2. Mundo Simbólico
2.3 L´autre face de la lune
Hans Erich Moritz Otto e Rudolf Otto Neumann chegaram ao Brasil em 10 de fevereiro de 1904, no auge da campanha de Oswaldo Cruz, e aqui permaneceram até 04 de julho do mesmo ano. À época da expedição, ambos eram ligados ao Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo (Institut für Schiffs- und Tropenkrankheiten), fundado em outubro de 1900, quase ao mesmo tempo que o Instituto de Manguinhos (Wulf, 1994; Mannweiler, 1998; Brahm, 2002). Sua criação estava inserida no processo de institucionalização da especialidade médica designada medicina tropical, que dedicava-se ao estudo das doenças consideradas específicas dos trópicos. Aquele processo, como já mencionamos anteriormente, estava ligado à preocupação em garantir a viabilidade dos empreendimentos coloniais das potências imperialistas, através da manutenção da salubridade das populações estabelecidas nas colônias. Na Inglaterra havia sido criada, em 1898, a Liverpool School of Tropical Medicine e um ano depois, a London School of Tropical Medicine. Na França, filiais do Instituto Pasteur estabeleceram-se nas colônias. O Instituto de
Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo foi criado, ao mesmo tempo, pelo Senado de Hamburgo e pelo Departamento Colonial do Auswärtiges Amt, o Ministério das Relações Exteriores alemão. Essa dupla inserção administrativa ligou- às duas instâncias que marcariam a trajetória da nova instituição em sua esfera de atividades nos anos seguintes: a política colonial de Guilherme II, na qual a salubridade das populações estabelecidas nos trópicos figurava como questão fundamental, a manutenção da sanidade do porto de Hamburgo - um dos maiores pontos de entrada e saída de mercadorias e pessoas da Europa - e a supervisão da chamada “higiene naval”. Nesse sentido, o instituto deveria zelar pela saúde dos marinheiros e evitar a entrada em território alemão daquelas doenças consideradas “exóticas”. O Tropeninstitut, nascia assim, sob o signo da lealdade à administração imperial, em Berlim e à local, em Hamburgo (Brahm, 2002).
De forma semelhante aos casos de Manguinhos e do Butantã, o envolvimento das autoridades locais na criação do Instituto de Hamburgo estava ligado à experiência de um surto epidêmico: a famosa epidemia de cólera que grassou na cidade hanseática em 1892. Não cabe aqui detalhar o decurso desta epidemia, o que já foi feito magistralmente por Richard Evans (1987). Robert Koch foi destacado para realizar estudos sobre a doença, fazendo uma série de observações epidemiológicas relacionadas ao vibrião colérico. Um de seus ex-alunos, o médico da marinha Bernhard Nocht (1857-1945), assumiu durante a epidemia a direção de uma das estações de controle instaladas na região do rio Elba.58 A nomeação de Nocht para aquele posto estava relacionada à experiência com o cólera que ele havia adquirido quando esteve no sudeste da Ásia como médico da marinha alemã. A tarefa do médico da estação de controle consistia em inspecionar navios e barcos, com o fim de evitar a entrada de pessoas contaminadas na cidade. Em 1893, Nocht foi nomeado pelo Senado de Hamburgo médico do porto (Hafenarzt), que exercia as funções de higiene e de assistência médica. Para isso, foi estabelecido, em 1895, no Hospital Saint Georg, um dispensário com 25 leitos para o atendimento de marinheiros. Planejava-se a construção de um hospital específico para essa
58 Bernhard Nocht nasceu em Landeshut, na Silésia. Estudou medicina no Instituto Médico-Cirúrgico Friedrich- Wilhelm, também conhecido como Pepinière e depois um ano no Hospital Charité, doutorando-se em 1892. Em 1883 ingressou na Marinha Imperial como médico, ano no qual embarcou como médico de bordo para o sudeste da Ásia e Mediterrâneo. Entre 1887 e 1890 trabalhou com Koch no Instituto de Higiene da Universidade de Berlim e em 1892, por ocasião da epidemia de cólera, assumiu a direção da estação de controle em Hamburgo. Nomeado médico do porto de Hamburgo (Hafenarztes), saiu da marinha, concentrando-se no desenvolvimento do serviço de higiene naval e de um sistema de monitoramento de epidemias. Em 1898 tornou-se membro do conselho do departamento de imigração e em 1900 foi nomeado médico distrital de Hamburgo (Physikus), mesmo ano em que foi nomeado diretor do Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais e do Hospital dos Marinheiros anexo a ele. Em 1901 seria nomeado membro do conselho de saúde de Hamburgo e do Colegiado Médico da cidade hanseática (Mannweiller 1998, p. 230-1; Wulf, 1999).
finalidade, o que só veio a se concretizar quando foi criado o Tropeninstitut (Mannweiler 1998, p. 10-1).
