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DEL II REFORMENS INTENSJONER

3 Kunnskapsløftet som styringsreform

3.1 Reformens begrunnelse og politiske kontekst

De origem específica nos trabalhos de Pierre Bourdieu, o termo Capital Cultural descreve a distribuição desigual de competências, valores e práticas culturais característica das sociedades capitalistas (SULLIVAN, 2001)17. O capital cultural representa um conjunto de instrumentos de apropriação de bens simbólicos. Segundo Costa (2010), é herdado durante a socialização vivida em fase primária com a família, mas que também pode provir de outras fontes, como as escolas e as universidades.

Bourdieu percebeu que o ensino escolar não é transmitido da mesma forma para todos os alunos como a escola faz parecer. Segundo ele, alunos pertencentes às classes mais favorecidas trazem de berço uma herança que ele chamou de “capital cultural”, ou seja capital de cultura. A cultura são os valores e significados que orientam e dão personalidade a um grupo social. Já “capital cultural” é uma metáfora criada por Bourdieu para explicar como uma cultura em uma sociedade dividida em classes se transforma em uma espécie de moeda que as classes dominantes utilizam para acentuar as diferenças. A cultura se transforma em instrumento de dominação. Além disso, as classes dominantes impõem às classes dominadas sua própria cultura dando-lhe um valor incontestável fazendo com que seja cultura “boa”. Bourdieu percebeu essa dinâmica e a batizou de “arbitrário cultural dominante”. O arbitrário cultural dominante nada mais é do que uma cultura se impor sobre outra18.

17 O’Sullivan, Tim. Conceitos-chave em estudos de comunicação e cultura, por Tim O’Sullivan e outros. Tradução de Margaret Griesse e Amós Nascimento. Piracicaba: Editora UNIMEP, 2001. 288p. 21cm.

18 Documentário “Bourdieu e a Educação - Parte 1” sobre o entendimento do sociólogo Pierre Bourdieu sobre o sistema educacional, vídeo disponível em https://www.youtube.com/watch?v=nBImhAMslqU

No capítulo IV dos “Escritos de Educação”19, Bourdieu (1999) atribui ao “sucesso

escolar” ou seja, os benefícios específicos que as crianças das diferentes classes e frações de classe podem obter no mercado escolar à distribuição do capital cultural entre as classes e frações de classe.

A cultura dominante é a cultura dos grupos dominantes, não havendo, portanto, nenhuma cultura superior a outra. Bourdieu ensina que é a posse desses capitais que servirá como elemento de legitimação e distinção social. Toda essa estrutura simbólica é reconhecida e legitimada por todos. (COSTA, 2010)

No artigo “O conceito de Capital Cultural em Pierre Bourdieu e a herança etnográfica”, a professora Maria Amália de Almeida Cunha ressaltou que a cultura dominante não é somente um reflexo automático da posição dos grupos dominantes. “A hegemonia de suas práticas culturais é também o resultado de uma luta” (CUNHA apud ALMEIDA, 2007, p. 48)20. Através do acúmulo de capitais nos campos que as posições dos indivíduos são determinadas dentro da sociedade. Bourdieu chama de “lutas simbólicas” entre variados grupos sociais e nesses conflitos se consagram valores que se tornam aceitáveis ou comuns. Nosso capital econômico e cultural nos determinam onde devemos ir. No campo da música, o que determina o que é clássico ou popular, o que é de bom ou de mau gosto é a luta simbólica (COSTA, 2010). O poder simbólico possui a capacidade de fazer o indivíduo operar mesmo contra seus interesses. O poder eficaz é o “invisível”, sendo este o que vai impulsionar a escola. O poder é a habilidade de se fazer e obrigar a execução de uma ação mesmo sem interesse ou vontade de quem a praticará.

Bourdieu refere-se à existência de três estados de capital cultural: no estado incorporado, no estado objetivado e no estado institucionalizado.

O capital cultural pode existir sob três formas: no estado incorporado, ou seja, sob a forma de disposições duráveis do organismo; no estado objetivado, sob a forma de bens culturais - quadros, livros, dicionários, instrumentos, máquinas, que constituem indícios ou a realização de teorias ou de críticas dessas teorias, de problemáticas, etc.; e, enfim, no estado institucionalizado, forma de objetivação que é preciso colocar à parte porque, como se observa em relação ao certificado escolar, ela confere ao capital cultural - de que é, supostamente, a garantia - propriedades inteiramente originais. (BORDIEU, 1999)

19 BOURDIEU, Pierre. Escritos de Educação / Maria Alice e Afrânio Catani (organizadores) – Petrópolis, RJ: Vozes, 1999, 2º edição. pp. 71-79.

