Rocha Lima firmou para sua estadia em Munique. Não foi por acaso que o interesse demonstrado por Dürck pela febre amarela foi um dos motivos pelos quais decidiu permanecer com ele, ao invés de transferir-se para Berlim. Ele relatou a Oswaldo Cruz, com indisfarçado orgulho, a satisfação quando Dürck exibiu seus preparados numa conferência sobre Doenças Tropicais. Ficou igualmente satisfeito por ele ter feito circular amostras de
Stegomyia preparadas por Neiva e acondicionadas em recipientes com etiquetas de Manguinhos, lidas por todos. Toda vez que o alemão falava sobre estudos e profilaxia da febre amarela – acrescentou – referia-se ao Brasil.97 A campanha de Oswaldo Cruz havia
colocado o país na vanguarda dos estudos sobre a doença na ciência internacional. Ficava cada vez mais evidente ao sanitarista e a nosso personagem, que era o domínio desses conhecimentos que franquearia o acesso aos fóruns estrangeiros.
Rocha Lima conquistou a confiança de Dürck, a ponto de este convidá-lo para trabalhar junto com ele no único lugar que havia em sua sala, e que normalmente era ocupado pelo assistente. Além de estudar os casos mais interessantes que apareciam no Instituto, assessorou o patologista nos estudos sobre o beribéri. Participou também das chamadas “Referat-Stunden”, que seriam os momentos de discussão sobre os trabalhos, em que cada um comunicava a Dürck ou Böllinger aquilo que havia observado nos casos analisados. “É agradável de sentir a naturalidade, seriedade, franqueza e cortesia que em tudo isto reina”,
95 Idem
96 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 19.12.1906. 97 Idem
comentou com Oswaldo Cruz.98 Mesmo com toda a sobrecarga de trabalho, viu como extremamente vantajosa a possibilidade de poder aprender através dos casos, ao invés de estudar coleções feitas por outras pessoas. Considerou ainda uma regalia poder consultar Dürck a qualquer momento.99 Voltaria ao Brasil com a satisfação de não ter as mesmas dúvidas e com mais auto-confiança.100
Se inicialmente as relações de Rocha Lima com Dürck, diferentemente de Ficker, eram estritamente científicas, seis meses depois ele pôde relatar que elas também haviam extrapolado aquele âmbito, tendo ambos se tornado “bons companheiros.”101 Passou a nutrir admiração pessoal pelo professor: “Ele mostra-se cada vez mais camarada e facilita-me tudo. É de uma franqueza que cativa, de modo que estou a par de quase todos os negócios públicos dele.102 Já havia obtido as chaves do Instituto Patológico, podendo sair e chegar quando quisesse, 103 e passou a auxiliar os estudantes no curso de histopatologia oferecido pelo alemão.104 Na mesma sala que ele, nosso personagem também conquistou um posto privilegiado de observação da vida acadêmica alemã. Pode notar o prestígio que Dürck