Já em meados da década de 1890, Nocht preocupou-se com o aperfeiçoamento dos conhecimentos médicos acerca das doenças ditas “exóticas”. Não havia uma especialidade dedicada a elas. Em 1897, o médico alemão Carl Mense (1861-1938) fundou o Archiv für
Schiffs- und Tropen-Hygiene e já no primeiro volume fez coro com Nocht, também reivindicando o aprofundamento dos conhecimentos e treinamento dos médicos nas doenças reconhecidas como específicas das regiões tropicais. Em viagem feita às Índia Holandesas, África e sudeste asiático, entre 1884 e 1888, Mense observou doenças como malária, beribéri e doença do sono, sobre as quais nada sabia. Nocht manifestou ao Colegiado Médico de Hamburgo o interesse em oferecer, no Hospital dos Marinheiros, depois que estivesse concluído, cursos de preparação para médicos que fossem se dedicar à higiene naval e tropical. Em Berlim, Robert Koch articulava iniciativa semelhante. Depois das viagens à África, convencera-se da necessidade de formar especialistas na profilaxia e terapêutica das doenças que grassavam nos trópicos. Defendeu a criação de um instituto especializado, ligado à Universidade de Berlim, que dedicar-se-ia, não apenas à formação de novos especialistas e tratamento dos doentes, como também à obtenção de material de estudo, que deveria ser remetido diretamente de Hamburgo à capital alemã. Devido à importância prática que assumiria no âmbito da higiene das colônias, deveria subordinar-se ao Departamento Colonial do Auswärtiges Amt. Nocht e demais representantes da cidade de Hamburgo reuniram-se em Berlim com oficiais do Departamento Colonial. Ele destacou a importância de Hamburgo como porta de entrada e saída de pessoas e, por consequência, de doenças e como principal entreposto comercial da Alemanha com o além-mar. Apresentou o número de pacientes que chegavam ao porto hanseático, com doenças como malária e beribéri, apontando para a necessidade de transportá-los de imediato para um hospital especializado, junto ao qual deveria haver um instituto para estudo das mesmas. Interessado em evitar a contaminação de pessoas ligadas ao comércio ultramarítimo e a introdução de doenças epidêmicas (a experiência com o cólera fora traumática), o Senado de Hamburgo ofereceu os recursos para a construção do que seria o Hospital dos Marinheiros e do instituto especializado em doenças marítimas e tropicais. (Wulf 1994, p. 2; Mannweiler 1998, p. 12-4; Brahm 2002, p. 13-4). Os oficiais do Departamento Colonial aceitaram a oferta de Hamburgo, mas, ao mesmo tempo, deixaram claro em sua resolução a influência que Berlim deveria exercer sobre o novo instituto. Contribuiria com um subsídio anual e a manutenção de dois diretores de
departamento.59 Uma vez concluída a construção do Tropeninstitut, o Reich nomeou Friedrich Fülleborn60 e Gustav Giemsa61 como diretores de departamento. A direção foi entregue a Nocht, a quem coube a tarefa de recrutar os demais pesquisadores, coordenar a montagem do Instituto e estabelecer um programa de pesquisas que atendesse aos interesses da medicina naval e colonial representados, respectivamente, pelo Senado de Hamburgo e pelo Reich. Menos do que opostas, tais dimensões foram complementares (Brahm 2002, p. 15).
O novo instituto foi acomodado em anexo ao Hospital dos Marinheiros, defronte ao porto de Hamburgo. Entrou em funcionamento em outubro de 1900, mas apenas a partir de fevereiro de 1901, os pacientes puderam ser admitidos. A capacidade inicial do hospital era de 54 leitos (Mannweiler 1998, p. 22). A equipe de colaboradores do Tropeninstitut consistiu ao todo de 24 pessoas. Além de Nocht, Giemsa e Fülleborn, a equipe de pesquisadores incluiu Heinrich Ollwig, Hans Moritz Otto e Peter Mühlens.62 O objetivo do Tropeninstitut era o ensino, pesquisa e tratamento das doenças “exóticas”, entre as quais a malária ocupou o primeiro plano, predominando entre os pacientes do Hospital dos Marinheiros. Por conta disso,foram realizados estudos de longos anos sobre as propriedades e métodos de aplicação da quinina, tema de investigação do próprio Nocht, que pesquisou as relações entre o
59 O diretor do Departamento Colonial do Auswärtiges Amt, von Buchka, tentou garantir uma influência direta no Tropeninstitut através da nomeação de um comissário do Reich, mas o Senado de Hamburgo recusou (Mannweiler 1998, p. 14).
