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Problemer med reproduserbarhet

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Os valores compartilhados ao longo do processo de aprendizagem guardam forte ressonância com alguns princípios religiosos, principalmente aqueles que pregam os benefícios do trabalho manual enquanto uma forma de manter corpo e mente ativos, ou entretidos. Embora no contexto da igreja, tal proposição fizesse referência mais a uma ocupação moral do que, especificamente, produtiva (CUNHA, 2000), entre as rendeiras ambos os aspectos se destacam como importantes. A renda congrega, assim, a possibilidade de manter as mulheres ocupadas, no espaço da casa, ao mesmo tempo em que parte de sua atividade se constitui como uma forma de complemento do orçamento doméstico.

A maior parte das rendeiras com as quais convivi em Canaan participa ativa- mente de suas igrejas e são muito religiosas. O catolicismo é a religião preponderante, tanto entre a população como um todo, como entre as rendeiras. Ainda assim, é possível encontrar diversas correntes de filiações protestantes pelo distrito. Dessa maneira, o hábito das rendeiras de não trabalharem aos domingos sempre soou para mim como algo natural. Elas diziam que era preciso guardar os domingos, o que para mim, habituada à rotina que distingue e define dias “úteis” e dias de descanso, era interpretada a partir da mesma ótica. Tal costume seria uma pausa à rotina diária de trabalho, que é altamente desgastante.

atividade da renda para o cotidiano das rendeiras, guardar o domingo ganhou uma conotação inteiramente distinta. Ao ser perguntada sobre tal tradição, uma delas me explicou que é coisa dos antigos, guardar o domingo. Em seguida, comentou sua rotina nesses dias: Almoço, me sento aqui, pego uns livros e fico olhando, pra entreter o tempo. Quando não tá fazendo nada o tempo é comprido! Nesse sentido, se a renda ajuda sua praticante a se manter ocupada e entretida, deixar de fazê-la aos domingos perde o caráter de folga e se transforma em uma espécie de sacrifício. Uma rendeira argumentou que o dia mais grande é o domingo, sendo as mesmas horas dos outros.

Essa lição foi uma das primeiras que aprendi com as rendeiras, ainda durante pesquisa de mestrado. Ao acordar, no primeiro domingo em Alto Alegre, notei logo que as almofadas estavam encostadas e que o dia seria diferente. Uma vez em Canaan, anos depois, percebi que lá o hábito era o mesmo. Institui, então, que eu também destinaria os domingos ao que seria de direito, o meu descanso. Isso se manteve até que uma rendeira, que seria professora do curso de renda, solicitou que a acompanhasse em uma tarde de domingo. Sua intenção era visitar aquelas que seriam suas futuras alunas para recolher a assinatura das suas responsáveis. A minha tarefa era tirar uma foto de cada menina, para que fossem posteriormente enviadas ao SESC. Nessa ocasião, visitamos um dos tantos bairros de Canaan, Carnaúbas. Ao chegar lá, me deparei com quatro rendeiras em plena atividade, sentadas com suas almofadas na sombra de uma árvore. Seria uma cena normal, se não fosse domingo. Após cumprimentar as mulheres, muitas das quais eu já conhecia, comentei sobre minha surpresa e a única resposta que obtive foi: Aqui todo dia é dia de fazer renda.

Antes dessa ocasião, já havia me deparado com uma exceção à regra de guardar os domingos. Tratava-se de uma jovem que, por causa de seu bebê recém-nascido e dos cuidados demandados pela criança, me contou que não estava dispensando nem fim de semana. Nem sábado, nem domingo! No dia, interpretei tal fato como a consequência de um momento de maior precisão. Foi somente após minha visita às Carnaúbas que passei a me questionar sobre as relações que se estabelecem entre a produção da renda e a concepção religiosa de suas praticantes. A partir de então, passei a abordar esse assunto nas minhas conversas com as rendeiras. A explicação veio de uma rendeira, católica e praticante, que após ser perguntada se abria mão do trabalho em outros dias, além dos domingos, me disse: Quando é vermelho no calendário, aí eu respeito. Como o corpo de Cristo e a sexta-feira santa. Quem faz mais aos domingos são só os evangélicos. Aliás, feriado e tudo! Os evangélicos não respeitam nada.

Novamente, é oportuno recorrer à obra de Weber sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo. A Reforma Protestante significou, nas suas palavras, a “regulamentação levada a sério e infinitamente incômoda da conduta da vida como um todo, que penetrava todas as esferas da vida doméstica e pública” (WEBER,2007, p. 30). Essa forma metódica de administração se estende, assim, às rotinas, à vontade

(“boa vontade para o trabalho”) ao pensamento (“capacidade de concentração”) das pessoas. O trabalho intenso, nessa perspectiva, é compreendido enquanto uma missão em busca da salvação, na qual é indispensável a “disposição de executar o trabalho como se fosse um fim absoluto em si mesmo — como ‘vocação’” (WEBER, 2007, p. 54). Posteriormente, tive a chance de confirmar que a família que havia visitado naquele domingo era evangélica, o que justificava uma das rendeiras ter afirmado que, entre elas, todo dia é dia. Cabe mencionar, por outro lado, que também conheci rendeiras que frequentam os cultos evangélicos e, ainda assim, guardam os domingos por hábito e respeito aos antigos.

Entre as que abdicam da renda aos domingos, muitas encontram modos de maximizar o andamento do trabalho da almofada ao longo da semana. O domingo é preenchido, em parte, por tarefas complementares à renda, como a preparação de moldes, a emenda das peças feitas em tiras ou para carregar e emendar os bilros. Uma rendeira afirma: No domingo eu sento e encho os bilros, muito raro eu fazer renda. Em algumas situações, portanto, essa regra pode ser flexibilizada. Dessa maneira, quando estão em vias de terminar uma peça, elas utilizam o domingo para isso, tendo em vista, principalmente, sua comercialização rápida.

Entre as rendeiras que guardam o domingo, que constituem a maioria em Canaan, algumas se impõem um sacrifício ainda maior. Em nome dos pedidos alcançados, elas podem se abster da almofada também aos sábados. Uma rendeira, prestes a fazer uma cirurgia nos olhos, prometeu que, caso não ficasse cega, deixaria de fazer renda aos fins de semana. Quando a conheci, ela já cumpria sua promessa e, embora reconhecesse que sentia falta da atividade, argumentou: Não vou morrer por causa do sábado e domingo. Sua estratégia principal, para aumentar sua produção semanal, era deixar parte das atividades domésticas para serem cumpridas aos fins de semana.

A graça conquistada por outra rendeira, que também deixou de fazer renda aos sábados, foi sair de uma depressão. Ela aproveita igualmente esse dia para cumprir trabalhos da casa, como lavar roupa ou limpar o quintal. Afirma obedecer as restrições, tanto aquelas impostas por tradição como as autoimpostas, pois tem medo de ser castigada. Mesmo nesse caso, existe certa dose de tolerância à flexibilização da proibição, conforme vemos no seu relato: Ficava pensando em morte direto, aí pedi pra Deus que, se tirasse aquilo do meu pensamento, eu não cortava mais os cabelos — só as pontas — e não fazia mais renda nos sábados — só se for uma coisa muito

importante.

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