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Considerando as ideias apresentadas sobre hibridismo, como po- demos considerar alguns livros, como o “Livro ilegível”, de Bruno Muna- ri? Seriam objetos híbridos?

Artur Barrio, artista plástico, apresenta dentre sua vasta produ- ção, em que se utiliza de resíduos, dejetos e materiais orgânicos não convencionais, os “cadernoslivros” elaborados entre 1960 e 1970: um “verdadeiro bastidor imagético sem fronteiras de gênero, com inscrições, desenhos, objetos e textos” (NAVAS, 2013, p.51). Dando continuidade ao seu trabalho, em 1977 cria o “livro de carne”, “ferida de leitura que junta arte e vida, cultura e natureza em alta tensão com a sua extrema fisicalidade” (NAVAS, 2013, p. 51). Este sobrevive no território híbrido: arte, design e tantas outras áreas que forem capazes de se relacionar com um trabalho de tamanha multiplicidade.

São muitos os elementos presentes da arte como: a materialida- de, a organicidade, as “diferentes tonalidades e colorações”57 e o tempo,

já que se trata de material que se transforma, se deteriora. Como em outros trabalhos de Barrio, em que cria situações efêmeras, intervenções artísticas no ambiente, “livro de carne” também traz a ação à tona: tanto do açougueiro ao cortar a carne, quanto do espectador ao ler o livro. Além da força poética que apresenta, ainda assim o trabalho se remete ao objeto livro: páginas, entrelaçamento entre elas, sequência, tamanho e o formato de códice.

Além de Barrio, existem outros artistas que se dedicaram e se de- dicam ao livro como linguagem artística, como Lygia Clark, Julio Plaza, Leonilson, Nuno Ramos, Paulo Bruscky, Waltercio Caldas e, paralela- mente, muitos escritos estão sendo produzidos em diálogo com essa

57 Trecho citado pelo autor em texto escrito de 1979. (BARRIO, Artur [site do artista], abril de 2011.

produção. A discussão, porém, começou há um tempo; Ulises Carrión, que aborda o assunto em 1975, considera que nesse livro que nomeamos de livro objeto, livro de artista etc, as palavras não estão ali somente para comunicar, “estão ali para formar, junto com outros signos,

uma sequência de espaço-tempo que identificamos com o nome de livro” (CARRIÓN, 2011, p. 43).

Ele divide a arte de fazer livros em velha e nova58 e define que

na primeira o escritor escreve textos, tendo como função comunicar uma linguagem e na segunda o escritor faz livros, que é “perceber sua sequência ideal de espaço-tempo por meio da criação de uma sequên- cia paralela de signos, sejam linguísticos ou não” (CARRIÓN, 2011, p. 15). Essa percepção do livro como uma sequência de espaço-tempo, percebendo-o como linguagem, se relaciona com a percepção sobre livro que foi compartilhada nas oficinas: algo que contém um espaço para ser explorado e experimentado. A ideia presente nesta pesquisa – livro como espaço de experimentação – tem origem nesse pensamento de Carrión (2011, p. 05) que considera o livro como uma “sequência de espaços, em que cada um desses espaços é percebido em um momento diferente - um livro também é uma sequência de momentos”. Assim, o livro possui um espaço e um tempo que lhe são próprios e que apresenta abertura para a experimentação.

A página, neste sentido, se transforma em espaço que concretiza a linguagem ou então na “música da poesia não cantada” (CARRIÓN, 2011, p. 25). Carrión considera a poesia concreta ou visual como inova- doras nessa nova arte de fazer livros, já que possuem uma maneira de ocupar o espaço da página que dialoga com o conteúdo que comunica. Os poetas concretos Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e o artista Julio Plaza tiveram importante influência para a “nova arte de fazer livros”. A partir dos poemas concretos, que junto

58 Grifo do autor.

com as palavras trazem a possibilidade do espaço para a poesia, foram possíveis novas formas de se pensar o objeto livro. O trabalho “Poe- móbiles”, de 1974, é um exemplo disso. Construído a partir de poesias concretas, Augusto de Campos e Julio Plaza criaram um espaço para que as palavras ganhassem movimento; o papel passou a desempenhar uma função e dialogar com o sentido que pretendiam.

