As relações políticas entre Israel e Egito foram exaustivamente trabalhadas nos capítulos um e dois desta pesquisa. Não há necessidade de esmiuçá-las ainda mais aqui. Basta resumir que além de ter abrigado os israelitas durante muito tempo, e de Israel ter sido escravo naquela terra, em muitas ocasiões quando as potências do norte cresciam em força na política internacional, Israel tentava fazer aliança com o Egito. Ainda nos dias do exílio babilônico o último rei de Judá tentou fazer isso. Depois que Godolias foi assassinado, muitos judaítas se refugiaram no Egito e ali estabeleceram uma forte colônia judaica que nunca retornou à palestina. Entre essas pessoas que se refugiaram no Egito estava o profeta Jeremias, que por inúmeras ve- zes alertou para que não fossem feitas alianças com o Egito.
O Egito aparece abundantemente no Dt como a experiência que não deve ser esquecida. Ele é mencionado nos credos com o lugar de onde o Senhor Yahweh libertou seu povo, o lugar onde ele fez grandes sinais para libertar os israelitas.
Pelo que percebemos deste apanhado, diferente das relações com Moabe, Amon, Edom e Egito os conflitos entre amonitas e israelitas predominam no período da monarquia unida sob Saul e Davi. A aliança feita com Salomão e os amonitas através de seu casamento com Naamá trouxe mais desgraça para Israel, primeiro dando respaldo governamental para o culto amonita ser praticado em Judá, segundo gerando um sucessor que acabou com a “união” da nação por não saber ouvir aos anciãos do povo. A história deuteronomista tenta culpar Jeroboão pela divisão dos reinos, mas foi Jeroboão quem teve o suporte profético para levar dez tribos com ele.
Sabemos que Efraim e Judá nunca foram unidos de fato, mas nos dias de Roboão tornaram-se separados de fato. E, pelo que a própria literatura deuteronomista nos mostra, após a divisão dos reinos Judá ficou muito prejudicada, tendo que viver em dependência econômica e militar do reino do norte. Nos dias de Acabe é Judá quem vive em relação de dependência de Efraim. O apoio que o rei de Judá teve que dar a Acabe na sua batalha final, e a forma como Acabe manipulou a situação para que o
rei do sul morresse em seu lugar mostra que o sul não tinha a autonomia e a grandiosidade de outrora, ao contrário, dependia de Efraim136.
O contexto da relação desses povos com Israel nos sugere que há um rancor profundo entre Judá e Amon por causa do filho mestiço Roboão que fez com que Judá ficasse vassala do reino do norte. Já com Moabe as relações foram menos conflitantes durante a monarquia, e constatamos que o problema com Moabe era da época do exílio e não anterior.
As relações com Edom são problemáticas a partir da deportação, mas os edomitas são gente mais antiga que Israel, afinal é o “irmão mais velho de Jacó”. Sua região também está longe de ser um grande problema geográfico para Judá. Edom não ameaçava as fronteiras pois a enorme depressão do planeta terra situada na região se encarregava de criar uma defesa natural. Edom se encontra ao lado do deserto da Judéia, na transjordânia. Quanto ao Egito, ele lembrava escravidão, mas era com o Egito que Israel tentava se aliançar quando qualquer outra nação estrangeira tentava se apossar de seu território. Egito comparado com Assíria, Babilônia e Pérsia era o menor dos males, era quase uma nação irmã.
Cabe atentarmos para o simbolismo de todos estes povos “evitáveis” dentro da legislação e no momento histórico no qual estamos ancorados. As tradições sacerdotais a respeito destas nações sempre colocam nos episódios do êxodo os motivos da inimizade entre eles. Sempre foi Moabe, Amon ou Edom quem provocou alguma briga, quem negou água, negou passagem, quem amaldiçoou. E o Egito simboliza sempre o lugar de onde se quer sair. Na prática as relações destes países foram bem diferentes como pudemos constatar, mas é fato que, pelo menos Edom, Amon e Moabe ficaram mais prósperas que Judá durante o exílio por um único fator: geografia.
Estes territórios ficavam todos na transjordânia e as potências do “norte” estavam muito interessadas em estabelecer contatos amigáveis ou até conquistar a grande civilização do sul – o Egito. Mas este norte, não é bem norte, é um leste. Só que para
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PIXLEY, História de Israel a partir dos pobres, p. 44 - 54 nos mostra que durante a dinastia dos Amridas a situação de Efraim foi florescente e Judá viveu numa espécie de subserviência econômica.
os povos da antiguidade, para os quais uma visão de satélite era uma coisa completamente improvável, Babilônia e Pérsia estão no norte, são ameaças do norte, embora este norte estivesse a leste... O fato é que, para concretizar estas relações diplomáticas ou militares da Mesopotâmia com o Egito, as nações da transjordânia com a rota dos reis era o caminho privilegiado e não a difícil e montanhosa região de Judá. Este aspecto favoreceu sobremaneira a Amon, Moabe e Edom. Era por ali que passavam todos os despojos e riquezas de guerra. Referir-se a Amon, Moabe e Edom no pós exílio como quem atrapalhou o êxodo mil anos atrás era uma analogia de grande valor teológico, pois afinal os deportados estavam fazendo um novo êxodo, qualquer Amon, Moabe ou Edom seriam entraves à reconstrução da nação, ao cumprimento da missão dessa gente e o novo Egito (Babilônia) é o lugar de onde se tem que sair.