60 Friedrich Fülleborn nasceu em 1866 em Weichsel. Formou-se em medicina na Universidade de Berlim, doutorando-se em 1895, ao mesmo tempo em que freqüentou aulas de história natural e antropologia. Em 1894 foi voluntário no Instituto Anatômico de Hans Virchow. Viajou no mesmo ano para a América do Norte, para realizar investigações em zoologia. Em 1896 partiu para a África Oriental, onde atuou como médico tropical. Entre 1898 e 1900 viajou para Malawi para novamente fazer estudos em zoologia, mas também em etnologia. No ano seguinte ingressou no Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo, onde atuou como helmintologista, assumindo sua direção em 1930, que ocupou até sua morte, em 1933. Durante suas viagens, Fülleborn colecionou grande número de material de ensino e estudo. Destacou-se no estudo de parasitas, da clínica, epidemiologia e tratamento de infecções por helmintos e no desenvolvimento de novos métodos de diagnóstico dessas doenças. Concentrou-se na pesquisa das filarias e microfilárias e na evolução da migração de larvas de nematódeos no hospedeiro (Mannweiler 1998, p. 221-2).
61 Gustav Giemsa nasceu em 1867 em Blechhamer, na Silésia Superior. Estudou farmácia na Universidade de Leipzig, na qual formou-se em 1894. A partir de 1895 atuou como farmacêutico e químico a serviço do governo do Reich. Entre 1898 e 1890 completou seus estudos em Leipzig e Berlim em química, mineralogia e bacteriologia e higiene. Em 1900 foi incorporado ao recém-criado Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo, no qual assumiu o departamento de química. Ficou responsável pela produção de reagentes, corantes e meios de cultura que não eram comercializáveis. Permaneceu por seis meses no Instituto Oswaldo Cruz entre 1908 e 1909. Serviu na guerra e em 1919 tornou-se professor de quimioterapia na Universidade de Hamburgo. Em 1924, tornou-se membro do comitê da Liga das Nações para estudo da questão da quinina. Aposentou-se em 1933. Em 1936 viajou para o Brasil, acompanhado de Ernst Nauck, para realizar pesquisas sobre o caráter racial e a adaptação das populações de origem alemã nas colônias do Espírito Santo. Morreu em 1948. Destacou-se pelo desenvolvimento do método de coloração dos parasitos e tecidos, um aperfeiçoamento do método de Romanowsky e pelos estudos sobre a quinina (Mannweiler 1998, p. 223-4).
62 Heinrich Ollwig, medico dos protetorados e assistente para ensino, foi membro do Instituto até 1909. Hans Moritz Otto, médico da marinha, permaneceu até 1906. Mühlens, da Marinha Imperial, atuou como voluntário entre 1901 e 1902 no Hospital dos Marinheiros (Mannweiler 1998, p. 25).
alcalóide e a chamada febre hemoglobinúrica. Giemsa dedicou-se ao aperfeiçoamento da coloração de Romanwosky, empregada na visualização de parasitas, que resultou, em 1905, na comunicação de método de coloração batizado com seu nome. Os cursos de formação de médicos tropicais, preparados desde 1900, e já oferecidos em janeiro de 1901, demandaram grandes esforços dos pesquisadores. Friedrich Fülleborn cuidou da obtenção de material para demonstração nas aulas que tinham caráter mais prático que teórico. Em suas expedições científicas, preocupou-se em conseguir volume expressivo desse material, que deveria constituir as coleções científicas da nova instituição. Aos poucos, o curso sofreu ampliações, em termos de duração e de escopo (Mannweiler, 1998).
O perfil do Tropeninstitut foi moldado pela ambiência da cidade de Hamburgo. A intensa atividade portuária, representada pelas migrações e pelo ativo comércio ultramarítimo, projetou as casas comerciais e companhias de armadores e navegação como grupos de interesses econômicos. As densas relações com o ultramar fizeram com que os estudos sobre o estrangeiro ganhassem relevo no âmbito das atividades científicas ali praticadas. Nessa constelação, surgiria, em 1907, o Instituto Colonial de Hamburgo (Ruppenthal, 2007). As relações da cidade hanseática com a América Latina vinham desde a época em que as ex- colônias ibéricas tornaram-se independentes. Cabe lembrar que o pacto de comércio do Brasil com as cidades hanseáticas é de 1827. Hamburgo foi também um dos principais pontos de partida das avultadas levas de emigrantes que se dirigiram ao Brasil. Na conjugação de interesses privados com as instâncias envolvidas nesse intercâmbio transnacional é que ocorreu a expedição de Otto e Neumann.
