Depois de toda esta investigação precisamos tentar capturar indícios sobre um possível exclusivismo religioso nas origens de Israel, mas enfrentamos problemas nesta tarefa. De acordo com os elementos que já levantamos, não temos quaisquer indícios que Israel tivesse sido em suas origens, uma nação exclusivista e nem tampouco monoteísta.
A tradição que faz uso de uma interpretação literal do texto bíblico é que oferece este obstáculo, pois nos apresenta um Israel monolítico, que saiu do Egito em grande número, que veio a adorar Yahweh de forma homogênea e inconteste no deserto, e que após o processo de instalação caiu numa espécie de apostasia ao se misturar com estrangeiros e seus costumes religiosos.
De acordo com Donner, o problema da História de Israel acontece justamente quando tentamos seguir o texto bíblico como única verdade histórica, pois o caráter sagrado do texto, tanto para o Judaísmo quanto para o Cristianismo, exige uma hermenêutica completamente dependente da fé, o que basicamente inutiliza a importância da história 37.
Os últimos 20 anos de pesquisa sobre a história de Israel tem demonstrado uma tendência cada vez maior de construir a história de Israel a partir de testemunhos escritos e arqueológicos extra-bíblicos, e que não tenham o conceito de povo eleito como pressuposto. A seqüência histórica a partir dos patriarcas tem sido questionada desde 1967 38.
Desta forma, a mais importante ferramenta neste acesso à história de Israel é a pesquisa histórico-social, e seus resultados nos levam a constatar: principalmente em suas origens Israel foi um povo dissolvido no meio dos outros povos, esteve dependente e interativo com as histórias destes povos. Sua religiosidade era permeada de elementos que no futuro serão designados como “estrangeiros”.
Isto pôde ser verificado desde o momento em que identificamos os grupos humanos que formaram a nação, na análise do contexto político e econômico e ainda na análise sobre o contexto religioso. Nenhuma pista há que respalde um exclusivismo religioso nas origens da nação. Somente através de uma hermenêutica conservadora que defende a literalidade de alguns textos é que se consegue tal respaldo, pois como pudemos ver, todos os elementos aqui analisados também fizeram ampla utilização do texto bíblico. Mas se seguirmos a interpretação literal teremos muitos argumentos para justificar toda exclusão de estrangeiros desde o Pós-Exílio, que é totalmente contrário ao objetivo desta pesquisa.
37
DONNER, Op. Cit, p. 17.
38
Desde 1996, o debate sobre a teoria minimalista (de que as fontes extra-bíblicas deveriam ser consideradas primárias e as bíblicas secundárias) e a teoria maximalista (de que a narrativa bíblica é a absoluta fonte histórica de Israel) tem sido sistematizado e suas conclusões são anualmente publicadas pelo Seminário Europeu sobre Metodologia Histórica que, tem uniformizado a forma de se abordar as questões centrais da história de Israel. Sobre isto ver SILVA, Op. Cit. p. 62-73.
As práticas religiosas dos grupos que formaram Israel eram tão sincretistas39 quanto era a própria mescla de gente que os compunha. Havia grupos de que adoravam o "deus dos Pais", outros que adoravam o "Eu Sou" anunciado por Moisés, que libertara o povo da servidão.
Outros representavam baales e Yahweh (até mesmo o conceito de Yahweh não é unitário neste momento) em forma de animais como bezerros e ainda outros o “deus do Sinai”. E havia os que adoravam um Deus guerreiro, que combatia junto com os mercenários em favor de seu livramento. Não é de se estranhar que pudesse haver também aqueles que repeliam a religião institucionalizada porque esta sustentava o faraó (representante da divindade) e seus sacerdotes, bem como os deuses das cidades-estado (representados também por seus reis e sacerdotes).
Para a sustentação do enorme aparelho estatal que continha toda esta quantidade de deuses e seus representantes, os camponeses empobrecidos eram massacrados com pesadas taxas tributárias. Era das vilas que saía a produção que sustentava este tributarismo e os templos eram importantes centros de arrecadação destes tributos. De forma que, para os camponeses e hapirus, era praticamente impossível dissociar a religião da cobrança de impostos e conseqüentemente da opressão do Egito e dos reis vassalos sobre o povo camponês. Embora os povos da antiguidade fossem essencialmente religiosos, não seria de se estranhar se houvesse alguma tendência “ateísta”, na falta de uma expressão melhor, presente entre os rebeldes.
Se este Israel das origens possuía gente de tantas origens e religiosidades, podemos dizer que uma característica predominante era a sua cultura multifacetada ou sua identidade multicultural, que mesclava toda esta gente de cor, dialeto, religião, profissão e intenção política diferentes.
Talvez seja o momento de tentar uma definição básica desta nação chamada Israel: ajuntamento de povos com modos de vida, meios de subsistência e religiosidades diversificadas, que sedentarizou-se na terra de Canaã no decorrer do século XIII
39
Quero citar a definição de sincretismo feita por MAGALHÃES, Antonio Carlos.
Sincretismo como tema de uma teologia ecumênica, p. 57. “ O Sincretismo [...] representa a fusão de
elementos de dois ou mais sistemas religiosos, podendo significar uma alteração significativa da estrutura básica de um dos sistemas ou de ambos”.
A.E.C., e que assumiu, posteriormente, a libertação do poder do Egito como memória histórica comum.
No próximo capítulo faremos uma nova análise. Desta vez analisaremos não o Israel original, mas o Israel “final”, ou seja, pós-exílico, monoteísta, exclusivista. Tentaremos entender o contexto histórico-social, político, econômico e religioso desta época. Tentaremos formular uma teoria sobre o surgimento deste Israel monoteísta e finalmente faremos constatações sobre a prática do exclusivismo religioso deste período