3. Tiempo Psicológico
3.1 Diferencia entre mostrarse y dejarse llevar… 32
Quando a comissão francesa formada pelos pesquisadores do Instituto Pasteur, Paul- Louis Simond, Émile Marchoux e Alexandre Salimbeni, começou a direcionar seus estudos para os experimentos de imunização, deixando disponíveis cadáveres para investigações, Rocha Lima começou a realizar necrópsias em suspeitos de febre amarela. Trabalhou no Hospital de Isolamento São Sebastião, a partir de meados de 1904, observando uma série de cadáveres. O diagnóstico anátomo-patológico figurava essencial no contexto em que se acreditava ser o apagar das luzes dos surtos epidêmicos. Rocha Lima afirma que já naquele período pôde distinguir alterações histopatológicas no fígado que considerou características da febre amarela, inclusive tomando-as como critério distintivo para o diagnóstico post- mortem (Rocha Lima, 1926, 1937). Conforme veremos no capítulo seguinte, publicaria sobre aqueles achados anos depois, quando já estava na Alemanha.
Em Manguinhos, permaneceu com a função de instruir informalmente os jovens médicos que para lá afluíam para completar suas teses e supervisionar o trabalho científico e administrativo na ausência de Oswaldo Cruz. A confiança que este depositava em Rocha Lima quando se ausentava pode ser aferida de carta escrita em outubro de 1905, quando encontrava-se no nordeste por encargo da diretoria de Saúde Pública. Nela comentou sobre as observações e coletas de espécimes feitas durante o percurso, e perguntou sobre o andamento dos trabalhos do Instituto:
Em que pé está a questão da vacina contra o carbúnculo sintomático? Estou curioso por saber notícias detalhadas do que se tem feito e de que a respeito resolveu nosso Godoy. Convém apressar. O Aragão tem continuado com a questão da varíola? E você, já terminou o tal artigo sobre a peste? Precisamos dar algum andamento às publicações do Instituto. Vê se você consegue do Aragão o que eu não pude conseguir: um resumo da tese para ser publicado em qualquer jornal europeu.68
Em resposta, Rocha Lima informou que continuava em curso o serviço de verificação de casos de peste, sendo realizadas autópsias e aplicado o método diagnóstico utilizado por eles. Ele prosseguia os estudos anátomo-patológicos sobre aquela doença e sobre o bacilo do
carbúnculo. Informou as atividades de Aragão e Godoy e a chegada de Neiva, sobre a qual já nos referimos.69
Nas cartas dá para notar a ampliação do escopo do programa de pesquisas e da pauta de produção, que acontecia em paralelo à expansão das instalações. Isso tudo à revelia dos trâmites formais (relativos ao orçamento regular), por fora dos quais chegavam os abundantes recursos para as obras e o trabalho científico. Uma das fórmulas responsáveis por consolidar a instituição naqueles primeiros anos, de modo a contornar sua fragilidade “formal”, foi o atendimento às demandas apresentadas pelas instâncias políticas e econômicas. Elas estavam associadas principalmente às obras do projeto de modernização republicana, destinado a adequar a infra-estrutura do país às exigências da circulação de mercadorias e pessoas prevista pelo capitalismo internacional. A malária, principal ameaça ao prosseguimento daquelas obras, demandou a expertise de médicos versados no receituário das medidas de combate, as quais envolviam conhecimentos sobre o agente causador e os vetores. Através dela, Oswaldo Cruz pode fortalecer em grande medida os laços do seu instituto com os “clientes” – para usar a feliz expressão de Nancy Stepan (1976) - que demandavam as aplicações práticas dos conhecimentos ali produzidos.
