1 Innledning
2.3 Oppsummering av skadeomfang etter forliset av ”Rocknes”
151 Os trechos analisados no item anterior nos dão também uma importante pista a respeito de, pelo menos, um dos caminhos que a persona poética de Horácio trilhará nas
Epístolas, senda que seguiremos com base na figuração de dois aspectos que parecem, em certa medida também como um desdobramento da maturidade e da prudência, conformar uma imagem de “sábio”. Não exatamente de “filósofo”, como muitos já apontaram,323 mas algo
que, embora muito próximo, disso se distancia em alguma medida. Os aspectos a que nos referimos são, principalmente, a liberdade324 e a autonomia.
Nesse sentido, as cartas, de um ponto de vista mais formal, digamos, seriam, de antemão, um eficaz instrumento para atingir o necessário grau de (auto)conhecimento – o que, veremos, está relacionado à liberdade – que se espera de um sábio ou mesmo de um filósofo.325 Muito mais do que uma ferramenta simplesmente hábil, a epístola, nesse particular, é, na verdade, um instrumento eloquente. A forma epistolar, de fato, já era no tempo de Horácio, todos sabemos, de um lado, um recurso literário ou instrumento retórico e, por outro, um tradicional e bem estabelecido meio de professar e propagar didaticamente ideias filosóficas.326 Em Horácio, a sua ambivalência será levada ao limite. Ao mesmo tempo em que se filia a uma matriz de gênero que invoca toda uma importante tradição de cartas filosóficas e a sua capacidade e potencialidade didática, como as de Epicuro e Cícero, por exemplo, ela, não só pelo metro hexamétrico, uma novidade (a julgar do que dispomos de testemunhos antigos), como também pela exploração sistemática de conteúdos ambíguos e estratégias poéticas, evoca ainda toda uma tradição poética, épica e – por que não? – também didática, principalmente o DRN, de Lucrécio.327 É nesses termos que podemos ver a importância da forma epistolar na conformação da persona do poeta.
Uma das maiores expressões de liberdade e autonomia é a própria maturidade, que se expressa principalmente no tópos do envelhecimento e da vivência. A imagem que abre a Ep. 1, 1, é a do gladiador aposentado, que, tendo já lutado inúmeras vezes, se livrou do peso das lutas e do juízo do público, embates que, a propósito, são associados às contendas entre os poetas (cf. Ep. 1, 19, 41-9),328 algo de que Horácio, com o suposto abandono da poesia, quer,
323 Cf. cap. 1, p. 18 e ss.
324 Sobre a centralidade da liberdade nas Epístolas, cf. P. Lee-Stecum (2009, p. 12).
325 Em Cícero e Panécio, a ideia de obtenção do decorum está estritamente relacionada ao “autoconhecimento”.
É claro que em Horácio, isso está, de alguma forma, presente (cf. MARIC, 2012, p. 59).
326 Coleções de carta em prosa, de caráter didático e conteúdo principalmente filosófico, circulavam com certa
abundância, lembra-nos R. Glinatsis (2010, p. 248 e ss.), desde o mundo helenístico.
327 A respeito das inter-relações de gênero entre poesia épica e poesia didática, cf. P. Toohey (1996, p. 1-6) e K.
Volk (2002, p. 34 e ss.). Quintiliano considerava o DRN um poema épico, cf. Inst. Or. 10, 1, 87.
152 da mesma maneira, se ver liberto. Nesse sentido, a conversão à filosofia é ela própria também uma forma de se livrar das amarras da escravidão, tanto em relação ao público,329 quanto aos outros poetas330 e, o que é mais intrigante, à figura de Mecenas, o patrono, e tudo o que ela representa. A liberdade da persona, nesses termos, se constrói filosoficamente através da reflexão. E uma das mais eficazes e comuns formas de a autoridade “filosófica” de Horácio se manifestar e até mesmo se construir nas Epístolas é o didatismo, seja ele filosófico, o que é mais comum no livro primeiro, seja ele literário, mais presente no livro segundo. A inclinação ou tendência didática encontra lastro, então, de um lado, na forma epistolar e, de outro, na conversão à filosofia. A autoridade que a máscara professoral confere ao poeta é incalculável. Para ser professor, são necessárias as qualidades da maturidade e do conhecimento, da experiência e do discernimento. De saber e poder dar conselhos.
