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A importância da Qualidade de Vida em doentes mentais crónicos tem sido cada vez mais reconhecida, uma vez que esta apresenta implicações para o bem-estar dos doentes, melhorias a nível dos recursos para a Saúde e uma inúmera diversidade de elementos que são necessários para a boa vida diária e uma melhor Qualidade de Vida (Ridder et al., 2008; Vilhena et al., 2014; Vieira et al., 2011).

Na atualidade, as políticas de Saúde Mental a nível nacional e internacional têm definido e focalizado a sua atenção no processo de desinstitucionalização e no desenvolvimento e aplicação de medidas de Reabilitação Psicossocial inseridas na comunidade. Há um foco na expansão do papel dos cuidados primários e da criação de equipas multidisciplinares para a Saúde Mental que trabalhem comunitariamente. Os estudos indicam que o sentido de comunidade, englobando a satisfação com a mesma, tem implicações na Reabilitação Psicossocial pois dá ênfase à importância que a comunidade exerce na recuperação individual de cada sujeito (Anéis, 2009).

Os resultados obtidos nesta investigação científica evidenciam a importância que um maior sentimento de pertença e de satisfação com a comunidade tem em níveis mais elevados de bem-estar e de Qualidade de Vida. Segundo Ornelas (2005), Portugal conseguiu nos últimos 15 anos, criar uma rede de suporte comunitário a nível nacional que proporciona mais suporte e que procura dar resposta às necessidades concretas das pessoas com doença mental e dos seus familiares. Assim é importante que as políticas de saúde continuem a incidir na

promoção e estabelecimento de políticas de integração em contextos comunitários para

consolidar o desinstitucionalização e possibilitar a reintegração plena destes doentes, idealmente seguindo o modelo comunitário de intervenção, ou seja, baseando-se na ideia de que a maioria das pessoas consegue crescer para além do facto de ter uma doença mental grave, alcançando uma vida plena de significado e em comunidade (Ornelas, 2005; Bragança, 2013).

Se a institucionalização foi, durante muitos anos, a primeira medida a tomar em casos de doenças mentais crónicas, foi-se percebendo que esta medida poderia acarretar mais malefícios que benefícios, nomeadamente a perda de autonomia, o deterioro cognitivo, a desintegração social, a perda de responsabilidade até pelas decisões mais pessoais e básicas (como a higiene pessoal) bem como a ausência de estimulação intelectual, a perda de individualidade e identidade, à rutura de laços familiares e sociais, e por vezes até à negligência e abandono (Magarreiro, 2008; Bragança, 2013). Contudo, esta noção foi sendo lentamente alterada, tendo atualmente as instituições implementado novas e diversificadas estratégias de reabilitação que vêm contradizer esta tendência, promovendo a Qualidade de Vida destes doentes. Acrescente-se que apesar do enfoque nas políticas de desinstitucionalização continua a existir um conjunto de pessoas que não podem ser desinstitucionalizados, seja devido ao baixo estatuto socioeconómico que apresentam seja

devido à escassez de apoio familiar e social. De acordo com o exposto, entende-se assim que a avaliação da Qualidade de Vida garante que os programas de Reabilitação Psicossocial sejam dirigidos aos objetivos terapêuticos definidos, em consonância com aquilo que é desejado pelo paciente, e que contribuem para um aumento da sua satisfação geral, das emoções positivas e da sua Qualidade de Vida (Guterres, 2001).

De acordo com os resultados obtidos nesta investigação, o facto dos doentes mentais crónicos avaliados nesta amostra estarem institucionalizados por um longo período de tempo não prejudicou a perceção de que possuem uma boa Qualidade de Vida. Neste sentido, este estudo pretende contribuir para reforçar as boas práticas assistenciais e de reabilitação que são praticadas nestas instituições de saúde e apresentar algumas sugestões que contribuam para a sua melhoria.

As estratégias de Reabilitação Psicossocial e de Intervenção Terapêutica que aqui são aplicadas (e.g. as redes de habitação, os fóruns sóciocupacionais, as quintas pedagógicas, as unidades de vida apoiada/treino residencial, as residências protegidas, o acompanhamento psicológico individualizado sempre disponível, as sessões de psicoeducação e o treino de habilidades sociais, os ateliês de expressão) parecem estar a funcionar como um estímulo positivo para o bem-estar desta população, nomeadamente, para a Perceção do seu Estado de Saúde Geral e para a sua Perceção de Felicidade. Saliente-se ainda o seguimento e apoio realizado por uma vasta equipa multidisciplinar (assistentes sociais, psicólogos, enfermeiros, psiquiatras, auxiliares, …), que parece contribuir para que a sua Qualidade de Vida seja perspetivada como superior à da média. Além de todos os aspetos referidos, estas instituições, com o recurso às residências protegidas, como os apartamentos situados fora do hospital, permite a estes pacientes a sua emancipação, o alcançar de maior autonomia, contribuindo para a sua desinstitucionalização de forma progressiva.

