1 Innledning
4.4 Reiseliv
Ao lado da maturidade, e de tudo o que se lhe possa estar relacionado, a persona de Horácio se aproxima, em muitos momentos, daquilo que podemos chamar de juventude. Em alguma medida, do seu contrário. Se antes vimos que a juventude do interlocutor (aqueles a quem se endereçaram as cartas)358 era quase sempre contraposta à madureza do eu-poético, agora as bases da relação se modificam um pouco. O que temos é, na verdade, a evocação de uma juventude perdida. A juventude do próprio poeta. A referência agora é mais especular, o
358 É evidente que essa “juventude” repousa muitas vezes menos na “real” mocidade do destinatário do que no
163 deslocamento é buscado muito mais em si mesmo do que no outro. No outro-de-si. Então, veremos que, se, por um lado, temos a importância da maturidade na persona, por outro, não podemos perder de vista a juventude, que, à sua maneira, exerce um papel relevante no jogo poético das Epístolas, tão relevante, segundo a nossa leitura, quanto a maturidade.359
Se I. Marchesi (2005)360 tem razão ao propor que as fábulas (no sentido estrito de pequenas narrativas protagonizadas por animais) cumprem uma função muito peculiar nas
Epístolas, a de, ambivalentemente, recordar e preservar um passado servil361 que elas próprias buscam reprimir, podemos pensar, então, nesses mesmos termos, a relação entre juventude e maturidade. Ora, todas as vezes que vemos expresso, mais ou menos diretamente, um calculado e nostálgico distanciamento do mundo pueril, pensemos que, na verdade, o que se nos desnuda, de fato, é uma espécie de recordação e “presentificação” do passado. Ou seja, a estratégia de se afastar daquilo que se pode vincular à juventude mais atualiza que enterra a própria juventude, e, do mesmo modo, a ênfase na perda da juventude mais a traz à mente do que a faz cair no esquecimento. O efeito é sempre ambivalente. E, tendo ainda por horizonte enunciados irônicos e elementos de didatismo, é essa ambiguidade que nos serve de mote para ver, numa espécie de espelho distorcido, como a imagem do velho sereno e maduro – algo livre e autônomo, pelo menos da maneira como, no item anterior, nós a concebemos e construímos – reflete a da criança impetuosa. Como ambas se interpenetram e dependem visceralmente uma da outra, eis um dos aspectos, como propomos, do jogo das Epístolas.
Comecemos pela Ep. 1, 14. Trata-se de uma carta enviada ao feitor do sítio do poeta. Estando na cidade, ou melhor, obrigado a estar na cidade por força de um dever de consolar um amigo (“Lâmia”, v. 6) que havia perdido o irmão (v. 6-9) – um dever, portanto, completamente convergente à poética da amizade, Horácio escreve ao feitor, que é um escravo, dirigindo-lhe também uma espécie de consolação, não por coincidência, notemos, o mesmo mote que o faz estar na cidade. A carta não deixa de ser uma variação de retomada, com um pequeno desvio, do tema do isolamento no campo, um dos assuntos que aparece logo no início da Ep. 1, 1, encarnado na figura do gladiador Veiânio, já “aposentado” (v. 4-6). O
359 A respeito do estatuto do ludus poeticus, H. Wagenvoort (1956, p. 31) apresenta a seguinte característica: "it
is especially a youthful game". (“É especialmente um jogo juvenil.”) E, além disso, está sempre em contraste com o que é sério (seria), seriedade que, de um ponto de vista poético, é representada, em linhas gerais, pela épica e pela tragédia.
360 O fundamentado artigo de I. Marchesi (2005) a respeito da “retórica” das fábulas, para além das Epístolas, se
estende também às Sátiras, de Horácio, e aos episódios da Cena Trimalchionis, do Satyricon, de Petrônio, mas as conclusões são, em geral, as mesmas.
361 Tanto em referência a um passado vinculado à persona de Horácio, quanto a de um passado construído nas
164 feitor, pela ficção que se engendra na carta, completamente insatisfeito com o custoso trabalho do campo, deseja ardentemente a cidade e suas benesses, e, por seu turno, Horácio, já maduro, já retirado, experiente na lida das coisas da cidade, pretende convencer o seu caseiro dos prazeres do ambiente rural. Uma lição de recte uiuere. O poeta faz derramados elogios ao campo em inúmeros trechos, como o faz, com alguma variação, tendo em vista a figura do interlocutor, também nas Ep. 1, 10, endereçada a Fusco, e 1, 16, a Quíncio.