O didatismo é, nesse sentido, uma forma de exercício de autonomia e liberdade. O funcionamento da constituinte didática do texto depende necessariamente de uma voz de autoridade, que, no caso das Epístolas, vem do próprio Horácio, a partir não só da maturidade e prudência de que dispõe, mas também da busca, pelo estudo e pelo esforço de sabedoria. É por isso que se pôr no lugar de aprendiz, como acontece de forma mais aberta no início da Ep. 1, 17, a Ceva (v. 1-4), concede um traço de (fingida?) humildade intelectual que contribui bastante para o engendramento da maturidade da persona e sua busca por liberdade. Nesse contexto, podem ser trazidos, ainda, como um grande exemplo de didatismo, com traços fortes de dissimulação, tanto filosófico, quanto literário, o que reforça mais a voz didascálica do poeta, as Ep.1, 5 e 1, 13, analisadas com certa profundidade no capítulo primeiro.331
E é no exercício desse seu didatismo, programaticamente projetado, como vimos, na
Ep. 1, 1, e expressamente retomado, como também vimos, nas cartas do livro segundo, que poderemos encontrar um interessante ponto de amparo para reflexões sobre autonomia e liberdade. Analisemos o seguinte trecho:
Feruet auaritia miseroque cupidine pectus: sunt uerba et uoces quibus hunc lenire dolorem possis et magnam morbi deponere partem.
329 Na Ep. 2, 1, há uma interessante observação sobre a relação do público (mais especificamente o do teatro,
mas também até mesmo o das declamações públicas) e o poeta: Verum age et his, qui se lectori credere malunt /
quam spectatoris fastidia ferre superbi. “Verdade! E aos que preferem se fiar no leitor / a sofrer os desgostos do
arrogante público [...]” (Ep. 2, 1, 214-5).
330 Na Ep. 2, 2, há um comentário sobre a aceitação perante os poetas e os leitores: Multa fero ut placem genus
inritabile uatum, / cum scribo et supplex populi suffragia capto. “Muito aceito, pro agrado dos geniosos vates, / se escrevo, e ganho, súplice, os votos do povo.” (Ep. 2, 2, 102-3).
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Laudis amore tumes: sunt certa piacula, quae te ter pure lecto poterunt recreare libello. (Ep. 1, 1, 33-7) Ferve em cobiça e mísera ganância o peito:
há palavras e vozes com que aliviar podes a dor e grande parte da doença depor.
Por amor de elogio te inchas: podem expiar-te decerto três puras leituras do livrinho.
Na superfície, há uma lição de cunho filosófico, vinculada à necessidade de a pessoa se afastar do vício ou, de algum modo, evitá-lo. Exige-se, nesse processo, que se aja como normalmente se faz em relação a uma doença do corpo (morbi, v. 35). Essa referência expressa a vícios morais já no verso de abertura do trecho garante uma atmosfera filosófica. De fato, auaritia (“ganância”, “avareza”) e cupido (“cobiça”, “desejo”) são tradicionalíssimos exemplos de problemas morais que dominam o sujeito, desde o íntimo (pectus, v. 33), qual uma doença, impondo-lhe prisão e dor. Sofrimento. São associadas, logo depois, ao amor pelo elogio, outro problema, a princípio, de conotações morais (que, por outro lado, nos pode remeter ao âmbito dos autoelogios e dos elogios recíprocos dos escritores romanos),332 e é o nosso poeta quem pode oferecer saídas para isso, dando um valor terapêutico ao texto. Saídas libertadoras. Curativas, como o instigante médico Antônio Musa (Ep. 1, 15, 3). E pode fazê-lo porque ele próprio já está curado, como sugere o seu purgatum aurem (“purgado ouvido”, Ep. 1, 1, 7) do início do corpus.333 E o caminho é a leitura do livrinho. O que significa a referência expressa a libellus? Nesse ponto, o trecho, algo obscurecido, se faz vago. Melhor, o que realmente seria esse libellus? O número de leituras, três, lhe concede um caráter místico.334 Seria algum escrito em especial, cuja existência nos é desconhecida? Qualquer escrito sobre o assunto, ou seja, de natureza moral ou até mesmo religiosa? Ou, metapoeticamente, as próprias cartas que Horácio está escrevendo? S. McCarter (2015) percebeu muito bem a ambiguidade que está na atitude do poeta em relação aos seus próprios escritos. A respeito desse mesmo trecho da Ep. 1, 1 (v. 33-7), passagem que, ressaltemos, sempre provocou algum desconforto na crítica, dada a sua feição notavelmente obscura e vaga, e talvez até mesmo enigmática, ela apresentou uma produtiva interpretação metaliterária, à qual aderimos aqui: “for his reader this [a cura e a expiação da ‘doença’] will be achieved through reading the
332 Sobre os autoelogios poéticos, cf. cap. 2, p. 102-105.
333 Podemos pensar aqui também em AP, 301-2: O ego laeuus / qui purgor bilem sub uerni temporis horam! –
“Ah, tolo eu / que me purgo da bile em plena primavera!”
