O rio que fazia uma volta atrás da nossa casa era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa. Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz por trás de sua casa se chama enseada. Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás de casa. Era uma enseada. Acho que o nome empobreceu a imagem.
Manoel de Barros75
Parece que os livros-imagem dizem: “Eu vou mostrar pra você. Apenas sinta.”
Suzy Lee76
Las ilustraciones son las primeras ventanas que se abren al sentido de una historia y son a la vez el punto de partida para que el lector construya sus propios sentidos.
Juan Mata77
Já vi, só tem desenho, O meu só tem imagens!, Já vi, tia! Falas como
essas foram frequentes durante a trajetória de oficinas que realizei, participando de encontros entre crianças e livros. Geralmente, os livros- -imagens são vistos ou lidos com muita rapidez, não recebendo a sua de- vida atenção. A palavra “só”, que acompanha algumas das falas, provoca impressões de que falta algo, de solidão. Gramaticalmente, a palavra “só” pode ser um adjetivo trazendo ideias de desacompanhado, sozinho; e um advérbio, tendo como sinônimos as palavras apenas, unicamente,
75 BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2013, p. 279.
76 LEE, Suzy. A trilogia da margem: o livro-imagem segundo Suzy Lee. São Paulo: Cosac Naify,
2012, p. 148.
77 MATA, Juan. Tú puedes ser un cocodrilo (Leer, imaginar, comprender). In: Actas do I Congresso
Internacional Arte, Ilustración y Cultura Visual en Educación Infantil y Primaria: construcción de identidades. Granada, Espanha, 2010, p. 65.
somente78. Nas frases “Já vi, só tem desenho!” e “O meu só tem imagens”
o advérbio “só” remete a uma falta, em que não há uma completude no que se refere, no caso, ao livro. É um livro “só” com imagens? Quais discussões podemos trazer a partir destas percepções? Haveria ainda um preconceito velado por trás das nossas palavras, em que as imagens estariam subordinadas às palavras?
Para pensar sobre essas questões, trago a palavra ilustração para discussão. No Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, encontramos as definições: “Ação ou resultado de ilustrar; Conjunto de imagens (dese- nho, gravura etc.) que acompanham um texto; Conhecimento, saber” (AULETE, 2012, p. 474). A partir da etimologia do verbo “ilustrar”, oriundo do latim ilustrare, temos: “tornar ilustre, dar glória a, esclarecer, elucidar” (CUNHA, 2010, p. 349). A mesma palavra do latim, ilustrare, originou a palavra “iluminar”, que significa: “derramar luz sobre, tornar claro; esclarecer, ilustrar” (CUNHA, 2010, p. 349). A palavra ilustração traz ideias, a partir de suas definições de iluminar algo, esclarecer, tornar ilustre, no caso, o texto. Essas informações contribuem para ampliarmos a reflexão na tentativa de compreender como a ideia das imagens, subor- dinadas ao texto, está relacionada com o próprio significado da palavra.
As chamadas iluminuras foram consideradas as primeiras ilus- trações que se tem notícia. Iluminura é a “ilustração de manuscritos de livros medievais, sobretudo missais, caracterizada por pintura de cores vivas, representando flores, personagens e cenas do texto, quase sem- pre começados por caprichoso desenho colorido da letra inicial” (SILVA, 2014, p. 251). Para Laura Teixeira, durante esse período, a habilidade de ler e escrever era dominada em geral pelos homens do clero e
as ilustrações medievais, denominadas ‘iluminuras’ – tinham esse nome porque eram feitas com reluzentes folhas de ouro – passaram a ser destinadas a ‘embelezar’ os manuscritos e também a catequizar os iletrados (MEGGS apud TEIXEIRA, 2010, p. 21).
78 Dicionário Michaelis. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/definicao/
Assim, para Teixeira, esse fenômeno de que as imagens estariam presentes nos livros para servir como adorno ou para torná-lo mais acessí- vel à crianças ou aos “iletrados”, possa estar relacionado com a hierarqui- zação texto-imagem estabelecida no período medieval, quando a habilida- de de ler e escrever ainda era restrita a poucos (TEIXEIRA, 2012, p. 01)79.