Em 1905, Cândido Gafrée, que havia obtido junto com Eduardo Guinle, a concessão das obras de modernização do porto de Santos, pediu que Oswaldo Cruz lhe sugerisse um médico para controlar o surto de malária comprometia as obras de construção da hidrelétrica de Itatinga, ao pé da Serra do Mar (Kropf 2006; Sanglard 2008; Benchimol & Silva 2008). Oswaldo Cruz designou Carlos Chagas, que como vimos havia completado sua tese de doutoramento em Manguinhos, mas que resolvera seguir o caminho da clínica, indo trabalhar no Hospital de Isolamento de Jurujuba (Chagas Filho, 1993; Kropf, 2006). Depois de atentas observações epidemiológicas e adaptação das fórmulas disponíveis de profilaxia, Chagas logrou deter a epidemia de impaludismo em poucos meses, basicamente por meio de medidas como a administração profilática da quinina, intervenções em valas e pântanos e isolamento dos trabalhadores em pavilhões telados (Benchimol & Silva, 2008).
A profilaxia da malária foi uma das frentes que fortaleceu os laços do Instituto de Manguinhos com seus “clientes”, contribuiu para a decolagem dos estudos em protozoologia, entomologia e epidemiologia da doença e impulsionou a expansão das fronteiras geográficas
do instituto.70 Grande parte das célebres expedições realizadas por Manguinhos naqueles anos estaria ligada àquela doença. Uma outra frente revelou-se fundamental para a consolidação do Instituto naqueles anos e nessa Rocha Lima teve participação direta: as pesquisas e desenvolvimento de métodos de profilaxia e tratamento de doenças veterinárias, dentre os quais o principal foi a vacina contra o carbúnculo sintomático. A doença também chamada “peste da manqueira” há tempos grassava de forma fatal entre os rebanhos de diversas partes do Brasil. João Batista de Lacerda, pesquisador que atuava no Laboratório de Fisiologia do Museu Nacional, havia identificado o agente etiológico da epizootia (Clostridium chauvei) e desenvolvera uma vacina, baseada naquela produzida por Arloing, Cornevin e Thomas, cuja eficácia era controvertida, tanto entre os pesquisadores quanto entre os produtores (Rocha Lima 1906, p. 4; Benchimol, 1990; Benchimol & Teixeira, 1993, p. 21).71 A manqueira causava muitos prejuízos entre os pecuaristas mineiros, de modo que havia uma “demanda promissora” para o imunizante (Benchimol & Teixeira 1993, p. 21). Segundo Rocha Lima (1906, p. 4), “Carlos Chagas teve a feliz idéia de colocar o Instituto em relações com o Dr. Villaça, que, com a maior proficiência, preparou e remeteu para o Rio o material necessário para o exame bacteriológico.” Hermenegildo Villaça era um proprietário de fazenda de gado de Juiz de Fora, que contribuiu bastante para os estudos que redundaram no desenvolvimento da vacina anti-carbunculosa.
A tarefa de desenvolver em Manguinhos uma vacina, cuja praticidade, conforme afirma Rocha Lima, envolvia inocuidade, eficácia, constância da substância empregada, fácil manejo e baixo preço, esbarrou em dificuldades. A primeira delas foi o isolamento do patógeno, sua obtenção em cultura pura e a reprodução da doença em animais. Se esse era um procedimento padrão da bacteriologia, no caso do carbúnculo ele era dificultado pelo fato de que alguns micróbios eram bastante semelhantes ao agente patogênico e cresciam mais do que ele em cultura. O bacilo do edema maligno era a principal causa de dificuldade, devido à grande semelhança que tinha com o germe da manqueira. Com material retirado de animal morto não conseguiram realizar o cultivo, mas de animal vivo puderam isolar e cultivar o
70 Sobre as expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz e seu impacto em termos médicos, sociais e culturais, sobretudo para o debate sobre a identidade nacional na época, ver Albuquerque et. al. 1991; Lima, 1999.
71 De acordo com Rocha Lima (1906, p. 4), a “vacina de Lacerda” consistia no produto da trituração de músculos do animal acometido pelo carbúnculo, atenuado pelo calor. Ele afirma que ela não foi preparada em Manguinhos devido à dificuldade em obter substância homogênea resultante daquele processo, pelo fato do produto não provir de uma cultura pura, mas de material de animal doente, contendo contaminantes, pelo caráter da solução obtida, que obstruía a agulha no momento da imunização e por demandar a aplicação de duas doses, uma mais fraca e outra mais forte.
bacilo do carbúnculo, capaz de reproduzir a doença em bezerros (Rocha Lima 1906, p. 4-5). A contribuição de Rocha Lima consistiu exatamente em conseguir isolar as colônias anaeróbias (sem presença de oxigênio) do material infeccioso. Ele entregou-as a Alcides Godoy, que deu prosseguimento aos estudos.
