Espaço livre bastante consolidado da zona leste paulistana, a Praça Silvio Romero apresenta vínculo estreito com a população do bairro do Tatuapé, desempenhando um papel de centralidade local. Constitui um espaço livre onde se sobrepõem diversos usos, dentre os quais merece destaque a Igreja Nossa Senhora da Conceição.
Sua coniguração atual deriva de sucessivas reformas sobre um desenho de caráter tradicional, que se adequou às demandas funcionais surgidas ao longo dos tempos. A iniciativa de reformá-la decorreu, em boa parte, de sua visibilidade como obra do Poder Público municipal. Assim como o Parque da Vila Prudente, a obra localiza-se em área que, em 2003, constituía importante base eleitoral para o então Secretario do Verde e Meio Ambiente, Adriano Diogo.
Diferentemente de parques como Pinheirinho D’Água e Cordeiro não só no tocante ao porte menor - cerca de 10mil m2 - a reforma desta praça tampouco surgiu a partir de
reivindicações de grupos locais, mas sim de uma iniciativa do Poder Público, por interesses também adversos aos dois casos anteriores. Desse modo, a prospecção mais detalhada dos anseios dos usuários com relação a este espaço livre não constituía, inicialmente, uma variável priorizada pelo Poder Público neste projeto.
A interação inicial com a população local ocorreu no ano de 2004, e foi estabelecida por meio de reuniões promovidas pela prefeitura na igreja existente na praça com representantes da comunidade, funcionários municipais, além do arquiteto Raul Pereira, proissional do escritório de paisagismo responsável pelo projeto da área.
O critério de representatividade utilizado pelo Poder Público para convocação da comunidade mostrou-se restrito, pois a maioria daqueles que compareceram às reuniões pertencia a grupos ligados à igreja local. Isso resultava em reuniões cujo produto caracterizava-se por uma visão mais parcial das necessidades da comunidade em relação àquele espaço.
Igreja Nossa Senhora da Conceição, localizada dentro da praça.
Ar quiv o escrit ório Raul P er eir a (2003)
Os relatos dos representantes gravitavam, em grande parte, na questão das perturbações às atividades relacionadas à igreja na praça, tais como a agitação dos diversos grupos de adolescentes que freqüentam o local para os mais diversos ins.
As sugestões propostas sob tal óptica relacionavam-se à restrição da área de piso da praça, visando à redução do número de adolescentes freqüentadores; a colocação de equipamentos urbanos que diicultassem a presença de sem-teto ou mendigos, ou mesmo a não colocação de sanitários públicos da praça, de modo a evitar atividades ilícitas diversas que pudessem ocorrer.
Tais solicitações identiicadas nas reuniões públicas foram entendidas como parciais pelo escritório responsável pelo projeto da praça. Embora o prazo para concepção e entrega da primeira proposta estabelecido pela prefeitura fosse bastante reduzido (cerca de um mês), o paisagista responsável pelo escritório considerou a identiicação das necessidades de outros grupos que utilizam aquele espaço como prioridade Foi tomada então a iniciativa de promover visitas informais ao local, realizando entrevistas em campo, de modo a sondar outras variáveis de projeto.
O resultado foi a identiicação mais aproximada dos outros diversos grupos que utilizam o local, tais como taxistas, proprietários de bancas de frutas e revistas, transeuntes diversos, grupos de idosos que se reúnem para jogar dominó no período da tarde, pessoas que utilizam o banco da praça para sentar e comer seu lanche ou almoço, entre outros.
Merecem destaque também, os variados grupos de adolescentes que utilizam a praça para os mais variados ins, como por exemplo: reuniões de praticantes de capoeira, grupos skatistas, grupos de estudantes das escolas e cursinhos pré-vestibular vizinhos à praça ou até mesmo como signiicativo ponto para o encontro de casais e amigos virtuais (que se conheceram via internet).
Tendo em mãos essas informações mais abrangentes, foi possível à equipe do escritório
conceber um projeto mais sintonizado com as necessidades dos diversos usuários. Diferentes usos existentes na praça: ponto de táxi, encontro de estudantes e idosos
Ar quiv o escrit ório Raul P er eir a (2003) Ar quiv o escrit ório Raul P er eir a (2003) Ar quiv o escrit ório Raul P er eir a (2003)
Compensação ambiental: uma alternaiva para a viabilização de espaços livres públicos para convívio e lazer na cidade de São Paulo 140
Várias soluções de projeto foram idealizadas a partir desse contato mais próximo (embora breve) com a comunidade local, que envolveu, por vezes, a mediação de conlitos.
Exemplo disso foi a solução de abertura dos sanitários da igreja para uso público, de modo a permitir maior controle para evitar usos inadequados do equipamento, e a utilização de forma mais abrangente pelos usuários do espaço. A área de piso proposta foi ampliada, visando atender aos intensos luxos de pedestres existentes na praça, e de modo a permitir uso mais lexível do espaço para diversas atividades, como as reuniões de capoeiristas. Surgiu também a partir da identiicação de necessidades, a idéia de criar um acesso especíico para carros de noiva nos dias de casamento, resolvendo conlitos de circulação de veículos, existentes sobretudo nos inais de semana.
Apesar de ter suas obras iniciadas com relativa rapidez (ela constituía prioridade da gestão daquele momento), a praça só teve uma pequena parcela executada, limitada à reforma de canteiros e mudança de pisos. Problemas burocráticos relativos aos processos das compensações ambientais que custeariam a praça izeram com que a obra fosse suspensa e não mais retomada (até o ano de 2008).
Trecho da praça no qual foi executado o piso previsto no projeto custeado por TCA
Ar quiv o escrit ório Raul P er eir a (2004) Ar quiv o escrit ório Raul P er eir a (2004) Ar quiv o escrit ório Raul P er eir a (2004)
Compensação ambiental: uma alternaiva para a viabilização de espaços livres públicos para convívio e lazer na cidade de São Paulo 142