Na Ep. 14, de fato, Horácio começa falando da capacidade do seu sítio de revigorá- lo. O campo é apresentado como um elemento de renovação, espécie de refúgio (Ep. 1, 14, 1- 3), um alimento para corpo e alma que atende a praticamente todas as necessidades do poeta (cf. Ep. 1, 14, 8-10; 16). A certa altura da carta, é estabelecido um expressivo contraponto entre os interlocutores, que se inicia com o seguinte trecho. Horácio quer mostrar ao caseiro que as suas ambições são aquelas típicas de uma juventude que ele próprio já ultrapassou. Vejamos:
Nunc age, quid nostrum concentum diuidat, audi. Quem tenues decuere togae nitidique capilli, quem scis immunem Cinarae placuisse rapaci, quem bibulum liquidi media de luce Falerni,
cena breuis iuuat et prope riuum somnus in herba; 35 nec lusisse pudet, sed non incidere ludum. (Ep. 1, 14, 31-6) E o que divide nosso concerto ouve agora.
A quem convinham toga leve e coma nítida, quem, sabes, sem mimo, agradava a ávida Cínara, quem bebia ao meio-dia do límpido Falerno,
quer ceia breve e sono ao pé do rio na relva. 35 Não cora o antigo jogo, mas jogá-lo agora.
A ideia de jogo (lusisse [...] ludum, v. 36), aqui, se associa, sobretudo, ao jogo erótico, atividade típica da juventude, ou que nessa fase da vida encontra o seu ponto alto. Esse trecho pode ser facilmente associado ao encerramento da Ep. 2, 2, onde no v. 214 podemos ler, em tom quase solene, numa espécie de reflexão interior e com um sabor nostálgico bem aguçado: lusisti satis, edisti satis atque bibisti,362 o qual põe o jogo, seja ele de que natureza for, em íntima relação com a comida e a bebida.
A contraposição entre madureza e juventude, que nos faz recordar vivamente de todo o item anterior, quando demonstramos como se manifestava mais do ponto vista da maturidade, é expressa linguisticamente nos tempos verbais (decuere e placuisse diante de
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iuuat e lusisse diante de incidere). Os adjetivos nitidi e tenues (v. 31) também nos despertam um interesse especial. Ambos, de sensíveis matizes metapoéticos, passos que já foram comentados alhures.363 Aqui, por outro lado, é o didatismo do trecho que nos salta aos olhos com o imperativo em fim de verso (audi, v. 31), o qual, juntamente com o advérbio nunc (v. 31) em início de linha, (“ouve agora”, na tradução) emoldura um verso que introduz o distanciamento cabal dos interlocutores. Robustece o efeito didático a repetição retórica do pronome quem (“quem”), que abre três versos em sequência e, numa estrutura sintática bem harmônica e paralelística, três orações subordinadas objetivas (ou completivas) que desembocam no mesmo verbo (iuuat, v. 35), do qual são o complemento sintático.
Enfim, temos, numa atmosfera irônica, baseada na ambiguidade de alguns elementos do trecho e em sugestões metapoéticas, uma superfície acentuadamente didática que repisa questões que não são novidade nas Epístolas. Nesse sentido, nos interessa muito aqui a verdadeira sententia (v. 36) que imediatamente se segue a essa estrutura e tem também clara feição didática. Fazendo uma espécie de resumo do trecho, ela guarda uma ambiguidade radical centrada no verbo incidere. De fato, o verbo, no infinitivo, pode ter duas classes de significado praticamente opostas, uma relacionada a incīdo (“cortar”, “interromper”), com o segundo i longo, outra a incĭdo. (“cair”, “precipitar-se”), com o i breve, ambos transitivos. Numa tradução, digamos, mais presa à letra do texto latino, principalmente se levarmos em conta a quantidade do segundo “i”, longo por necessidade métrica do hexâmetro datílico, teríamos, no primeiro caso, algo como “não [me] envergonha ter jogado, mas não interromper [ou não abandonar] o jogo”, ou mais livremente “o que realmente causa vergonha é não interromper o jogo agora, já maduro, porque o jogo da juventude, por ser oportuno, não é absolutamente vergonhoso”. No segundo caso, por sua vez, poderíamos, sem