Havia uma outra vacina contra o carbúnculo, mas diferentemente da de Lacerda, era líquida, e preparada a partir de cultura feita com sangue, ou seja, continha menos contaminantes do que aquela. As culturas em caldo simples eram atenuadas pelo calor. Os resultados da aplicação desse imunizante eram controversos. Os germes isolados em Manguinhos não eram cultivados nos meios bacterianos habituais. Foi aí que veio a inovação de Godoy: ele utilizou um meio de cultura de caldo glicosado, adicionado de soro de cavalo, e viu que os germes aí crescidos eram inócuos para animais de laboratório e para os bezerros. Somente mais tarde, Godoy viria a demonstrar que a glicose era a principal responsável pela atenuação do patógeno. Imunizaram uma série de animais com as culturas atenuadas e inocularam depois material comprovadamente virulento. Foi constatado que nenhum dos animais sucumbiu à dose-desafio. Era preciso saber se o efeito imunizante era permanente e qual o grau de inocuidade da vacina. Até então, os testes haviam sido realizados em reses de bezerros doadas a Manguinhos para os estudos. Eles deveriam ser repetidos em maior escala e em campo.A vacina foi aplicada em 65 bezerros da fazenda de Hermenegildo Villaça, em Juiz de Fora, sendo comprovado seu efeito protetor e a durabilidade do mesmo. Tendo em mira corroborar a eficácia da vacina de Manguinhos, Oswaldo Cruz destacou, em 1906, Rocha Lima e Carlos Chagas, para irem até Juiz de Fora. Começaram os trabalhos em 23 de abril de 1906. Dois dias depois, Rocha Lima comunicou ao diretor de Manguinhos, que na fazenda vizinha à de Villaça, pertencente a um tal Paletta, 6 dos 26 bezerros imunizados haviam sido vitimados pela manqueira e 3 ou 4 estavam doentes, quase morrendo.72 Realizou autópsias para esclarecer o enigma, pois tratavam-se de animais semelhantes e de vacina produzida a partir do mesmo procedimento de cultura e atenuação.73 “Nada podia ser mais inesperado”, escreveu dois dias depois nosso personagem, aturdido. Em todos os demais casos a vacina havia se mostrado inócua, mesmo quando utilizado material virulento em dose pouco abaixo da mortal. Sugeriu que se aprofundassem os estudos. Propôs ainda, que por “boa política”,
72BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 23.04.1906. 73 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 25.04.1906.
Manguinhos indenizasse Villaça com 10 bezerros, pois eles haviam garantido aos fazendeiros a inocuidade do imunizante.74
Uma das soluções encontradas por Rocha Lima para garantir uma imunização segura do gado foi seguir o método aconselhado pela maioria dos autores: a soro-vacinação (Rocha Lima 1906, p. 7). Consistia em pré-imunizar o animal com soro, no qual os anticorpos já estavam formados, e depois administrar a vacina. Em Manguinhos, o soro já havia sido produzido pela inoculação de cavalos com uma cepa virulenta do patógeno do carbúnculo. O emprego exclusivo da soroterapia na doença era inviável por produzir apenas imunidade de curta duração, requerendo constantes aplicações (Idem, p. 5). Rocha Lima discutiu com Oswaldo Cruz as questões que deveriam ser resolvidas para a soro-vacinação: observar a proporção em que soro e vacina deveriam ser empregados, averiguar a dose mortal ou patogênica da vacina para determinar a quantidade de soro que a neutralizava, e conhecer a maneira pela qual o soro atuava sobre o imunoterápico.75
Pelos inconvenientes acima mencionados, nosso personagem sugeriu que se continuassem os estudos para obter uma vacina completamente inócua deveriam ser continuados. A toxicidade poderia estar na parte líquida, especulou. Uma análise do meio de cultura empregado elucidaria, talvez, a toxicidade de uma leva da vacina, considerando que era o único fator diferencial em relação à leva que se mostrara inócua. Organizou um amplo plano de estudos, que enviou a Oswaldo Cruz, para ele “criticar, suprimir, aumentar, corrigir, melhorar ou substituir”.76 Foram feitas, então, análises do meio de cultura quanto à proporção de albumina, glicose e outros componentes. Puderam constatar que a segunda leva da vacina, que apresentou falhas em seu efeito imunizante, de fato mostrava culturas com características distintas da primeira, completamente inócua. Dessa forma, puderam aperfeiçoar o método de preparação a fim de garantir um imunoterápico seguro. A “nova” vacina desenvolvida e aperfeiçoada por Alcides Godoy mostrou inocuidade dez vezes maior que a anterior, de modo que convinha ampliar a profilaxia baseada unicamente nela.
