A primeira peça que assentei na minha almofada chama-se dedinho, uma renda linear, feita em metro, bem estreita e simples, constituída apenas por uma faixa de pano com um zigue-zague de traças ao lado. Nesse tipo de peça, são necessários dois moldes iguais, que possam ser alternados durante o processo de produção e, assim, a renda seja construída de maneira contínua. Escolhi a dedinho pelo fato de ter sido mencionada por muitas rendeiras como a primeira renda que fizeram. Ela contém todos os pontos básicos, inclusive a traça, que ainda estava começando a aprender. Dessa maneira, considerei que essa seria uma renda adequada para treinar este ponto e aperfeiçoar seu formato. Por se tratar de uma renda mais estreita, com contornos retos, diferente do molde utilizado para fazer camisetas infantis utilizadas pelas crianças atualmente, achei que teria mais facilidade para iniciar o trabalho. A quantidade de bilros é consideravelmente menor e, como estava disposta a tentar assentá-la sozinha, essa seria uma opção mais adequada. Além disso, não teria a oportunidade de observar alguém realizando tal tarefa na prática, uma vez que essa renda só costuma ser feita pelas rendeiras da ARTECAN para atenderem encomendas.
Minha dificuldade inicial, uma vez que já tinha o molde feito por Silvânia em mãos, era descobrir o número de bilros necessários para a renda. Sabia que as traças demandam dois pares de bilros, mas não conseguia decifrar quantos mais seriam necessários e qual a posição que cada um deveria ocupar para dar início à renda. Supus que, por se tratar de uma renda tão simples, não teria dificuldade em obter as informações que precisava e resolvi que o levaria comigo da próxima vez que fosse visitar alguma das rendeiras que sempre se mostravam empenhadas no meu aprendizado. Imaginei que, ao ver o papelão, elas seriam capazes de me orientar sobre o buraco no qual cada par de bilros deveria ser assentado. Minha primeira tentativa foi perguntar para uma vizinha, que olhou rapidamente para o molde e
disse não saber. Sua sugestão foi que procurasse a Silvânia. Deixei o papelão na minha bolsa até que encontrasse outra rendeira com quem poderia compartilhar minha dúvida. Contei, sem citar nomes, que já havia solicitado auxílio, mas que a pessoa não havia conseguido me ajudar. A reação imediata dela foi: Que rendeira é essa que não sabe fazer o dedinho? Por sua vez, quando ela própria pegou o molde, olhou e ficou pensativa. Após alguns instantes afirmou que refletiria sobre o assunto e pediu que eu retornasse com o molde no dia seguinte, que ela me ajudaria.
Ao retornar para casa, ainda que sem sucesso com relação ao número de pares necessários e seu posicionamento, estava ansiosa para tentar assentar a renda. Passei, então, a carregar alguns pares de bilros. Certa vez uma rendeira havia mencionado sobre um método para descobrir o número de pares necessários para executar um molde, que consistia em contar as linhas diagonais que compunham o padrão. Por meio de tal contagem, a renda demandaria três pares de bilros, mas achei aquele número muito baixo. Assim que os três pares estavam carregados e foram afixados, com o auxílio dos espinhos, sobre o molde, percebi que não seriam suficientes. Seis bilros não seriam capazes de se organizar de modo a preencher todos os pontos apontados pelo molde, uma vez que só a traça demanda dois pares. Posterguei a tarefa de carregar mais pares até ter certeza sobre a quantidade exata.
No dia seguinte retornei até a casa da rendeira que havia me prometido ajuda. Ao chegar lá, ela imediatamente se recordou do molde, disse que havia pensado sobre o assunto e lembrara que a dedinho demanda seis pares de bilros. Restava saber como os bilros deveriam ser distribuídos entre os buracos do início do papelão, de modo a assentar a renda. Apresentei a minha dúvida a ela, que pegou o molde e, com um espinho na mão, ficou traçando retas imaginárias entre os furos e considerando as possibilidades de junção entre as linhas. Por fim, decidiu que seria melhor tirar uma amostra daquela renda para mim, a partir da qual eu poderia produzi-la mais facilmente. Por meio da consulta à mesma saberia, por exemplo, o posicionamento de cada bilro no início da trama.
Pegando o papelão, ela recorreu à pequena bacia na qual deixava uma série de bilros sobressalentes já carregados, emendou os pares necessários e, sem dificuldade, assentou meu molde. Deu continuidade ao trabalho até que atingisse cerca de 20 centímetros, momento no qual cortou a trama e liberou seus bilros, que foram devolvidos à vasilha na qual estavam. Assim que cheguei em casa, carreguei os três pares de bilros que faltavam e, no dia seguinte, acordei empolgada para tentar assentar a renda e estrear minha almofada. A amostra foi extremamente importante nesse processo, uma vez que podia examiná-la nos momentos de incerteza e, a partir dela, compreender a sequência de movimentos e entrelaçamento dos bilros.
A importância da amostra não se restringe somente à contagem das linhas ou ao modo de iniciar a peça, mas representa uma fonte de consulta útil ao longo de
toda a execução da renda. A trama que serve de modelo, tendo sido confeccionada no mesmo molde, constitui uma memória do seu processo de execução, um registro sobre o caminho que cada bilro percorreu. Dessa maneira, o percurso de cada linha pode ser acompanhado e seguido. No caso da minha tentativa de assentar e fazer a renda dedinho, a amostra teve um papel central para meu sucesso, pois podia recorrer a ela nos momentos de maior dificuldade e observar, por exemplo, por onde cada linha passa, como se encontram e se cruzam. Vale destacar que a amostra que ganhei tinha uma característica adicional que facilitava a identificação dos caminhos trilhados por cada linha: tratava-se de uma renda colorida, na qual cada bilro está carregado com uma cor distinta.