334 Ao número três (e também a alguns outros, como o quatro, o sete e o nove), pensava-se “miticamente”,
correspondia uma força mítico-religiosa. Os pitagóricos, por exemplo, consideravam o número três um elemento de harmonia. Para uma visão mais abrangente a respeito disso, cf. E. Cassirer (2004, p. 254-62).
154 quasi-magical words of Horace’s own epistolary book” (2015, p. 67).335 Nesse sentido, o
libellus não é nada senão esse poema que Horácio encaminha, no caso, a Mecenas. E, avançando na interpretação por meio de um simples deslize metonímico, com base no caráter reconhecidamente programático da Ep. 1, 1, que apresenta uma série de diretivas que serão desenvolvidas e aprofundadas por todo o projeto literário horaciano, são todos os poemas das
Epístolas, inclusive as do livro segundo. Palavras que se dirigem, em última análise, a todos nós leitores.
Embora, algumas vezes, o próprio poeta estratégica e expressamente deprecie os seus escritos,336 o estatuto que ele ambivalentemente lhes concede, de uma forma bastante insidiosa, é altíssimo. Coloca-os num patamar muito elevado. Nesse sentido, pela atribuição enviesada de valor à obra, as palavras de Horácio, detentoras de uma uirtus, ganham, de fato, um enorme poder encantatório. Poderíamos, indo um pouco além da feliz percepção de S. McCarter, até mesmo dizer que as palavras do poeta, nesse caso, têm um valor, de fato, mágico. Um poder curativo. Terapêutico. É exatamente isso que vem insinuado, um poder libertário, como são também libertários os vinhos (AP, 85).
A referência a libellus, portanto, seria, nesse caso, uma autorreferência. Não a algo fora do texto horaciano, mas sim ao próprio texto. Exatamente como acontece no final da Ep. 1, 11, a Bulácio, o amigo que retornava de uma viagem à Grécia. A mensagem ao interlocutor: quod petis hic est, / est Ulubris (“o que buscas, ei-lo!, em Úlubras”, v. 29-30), para além da concretude da pequena e pobre cidade latina, aponta para o próprio texto (hic
est, “aqui está”). Pequeno e pobre. Metapoeticamente, como quem diz: “o que buscas está
aqui diante de ti, o meu poema!” Isso contribui bastante para a ideia de autonomia e liberdade que se constrói internamente no texto e que vem, de algum modo, do próprio texto. Daí dizermos que não é só a maturidade e sua peculiar prudência que garantem liberdade ou autonomia à imagem do poeta. É também o seu poderoso potencial didático, fruto, em grande medida, da sua própria astúcia. Assim, a voz encantadora (o sonum legitimum), a prosa sedutora (o sermo) e as palavras (quase)-mágicas se tornam a grande massa da construção de
335 “Para o seu leitor isso será alcançado através da leitura das palavras quase-mágias do próprio livro das
epístolas de Horácio.”
336 Podemos trazer, dentre outros, os seguintes exemplos de autodepreciacão: a) Nunc itaque et uersus et cetera
ludicra pono, / quid uerum atque decens, curo et rogo et omnis in hoc sum; “Agora, os versos e outros joguinhos deponho, / é à verdade e ao decoro que eu me entrego todo. (Ep. 1, 1, 10-11, grifos nossos); b) Nec
sermones ego mallem / repentis per humum quam res componere gestas [...] “Eu não preferiria / minha prosa
155 um verbo imagético, capaz, como vimos, de arrebatar até os olhos do princeps (cf. Ep. 1, 13, 17-8).
Se entendermos, e isso é, vimos, plenamente possível, o libellus, como o próprio livro de Horácio, então podemos pensar que é o livro que cria regras para si próprio. Ora, se estamos diante de enunciados metapoéticos, a referência a si mesmo faz com que concebamos uma espécie de autonomia que necessariamente nos conduz à própria etimologia do termo: “normas para si”. E não só filosóficas, mas, sobretudo, poéticas. O livro liberta a si mesmo. Enquanto se escreve a si próprio, cria, direta e indiretamente, as próprias regras de sua composição. Em outras palavras, ele é, nesse sentido, as regras de sua composição. Como mais concretamente, por exemplo, a carta à inspiração (Ep. 1, 13).
