6.1. Objectivos
“Estávamos sentados numa clareira, cada um de nós mergulhado num livro, como se diz o verso: «Fui um leitor fiel» . E agora o tempo da leitura, ao que se diz, acabou? Eu, que não tinha mais nada a não ser o livro, agora já nem o livro tenho? Já não tenho futuro? – Mas afinal, o que era isso a leitura?”
Peter Handke, O Jogo das Perguntas
Que significado atribuem os jovens à leitura? Que lugar ocupa entre as actividades culturais dos jovens frequentadores da Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim?
Estas questões, entre várias, impulsionaram a realização deste projecto de investigação que resulta de um trabalho de campo através da aplicação de um inquérito por questionário. Foram definidos os seguintes objectivos na elaboração do referido inquérito:
a) Traçar o perfil dos jovens frequentadores da Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim
(idade; sexo; nível de escolaridade; grau de instrução e classificação profissional dos pais do inquirido);
b) Analisar a associação entre a intensidade da prática de leitura dos jovens e as variáveis
de caracterização: nível de escolaridade, sexo e idade;
c) Relacionar os hábitos de leitura dos inquiridos com o capital escolar dos pais;
d) Verificar se o contacto com a leitura no seio da família de origem, no decurso da
infância, predispõe futuramente a uma mais intensa prática de leitura de livros;
e) Identificar alguns dos aspectos principais das práticas de leitura dos jovens,
nomeadamente, os seus objectivos, frequência, importância relativa no contexto das demais actividades de ocupação de tempos livres;
f) Diagnosticar as práticas de leitura de livros, nomeadamente, tipos preferidos, contextos
g) Relacionar o facto dos jovens possuírem cartão de leitor com a requisição de livros e
leitura na biblioteca.
h) Comparar a prática de leitura de impressos com as demais actividades desenvolvidas na
biblioteca, contrapondo-a com a utilização dos novos suportes multimédia.
i) Identificar os diferentes significados atribuídos ao acto de ler.
O objectivo central do estudo resume-se a analisar os hábitos e práticas de leitura de um segmento de população jovem (15 – 25 anos) que frequenta um contexto espacial definido (Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim).
6.2. Hipóteses
Segundo Quivy e Campenhoudt:
“a organização de uma investigação em torno de hipóteses de trabalho constitui a melhor forma de a conduzir com ordem e rigor, sem por isso sacrificar o espírito de descoberta e de curiosidade que caracteriza qualquer esforço intelectual digno deste nome. Além disso, um trabalho não pode ser considerado uma verdadeira investigação se não se estrutura em torno de uma ou de várias hipóteses” (1992, p. 119).
Eis algumas formuladas a propósito deste trabalho:
a) As práticas e representações sobre a leitura são condicionadas pela socialização
primária, nomeadamente, pelo grau de familiarização com a leitura e a escolaridade dos pais, ou seja, quanto maior for o grau de familiaridade com a leitura e mais elevado o nível de escolaridade dos pais, mais intensas e diversificadas serão as práticas de leitura dos inquiridos;
b) Os hábitos de leitura dos jovens são condicionados por constrangimentos contextuais e
conjunturais. A escola, enquanto veículo de transmissão de saberes contribui para a estruturação das imagens mentais construídas a respeito da leitura enquanto prática cultural;
c) A leitura assume a função marcadamente instrumental – os hábitos de leitura surgem
como resposta às necessidades de cariz escolar;
d) A leitura de livros não escolares assume uma posição secundária no conjunto das
restantes práticas de ocupação de tempos livres dos jovens.
Na perspectiva de Quivy e Campenhoudt, “a hipótese apresenta-se, na realidade, como uma resposta provisória à pergunta de partida da investigação” (1992, p. 138). Os autores
consideram ainda que “raramente é suficiente uma única hipótese para responder à pergunta de partida” (Quivy & Campenhoudt, 1992, p. 140). Daí que tenham sido formuladas várias hipóteses, resultantes das diversas leituras realizadas sobre o tema em estudo. Numa etapa posterior de investigação, estas hipóteses são passíveis de verificação empírica quando confrontadas com os dados apurados.
6.3. Metodologia: o inquérito por questionário de administração directa
Neste projecto de investigação, a estratégia metodológica utilizada foi o inquérito por questionário “de administração directa” (Quivy & Campenhoudt, 1992, p. 190), pois coube ao próprio inquirido preenchê-lo.
Segundo Ghiglione e Matalon, “O inquérito pode ser definido como uma interrogação particular acerca de uma situação englobando indivíduos, com o objectivo de generalizar” (1997, p. 7). Através desta metodologia foi inquirida uma amostra acidental de jovens utilizadores da Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim que se situam na faixa etária entre os 15 e os 25 anos. Na óptica destes autores, “para construir um questionário, é necessário, evidentemente, saber de maneira precisa o que se procura, assegurar-se que as perguntas têm um sentido, que todos os aspectos da questão foram abordados…”. Neste sentido, o inquérito foi concebido tendo em vista recolher elementos de caracterização sócio-demográfica; conhecer as práticas de leitura e o âmbito de actividades desenvolvidas no decurso dos tempos de lazer; analisar o papel das estruturas disponíveis na biblioteca e avaliar o seu impacto junto dos utilizadores desse espaço e proceder à avaliação dos hábitos de leitura.
A precisão e objectividade inerentes à elaboração do questionário são também defendidas por Ketele e Roegiers que referem que “a montante da utilização de um questionário de inquérito, é essencial captar bem o objectivo a atingir, bem como o tipo de informações a recolher” (1999, p. 36). A este propósito, as variáveis mais significativas do estudo são as seguintes:
a) Caracterização sócio-demográfica (idade; sexo; nível de escolaridade; nível de instrução
e classificação profissional dos pais do inquirido);
b) Práticas de leitura (relacionamento primário com a leitura; hábitos de leitura; significado
modalidades de leitura; locais de leitura; livros lidos/ano; géneros de livros preferencialmente lidos; leitura de jornais/revistas; leitura e tempos livres);
c) Bibliotecas (frequência da biblioteca; conhecimento das actividades da biblioteca e
acompanhamento na ida; funções atribuídas à biblioteca; requisição de livros e leitura na biblioteca);
d) Suporte multimédia (regularidade na utilização de suportes multimédia e respectivo local
de uso; motivo da sua utilização).
Previamente à realização do inquérito, foram efectuadas algumas entrevistas exploratórias com o objectivo de descobrir aspectos a ter em conta na construção do inquérito. As entrevistas foram efectuadas junto do público-alvo a que o estudo diz directamente respeito, jovens entre os 15 e os 25 anos que frequentam a Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim. Constituíram, deste modo, um instrumento de trabalho muito útil para a elaboração do inquérito por questionário de administração directa.
O questionário foi pré-testado junto de oito jovens. Em função das respostas e comentários dos inquiridos, procedeu-se à revisão do inquérito e à elaboração da versão final (ver anexo 1).
A aplicação dos inquéritos teve início no dia 11 de Fevereiro e terminou no dia 13 de Abril, ou seja, a sua aplicação aconteceu durante cerca de 2 meses. Os únicos critérios de selecção dos inquiridos foram a sua idade - entre 15 e 25 anos - e disponibilidade para o preenchimento do questionário. Quase a totalidade dos frequentadores da biblioteca interpelados aceitaram prontamente preenchê-lo, constituindo uma amostra de 120 inquiridos.
Posteriormente, a análise estatística dos dados dos inquéritos realizados foi efectuada através do programa informático SPSS (Statistical Package for Social Sciences).