A existência de diversos programas de Reabilitação Psicossocial (e em diversas áreas, como a integração social, a profissional, a ocupacional, a habitacional, a da artes expressivas e culturais e a formação), nas três instituições onde foi realizada a recolha de dados para este estudo, vêm uma vez mais reforçar a importância da construção e aplicação de

programas de reabilitação que englobem a perspetiva dos doentes institucionalizados, mas

também daqueles que já estão a residir na comunidade, reforçando novamente a importância da avaliação da Qualidade de Vida, como indicador de sucesso e de satisfação pessoal. Estes programas, que visam acima de tudo o bem-estar dos seus doentes devem englobar várias áreas de intervenção que atuarão em paralelo providenciando assim um enquadramento

sistémico do utente, nomeadamente, a área da reabilitação e reintegração, do

desenvolvimento de competências (em grupo e por programas individuais), da integração no trabalho e na comunidade (através de contactos com diversas instituições de trabalho), a área de apoio às famílias (onde se percecione a necessidade de acompanhamento e de suporte a familiares, para melhor lidar em situações de crise), sem nunca esquecer o apoio individual (este acompanhamento deve ser mais ou menos frequente, com uma certa periodicidade, definindo-se objetivos idiossincraticamente).

Outro aspeto que deve ser considerado refere-se à necessidade de que os programas se baseiem no planeamento centrado na pessoa, contribuindo para a sua noção de controlo sobre si e sobre o meio, e cujo objetivo é desenvolver condições para que possa decidir a sua vida, tomando decisões autonomamente e fazendo escolhas de forma livre. Seria ainda muito importante que os doentes sejam envolvidos no planeamento e desenvolvimento de

estratégias de intervenção que sejam percecionadas como gratificantes e adaptadas às

suas capacidades e limitações, fazendo-as sentir-se mais felizes, com controlo, competentes e capazes, tendo isto um efeito benéfico na sua perceção de Qualidade de Vida pessoal.

Apesar das contribuições apresentadas até aqui, não podemos deixar de mencionar também algumas limitações inerentes a este tipo de estudo. Em primeiro lugar o facto de ser um estudo transversal não permitiu o acompanhamento posterior dos participantes bem como não permitiu a generalização dos dados aqui obtidos, para além do tamanho da amostra. Depois, o facto de só englobar mulheres não permite averiguar se existem ou não diferenças entre os dois géneros e quais as variáveis que maior influência desempenham mediante o sexo. Em terceiro, o facto de não terem sido controladas outras variáveis (e.g.: a perceção do estigma) que pudessem ter exercido influência na nossa amostra, o que poderá ter influído nos dados.

O facto de termos utilizado apenas um instrumento poderá ser considerado uma limitação, contudo, devido ao tempo de execução reduzido que tivemos para a recolha dos dados e também devido ao tipo de população em estudo, esta foi considerada a hipótese mais adequada para a recolha de dados nesta investigação.

Ao nível das implicações para investigações futuras salientamos a utilização de um maior número de instrumentos para a avaliação, bem como a possibilidade de criar instrumentos específicos para este tipo de população, mais adaptados às suas especificidades e dificuldades, uma vez que algumas das questões não são adequadas nem estão moldadas ao tipo de perturbação. Seria também interessante aprofundar e realizar mais estudos de comparação entre pacientes institucionalizados, não apenas com pacientes já inseridos na comunidade, mas também com aqueles que residem já em residências protegidas, apartamentos e outras estruturas de reabilitação psicossocial, uma vez que estas funcionam como ponto de passagem e de adaptação. Enfatiza-se aqui também a necessidade de se realizar, em Portugal, um maior número de investigações na área da Reabilitação Psicossocial.

Seria também interessante reforçar o número de estudos que contemplem outras fontes de informação (eg.: auxiliares de ação médica, familiares, enfermeiros, médicos, entre outros) de forma a confrontar os diferentes dados e a forma como as perceções se alteram mediante as perspetivas de cada pessoa. Por fim seria também adequado para investigações futuras incluir homens na amostra, idealmente com o mesmo número, de forma a poder realizar comparações entre géneros e perceber quais as variáveis que exercem mais influência na Qualidade de Vida mediante o género.