A autonomia, aliás, é um dos motes que parecem constituir o projeto de literário das
Epístolas. É por isso que, de antemão, sabemos pela boca do próprio ego loquens horaciano que nullius addictus iurare in uerba magistri (“eu não juro atrelado às palavras de um mestre”, Ep. 1, 1, 14). É lógico que, nesse caso, estamos diante de um enunciado do âmbito do que estamos chamando aqui de filosófico e também de um contexto que nos remete ao domínio dos gladiadores, que tinham eles também os seus mestres de luta e treinamento (cf. MAYER, 1994, p. 91). O que não quer dizer, por outro lado, que nesses âmbitos essas palavras se esgotem. Ao contrário, o poético e o filosófico muito mais confluem do que divergem, muito mais se entrelaçam do que se desenlaçam. Complementares, são camadas textuais que se sustentam e amparam mutuamente. E a transposição soa mais natural do que nunca.
Nesses termos, para efeito de comparação, nos será muito interessante e produtiva agora uma aproximação com o DRN, um dos maiores poemas didáticos da cultura latina. Nele, o poeta Lucrécio lança e estabelece, em âmbito latino, num ambicioso e bem sucedido projeto literário, as bases filosóficas do pensamento de Epicuro. Há uma relação entre o filosófico e o poético tão íntima que, em alguns momentos, até mesmo desconfiamos de sua cabal segregabilidade.337 De qualquer modo, o que temos no DRN, é um Lucrécio (chamamos com esse nome a voz poética “principal” do texto) que ensina a um certo Mêmio, o seu principal interlocutor, preceitos e lições escancaradamente epicuristas. Há, aqui, sabemos, um claríssimo ponto de contato com as Epístolas, pois nelas Horácio, em manifesto tom didascálico, se dirige a uma série de amigos, para “aconselhá-los”, segundo a necessidade de
156 cada qual, a respeito de como “viver bem” (recte uiuere) a vida. Mas, para não nos perdermos na diversidade dos interlocutores das Epístolas, tomemos, tendo como horizonte o cotejo com o DRN, como exemplo a Ep. 1, 2, em que Lólio é o destinatário de uma leitura “moralista” de Homero. Uma leitura de sensíveis tons “filosóficos”. Nesse caso específico, a tríade “Epicuro- Lucrécio-Mêmio”, muito bem estabelecida na obra de Lucrécio, poderia corresponder, então, à relação que se estabelece entre Homero, Horácio e Lólio, conforme pensou S. McCarter (2015, p. 80)? Pensamos que não. Não que a aproximação seja absolutamente impossível. Ela é até produtiva, mas o que nos parece mais evidente é que, na heterodoxia das Epístolas, Horácio encontrou a possibilidade de um caminho de liberdade e autonomia que, nesse aspecto, era mesmo completamente vedado à “ortodoxia epicurista” de Lucrécio. Epicuro, o representante máximo de uma escola filosófica que é conhecida exatamente pelo seu nome, o epicurismo, é, no DRN, a “personagem” que assume a figura de um mestre filosófico que necessariamente se contrapõe às demais escolas então existentes (e ainda, de forma explícita, à religião e à mitologia tradicionais de gregos e romanos, cf. HADOT, 1999, p. 179-81). Ser epicurista, nesse sentido, é, sobretudo, não ser acadêmico, não ser estoico, não ser cínico, por exemplo. Ser epicurista não é “não ser” poeta, apesar da certa aversão à poesia que era uma das tônicas do epicurismo.338 Isso é uma marca até mesmo do sectarismo reverberado no
DRN, em cujo seio se mobilizam, de forma deliberada e consciente, somente, ou na maior parte das vezes, preceitos do epicurismo, e, em alguma medida, é traço também do próprio sectarismo que vemos nas disputas filosóficas do séc. I AEC.339 Nesse contexto, o DRN, podemos afirmar, sem reserva alguma, é de alto a baixo um poema epicurista. O “Mestre”, termo com se designa o filósofo grego, ganha um valor muito próximo ao de uma verdadeira divindade.340 Chegou-se ao ponto de o DRN ser considerado um poema épico, e Epicuro, o seu herói, figura complexa formada da combinação de uma persona de comandante militar (inspirada na Ilíada) com uma de personagem errante (inspirada na Odisseia).341 Outros perceberam a grande admiração por Epicuro (FLORIO, 1997, p. 23) ou viram no filósofo grego a figura de uma verdadeira musa inspiradora (GALE, 1994 apud VOLK, 2002, p. 107).
