Natural de Salvador, Bahia, Alexandre Rodrigues Ferreira nasceu em 27 de abril de 1756. Seu pai, Manuel José Maria da Costa, queria que ele seguisse a carreira eclesiástica e mandou-o para Lisboa em julho de 1770. Ainda aos 14 anos, seguiu para Coimbra, onde se matriculou no Curso Jurídico, em outubro do mesmo ano. Como a Universidade de Coimbra estava passando pela reforma pombalina, o curso foi interrompido e, no ano seguinte, o jovem estudante se transferiu para a Faculdade de Filosofia, com a finalidade de estudar História Natural (GOELDI, 1982, p. 27).
Estudioso e dedicado, Ferreira não demorou a se distinguir nos estudos, pois faltando dois anos para se formar, assumiu o cargo de Demonstrador da História Natural na universidade. Concluído o curso, foi laureado com o prêmio acadêmico. Parecia predestinado a seguir a carreira de professor, mas lhe foi atribuído pelas autoridades portuguesas um outro trabalho muito mais difícil que o magistério e de grande importância para a Ciência de Portugal e do Brasil (GOELDI, 1982, p. 27).
Fato é que em 1778, ao ver as riquezas minerais brasileiras escassearem, especialmente o ouro e o diamante, o governo português concluiu pela necessidade de se conhecer melhor o território da colônia e suas riquezas naturais, focando-se nas ainda desconhecidas regiões Norte e Central do país. Isto porque
O Brasil já fora objeto de expedições desse tipo, organizadas por Maurício de Nassau durante o domínio holandês. Nessas, buscavam-se informações sobre plantas cultivadas e sua posterior aclimatação ao meio europeu, sobre os minerais e sua utilização econômica, sobre a astronomia e as rotas de navegação e sobre os costumes dos povos desconhecidos (inclusive sua propensão para a guerra e o comércio) (LA PENHA, 1982, p. 15).
Com vistas a tal desiderato, o então Secretário de Estado de Negócios da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo e Castro, ordenou a Domenico Vandelli que indicasse alguém que tivesse conhecimentos e outras qualidades para empreender uma viagem filosófica à colônia. O objetivo da expedição era o recolhimento do máximo de informações para atender às exigências do Estado português (GOELDI, 1982, p. 27).
Vandelli não hesitou para indicar o jovem Alexandre Rodrigues Ferreira. A decisão foi prontamente aprovada pela Congregação da Faculdade de Filosofia e o convite aceito pelo ex-aluno de Coimbra. Uma comissão de alto nível seguiria com ele até o Brasil para dar-lhe o devido apoio logístico (GOELDI, 1982, p. 27).
Assim, em julho de 1778, Alexandre e seus colaboradores partiram para Lisboa, onde se prepararam para a viagem. Por quase dois anos, permaneceram no Real Museu da Ajuda realizando pesquisas científicas nas áreas de química e física. Em maio de 1780, Alexandre foi nomeado pela Real Academia de Ciências de Lisboa para o cargo de correspondente. Depois da nomeação pela rainha Dona Maria I, a viagem teve início em 1º de setembro de 1783. A expedição partiu de Lisboa, com destino inicial às ilhas da foz do rio Amazonas (GOELDI, 1982, p. 28).
FIGURA 33 – No frontispício da Viagem Filosófica do baiano Alexandre Rodrigues Ferreira, a riqueza comercial da Região Amazônica Fonte: LIMA, 2012.55
Importante registrar que tal indicação provocou uma paralização indesejada na carreira do naturalista, quando ele retorna da expedição. Dentre as dificuldades, a mais grave foi a negativa da publicação de seus trabalhos, forçando-o a assumir funções burocráticas de adequado retorno financeiro, porém geradoras de profundas insatisfações intelectuais, no desempenho das quais permaneceria até morrer, aos 59 anos de idade (GOELDI, 1982, p. 15).
Coroando as frustrações de Alexandre, “as coleções que levara para o Museu Real da Ajuda foram saqueadas em 1808, durante a invasão napoleônica, por Geoftroy de Saint
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LIMA, Alan José da Silva. Pagamento em espécie: Por mais de um século, as moedas vigentes na Amazônia colonial eram somente gêneros naturais, como cacau, cravo, algodão e gado. Revista de História, 1 nov. 2012. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/pagamento-em- especie>. Acesso em: 10 dez. 2012.
Hilaire. Fragmentos de sua valiosa contribuição científica só seriam publicados após a sua morte”. Assim, sua Viagem Philosophica só veio a ser publicada em 1971, pelo Conselho Federal de Cultura, após uma prolongada sequência de dificuldades, originadas na perda de boa parte de suas contribuições. Tudo isto aconteceu em decorrência da instabilidade política em que se encontrava Portugal, o que resultou no abandono dos planos de pesquisas nas colônias e, com eles, do trabalho realizado por Alexandre Rodrigues Ferreira. O desgosto acabou por afetar seriamente sua saúde. Emílio Goeldi relata:
O que eu penso acerca da moléstia de que sofreu Alexandre Rodrigues Ferreira nos seus últimos anos de vida, moléstia singular, que não sabem qualificar de todo, que outros chamam de profunda melancolia –, mas que nem um nem outros sabem definir e explicar. [...] viu chegar uma velhice triste, sem perspectiva de realização de seus ideais e projetos, como fim de uma existência totalmente ‘manquée’ [...] morreu na idade de 59 anos, não alcançando com vida o restabelecimento completo da ordem e os benefícios da paz em Portugal, – a terra pela qual ele se sacrificou literalmente como mártir da ciência (GOELDI, 1982, p. 65 e 68-69).
Por isso, o naturalista suiço refere-se ao seu biografado como “mártir da ciência”, explicando que ao fazer o registro biográfico do colega cientista foi impelido por um “espírito de corporação, a profunda compaixão a um colega, cujos merecimentos não foram devidamente apreciados nem pelos contemporâneos nem pela posteridade” (LA PENHA, 1982, p. 14-15).
FIGURA 34 – Émil August Goeldi (1859-1917)
Fonte: WIKIPEDIA, 2011.56
Assim, há que se colocar em evidência, segundo La Penha (1982, p. 14), que a formação de Alexandre Rodrigues Ferreira “não se limitava ao acúmulo enciclopédico dos
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conhecimentos compreendidos no conceito ‘História Natural’. A esfera científica – seu meio – não se separava do ambiente cultural da época”. Desta forma, “os velhos naturalistas tinham conhecimentos – por vezes bastante aprofundados – de Filosofia e Arte, particularmente literatura e pintura, que eram, ao mesmo tempo, instrumentos de trabalho frequentemente usados com grande maestria”.
Importante atestar que, em Portugal, Ferreira ocupou-se com exames às minas de carvão em Buarcos, próximo a Figueira da Foz, e da redação e descrição dos produtos naturais do Real Museu da Ajuda. Realizou pesquisas físico-químicas sobre conquiliologia (conchas de moluscos), que seriam concluídas apenas em 1771, e serviriam para posterior introdução à Teologia dos Vermes. Seus estudos significaram importantes contribuições para o conhecimento. Tanto que a recém-inaugurada Academia de Ciências de Lisboa conferiu-lhe o título de Correspondente, em 22 de maio de 1780, ano de sua fundação.