Rastreando o histórico das relações entre Moabe e Israel ao longo do texto massorético, vale à pena fazer alguns apontamentos. A referência direta a Moabe, moabita (s) aparece em cento e setenta e sete versículos do texto hebraico. Em termos de proporção vale à pena notar que trinta e nove destas referências estão nos profetas anteriores (Js-2Rs). A OHD, produzida em seu primeiro momento nos dias de Josias com base na primeira e na segunda redação do Dt traz muitas menções sobre Moabe. Basicamente ela cita Moabe como parte do percurso antes da chegada em Canaã (Js 13, 32;11,18), repete os episódios com Balaão (Js 24,9; Jz 11,25) e mostra que Moabe subjugou os israelitas mas foi livrada por Jefté (Js 10,6; Jz 3,
12.14.15.17.28.29.30; 11,15.17). Moabe esteve presente nos episódios envolvendo Débora (Jz 4 e 5), foi alvo de investidas militares de Saul (1 Sm 12, 9.47), escondeu Davi e seus pais enquanto foragido de Saul (1 Sm 22,3.4) e emprestou mercenários aos exércitos de Davi (2 Sm 8,12; 23,20). Até aqui percebemos uma Moabe fraterna com Israel.
Aparentemente, nos dias de Salomão os deuses de Moabe começaram a participar da vida religiosa de Israel através das esposas estrangeiras com quem Salomão se casou fazendo alianças políticas com os povos vizinhos (1 Rs 11,1.7.33). Moabe teve com Israel relações de vassalagem. Durante os dias de Acabe, Mesha, rei de Moabe pagou tributo ao rei de Israel até que se rebelou. Embora a estela de Mesha fale de uma grande vitória moabita, o relato bíblico atribui derrota aos moabitas (2 Rs 1,1; 3,5.7.10.13.18.21.22.23.24.26; 3,4)132.
2 Rs 13,20 nos mostra que após a morte de Eliseu os moabitas se comportavam como mercenários para se livrar do domínio do norte. Com a destruição do norte o “problema moabita” passou para o sul, pois Josias destruiu altares à divindades moabitas em sua reforma (2 Rs 23,13). Por fim, já em período babilônico, nos dias de Jeoaquim, quando este se rebelou contra Nabucodonozor, bandos de moabitas ajudaram a devastar Judá. Esta é a síntese histórico-teológica das relações entre Israel e Moabe segundo o texto da historiografia deuteronomista.
A tensão entre Moabe e Judá que os profetas anteriores não deixam transparecer muito bem, se torna mais acentuada nos posteriores 1Isaías e Jeremias. Sabemos da enorme relevância da profecia destes dois profetas para o período exílico e pós exílico. Então nos concentraremos nesses ditos.
No 1 Isaías os ditos contra Moabe predizem de forma muito homogênea uma assolação do país e de suas cidades (Is 11,14; 15,1.2.4.5.8.9; 16, 2.4.6.7.11.12.13.14; 15.10). A profecia de Jeremias é que nos dá um quadro mais claro da relação com Moabe nos dias de deportação. O país recebeu anúncio de cativeiro da parte de Jeremias (Jr 27,3). Moabe, junto com outras nações e Israel, é incircuncisa de
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coração (Jr 9,26), recebeu tanto juízo quanto Jerusalém (25,21), mas abrigou vários judaítas foragidos quando o segundo grupo foi deportado (40,11).
O enorme oráculo profético Jr 48 menciona Moabe nominalmente mais vezes que todo o restante dos profetas posteriores, e o castigo sobre a nação pela soberba dela, pela forma como se considerou superior à Judá é pesado e avassalador (48, 1.2.4.9.15-17. 20.24-26.31.33.35.36.38-47). Mas Moabe não teve seu povo deportado (48,11). Ela experimentou a mesma sensação de batalha entre os deuses (só que perdida para Camos) que Israel vivenciou (48,13). Contemporâneo a Jeremias, Ezequiel apenas corroborou o anúncio de destruição e juízo contra Moabe (25,9.11), mas que o castigo de Moabe foi por não ter respeitado que Israel era povo diferente das demais nações (!) (25,8). Que teor profético mais interessante dirigido a um grupo que realmente fomenta esta concepção de superioridade.
As referências a Moabe aparecem quarenta e oito vezes na Torá. De todas estas ocorrências, apenas treze citações estão no Dt. Três menções em Gn, contando apenas a origem dos moabitas pelas filhas de Ló. Uma em Ex no cântico de Moisés e todas as demais (trinta!) no livro de Nm, um documento que, segundo o consenso de muitos estudiosos, é de formulação inteiramente sacerdotal, originário da Babilônia.