Figuras 22 e 23. “Poemóbiles IV” e “Poemóbiles V” (1968/1974), de Augusto de Campos e Julio Plaza. Técnica: Off-set em cores sobre dobradura de papel.

Dimensões: 21,3 X 16,3 X 5 cm. Disponível em: <http://cantarapeledelontra.blogspot. com.br/2010/12/galeria--poemobiles-ii_12.html>. Acesso em: 05/01/2014.

Organizados em formato de caixa, “Poemóbiles” apresenta 10 envelopes com poesias de natureza verbal e não-verbal, que se movi- mentam com o abrir e fechar dos papéis. O exemplo acima, “Poemóbiles IV”, apresenta a palavra “Entre” e com o movimento do papel, outras se revelam: “Ter”, “Ver” e “Sub”. O “Poemóbiles V” exibe em primeiro plano “Impossível” e por trás: “Não ser” e “Possível”. O manuseio gera a brincadeira, os encontros entre as palavras e as imagens a que remetem.

As reflexões, a partir do olhar sobre o livro como objeto híbrido, nos levam a pensar sobre as áreas que definimos como arte e design e como seus limites se afrouxam, se tornam fluidos. Pensar no livro, no caminho que percorreu e nas reverberações da atualidade é pensar

também em que sociedade vivemos. Os objetos são reveladores sociais, trazem interesses, pensamentos, memórias e

[...] ao refletirmos sobre a história da humanidade, podemos perceber como os objetos e as imagens são importantes, pois são estas que ao ficarem registradas, pontuam e constroem a própria história do homem, compondo a cultura material (MOURA, 2003, p. 10).

Assim, pensar nos objetos híbridos é pensar sobre o próprio mundo e os objetos que nos cercam. As linguagens em diálogo criam no- vos territórios; o livro, nesse sentido, ganha novo olhar, novas pesquisas e experimentações.

Ver com as mãos

tocar com os olhos

3

Possibilidades de leitura,

Leitura como Possibilidade

Legendas da narrativa “Ver com as mãos tocar com os olhos”

Figura 24. Durante oficina “É um livro...?”,

na Fábrica de Cultura Jardim São Luís em 12/03/2014. Foto: Indy Naíse. Fonte: arquivo pessoal.

Figura 25. Durante oficina “É um livro...?”,

na Fábrica de Cultura Vila Nova Cachoeirinha em 14/03/2014. Foto: Alexsandra Xavier. Fonte: arquivo pessoal.

Figura 26. Durante oficina “É um livro...?”,

na Fábrica de Cultura Jardim São Luís em 12/03/2014. Foto: Indy Naíse. Fonte: arquivo pessoal.

Figura 27. Durante oficina “É um livro...?”,

na Fábrica de Cultura Jardim São Luís em 12/03/2014. Foto: Indy Naíse. Fonte: arquivo pessoal.

Figura 28. Durante oficina “É um livro...?”,

na Fábrica de Cultura Jardim São Luís em 12/03/2014. Foto: Indy Naíse. Fonte: arquivo pessoal.

Figura 29. Durante oficina “É um livro...?”,

na Fábrica de Cultura Jardim São Luís em 12/03/2014. Foto: Indy Naíse. Fonte: arquivo pessoal.

Figura 30. Durante oficina “Livro Adentro”, na Casa das Rosas em 01/04/2012.

Foto: Camila Feltre. Fonte: arquivo pessoal. Figura 31. Durante oficina “É um livro...?”,

na Fábrica de Cultura Jardim São Luís em 12/03/2014. Foto: Indy Naíse. Fonte: arquivo pessoal.

3. Possibilidades de leitura,