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A pesquisa foi realizada em duas etapas, envolvendo procedimentos distintos de coleta de dados. Na primeira buscamos interpretar as representações sociais de meio ambiente de um grupo de 10 mulheres, moradoras do bairro Vale em Manaus (AM). Para tal recorremos às grupos focais, entrevistas semi-estruturadas e visitas ao bairro. Na segunda etapa procuramos verificar se as representações sociais identificadas poderiam ajudar no planejamento de uma intervenção de educação ambiental popular com um grupo maior de mulheres do bairro. Para esta etapa o procedimento consistiu de observações direcionadas e observações flexíveis de uma oficina proposta ao grupo. Iniciamos com uma abordagem sobre os grupos focais.

4.4.1 A técnica de grupos focais

Johnson (1996, p. 518) explica que historicamente a técnica de grupos focais tem sido utilizada nas pesquisas de marketing e opiniões políticas, o que a levou a ser associada ao positivismo, ao behaviorismo e ao empirismo. Mas o autor constata que essa técnica também pode ser utilizada para entender atitudes, convicções, valores, idéias e percepções dos participantes, pois abre um diálogo entre estes. Então, o encontro requer os participantes e um moderador ou moderadora, o trabalho dele ou dela é verificar que todos ouçam e respeitem as opiniões dos outros. Portanto, Gilbert (1993, p. 137) explica que essa técnica oferece uma oportunidade para discutir vários tópicos e observar a interação em um grupo de pessoas. Ele reitera que o papel do moderador ou moderadora é facilitar a discussão pela sua participação, suas sugestões e suas observações e garantir que a informação coletada seja reproduzida com precisão e rigor, pois precisa ser um diplomata e minimizar conflitos dentro do grupo. O conflito pode ser positivo em termos de mostrar opiniões diferentes, mas não pode haver pessoas discordando sem ouvir as outras ou todas falando ao mesmo tempo, o que dificulta a coleta de informação. Flick (1998, p. 115) complementa dizendo que o moderador ou moderadora tem que equilibrar seu comportamento entre guiar o grupo diretamente e moderá- lo indiretamente.

Flick (ibidem., p. 123) sugere que a técnica de grupos focais deveria reunir pessoas desconhecidas entre si, e não grupos que se conhecem, porque, quando se agrupam pessoas conhecidas, elas carregam códigos comuns cheios de sentidos implícitos. Reconhecemos a

pertinência da recomendação, mas sugerimos que depende da natureza da pesquisa. Nessa pesquisa, o fato de termos tido contato anterior com o grupo facilitou o trabalho. O conhecimento do cotidiano das participantes permitiu um entendimento melhor dos diálogos e do espaço social que estavam normalmente em decurso, o que é importante para interpretar a informação coletada. Como os papéis da moderadora são amplos, seria ideal ter uma outra pessoa presente como moderadora, para trocar impressões e observações, assim como para esclarecer pontos pertinentes. Nesta pesquisa, duas alunas de pós-graduação participaram em dois encontros, ajudando no processo, mas em função de outros compromissos a continuação dessa atividade não foi possível.

Os livros sobre métodos não especificam a quantidade de participantes ou o número de encontros necessários para realizar uma pesquisa utilizando a técnica de grupos focais. Acatamos aqui a sugestão de Gilbert (1993) e Khan e Manderson (1992), que sugerem que um número de 8 a 10 pessoas tende a ser executável para os grupos focais. Nessa pesquisa o número foi de 10 participantes. Afirmamos que ter mais de 10 seria difícil, não somente para ter uma interação melhor entre as pessoas e manejar o grupo, mas também para decifrar as falas das gravações em áudio depois.

Khan e Manderson (ibidem.) recomendam que, para fornecer informações mais profundas, os grupos focais precisam ser flexíveis, especialmente em países em desenvolvimento, e não como tradicionalmente se estrutura entrevistas e pesquisa, com regras relativamente rígidas. Concordamos com essa posição, mas os grupos focais precisam ser flexíveis em todas as localidades onde se utilize a técnica, para responder à situação social, ao tempo disponível dos participantes e ao objetivo da pesquisa, que inclui a condição sócio-econômica do local.