problema, a despeito da licença métrica exigida (quem sabe uma espécie de transgressão lúdica!), traduzir o verso com algo mais ou menos assim: “não me causa vergonha ter jogado, mas não cair no jogo agora”. Assim, o que causaria mesmo vergonha seria não incidir (para usar o termo em português) agora no jogo, ou seja, a vergonha é abandoná-lo. O abandono do jogo, insistimos, seria, então, nesse caso, o verdadeiro motivo da vergonha. Essa ambiguidade que propomos na superfície linguística do trecho se sustentaria em outros âmbitos? Não nos resta dúvida alguma de que a ginástica etimológica que propomos encontra lastro no jogo (ludus) das
Epístolas. Na verdade, a própria existência desse jogo está na base do nosso trabalho. Não é
166 possível nem sequer imaginar poeticidade nelas sem a noção de jogo. E, para não fugirmos da autoridade que o próprio poema nos concede, podemos, sem dificuldade alguma, buscar, por exemplo, o próprio verso que antecede a sententia do v. 36. Nele, há a mesma ambivalência que propomos para incidere. Ora, o que agora alegra (iuuat) o eu-poético, em contraposição ao jogo erótico (ludum), à toga leve (toga tenue), aos cabelos brilhantes (capilli nitidi), elementos todos eles, enfim, reconduzíveis à juventude e, consequentemente, à atividade poética, é nada menos que cena breuis e somnus prope riuum (v. 35). O contraste é apenas aparente. Ele se esfacela facilmente diante de nós. Há um sutil elemento irônico aqui. Metapoético. A ceia breve é, vimos no capítulo primeiro, principalmente na ceia de Torquato (cf. Ep. 1, 5), uma imagem que se vincula ampla e fortemente à poesia e tem um inegável valor programático,364 assim como o rio, metáfora corrente para atividade poética já desde os gregos,365 que, figurando como componente de uma paisagem bucólica, ajuda a erigir uma imagem poética de evocação até mesmo a Baco, que, fruindo sono e sombra, é patrono dos poetas (cf. Ep. 2, 2, 77-8). Temos, então, uma atmosfera ambivalente que antecede e não deixa de reverberar e robustecer a ambiguidade proposta há pouco para o verbo incidere. Ambivalências que mutuamente se sustentam e se complementam. Que se enlaçam como amigos, se nos é permitida a imagem horaciana.
É por isso, então, que o sítio cuidado pelo feitor-escravo (mediastinus), a não ser que ele, de fato, dê ouvidos ao nosso poeta, não dará uva (Ep. 1, 14, 23). Pelo menos, não antes de pimenta e incenso, triviais condimentos que se embrulham em folha inútil, tipo de papel execrado por Horácio bem no fim da Ep. 2, 1 (cf. v. 264-70), pois são folhas que se perdem na vida cotidiana. Folhas que não imortalizam ninguém. Indignas de poema. Ou seja, são os conselhos de Horácio que poderão levar o campo a produzir uvas. Vinho. Vínio. Poesia. Lições de recte scribere. Horácio, portanto, se apresenta como um professor em duas camadas, uma de regras para a vida, outra de regras para a escrita. Mas, nesse último caso, fazendo uso da brincadeira, do jogo, para professar preceitos. Um jogo que, ressaltemos, é, sobretudo, ambíguo.
Nesse sentido, aproveitando ainda essa exuberância semântica de ludus, vejamos uma cena instigante e insólita, construída e apresentada, na Ep. 1, 17, a partir de um enquadramento sensivelmente lúdico e que apresenta um produtivo deslocamento:
364 Cf. cap. 1, p. 37-43.
365 Cf. N. B. Crowther (1979, p. 9-10), sobre o papel dos cursos d’água como elemento de inspiração poética na
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Nec semel inrisus triuiis attollere curat fracto crure planum, licet illi plurima manet
lacrima, per sanctum iuratus dicat Osirim: 60 'Credite, non ludo; crudeles, tollite claudum.'
'Quaere peregrinum', uicinia rauca reclamat. (Ep. 1, 17, 58-62). Não cuida o caçoado de erguer o bufão
que, perna espedaçada, em profusas lágrimas,
mesmo jurando pelo santo Osíris, diga: 60 “Acreditai, não jogo; erguei, cruéis, o coxo.”
“Chama um gringo”, replicam roucos os vizinhos.