A expedição foi financiada, em sua maior parte, pela “Verein der am Caffeehandel
betheiligten Firmen” (Associação de Firmas ligadas ao comércio cafeicultor) e pelas duas maiores companhias de armação de Hamburgo: a Hamburg-Amerikanische Packetfahrt-
Actien-Gesellschaft (Hapag/ Hamburg-Amerika Linie) e a Hamburg-Südamerikanische
Dampfschiffahrts-Gesellschaft (Hamburg-Süd). Também participaram dos custos as firmas
Johannes Schuback & Sohne, o Brasilianische Bank für Deutschland, a fundação beneficente
Johann Peter Averhoff e a Theodor Wille & Co., casa de exportação de café que tinha forte presença no Brasil, inclusive com uma sucursal em Santos (Brahm 2002, p. 20-1; 2003). O interesse da maior parte dessas firmas pela febre amarela estava ligado ao ônus que ela representava para seu comércio, não apenas em função do obstáculo das quarentenas para o comércio ultramarítimo, mas também pela ameaçava a seus representantes no Brasil. Era sabida a maior vulnerabilidade dos europeus à doença. Segundo Bernhard Nocht, era a mais
temida pelos marinheiros. Em 1891, a Hamburg-Süd havia perdido 85 funcionários em consequência do mal amarílico, também referido como “tifo americano”. Por conta disso, a companhia adquiriu, no ano seguinte, uma ilha em frente ao Porto de Santos, livre da moléstia, na qual os marinheiros eram deixados em um lazareto, ficando o serviço de carga e descarga por conta dos nativos, menos susceptíveis a ela (Brahm 2002, p. 20).
Como já mencionado, a expedição tinha por objetivo, realizar estudos sobre a febre amarela, e observar de perto a campanha de Oswaldo Cruz. Este recebeu Otto e Neumann no porto do Rio, em 06 de março de 1904. Eles foram entrevistados pela imprensa local e apresentados ao sanitarista pelo encarregado de negócios da legação alemã no Brasil. Foram acomodados com seus aparato de pesquisa no Hospital São Sebastião, onde os franceses da missão Pasteur encontravam-se em fase de conclusão de seus estudos . Conforme registrou Neumann em seu diário, analisado por Flelix Brahm (2002), a interação com os franceses a princípio foi reservada, mas depois desenvolveu-se bem. Otto e Neumann visitaram diferentes instituições sanitárias em companhia de médicos brasileiros. Estiveram inclusive em Manguinhos, onde certamente estabeleceram contato com Rocha Lima.
Com base nas observações realizadas, Otto e Neumann corroboraram no relatório de viagens o papel do mosquito Stegomyia fasciata como único meio de transmissão da febre amarela. Deixaram em aberto se outras espécies também podiam desempenhar essa função. A princípio tiveram dificuldades em obter mosquitos, que àquela época do ano não apareciam em grande número. Mas conseguiram alguns exemplares com médicos brasileiros e com o serviço de profilaxia da febre amarela. Transportaram cerca de 30 espécimes para Hamburgo, onde puderam mantê-los em condições apropriadas, graças às numerosas observações feitas sobre seu ciclo de vida, alimentação, reprodução e biologia em geral. De acordo com Heitor Fróes da Fonseca, em visita ao Tropeninstitut em 1925, ainda era possível ver criações do inseto que descendiam daquela primeira leva.63 Além das próprias observações, os apontamentos de Otto e Neumann basearam-se largamente nos enunciados de Frederick von Theobald reunidos em sua ampla monografia sobre os culicídeos.
