7. EMPIRICAL ANALYSIS
7.2 Empirical results
Ao fechar do livro, quando aquele mundo se encerra diante dos nossos olhos, será que alguma coisa permanece em nós? A experiên- cia de leitura reverbera na percepção que temos do mundo?
O menino, que participou da oficina na Biblioteca Álvares de Azevedo, e leu a imagem (Figura 39) de “Espelho” como “uma porta para outro caminho”, surpreende os participantes presentes. De pernas cru- zadas e dedos entrelaçados abaixo do queixo, ele compartilhou a leitura que aponta para o desfecho da história como um início e não um fim.
A partir da imagem (Figura 40) os participantes dialogam: [O menino continua a leitura]
Acho que ela vai voltar para aquela solidão... Porque tá clareando, tá ficando tudo branco de novo.
[Muitas falas dão vozes às possibilidades de caminhos para o final da história]
[Alguém palpita] Vai vir outro espelho.
Ela vai tentar descobrir o que tem do outro lado do espelho. Novamente.
De novo.
E na última página (Figura 41) seguem as leituras:
[Alguém diz] Foi pra outro lado. Como se a história não tivesse fim.
A questão colocada no início do texto: “A experiência de leitura reverbera na percepção que temos do mundo?”, a partir da experiência relatada na Biblioteca Álvares de Azevedo, ganha novas reflexões. A leitura do menino sobre a imagem abre novos caminhos e interpreta- ções para a história, onde antes, parecia não existir. Essa experiência nos atenta para o papel fundamental que as imagens exercem sobre nós, na medida em que criamos relações com a realidade e que alteram a lei- tura que fazemos do mundo. Como diria Paulo Freire, na leitura “lingua- gem e realidade se prendem dinamicamente“ (FREIRE, 2006, p. 11).
Se considerarmos o excesso de imagens que nos rodeiam hoje em dia, será que estamos atentos ao quanto elas nos afetam? Lemos ou vemos as imagens? Ana Mae Barbosa traz números que surpreendem; segundo a autora, 82% de nosso conhecimento informal vem por meio das imagens (BARBOSA, 2012, p. 22). Diante disso, questiono: “O que a leitura de imagem pode reverberar na nossa vida?” e “O que significa ler imagens nos dias de hoje?”
Para Barbosa, a leitura de obras de arte, considerando o contexto escolar, é “questionamento, é busca, é descoberta, é o despertar da capa- cidade crítica, nunca a redução dos alunos a receptáculos das informa-
ções do professor” (BARBOSA, 1998, p. 40). A leitura de imagem é uma das ações, junto com a contextualização e o fazer, para a experiência com a produção artística, dentro da proposta sistematizada por Ana Mae Barbosa, a Abordagem Triangular do ensino da arte.
A designação “leitura de obra de Arte”, utilizada na Abordagem
Triangular do ensino da arte, foi inspirada no movimento de crítica literá-
ria e ensino da literatura americana, Reader Response74 (BARBOSA, 1998,
p. 34). Esse movimento valoriza o objeto, mas não o cultua, privilegian- do a cognição e considerando a importância do emocional na compreen- são da obra de arte. “Assimilação e acomodação na relação leitor-objeto (reader-response) são processos fundamentais que se impõem” (BARBO- SA, 1998, p. 35).
Barbosa considera a leitura fundamental no país em que vivemos “onde os políticos ganham eleições através da televisão” e considera a lei- tura de imagem artística humanizadora (BARBOSA, 1998, p. 35). Assim, enfatiza a leitura como interpretação cultural, com forte influência de Paulo Freire: “leitura de palavras, gestos, ações, imagens, necessidades, desejos, expectativas, enfim, leitura de nós mesmos e do mundo em que vivemos” (BARBOSA, 1998, p. 35).
Para a pedagoga e pesquisadora da imagem na literatura infantil, Hanna Araújo, “a prática de leitura de imagem amplia as possibilidades de atuação no mundo, capacitando o sujeito a discernir, na realidade atual, os usos e abusos da imagem” (ARAÚJO, 2010, p. 164). Barbosa complementa destacando que o desenvolvimento da capacidade de ana- lisar e auferir significados à imagens de obras de arte prepara para ver reflexivamente imagens de outras categorias (BARBOSA, 1998, p. 45).
74 O movimento Reader Response não despreza os elementos formais, mas não os prioriza como
os estruturalistas o fizeram; valoriza o objeto, mas não o cultua, como os desconstrutivistas; exalta a cognição, mas na mesma medida considera a importância do emocional na compreensão da obra de arte. O leitor e o objeto constroem a resposta a obra numa piagetiana interpretação do ato cogni- tivo e, mais ainda, vigotsquiana interpretação de compreensão do mundo (BARBOSA, 1998, p. 35). Figuras 40 e 41. “Espelho” (2003), Suzy Lee. Foto: Camila Feltre. Fonte: arquivo pessoal.
Ler imagens, assim, pode ser um ato muito importante para olharmos o mundo de maneira crítica. Ao lermos livros-imagens, estamos dedican- do o olhar aos detalhes, aos traços, às formas e cores, aos movimentos e vazios presentes, explorando as suas possibilidades de leitura. Quando isso é feito no coletivo, as possibilidades se ampliam, porque percebemos que cada um interpreta a sua maneira, de acordo com as suas experiên- cias de vida, o que traz uma diversidade de leituras.
Para Analice Dutra Pillar, professora e pesquisadora do ensino de artes visuais,
ler uma obra seria, então, perceber, compreender, interpretar a trama de cores, texturas, volumes, formas, linhas que consti- tuem uma imagem que se tornará significativa quando se estabe- lecerem relações entre o objeto de leitura e nossas experiências de leitor (PILLAR, 1999, p. 15).
Nesse sentido, a leitura de imagem pode estimular aos sujeitos uma percepção mais apurada, atenciosa e consciente frente às imagens que nos rodeiam, nos ajudando a compreender o quanto podem nos influenciar e afetar. Nesse caminho, a leitura de livros-imagem pode provocar muitas leituras: de imagens, de gestos, de movimentos, de nós mesmos e do mundo.
Figura 42. Durante oficina “É um livro...?”, na Fábrica de Cultura Vila Nova Cachoeirinha em 14/03/2014. Foto: Alexsandra Xavier. Fonte: arquivo pessoal.