Khan e Manderson concluem que deve existir uma escala contínua de grupos focais de formais até informais. Os formais são mais estruturados e em um lugar determinado, e os informais consistem de conversações de grupo, que ocorrem quando o investigador está no campo de pesquisa. Adotando esta sugestão de Khan e Manderson, nossa técnica de grupos focais foi um meio-termo entre formal e informal.

Em referência a quantos encontros de grupos focais são exigidas para assegurar uma coleta de dados adequada, não existe muita informação a respeito. Khan e Manderson (ibidem.) sugerem que quando a técnica é utilizada em complementação a outras, o número delas depende de considerações pragmáticas. Já outros autores propõem que pelo menos dois encontros devem ser feitos para cada variável pertinente à investigação. Essas informações não ajudaram muito na nossa pesquisa, tendo os encontros cessados quando os campos de investigação ficaram repetitivos e já havíamos coletado material suficiente para analisar as

representações sociais. Agora vamos explicar os procedimentos e algumas dificuldades que enfrentamos empregando esta técnica.

4.4.2 Os procedimentos dos grupos focais

Foram feitos 17 encontros de grupos focais, em uma sala no INPA, com a participação média de 8 das 10 mulheres; para os temas e as interações ver quadro 4.1. Não foi feito um contrato escrito com as mulheres, mas os objetivos da pesquisa e a posterior utilização das informações para publicação, sem seus nomes, foram explicados, e as normas das reuniões estipuladas. Os encontros aconteceram uma vez por semana, no mesmo dia e horário, os mais convenientes para as mulheres. A duração dos encontros foi em média de uma hora, todos foram gravados em áudio e as transcrições feitas no mesmo dia pela pesquisadora.

Em relação ao tempo de transcrição, Khan e Manderson (1992, p. 65) dizem que cada hora de registro requer cinco horas de transcrição. Mas isso depende da situação e do equipamento. Nessa pesquisa o tempo foi em torno de oito horas para transcrever cada hora registrada, talvez porque o português seja o segundo idioma da pesquisadora. Em alguns momentos foi difícil entender o discurso na fita, nestas situações uma outra pessoa, brasileiro ou brasileira, ajudou. Mas nem sempre ele ou ela conseguiram, e nestas ocasiões as discussões foram interpretadas de memória. Isto demonstra a importância de gravações em áudio ou outros registros serem transcritos no mesmo dia e preferivelmente pelo pesquisador. Porque há certos momentos de silêncio ou trocas e olhares que só alguém presente na ocasião pode entender e estar atento a estes momentos, além das partes que são difíceis de decifrar.

Uma dificuldade nas transcrições foi de como colocar as falas das mulheres do grupo em uma forma escrita legível, pois elas não tinham um vocabulário elaborado, se repetiam muito, às vezes não terminavam suas frases e freqüentemente respondiam às perguntas fazendo outras para afirmação (como “não é?”, por exemplo). Para que as transcrições não apresentassem um discurso sem sentido seguimos as sugestões de Patai (1988, p. 147) e colocamos as falas em textos legíveis, tendo por produto registros escritos distantes dos falados.

Finalmente, através da experiência desta pesquisa afirmamos que a técnica de grupos focais é mais do que um meio de coletar dados. Observamos que também poderá ser vista como um ambiente para acomodar a pedagogia dialógica “freireana”, pois deu um espaço para a construção de conhecimento em grupo. As mulheres construíram conhecimento através de intercâmbios de informação, podendo discutir assuntos pertinentes e influentes nas suas vidas. Este fato é ilustrado nas declarações das mulheres, como “Eu aprendi coisas”, “é

bom interagir e falar com outras mulheres”, “eu me sinto mais à vontade com pessoas e discutir coisas que eu nunca ouvi mencionar antes”, “eu pensei que eu era a única com este problema” e “minha vida mudou”. Existem autores como Patton (1990, p. 335) que dizem que a técnica de grupos focais não deve ser vista como um fórum para resolver problemas ou tomar decisões. Diante dos exemplos colocados nesta pesquisa não concordamos com Patton, mas afirmamos que é uma técnica que permite múltiplos usos, que deve ser mais explorada como uma possível ferramenta para a educação ambiental. Explicaremos a seguir as visitas ao campo, que foram complementares aos grupos focais. O detalhamento dos encontros de grupos focais encontra-se em o artigo dois.