Essa passagem finaliza o poema. Trata-se de uma carta endereçada a Ceva, cujo conteúdo é tradicionalmente associado, em conjunto com a Ep. 1, 18, à forma como lidar com os poderosos e tirar proveito dessa relação, sem lhes ser subserviente. Por outro lado, há quem as chame, como conjunto, de ars parasitandi (PERRET apud MARIC, 2012, p. 72), o que até nos poderia ser de alguma utilidade aqui, dado o conteúdo sensivelmente irônico que a expressão sugere. De qualquer maneira, o que vemos, nessas cartas, é um Horácio que, de fato, apresenta lições de como não se submeter aos poderosos, mas sem deixar de se aproveitar da sua influência. No entanto, o fecho do poema, conforme podemos facilmente notar, põe em evidência uma questão muito particular da Ep. 1, 17: a franqueza. Como interpretar o credite, non ludo? (v. 61). A questão parece realmente ensejar um deslocamento interessante. O que mais se coloca em relevo aqui é o caráter lúdico do texto, especificamente das Epístolas, se estendermos a fala da personagem à própria persona de Horácio. É como se o nosso poeta, ao mesmo tempo em que se distancia do bufão, chamasse a atenção para o fato de estar ele próprio jogando. Uma espécie de recusatio do jogo (algo próximo, como vimos, do que acontece na Ep. 1, 14, ao feitor). O ludus, assim, se associa, de forma direta, à mentira. Ao logro. Como são os exemplos da caprichosa meretriz e do inconveniente companheiro de viagem (Ep. 1, 17, 52-7) que antecedem na carta a passagem acima. Ambos abusam da confiança do outro, exatamente como faz o bufão. O pedido de confiança, aliás, vem do próprio bufão (planum, v. 59). Isso é muito curioso porque ele quase sempre mente. Mas, nesse caso, está, pelo que se pode deduzir do trecho, falando a verdade. Mesmo assim é desacreditado. Mesmo com as juras por Osíris. Esse ludus, então, estendido à persona de Horácio, nos permitiria concluir que Horácio esteja mesmo jogando? Talvez. A própria banalidade da “lição” desse trecho contribui para a dúvida. Certamente, contudo, não joga do mesmo modo como o bufão. E mesmo que lhe aproximássemos totalmente a imagem à do poeta, teríamos uma ambiguidade fundamental, porque, como ninguém acredita nele, todos o
168 interpretam como se estivesse jogando e mentindo. Seria essa uma chave de leitura para a negação e abandono da res ludicra (Ep. 1, 1, 10)? O anunciado abandono da poesia seria, então, um embuste? Pode ser. Ou, por outro lado, uma espécie de dissimulação? Independentemente disso tudo, o campo semântico de ludus nas Epístolas comporta muito mais do que o simples logro. O seu estatuto não é unívoco. Ao contrário. Com efeito, em dois trechos, um de uma carta do livro primeiro, outro de uma do livro segundo, podemos notar como o ludus recebe um tratamento que lhe concede um valor de sabedoria. O primeiro está na Ep. 2, 1, endereçada a Augusto. Nela, o poeta discute, dentre outras coisas, o valor da poesia grega em relação à romana. Vejamos (Ep. 2, 1, 93-100):
Vt primum positis nugari Graecia bellis coepit et in uitium fortuna labier aequa,
nunc athletarum studiis, nunc arsit equorum, 95 marmoris aut eboris fabros aut aeris amauit,
suspendit picta uoltum mentemque tabella, nunc tibicinibus, nunc est gauisa tragoedis; sub nutrice puella uelut si luderet infans,
quod cupide petiit mature plena reliquit. 100 Quando, abandonadas as guerras, a Grécia
caiu no riso e, próspera, inclinou-se ao vício,
ardeu-se em paixão de atletas e cavalos, 95 estimou artesãos de mármore, marfim
e bronze, extasiou-se com quadros pintados, gozou ora flautistas, ora atores trágicos, como a jovem menina que joga ao pé da ama,
o que ávida quis, logo largou saciada. 100
O início da “brincadeira” (nugari, v. 93) exige, necessariamente, o fim da guerra. O jogo não se compraz com as batalhas. Foi somente quando parou de guerrear (positis bellis, v. 93) que a Grécia (não nos interessa o sentido que, com precisão, podemos atribuir ao termo
Graecia) pôde se voltar (coepit, v. 94) às “artes”. A escultura, o artesanato, a pintura, a tragédia, a música, enfim, tudo o que nos remete direta ou indiretamente a um certo âmbito artístico, ligado, sobretudo, a uma espécie de “brincadeira”, “refinamento” do espírito e sutileza (ligado ao ludus?), só floresceu, ou, no mínimo, encontrou ambiente propício, quando as guerras já eram mesmo coisa do passado. Não podemos, no entanto, ser ingênuos a ponto de, por um lado, pensar que não haja aqui uma sutil coloração de recusatio épica, nem, por outro, que não haja absolutamente certa convergência com os ideais políticos da pax Romana do regime augustano. Não obstante isso, a assunção de um caráter pueril (puella infans, v. 99) se dá, para a Grécia, numa evidente contraposição à atividade guerreira, o que, para um povo tradicionalmente guerreiro e historicamente conquistador como romanos, soa insólito. Ou, no
