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2. Registerbeskrivelse
São várias as investigações realizadas no âmbito do turismo rural que comprovam que esta modalidade turística é um potencial estímulo económico e social que pode vir a alterar o panorama socioeconómico e demográfico das regiões economicamente mais desfavorecidas. Várias tem sido as afirmações prestadas pelos órgãos administrativos e investigadores da área em questão, nomeadamente: “… tourism continuous to offer perspectives for a healthy and appropriate socio-economic development in the less favored areas of the community…” (CEE, 1992:80); “Tourism seems to be a natural way to the development of the rural areas in Europe, most particularly of the less favored ones.” (LEADER, 1993:6); “The importance of tourism appears quite clearly… in the opinions expressed by entrepreneurs and local public administrations officers who present it as the activity with the highest potential in Trás-os-Montes and Alto Douro.” (AMTAD, 1997:36) etc. Porém, apesar do aparente sucesso das políticas económicas adotadas para o desenvolvimento do turismo rural nas áreas economicamente mais desfavorecidas, existem investigações, levadas a cabo em Portugal, que comprovam que o real impacto do turismo rural na economia, das localidades em que é praticado, se distancia, de modo acentuado, do dito “milagre económico” para os territórios que o praticam.
De modo a contrastar os resultados destas investigações, que avaliam o impacto real do turismo rural na economia com as teorias e afirmações anteriormente referidas e, deste modo, compreender o verdadeiro contributo do turismo rural para os territórios economicamente menos favorecidos, vamos ao longo deste capítulo analisar os estudos em questão.
Segundo uma investigação realizada por Ribeiro & Marques (2002), intitulada como “ Rural tourism and the development of less favored areas – between rhetoric and practice”, publicada na revista “International Journal of Tourism Research”, existe uma variação considerável entre os benefícios teóricos do turismo rural e os que se verificam na prática, no que concerne o panorama nacional. O estudo conduzido em duas áreas do interior-norte de Portugal teve como objeto de análise três dos aspetos mais importantes, segundo os autores anteriormente referidos, numa perspetiva socioeconómica, nomeadamente: turismo e agricultura; turismo e empregabilidade e turismo e o retorno monetário.
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9.1-Turismo Rural e Agricultura
Geralmente, a atividade agrícola é a mais predominante nas regiões economicamente mais desfavorecida, podendo ser considerada uma referência no que concerne o poder económico das mesmas. Segundo o estudo em questão, a atividade agrícola, associada a vários constrangimentos de natureza económica e social, continua, na atualidade, a ser uma atividade económica de reduzidos rendimentos. Porém, a agricultura continua a afirmar-se, em Portugal, nas zonas desfavorecidas, como uma importante setor de empregabilidade e ocupação. A sua relevância no setor do turismo rural é indiscutível, sendo que a gastronomia, os produtos locais e a conservação e manutenção das paisagens e aspeto ambientais interrelacionados, núcleos essenciais para uma boa pratica desta modalidade de turismo, são fonte de interesse e atração de turistas. Verifica-se deste modo, que apesar da sua relevância para o sucesso desta modalidade de turismo, o setor da agricultura não tem recebido, na maioria dos casos, um benefício económico que se traduza no aumento da rentabilidade.
Segundo o mesmo estudo, atendendo às conclusões anteriormente referidas, a potencial fonte que restaria ao setor da agricultura a explorar, e que se poderia traduzir, em caso de sucesso, num fluxo de retorno económico, seria o alojamento das famílias agrícolas. Porém, devido aos elevados padrões de qualidade, estipulados pela sucessiva legislação TER, concernentes às características arquitetónicas dos edifícios; as dimensões; mobiliário e facilidades e decoração de interior, esta modalidade potencial fluxo económico torna-se uma “miragem” para a maioria das famílias agrícolas, apresentando-se em contrapartida como potencial económico aos herdeiros de grandes quintas agrícolas; palácios rurais e grandes casas senhorias, que representam uma pequena percentagem da realidade agrícola atual. Para além dos obstáculos anteriormente referidos, destaca-se, também, a necessidade de pessoas qualificadas, com determinadas competências, para atender as necessidades dos respetivos turistas, nomeadamente, conhecimento de línguas estrangeiras; competências de receção; atendimento; cultura, história e gastronomia da região, entre outras.
Em 37 unidades TER, tomadas como objeto de estudo nesta investigação, foram consideradas as principais características sociodemográficas dos proprietários, tendo-se verificado a seguinte distribuição:
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Figura 4: Características Sociodemográficas dos Proprietários de Alojamento TER
Qualificações
Literárias Principal Ocupação Profissional Principal Fonte de Rendimento
20 Habilitações superiores 8 TER
(dos quais 3 reformados e 4 domesticas)
6 TER
11 Ensino secundário
completo (dos quais 5 eram reformados de 10 Agricultura e TER atividades do setor secundários e
terciários)
3 Agricultura
4 Ensino primário completo 17 Setor secundários e
terciário 19 Outras atividades
4 Reformados Fonte: Ribeiro & Marques (2002, p. 9)
Podemos assim concluir que o real contributo do turismo rural para o aumento dos rendimentos na atividade agrícola é reduzido, sendo que os benefícios existentes se centram nos indivíduos que já detêm um poder socioeconómico considerável ou são herdeiros de grandes fortunas agrícolas. Os restantes proprietários vêm-se forçados a recorrer a outras atividades do setor secundário ou terciário, tidos como atividade principal, de modo a poder assegurar rendimentos necessários para o seu sustento.