338 Essa é uma das razões por que Lucrécio se esforça por fazer confluir a figura de Epicuro com a de um poeta
(cf. VOLK, 2002, p. 115).
339 Sobre o sectarismo filosófico no séc. I AEC, suas raízes gregas e sua importância na caracterização da
individualidade de um filósofo (ou de alguém que se arrogasse como tal), cf. R. Mayer (1986, p. 56 e ss.).
340 Quare religio pedibus subiecta uicissim / obteritur, nos exaequat uictoria caelo. “A religião, por sua vez,
sujeita aos seus pés, / se anula, sua vitória [de Epicuro, Graius homo, v. 66] ao céu nos equipara” (DRN 1, 78-9).
157 Nas Epístolas, contudo, a questão é bem diferente. Horácio, por sua vez, pode, sem mestre e ipso facto com mestres os mais variados, ele próprio, de algum modo, se tornar um.342 Não que, no DRN, pensado como objeto estético, Lucrécio não o seja, até mesmo pelo lugar didascálico que na ficção do texto ele assume.343 De fato, ele é, mas sua autoridade é toda ela decorrente unicamente, de um ponto de vista material, da de Epicuro, de quem é largamente tributário, para imprudentes não dizermos até um pouco subserviente. De qualquer modo, o que realmente nos parece até mesmo indiscutível é que Horácio está bem distanciado das estratégias discursivas e dos artifícios expressivos que, no caso de DRN, podemos chamar de aberta “militância filosófica”. Nas Epístolas, de fato, não vemos nem sequer pálidos traços de um quase culto a um eventual “Mestre”, independentemente de quem este venha a ser. Nelas, a relação se estabelece sobre outras bases, as quais, por serem diversas, conduzem, por natural consequência, a um ponto de afastamento fundamental em relação à obra lucreciana.
Vejamos, ainda tendo a Ep. 1, 2 como base de comparação, como isso acontece. Homero (equiparado a Epicuro, segundo a aproximação proposta por S. McCarter, 2015), a partir de um raciocínio metonímico, pode ser pensado, de algum modo, representante da poesia como um todo, e não de um tipo específico de poesia, como a épica, por exemplo. Mesmo que o entendamos como alguma espécie de “mestre”, ele é muito mais um expoente poético do que um expoente estrita e especificamente épico. O contraste que, então, se pode fazer, nesse caso, é, no máximo, entre poesia e filosofia, e não entre um tipo de poesia e outro, como no caso de Epicuro em relação às demais escolas filosóficas. Em Horácio, na verdade, o que há, por outro lado, é, pelo menos no que diz respeito à esfera filosófica, uma expressa negação do sectarismo, expressa, lembremos, desde o início da programática Ep. 1, 1, (v. 13- 5).344 Nesse particular, o distanciamento das escolas filosóficas confere a Horácio um enorme poder de liberdade e algum exercício de autonomia, algo muito caro à construção da imagem de um “sábio de verdade”, que pode, então, com facilidade, “realmente” livre das amarras sectárias, transitar pelas diversas doutrinas, questões e lições das mais diferentes visões de
342 É por essa razão que nos parece difícil, nesse sentido, concordar com S. Pinowar (1942, p. 18): “Under the
classical dispensation, Horace in obedience to the principle of the Classical Theory of Imitation took up the literary cross and followed his models with humility and perseverance worthy of a Christian”. “Sob o sistema clássico, Horácio, em obediência ao princípio da ‘clássica teoria da imitação’, apanhou a cruz literária e seguiu os seus modelos com humildade e perseverança dignas de um cristão.”
343 Cf. VOLK, 2002, p. 118, sobre a maestria estética de Lucrécio. Para ela, o DRN “expounds the doctrines of
Epicurus in a uniquely Lucretian way”. “Expõe as doutrinas de Epicuro de maneira singularmente ‘lucreciana’.”
344 Ac ne forte roges quo me duce, quo Lare tuter: / nullius addictus iurare in uerba magistri, / quo me cumque
rapit tempestas, deferor hospes. “Não perguntes que chefe, que Lar me tutela: / eu não juro atrelado às palavras
158 mundo que se arrogavam filosóficas, com elas concordando ou, o que é ainda mais notável, nesse aspecto, delas podendo amiúde discordar. Por consequência, se lhe é garantido, então, um apreciável poder de “autenticidade”. Uma tal liberdade, em ambos os sentidos, é, por