169 mínimo, propicia alguma reflexão. Os meninos romanos que aprendem a fazer contas, já sabemos, não saberão fazer poesia (cf. AP, 325-32), assim como os romanos que se formarem guerreiros também não serão poetas. Ou, o que é pior, ao tentar fazer poesia, fazem, na verdade, guerra, como vimos. É por isso que a puella só pode brincar quando a guerra acaba. A guerra, assim, feita por homens já maduros, algo da ordem do calculado e pensado, é tido por antípoda do desenvolvimento artístico (o que não quer dizer que não possa servir de mote), e a voz de sabedoria de vida e de poesia, portanto, está – nesse particular, como evitação da guerra principalmente – do lado da puella ludens, em cujo lado o ego loquens, embora com alguma reserva irônica (como quase sempre), se coloca. Contra a rudeza. Contra os resultados danosos da guerra, conforme percebemos no início do capítulo. Ao lado de Nestor. Um Nestor que, mesmo velho, merece, no canto 23 da Ilíada (v. 615-50), por ocasião dos jogos fúnebres em honra de Pátroclo, presentes vindos das próprias mãos jovens de Aquiles. Mesmo sem ter condições de disputar fisicamente com os mais jovens, mesmo fora do combate em sentido estrito, o velho Nestor, simplesmente pelo respeito que seu valor de prudência e de sagacidade inspira, recebe de Aquiles um simbólico quinhão.366 Simbólico como a coroa que o lírico Horácio exige de Melpômene, seu coroamento poético.
Passemos agora ao trecho do livro primeiro. Na programática Ep. 1, 1, dirigindo-se a Mecenas, Horácio mais uma vez contrapõe uma voz infantil, não à guerra dessa vez, mas a outras tradicionais instituições romanas:
“O ciues, ciues, quaerenda pecunia primum est; uirtus post nummos!” Haec Ianus summus ab imo prodocet, haec recinunt iuuenes dictata senesque 55 laeuo suspensi loculos tabulamque lacerto.
Est animus tibi, sunt mores, est lingua fidesque, sed quadringentis sex septem milia desunt: plebs eris. At pueri ludentes: “Rex eris,” aiunt,
“si recte facies.” Hic murus aeneus esto, 60 nil conscire sibi, nulla pallescere culpa.
Roscia, dic sodes, melior lex an puerorum est nenia, quae regnum recte facientibus offert, et maribus Curiis et decantata Camillis?
Isne tibi melius suadet, qui "rem facias, rem, 65 si possis, recte, si non, quocumque modo rem,"
ut propius spectes lacrimosa poemata Pupi, an qui Fortunae te responsare subperbae
liberum et erectum praesens hortatur et aptat? (Ep. 1, 1, 53-69). “Cidadãos, cidadãos, o dinheiro primeiro,
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virtude após as moedas”, Jano de alto a baixo
ensina, esse ditado entoam jovens e velhos, 55 suspensos sob o braço esquerdo estojo e tábua.
Tens ânimo, tens hábitos, tens língua e crédito, mas seis ou sete mil faltam aos quatrocentos: plebe serás. Mas crianças, jogando, “Rei”, dizem, “serás, se agires bem”: eis um muro de bronze 60 sem nada a se acusar, sem culpa a deixar pálido.
É melhor, diz-me, a lei Róscia ou a cantiga de criança que a quem age bem oferta um reino, recantada por homens Cúrios e Camilos?
Te aconselha melhor este: “Bens, faças bens, 65 se podes bem, se não, de qualquer modo, os bens”, pra veres mais de perto os dramalhões de Púpio, ou quem, presente, te estimula e te prepara a enfrentar, livre e firme, a Fortuna altiva?
O trecho, já observou bem K. Reckford (2002, p. 8), nos apresenta uma incisiva e inesperada inversão de papéis. Enquanto, por um lado, os jovens e os velhos romanos, assemelhados a estudantes (laeuo suspensi loculos tabulamque lacerto, v. 56), são os aprendizes, e, colocando o dinheiro acima de absolutamente tudo (pecunia primum, v. 53), repetem e repetem o mantra, ensinado pelo deus Jano, tradicional autoridade religiosa entre os latinos,367 da incessante corrida pela riqueza, por outro, são, de fato, as crianças as responsáveis pela expressão de um tipo de sabedoria (cf. murus aeneus, “muro de bronze”, e
nulla culpa, “sem culpa”, v. 60-1). São elas que gozam de uma autoridade sapiencial. Algo propenso a perdurar, como nos sugere o adjetivo aenus, termo de pálido sabor intertextual (cf.
aere perennius, Ode 3, 30, 1). Algo que normalmente se esperaria de uma voz de maturidade.