Das referências à Moabe no livro do Dt, a única que está contida no Código Dt é a da perícope de nossa exegese. Todas as demais referências pertencem às outras camadas do livro. O teor dessas referências é majoritariamente mencionando Moabe como um lugar no qual, os escravos vindos do Egito ficaram acampados e Moisés passou a ensinar. As montanhas de Moabe deveriam ter significado solene, pois o conteúdo do Dt foi atribuído à Moabe. A lei veio do Sinai, mas os discursos de Moisés vieram das montanhas de Moabe. Já sabemos da história redacional, mas o sentido teológico de Moabe no Dt é o de um lugar solene onde a lei foi proferida, a caminhada no deserto foi rememorada e Moisés, o grande legislador de Israel, se despediu do povo. Ali ele morreu e foi sepultado (29,1; 32,49; 34, 1.5.6.8). Tirando o texto de nossa perícope, que é uma entre duas menções negativas sobre Moabe, a única outra citação que o Dt inteiro faz sobre Moabe é admiravelmente uma formulação positiva. Uma lei que determina que o moabita não fosse molestado: “Não ataqueis Moab, não entreis em
combate contra ele; não te darei posse nenhuma em sua terra, pois foi aos filhos de Ló que eu dei a posse de Ar” (Dt 2,9).
O que a arqueologia tem descoberto sobre Moabe é que este território começou a ser habitado com mais profusão somente durante a idade do Ferro. Os sítios arqueológicos em Moabe de períodos anteriores são escassos, provando que não havia uma Moabe urbanizada na época do êxodo e tribalismo133. Esta estruturação aconteceu realmente no período das monarquias em Israel. Como no reinado de Salomão este território estava anexado em relação de vassalagem com Israel, na época da divisão dos reinos houve a desanexação do território. Provavelmente apenas nesta época é que Moabe pôde ser considerado um país significativo, autônomo algo que durou apenas até a expansão assíria, aproximadamente duzentos anos (entre 926 e 722 A.E.C.).
Do período josiânico é a formulação de Dt 2,9, isto pode significar que, até os dias de Josias, Moabe não era um grande problema pra Israel, mas sim um povo com direitos de posse em Canaã cedidos por Yahweh por critérios semelhantes aos de Israel. Mas na lei de Dt 23,3 Moabe é tanto problema que merece ser excluído. Que tanto problema Moabe passou a representar para Israel e a partir de que textos?
É o documento sacerdotal que faz trinta referências a Moabe, totalizando 62% das citações sobre Moabe na Torá. O silêncio das tradições contidas em Êx sobre Moabe é simplesmente “ensurdecedor”! É de se admirar que as tradições mais antigas do êxodo nada falem sobre Moabe. Apenas o livro de Nm é que conta das querelas entre moabitas e israelitas.
Primeiramente os moabitas atacaram os israelitas através de Siom, rei de Hesbom, cidade moabita (Nm, 21-30). Depois disso Balaque, o rei da própria Moabe contratou Balaão para profetizar contra os israelitas (Nm 22-24). Libertos da maldição convertida em bênção por Yahweh, por fim os israelitas se misturaram em
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MAZAR, Amihai. Arqueologia na terra da bíblia, p. 511 – 514. Outras informações sobre o mesmo assunto: HERR, Larry. The search for biblical Heshbon. p. 36, 37, 68; BIENKOWSKI, Piotr (ed.). Early Edom and Moab: The beginning of the iron age in southern Jordan, p. 8-10.
prostituição cultual com as mulheres moabitas, o povo foi atingido por uma grande praga que matou cerca de vinte e quatro mil pessoas (Nm 25). O que não fica muito claro neste texto é se o motivo da praga foi a contaminação com as moabitas ou com as midianitas, mas no documento sacerdotal estão contidas três menções ruins sobre Moabe. O restante das citações pertencem aos roteiros de viagem.
Será que a queixa de Israel contra Moabe realmente reside nestes episódios ou o fundamento tem conotações mais políticas? Os livros proféticos apresentam quase o triplo de citações sobre Moabe das apresentadas na Torá. Nos profetas encontramos noventa e sete referências a Moabe e moabitas. Apenas duas citações em Amós, referindo-se às ações de Moabe contra Edom, uma em Miquéias fazendo referência aos mesmos episódios de Balaão, duas em Sofonias, apenas quatro em Ezequiel. Todas as demais se encontram em Isaías e a quantidade de menções sobre Moabe em Jeremias é assustadoramente grande. Isto já deixa nosso olhar mais atento para o período em que Moabe se transformou num problema para Israel, melhor dizendo, se transformou num problema para Judá, porque as menções sobre Moabe na profecia do norte são escassas, para não dizer quase nulas.
Por fim os escritos falam bem pouco de Moabe. Só não falam menos porque um dos livros conta a história de uma moabita como veremos no capítulo quatro. Rute possui treze das trinta e duas referências a Moabe nos ketuvim. As demais referências estão em Esdras e Neemias. Em Ed referindo-se à denúncia de alguns judaítas de que o povo não estava cumprindo a lei que ordenava separação com os costumes da terra. Em Ne 13 já consta que o povo tomou conhecimento da lei nos dias em que Neemias esteve ausente, e eles mesmos separaram os filhos moabitas e amonitas do meio deles, ou seja, a formulação de Dt 23,4 já deveria estar pronta em Ne 13,1.23.
O restante de menções dos Escritos sobre Moabe está no livro das Crônicas. Este sim é o documento que conta sobre muitos problemas entre moabitas e judaítas. Moabe é basicamente um problema dos dias do exílio, não é de se admirar que a lei de exclusão de moabitas entre no Dt nesta mesma época.