Os buracos dos papelões formam uma grade diagonal, sobre a qual os pontos são distribuídos e os padrões compostos. Essa base, cuja escala varia de acordo com a linha a ser utilizada, é constituída por carreiras perpendiculares dispostas a 45° em relação aos planos vertical e horizontal. Cabe notar que o padrão formado pela sequência de trocados constitui exatamente tal base e, por esse motivo, é frequentemente utilizado para compor os espaços entre os demais pontos. Tal arranjo entre os furos, ilustrado na Figura 16, permite que os bilros sejam manejados em duas sequências distintas, a partir das linhas horizontais que compõe o molde ou em diagonais, seguindo as linhas transversais formadas pelos buracos.
Figura 16 – Grade diagonal sobre a qual os pontos são distribuídos e os padrões, organizados.
O movimento horizontal é caracterizado pela manipulação pendular de todos os bilros, na qual são entrelaçados sequencialmente, um após o outro. Se a rendeira começar pelos pares afixados na esquerda, por exemplo, irá manusear os fusos movendo-se para a direita e, posteriormente, retornará na direção oposta. Esse procedimento envolve o manuseio da totalidade dos bilros assentados, de modo que cada linha horizontal que constituí a largura do molde é percorrida integralmente. Esse fato exige que todos os bilros sejam mantidos soltos sobre a almofada ao longo da produção, de forma a estarem sempre à disposição das mãos das rendeiras. As rendeiras consideram que, as rendas que crescem iguais são mais enjoadas. Essa avaliação se deve à necessidade de manejar a totalidade das linhas utilizadas e mantê- las organizadas durante a execução do molde, o que também torna esse método de constituir a trama mais demorado. Conforme argumentou uma rendeira: Tem que fazer carreira por carreira, não dá pra descer o papelão. Demora mais.
Na execução em faixas diagonais, que descem o molde, as mãos também passam pelos bilros de maneira sequencial, pendularmente, indo e vindo sobre o molde. A principal diferença, no entanto, é que a renda não se constitui a partir de
linhas horizontais, de maneira uniforme. Aqui os papelões são preenchidos e a renda cresce em faixas diagonais. Em termos da sua execução prática, isso significa que não é necessário utilizar todos os bilros ao mesmo tempo. Dessa maneira, a cada etapa do molde, ou faixa diagonal a ser executada, os bilros são selecionados e aqueles que ficarão fora de uso na próxima seção são separados na lateral da almofada. Ficam sustentados por ganchos de metal cuja função é, justamente, facilitar a organização dos bilros ao longo da atividade. A manipulação parcial das linhas permite que os papelões sejam executados mais rapidamente quando percorridos diagonalmente.
A depender dos padrões e do modo que os pontos se organizam sobre a matriz, é possível optar acerca da sequência na qual os buracos serão preenchidos. Nessas situações, as rendeiras tendem a preferir a movimentação em faixas diagonais, por ser mais rápida (ver Figura 17, na página136). Em determinados moldes, no entanto, existe uma limitação em relação ao caminho pelo qual será percorrido, que pode ser parcial ou total. No caso dos vestidos de barra, compostos por faixas horizontais alternadas de trocados e panos em zigue-zague, por exemplo, as partes compostas pelos panos devem ser executadas horizontalmente, ao passo que o restante do molde pode ser feito em diagonais. Ainda que possibilite a produção mais acelerada em um trecho da renda, tal padrão é considerado bastante trabalhoso pelas rendeiras. Entre os papelões que delimitam uma sequência específica e integral de movimentação existem os dois tipos. Os que exigem o movimento horizontal ao longo de todo o processo são considerados os piores pelas rendeiras, que costumam evitá-los. Vejamos a comparação estabelecida por uma rendeira que produzia uma encomenda cujo desenho determinava esse procedimento: Tem renda que você é obrigada a fazer tudo igual, todo o tempo cresce igual, aí é ruim. Porque parece que a renda não aumenta. Assim — na diagonal — parece que aumenta mais.
