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Domenico Agostino Vandelli (1735–1816), filho de um médico e professor universitário, era um homem das ciências e escrevia muito. De todos os períodos de sua vida, dispersa pelos múltiplos campos de interesse que o entusiasmaram, deixou uma enorme quantidade de fascículos, cartas, memórias, pareceres, relatórios, mas poucos e pequenos livros (CASTEL-BRANCO, SOARES; CHAMBEL, 1999, p. 55).

Esta grande quantidade de registros informativos dos estudos e experimentos do botânico italiano, praticamente oriundos de uma produção quotidiana, permitiu que se estudasse com segurança e se interpretasse, já no século XX, a sua obra escrita em Portugal. Desse processo de pesquisa de seus escritos resultaram artigos, biografias e teses a ele dedicados, mas somente um livro no qual, ao contrário daquilo que se podia esperar sobre a obra do primeiro diretor do Jardim Botânico da Ajuda, não existe um texto sequer focado na botânica ou na história natural. Intitulado Domingos Vandelli – Aritmética Política, Economia e Finanças, o livro faz parte da coleção de Obras Clássicas do

Pensamento Português, e foi editado pelo Banco de Portugal em 1994 (CASTEL- BRANCO, SOARES; CHAMBEL, 1999, p. 55-56). No entanto,

a partir dos múltiplos escritos que nos deixou Vandelli, dos quais não se encontra nem em Pádua nem em Lisboa nenhuma imagem, surge-nos um homem inteligente de inúmeros talentos, dotado de muita energia, dispersando os seus interesses por dois campos prioritários: a história natural e a economia (CASTEL- BRANCO, SOARES; CHAMBEL, 1999, p. 56).

Na sua conduta sobressaem dois aspectos de carácter contraditório: se por um lado Vandelli inicia os projetos com um entusiasmo sem limites, com uma entrega total, por outro parece cansar-se antes do fim, deixando-os incompletos (CASTEL-BRANCO, SOARES; CHAMBEL, 1999, p. 56).

Tal característica de ação, infelizmente, interferiu no seu trabalho de criação do Jardim Botânico da Ajuda, que foi interrompido e entregue a um jardineiro, quando Vandelli parte para Coimbra em 1772. E também na fatalidade que envolveu toda a recolha do mundo natural efetivada pelos naturalistas que arriscaram a vida nas viagens filosóficas à África, América e Ásia, uma vez que, chegada ao Museu da Ajuda, não foi estudada nem tão pouco catalogada. Impulsionador com visão, com estratégia e com conhecimento de ponta para a época, Vandelli demonstrava precisar do apoio de alguém que continuasse seu trabalho, e que levasse até ao fim as linhas de pesquisa por ele tão bem iniciadas. Infelizmente isso não aconteceu, e os trabalhos ficaram incompletos (CASTEL-BRANCO, SOARES; CHAMBEL, 1999, p. 56-57).

A outra característica de Vandelli é refletida nas prioridades que determinou em seu trabalho, ou seja, diante da escolha entre o aprofundamento do estudo do mundo natural, do vínculo com as ciências e o lucro rápido que um país mercantilista lhe acenava, o botânico opta por este. A saber, em termos modernos: “entre a economia e a ecologia Vandelli escolhe a economia, e a esta prioridade prestam-lhe os portugueses do final do século XX uma homenagem com o livro sobre economia e finanças” (CASTEL-BRANCO, SOARES; CHAMBEL, 1999, p. 57).

Colocando em segundo plano o mundo natural, consequentemente, Vandelli não é celebrado devidamente nos jardins botânicos que iniciou, e há queixas que nem um busto lhe erigiram: “Fu por certo meritatamente ereto al Brotero, nel 1887, il bel monumento che si amira nel giardino di Coimbra, ma è assolutamente ingiusto che al primo fondatore, al

Vandelli, non siasi pensato di dedicare nè un busto, nè un’inscrizione”45. Esses traços de carácter mostraram-se nefastos para o botânico, pois o levaram, anos mais tarde, à prisão, ao exílio e a uma morte triste (CASTEL-BRANCO, SOARES; CHAMBEL, 1999, p. 57).

Apesar dos aspectos negativos de sua biografia, a história de Vandelli em Lisboa é meritória. Apoiado em consistente conhecimento científico, promoveu várias missões botânicas às possessões portuguesas ultramarinas, denominadas “viagens filosóficas”, levadas a cabo não só por Alexandre Rodrigues Ferreira, mas também por outros naturalistas como Manuel Galvão da Silva, Angelo Donati e João da Silva Feio, e por alunos seus formados na Universidade de Coimbra (CASTEL-BRANCO, SOARES; CHAMBEL, 1999, p. 62). Tais expedições encontraram muitas espécies desconhecidas, dos quais muitos exemplares foram enviados a Linneo.

FIGURA 28 – Real Academia de Ciências de Lisboa – Viagens Ultramarinas Fonte: ARQUIVO NACIONAL, 2011.46

Outra realização de destaque ocorreu em 1779, quando Vandelli participou da criação da Academia Real das Ciências de Lisboa, fundada para incentivar a investigação científica e a divulgação da cultura lusitana. Um dos principais mentores da Academia, o botânico foi também o seu grande impulsionador econômico. Os textos que publicou em nome da instituição, que integram a coleção Memórias Econômicas, revelam sua expressiva contribuição para o desenvolvimento das doutrinas políticas e econômicas de Portugal.