No artigo publicado em que me baseio para reconstruir o histórico do desenvolvimento da vacina contra a manqueira, Rocha Lima narra que 260 bezerros já haviam sido vacinados, “sem que apresentassem a menor reação local, mesmo quando inoculados com dose muitas
74 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 27.04.1906. 75 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 07.05.1906. 76 Idem
vezes superior à geralmente empregada, e feita a injeção no ponto de eleição da moléstia, os músculos do quadril” (Rocha Lima 1906, p. 9-10). Em meio a todo esse otimismo, um dos bezerros caiu doente 36 horas depois da vacinação e morreu. “Foi esta a primeira notícia que tive ao chegar aqui, pode imaginar o calafrio que senti e o mal estar que de mim se apoderou e só agora vai diminuindo...” escreveu Rocha Lima a Oswaldo Cruz. Para ele, o pior era o “lado moral” da questão. Usando “toda a diplomacia possível” – relatou –, afirmara que o animal já se encontrava doente, “sustentando isso com todos os argumentos possíveis, a fim de não desacreditar a vacina que sempre chamamos de inócua”.77 Foi esta a versão que apresentou ao proprietário do bezerro morto e oficialmente, em conferência feita na Sociedade de Medicina e Cirurgia de Juiz de Fora (Rocha Lima 1906, p. 10). Mas tanto na conferência, quanto na carta a Oswaldo Cruz, manifestou otimismo na vacina e em sua aplicação em larga escala. “Acredito, pois, que não há objetivos para tristezas ou desânimo; ao contrário, é preciso avançar com coragem...”, escreveu ao diretor de Manguinhos. Seu otimismo se concretizou: encontrava-se na Alemanha, no último dia de 1906, quando Oswaldo Cruz lhe relatou que Alcides Godoy e José Gomes de Faria haviam constatado que era a glicose o fator que atenuava o germe do carbúnculo. “Já conseguiram firmar a morfologia da vacina”, noticiou.78 A vacina contra a peste da manqueira foi patenteada por Alcides Godoy em 24 de novembro de 1908. Ele doou os vencimentos da patente para o Instituto, os quais deveriam ser aplicados no fomento da atividade científica.
A verba obtida pela comercialização do imunizante ao Ministério da Agricultura e demais órgãos estatais, bem como aos criadores – a “verba da manqueira” –, garantiu a autonomia financeira de Manguinhos pelos anos seguintes (Stepan, 1976; Benchimol, 1990). Este foi um ponto fundamental para a manutenção das atividades científicas, já que um dos principais motivos pelos quais as instituições públicas de pesquisa pereciam era a falta de continuidade do apoio do Estado na forma de recursos financeiros. Como este representava à época praticamente a única fonte de financiamento da atividade científica, as instituições ficavam à mercê dos governos, cujo apoio geralmente era conseguido através das relações de compadrio dos pesquisadores com os homens públicos. Com o fluxo direto da verba da vacina, os recursos para as pesquisas em Manguinhos não precisariam passar pelos intrincados trâmites burocráticos do Estado. Ficava livre, por exemplo, dos pareceres votados
77 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 30.05.1906. 78 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Oswaldo Cruz a Rocha Lima de 31.12.1906.
pelo Congresso Nacional para liberação das verbas. Salários de funcionários e gastos com parte das obras puderam ser custeados com a “verba da manqueira” (Benchimol, 1990).