20 CUNHA, Maria Amália de Almeida. O conceito “capital cultural” em Pierre Bourdieu e a herança etnográfica. Perspectiva, Florianópolis, v. 25, n. 2, 503-524, jul./dez. 2007.

No estado incorporado, o trabalho de assimilação e de inculcação referente à acumulação de capital cultural envolve uma dimensão corporal e pressupõe uma “incorporação” da maior parte de suas propriedades. É um trabalho que requer um tempo específico e investimento por parte do indivíduo. Este capital “pessoal” não poderá ser transferido a outro indivíduo, nem transmitido instantaneamente sendo o capital cultural “um ter que se tornou um ser”, uma propriedade que se fez corpo e tornou-se parte integrante da "pessoa", um habitus (CUNHA, 2007). A incorporação de formas de se tocar e de sua regular prática produz características físicas nos músicos de choro, o que indica um traço reincidente nessa categoria de agentes. A socialização promovida pelo choro permite também a incorporação de posturas e conhecimentos de regras, sendo alguma delas, silenciosas e até mesmo gestuais compartilhadas pelo habitus “chorão” ou “chorista”.

Nesse estado incorporado insere-se o componente da herança familiar que, segundo Bourdieu, define o futuro escolar de seus membros descendentes. Os conhecimentos considerados legítimos são apropriados pelo indivíduo e o domínio maior ou menor da língua culta trazido de casa facilita o aprendizado dos conteúdos e dos códigos escolares, funcionando assim como uma ponte entre a família e a escola.” (COSTA, 2010)

No estado objetivado, o capital cultural é transmitido em sua materialidade, sendo objetivado em suportes materiais, tais como escritos, pinturas, monumentos, dentre outros. De acordo com Cunha (2007), os bens culturais podem ser objeto de uma apropriação material, que pressupõe o capital econômico, e de uma apropriação simbólica, que pressupõe o capital cultural. A aquisição de bens econômicos para a compra de bens culturais não seria uma garantia de apropriação simbólica desses bens, uma vez que é necessário haver capital cultural no estado incorporado para decifrá-los (COSTA, 2010). Os bens culturais pelo estado objetivado dos capitais culturais do choro referem-se em especial à produção de música escrita e gravações mecânicas que tiveram seu incremento durante o século XX no contexto brasileiro. Os discos como produto do mercado fonográfico do Choro marcaram o avanço tecnológico e a profissionalização do chorista e contribuíram para sua difusão, transmissão e construção de uma tradição cultural musical em conexão com seus conceitos de tradição e identidade nacional. Os instrumentos musicais do choro também possuem traços característicos e atuam como instrumentos de uma tradição cultural seguida pelos agentes e seu habitus.

No estado institucionalizado, a objetivação de capital cultural sob a forma de diploma legitima a cultura como um elemento ligado à dominação simbólica. Assim, o capital

cultural se materializa por meio de diplomas escolares no ambiente institucionalizado das escolas e universidades, fontes transmissoras de cultura. A incorporação da música popular brasileira no currículo das instituições de ensino musical é uma questão que ainda envolve o questionamento de como tais saberes serão inseridos no ensino formal brasileiro. As potencialidades das práticas do choro necessitam ser desveladas em harmonia com suas reais formas de ensino e aprendizado e absorvidas no ensino formal. Assim, a legitimação de capital cultural terá êxito em seu estado institucionalizado respeitando a música em contexto e sua cultura.

Os capitais culturais são as ferramentas da conquista dos bens simbólicos no campo onde a cultura se constitui elemento de luta e de dominação simbólica. No campo da música popular brasileira, o habitus do choro movimentou capitais culturais específicos relativos ao ensino e aprendizagem nos estados incorporados em contextos formais (conservatórios, pela música escrita, pela aprendizagem dos códigos da música europeia), não-formais (nos contextos onde ocorriam as práticas de Choro, como as rodas de choro, nas mediações entre os músicos populares e os músicos de formação formal, dentre outros contextos) e informais. A tradição construída por meio das mediações, das noções de identidade em legitimar uma “cultura brasileira” também se relacionou com os capitais culturais no estado institucionalizado (conforme cronologia do Choro supracitada, pela atividade desenvolvida nos conservatórios de vários músicos-professores, compositores de choro como por exemplo, Henrique Alves de Mesquita, seu aluno e futuro professor, o flautista Joaquim Antonio da Silva Callado). Quanto ao estado objetivado, o choro tem produzido repertório, publicações, bibliografia específica para a legitimação de sua atuação, permitindo também a profissionalização e reconhecimento de seus agentes nas lutas de poder do campo do Choro.