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“Foi com certeza merecido o monumento erigido a Brotero em 1887, que se admira no jardim de Coimbra, mas é absolutamente injusto que nunca se tenha pensado dedicar nem um busto nem uma inscrição ao primeiro fundador, Vandelli” (Tradução da autora). (SACCARDO, P. A. Di Domenico Vandelli e della parte

ch’ebbe lo studio padovano nella riforma dell’instruzione superiore del Portogallo nel setecentto. Pádua:

Tipografia Gil. Batt. Randi, 1990, p. 77).

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Disponível em:

FIGURA 29 – Biblioteca da Real Academia de Ciências de Lisboa – 1799 Fonte: GOOGLE, 2011.47

O Jardim Botânico da Ajuda reuniu mais de 5 mil espécies biológicas provenientes dos cinco continentes. Auxiliado por seus colaboradores, Vandelli denominou para a ciência mais de 100 novas espécies. A Anthericum mattiazzi Vand, uma Anthericaceae, ele dedicou ao jardineiro e conterrâneo Giulio Mattiazzi, ex-diretor do Horto Botânico de Pádua, que o acompanhou a Lisboa em 1768.

Em 1791, Vandelli foi nomeado diretor do Real Jardim Botânico da Ajuda e deputado da Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação. Dali em diante, passou a dedicar sua atenção a assuntos políticos, diplomáticos e financeiros, pondo de lado os interesses botânicos.

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Disponível em:

FIGURA 30 – Domenico Vandelli – Diccionário de Termos Technicos de Historia

Natural – Coimbra, 1788.

Fonte: MONTALVO E AS CIÊNCIAS NATURAIS DO NOSSO TEMPO, 2011.48

Autor de um grande número de obras sobre temas científicos e econômicos, Vandelli publicou estudos botânicos em português e em latim, redigindo importantes trabalhos de botânica descritiva sobre várias famílias, como a obra Dissertatio de Arbore Draconis, seu Dracaena, publicada em Lisboa, em 1768, e a Florae Lusitanicae et Brasiliensis Specimen. Et Epistolae ab eruditis víris Carolo a Linné, António de Haen ad Dom Vandelli scriptae, criada em 1788, e baseada no trabalho e nas indicações de Joaquim Vellozo de Miranda, seu discípulo, que passou muitos anos no Brasil a coletar espécies da flora local. No mesmo ano, publicou o Dicionário dos termos técnicos de história natural extraídos das obras de Lineu e Memoria sobre a utilidade dos Jardins Botanicos. Em 1789, publicou a Viridarium Grisley lusitanicum, Linnaeanis (GUIMARÃES, 2011).

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Disponível em: <http://montalvoeascinciasdonossotempo.blogspot.com.br/2011/01/domenico-vandelli-foi- um-naturalista.html>.

FIGURA 31 – Domenico Vandelli – Viridarium Grisley Lusitanicum – Coimbra, 1789.

Fonte: BIBLIOTECA DIGITAL DE BOTÂNICA, 2011.49

Segundo Munteal Filho e Melo (2004, p. 60): “ Em Vandelli temos a grande clareza sobre a relação obrigatória da descrição e observação com as exigências de auto-reflexão que a Natureza inspira ao visitante de um Museu de História Natural”, a saber:

Sendo o Museu de História Natural feito principalmente para instruir, e servindo também para divertir, devem ser dispostas as produções naturais com gosto e que interessem aos curiosos, e que possam instruir, e inspirem novas idéias aos sábios, mas satisfazer todas estas vistas sem apartar-se muito da Natureza, isto é muito dificultoso. A ordem é que faz um dos maiores merecimentos do museu. Um museu bem distribuído será o verdadeiro Teatro da Natureza (VANDELLI, p. 10-

1150apud MUNTEAL FILHO; MELO, 2004, p. 60-61).

A conclusão de Vandelli é ainda mais elucidativa sobre as várias etapas do conhecimento científico: um museu bem distribuído significava, para além da disposição dos espécimes, a sua classificação criteriosa, o conhecimento das leis que regem a Natureza aliado à experiência (MUNTEAL FILHO; MELO, 2004, p. 61).

Os estudos de Vandelli apresentaram uma virada importante, quando este passou a dedicar-se integralmente à Academia Real das Ciências de Lisboa, o que aconteceu a partir de 1782. Cada vez mais Vandelli condicionava seus estudos de caráter científico às preocupações de caráter econômico de Portugal, ampliando sua inestimável contribuição intelectual ao desenvolvimento do país (MUNTEAL FILHO; MELO, 2004, p. 98).

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Disponível em: <http://bibdigital.bot.uc.pt/obras/UCFCTBt-B-78-1-43/UCFCTBt-B-78-1- 43_master/UCFCTBt-B-78-1-43_JPG/UCFCTBt-B-78-1-43_JPG_24-C-W0140/UCFCTBt-B-78-1-

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