Hoje em dia, o chamado “livro ilustrado”80 traz a discussão
sobre a relação entre imagem e palavra, incluindo também o design do livro. Para Carole Scott e Maria Nikolajeva, que pesquisam sobre o livro ilustrado81,
tanto as palavras como as imagens deixam espaço para os leito- res/espectadores preencherem com seu conhecimento, experiên- cia e expectativas anteriores, e assim podemos descobrir infinitas possibilidades de interação palavra-imagem (SCOTT e NIKOLA- JEVA, 2011, p. 15).
No livro ilustrado, não deveria haver subordinação de uma lin- guagem sobre a outra, os códigos verbais e visuais deveriam coexistir paralelamente e de formas complementares. “O desenho não é enfeite”, diz Angela lago, autora e ilustradora, e complementa: “no meu livro não é ilustração, é livro o que eu estou fazendo” (LAGO apud MORAES, 2012, p. 224).
Suzy Lee, criadora de narrativas visuais como “Espelho”, conta que não exclui as palavras de seu livro quando pensa em um projeto e revela: “Se o livro tem ou não palavras, não é o primeiro ponto conside- rado quando faço um livro ilustrado. Meu interesse principal é expressar da melhor maneira possível uma ideia” (LEE, 2012, p. 143).
79 TEIXEIRA, Laura. Sobre o conceito de ilustração. Material para o curso: A ilustração na literatura
infantil e juvenil (maio de 2012).
80 Livro-ilustrado é um objeto que leva em consideração um conjunto coerente de interações
entre textos, imagens e suportes (LINDEN, p. 09, 2011). Pesquisas recentes se dedicam ao livro ilustrado, como os livros: Traço e Prosa, organizado por Odilon Moraes (2012); Livro-ilustrado: pala-
vras e imagens, de Maria Nikolajeva e Carole Scott (2011) e Para ler o livro ilustrado,
de Sophie Van der Linden (2011).
81 E autoras do livro Livro ilustrado: palavras e imagens (São Paulo: Cosac Naify, 2011).
Por isso, associar livro de imagem82 a livro sem palavras é um
equívoco, segundo Angela Lago. Para a autora, livro de imagem é aquele em que a imagem tem um viés narrativo, independente de ter ou não ter texto, e complementa que essa visão é comum fora do Brasil, nos chama- dos picturesbooks ou albuns (LAGO apud MORAES, 2012, p. 234).
Evely Arizpe, especialista em literatura infantil na Faculdade de Edu- cação da Universidade de Glasgow, na Escócia, acrescenta que dificilmente vamos encontrar um livro sem palavras, porque elas estão na capa no título e nome do autor, na contracapa ou mesmo incorporada em alguma imagem, como o nome de rua, por exemplo. Por isso, este tipo de livro é conhecido em inglês como “livro álbum quase sem palavras” (nearly word-
less picturebook); em espanhol se utiliza o termo “livro álbum sem palavras”
e às vezes também “leitura de imagens” e os italianos utilizam o termo em inglês silent books (livros silenciosos) (ARIZPE, 2014)83. A pesquisadora leva
em consideração que “esta ideia de livro ‘silencioso’ ou ‘mudo’ sugere que é o leitor quem tem que colocar a ‘voz’ ”(ARIZPE , 2014).
O livro-imagem, pensado geralmente para crianças ainda não alfa- betizadas, quando são oferecidos àqueles que já estão alfabetizados, pro- vocam uma mudança de estado nestes, dedicando atenção às imagens.
Apesar de a gente viver numa sociedade que a imagem é muito importante, [...] a presença dessa imagem persuasiva na vida da gente, existe pouca reflexão na leitura de imagem, mas isso está começando a mudar um pouco (CAMARGO, 2008 apud ARAUJO, 2010, p. 100).
Para Suzy Lee, “o mais desafiador na criação de livros-imagem é ser capaz de conduzir, com delicadeza, os leitores e, ao mesmo tempo, abrir todas as possibilidades de diversas experiências de leitura” (LEE, 2012, p. 146). Para a autora, um livro ilustrado bem-sucedido deixa espa-
82 Angela Lago utiliza o termo “livro de imagem” e não “livro-imagem”.
83 ARIZPE, Evelyn. Imagens que convidam a pensar: o “livro álbum sem palavras” e a resposta leitu-
ra. Revista Emília [online], Fevereiro de 2014. Disponível em: <http://www.revistaemilia.com.br/ mostra.php?id=380>. Acesso em: 05/03/2015.