O fator determinante acerca das possibilidades de mobilidade dos bilros sobre os papelões é a posição dos desenhos e as formas a serem executadas. Nesse sentido, é a combinação dos pontos que define tais limites, conforme aponta Maria Mole: Sendo rosa de traças com trocado, dá pra descer na diagonal. Se fosse rosa de traça com pano, teria que descer igual, aí eu não gosto. Demora mais. Conforme Alba destacou com a analogia do pincel, a renda limita as sequências de movimentação possíveis e são os furos que determinam essas possibilidades a partir da sua disposição. Dessa maneira, a depender do tipo caminho selecionado, a continuidade do trabalho impõem uma ordem de ações e movimentos que visam ‘obedecer’ às determinações dos buracos, que mandam.
Existe uma possibilidade adicional que merece ser mencionada. Trata-se das rendas cuja execução é linear, horizontal, porém a sequência de movimentos não abrange toda a largura dos moldes. É como se o molde fosse segmentado em duas colunas, que precisam ser preenchidas separadamente. Tal forma de construção da trama exige a alternância constante dos bilros manipulados por cada mão, assim
(a) Bico de caminho de mesa. (b) Tira de camiseta.
Figura 17 – Sequências da construção de peças a partir de faixas diagonais. Os números indicam a ordenação da produção de cada elemento que compõe o padrão.
como das direções dos movimentos sobre os papelões. Tudo isso dificulta tanto a continuidade, quanto a velocidade do trabalho. Uma rendeira da ARTECAN, responsável por fazer uma renda bastante estreita, porém muito trabalhosa, cujo destino seria uma encomenda da CEART, instituição voltada ao desenvolvimento do artesanato no Estado, reclamava muito da peça que lhe coube: Renda assim não aumenta. Não tem como fazer uma banda e depois buscar o resto. Tem que estar fazendo e largando, fazendo e largando. Renda assim é muito ruim de fazer. Sua vizinha, também associada, concordou: É todo o tempo indo e voltando.
A preferência das rendeiras pelos moldes que permitem a execução em faixas diagonais se justifica por dois fatores centrais, a demanda de tempo e a possibilidade de dar continuidade ao trabalho pelo o maior tempo possível sem a necessidade de
suspender a atividade para organizar os bilros. Com relação ao acabamento produzido, é importante destacar que, desde que a rendeira conheça o molde e saiba a melhor maneira de preenchê-lo, não é possível verificar qualquer diferença. A qualidade final da peça será afetada principalmente nos casos em que a rendeira não conheça o percurso mais adequado, como em um papelão desconhecido, ou se o mesmo contiver erros. Em ambas as situações, haverá necessidade de inserir ou retirar pares de bilros, criando emendas visíveis na trama já finalizada.
Ainda em relação ao melhor caminho, determinadas rendas apresentam configurações que definem as melhores sequências de movimentos, ou melhor, a ordem mais adequada para a elaboração de cada um dos pontos. Chamaram minha atenção para esse fato enquanto acompanhava o curso de renda com a minha própria almofada. Estava trabalhando na renda dedinho que havia assentado há pouco tempo. Ao longo da trama, o pano e as traças se encontram e se conectam em alguns buracos que estão colocados no limite entre eles. Embora cada ponto seja construído isoladamente, eles estão intimamente relacionados, uma vez que o crescimento de um depende do andamento do outro. Eu não havia estabelecido uma ordem definida para minhas ações e alternava entre cada parte do molde conforme a continuidade do trabalho se tornava inviável, até que uma adolescente me alertou que havia uma sequência mais apropriada. A menina explicou que seria melhor fazer as traças antes do restante do molde. Caso contrário, a presença dos panos atrapalharia a execução das traças, que demandam espaço para que os bilros sejam afastados e o ponto se forme. Tal percepção, acerca das melhores opções de percurso e sequências de movimento, só é possível graças ao engajamento contínuo com os mesmos moldes e o conhecimento acerca das suas possibilidades.
3.3.2 Diversificação das rendas feitas a partir de um molde: repetições