9.2-Turismo Rural e Empregabilidade
A criação de postos de trabalho tem, desde há várias décadas, sido a principal preocupação dos líderes políticos das sociedades desenvolvidas. A mesma preocupação surge na sociedade portuguesa, onde o número de desempregados tem vindo aumentar gradualmente, tendo-se verificado uma ligeira decida no último trimestre do ano 2013 e inícios de 2014, fruto das políticas de incentivo ao emprego delineadas pelos nossos órgãos de gestão governamental. Como naturalmente se suspeita, as áreas mais afetadas pela falta de empregabilidade e consequente desertificação do território são as áreas do interior do país, as quais, maioritariamente, se caracterizam como sendo áreas rurais com potencial para a prática de turismo rural. Também neste indicador, de cariz económico-social, o turismo rural é tido como potenciador de criação de posto de trabalho, o que a médio e longo prazo se poderá traduzir num fenómeno de fixação da população e melhoria do panorama socioeconómico de determinada região. Porém, é necessário atentar, minuciosamente, ao real contributo do turismo
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rural para a empregabilidade, de modo a não criar falsas expetativas e cair numa retórica política sem fundamento nem conteúdo.
Segundo Ribeiro & Marques (2002), dados estatísticos, recolhidos no âmbito da investigação em questão, levantam questões consideráveis relativamente ao verdadeiro contributo do turismo rural em relação a criação de posto de trabalho. Segundo os mesmo dados cada unidade TER cria em média 2 posto de trabalho, sendo que somente um posto de trabalho é remunerado, visto que o segundo é ocupado por um familiar, maioritariamente pela esposa. No que concerne as qualificações dos funcionários, o mesmo estudo indica que poucas, se algumas, das pessoas empregadas possuem qualificação profissional para desempenhar a funções necessárias à atividade. Tal cenário contrasta com as recomendações feitas pela União Europeia no documento de 1990, onde explicita que no que concerne ao turismo rural “ a qualidade da unidade de acomodação e do correspondente serviço requer esforços e formação profissional tanto por parte do proprietário dos alojamentos como dos colaboradores”. Esta lacuna na formação afeta diretamente o desempenho da própria unidade, comprometendo a qualidade do serviço; a eficiência do negócio e, consequentemente, justifica os salários baixos que são pagos aos funcionários.
Juntamente com as anteriores advertências, surge ainda a sazonalidade dos postos de trabalho nos alojamentos TER, sendo que, de acordo com os dados revelados pelo estudo em questão, a maioria dos posto de trabalho nas acomodações TER são meras transferências de operários agrícolas que em zonas de pouco trabalho na mesma atividades são contratados para auxiliar na gestão das acomodações. Podemos assim concluir, na lógica desta investigação, que o real contributo do turismo rural para a criação de posto de trabalho é pouco significativo, sendo que o que se verifica, maioritariamente, é uma transferência dos operários agrícolas para as acomodações TER.
9.3-Turismo Rural e Retorno Monetário
Segundo Ribeiro & Marques (2002), a maioria das investigações que tem como objeto de estudo o turismo rural, concluem que em média o perfil socioeconómico do turista que procura o turismo rural é de cariz médio ou médio-alto, o que nos sugere que o montante monetário expendido durante a sua estadia será elevado. Porém, aquilo que se verifica nas mesmas investigações é que o impacto económico desta modalidade de turismo tende a ser
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modesta. Segundo investigações de campo, realizadas no âmbito da mesma investigação, que consistiam em acompanhar grupos de turistas durante um período de 24 horas, conclui-se que o valor monetário medio despendido por cada turista alojado em acomodações TER ronda os 60€ por dia. Para além do valor não ser muito elevado, o mesmo tende, ainda, a concentrar-se num reduzido leque de categorias. 82% do valor monetário expendido aplicou-se a unidade de alojamento TER e ao pequeno almoço que era servido na mesmas, restando somente 18% para o consumo interno, dos quais 65% representam despesas com alimentação e bebidas.
Podemos assim concluir, de modo genérico, que as expectativas políticas e socias, respeitantes ao turismo rural, para revitalização das economias rurais são demasiado elevadas e que afirmações de investigadores como por exemplo Umbelino (1998) “The motivations currently used to justify the exploitation of the so called “turismo em espaço rural” appear, very often, largely overestimated. Such fact, understandable in a context of locally non-available economic alternatives, cannot, however, lead people to build illusion scenarios” vão ao encontro de uma realidade económica complexa, na qual o turismo rural continua a apresentar um potencial de desenvolvimento económico, que, porém, não corresponde as retóricas politica e económica que o elevam a “solução de todos os problemas” socioeconómicos das zona rurais.