Menos conclusivas que as informações sobre o transmissor, foram aquelas obtidas sobre o patógeno. Os pesquisadores alemães seguiram no encalço dos diferentes germes apontados como agente etiológico da febre amarela, mesmo que grande parte deles já tivesse
sido refutada por Georg Sternberg (Otto & Neumann, 1906). Consideraram plausível a hipótese defendida por Fritz Schaudinn64 de que o agente da febre amarela pertencia à categoria dos espiroquetas – à época classificados entre os protozoários – que abrangia o causador da sífilis.65 Com a expectativa de avançar nos estudos sobre o agente causador, Otto e Neumann trouxeram consigo um potente instrumento - um ultramicroscópio, da primeira leva dos fabricados pela firma Zeiss. Além das dificuldades iniciais de manipulação do aparelho, ele funcionava à base da luz solar, de modo que nuvens ou o céu encoberto comprometiam a observação. Chegaram a vislumbrar estruturas móveis encontradas no sangue e no líquor, mas as mesmas foram constatadas em indivíduos acometidos por outras doenças. Assim, concluíram que não tinham nenhuma relação com a febre amarela. As observações “ultra-microscópicas” valeram mais por invalidar a correlação de qualquer estrutura microbiana visível – bacilo, espirilo, tripanossoma, etc – com a febre amarela, pois não lhes passaria despercebido com a possante ferramenta (Otto & Neumann, 1906).
As observações e resultados de Otto e Neumann, foram comprometidas pelo fato deles não encontrarem muitos pacientes. Apenas 24 deram entrada no Hospital São Sebastião no período em que lá permaneceram. Destes, apenas 3 não haviam passado do 3º dia da doença, após o qual, de acordo com a experiência, o agente infeccioso não podia mais ser isolado do sangue (Idem).
Félix Brahm (2002) demonstra, que além das tarefas concernentes à pesquisa da febre amarela, Otto e Neumann foram encarregados pelos seus financiadores de fazer observações sobre a higiene marítima e outros aspectos relacionados direta ou indiretamente ao comércio transatlântico. Em São Paulo, visitaram plantações de café para analisar suas condições de
64 Fritz Schaudinn nasceu em 1871 em Roeseningken, na Prússia oriental, estudou ciências naturais, com ênfase em zoologia, na Universidade de Berlim, na qual formou-se em 1894. Nesse ano tornou-se assistente do Instituto de Zoologia da Universidade de Berlim. Em 1898 participou de uma expedição ao Ártico, na qual colecionou rico material biológico. Em 1901 foi designado para organizar uma seção de protozoários parasitas no Departamento de Saúde do Império (Kaiserliche Gesundheitsamt). Durante três anos atuou na estação zoológica do aquário de Berlim em Rovigno/ Istrien, onde dedicou-se ao estudo aprofundado de protozoários. Estudou as formas de multiplicação do parasita da malária e descreveu uma nova espécie de ameba patogênica ao homem, a Entamoeba histolytica, diferenciando-a da E. coli. Retornou em 1904 ao Departamento de Saúde em Berlim para assumir o recém-montado laboratório de protozoologia, quando descreveu o agente patogênico da sífilis, classificando-o entre uma categoria específica de organismos – os espiroquetas. Licenciou-se em 01 de julho para ajudar a organizar no Tropeninstitut uma comissão para estudar a doença do sono na África Oriental alemã. Nocht o convenceu a assumir naquele instituto um cargo fixo, no qual ficaria encarregado de dirigir um laboratório de protozoologia. Ali continuou seus trabalhos sobre espiroquetas, mas morreu prematuramente em 22 de junho de 1906, deixando ampla produção no campo dos estudos sobre os protozoários, que teria influência crucial na conformação da moderna protozoologia alemã (Mannweiler 1998, p. 237-8).
higiene e, em Santos, estiveram no “lazareto” construído pela Hamburg-Süd na ilha das Palmas. No Rio, informaram-se sobre as condições de higiene de frigoríficos, sobre o comércio de diferentes produtos e sobre medidas sanitárias adotadas nos portos, como por exemplo, aquelas relacionadas ao abastecimento de água e de víveres para os navios, bem como os hospitais nos quais os marinheiros eram internados (Brahm 2002, p. 27-8). As considerações sobre os brasileiros registradas por Neumann em seu diário não foram nada abonadoras. Ele repisa velhos estereótipos presentes desde os viajantes novecentistas, sobre a indolência dos brasileiros, tornados lânguidos pelo clima quente e úmido. Se por um lado referiram-se a Oswaldo Cruz como “homem de grande instrução científica, raciocínio prático e capacidade de organização”, por outro destacaram que essas mesmas qualidades eram raras de se encontrar entre os demais brasileiros (Idem, p. 24).
As observações científicas sobre a febre amarela, ao lado daquelas sobre a campanha sanitária de Oswaldo Cruz, foram bastante divulgadas na literatura alemã. Um relatório foi publicado no Archiv für Schiffs- und Tropen-Hygiene (Otto & Neumann, 1904) e uma