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Num esforço de síntese, alguns autores propõem modelos em que articulam o papel das variáveis pessoais, interpessoais e organizacionais na explicação da etiologia do burnout. É o caso de Gil-Monte e Peiró (1997) e de Schaufeli e Enzmann (1998). Da mesma forma, tentaremos de seguida traçar os principais contornos de um modelo integrativo das conceptualizações do burnout. Para tal, tomamos como ponto de partida uma análise transversal dos modelos individuais, interpessoais e organizacionais de burnout anteriormente caracterizados, a qual nos permite identificar as perspectivas mais consensuais nessas abordagens. Seguidamente recordaremos a nossa proposta de definição operacional do burnout, anteriormente apresentada, salientando o seu ajustamento aos consensos identificados. Por último propomos uma integração do ponto de vista inovador introduzido pela abordagem societal do burnout.

A análise transversal dos principais modelos de burnout revela uma imagem bastante consensual deste fenómeno em que do ponto de vista explicativo se apela para factores como o stress profissional decorrente do desajuste pessoa / trabalho a par do uso de estratégias de coping disfuncionais e perversas e se concebe o burnout como um síndroma tridimensional, envolvendo exaustão emocional, despersonalização e perda de realização pessoal no trabalho.

Stress profissional decorrente do desajuste pessoa – trabalho

Apesar de darem diferentes ênfases aos factores individuais, interpessoais ou organizacionais, a generalidade dos modelos analisados considera o burnout como um resultado do stress profissional decorrente do desajuste pessoa – trabalho: os objectivos, motivações, expectativas, aspirações, esperanças do indivíduo revelam-se desajustados da sua vivência profissional real, em que se confronta com fortes exigências interpessoais ou outras condições de

trabalho adversas e esse desajustamento determina a experiência de stress profissional. Este ponto de vista pode ser ilustrado pelo modelo individual de Edlwich e Brodsky (1980) em que os sonhos e expectativas de ajuda que definem a fase de entusiasmo inicial são cronicamente frustrados pela realidade da vida profissional; ou pelo modelo interpessoal de Maslach e colaboradores (1993) em que os objectivos e motivações de ajuda do profissional se desgastam e pervertem perante as elevadas exigências emocionais a que é sujeito na relação de ajuda com os utentes dos serviços; ou ainda pelo modelo organizacional de Cherniss (1995) no qual as expectativas iniciais (mística profissional) se confrontam com condições de trabalho inadequadas dando origem ao "choque de realidade".

Estratégias de coping disfuncionais e perversas

De uma maneira geral, os modelos analisados sublinham a natureza dinâmica do processo de burnout decorrente das estratégias de coping utilizadas para lidar com o stress profissional, as quais se revelam disfuncionais e perversas no sentido em que perpetuam a vivência de stress e contribuem para o desenvolvimento e manutenção de um quadro de burnout. Exemplos desta perspectiva podem ser encontrados nos três modelos que referimos no ponto anterior: Edlwich e Brodsky (1980) referem a "apatia ou distância física e mental" como mecanismo de defesa; Maslach e colaboradores (1993) falam da despersonalização entendida como uma forma de coping disfuncional que se torna persistente; Cherniss (1995) destaca as estratégias de coping defensivas que envolvem o desenvolvimento de atitudes e comportamentos negativos e disfuncionais.

Burnout como síndroma tridimensional, envolvendo exaustão emocional, despersonalização e perda de realização pessoal no trabalho

O burnout profissional, resultante da vivência de stress profissional e do uso de estratégias de coping disfuncionais, é concebido de forma mais consensual de acordo com a definição de Maslach e colaboradores (Maslach & Jackson, 1986), como um síndroma tridimensional, envolvendo sentimentos de exaustão emocional, atitudes e comportamentos de

despersonalização e perda de realização pessoal no trabalho. Esta conceptualização é adoptada nos modelos interpessoal de Schaufeli e colaboradores (Buunk & Schaufeli, 1993; Schaufeli & Enzmann, 1998), e organizacionais de Golembiweski e colaboradores (1993) e de Maslach e Leiter (1997). A tridimensionalidade do burnout é o aspecto da conceptualização do burnout que encontra maior base empírica. Quanto à sequência das três componentes, a proposta de Leiter (1993) atrás referida é a que parece oferecer uma melhor explicação do processo de burnout.

Tendo identificado estas três grandes linhas de consenso entre as abordagens individuais, interpessoais e organizacionais do burnout, importa agora recordar a definição

operacional do burnout anteriormente proposta, salientando o seu ajustamento à análise dos

modelos teóricos que acabamos de fazer.

O nosso ponto de partida consistiu em aceitar a definição tridimensional do burnout tal como concebida por Maslach (1993; 1999) e operacionalizada no Maslach Burnout Inventory (Maslach & Jackson, 1986; Maslach et al, 1996), e de acordo com a qual o burnout pode ser concebido como um processo de quebra de adaptação resultante de um processo mais amplo de stress profissional prolongado e conducente a um estado final de disfuncionamento crónico.

A compreensão do burnout remeteu-nos então para o problema das relações entre o stress e a saúde-doença, o qual situámos na perspectiva (bio) psicossocial da psicologia da saúde (Engel, 1977). Ao fazê-lo integrámos a definição tridimensional de burnout numa perspectiva processual mais ampla e que não entra em conflito com ela, a saber o modelo transacional de stress e coping de Lazarus e Folkman (1984). Nesta perspectiva, mais do que as condições objectivas de trabalho é a avaliação cognitiva que o indivíduo faz da situação e dos seus recursos de coping que determina a experiência de stress profissional. As tentativas de coping subsequentemente desenvolvidas para lidar com o stress percebido revelam-se disfuncionais e perversas na medida em que não resolvem os problemas colocados pelas exigências profissionais e contribuem para vivências de stress prolongado e para o desenvolvimento de sintomas de burnout.

Por último e reconhecendo que o foco desta definição são os mecanismos psicológicos envolvidos na experiência subjectiva de stress, nas tentativas de coping desenvolvidas pelo sujeito para lidar com essa experiência e na vivência de burnout, propomos uma integração do

ponto de vista inovador introduzido pela abordagem societal, dirigida ao contexto social e

cultural em que ocorre o processo de stress-coping-burnout.

O stress, a saúde e a doença, o burnout, não são fenómenos meramente individuais. Têm uma marcada dimensão social, são poderosos símbolos culturais que se estribam numa tensão fundamental da nossa sociedade definida pela dualidade individuo / sociedade. De facto, e como vimos mais especificamente, os fenómenos do stress e do burnout situam-se em contextos sociais e culturais com os quais estabelecem relações dinâmicas, de tal forma que os padrões de cultura e as ideologias prevalecentes moldam e são moldadas por concepções, interpretações e acções individuais. Como Meyerson (1994) revelou, as diferentes expressões do fenómeno do burnout em diversos contextos profissionais (por exemplo na escola ou no hospital, a nível dos órgãos directivos ou de outros grupos de profissionais) decorrem em grande medida das ideologias institucionais prevalecentes e dos pressupostos adoptados na sua conceptualização (Schaufeli & Enzamnn, 1998).

Com base nesta reflexão propomos então um modelo integrativo do burnout, cuja representação gráfica apresentamos seguidamente:

Figura nº 2.3 Modelo integrativo do burnout

Como podemos observar na figura, o stress profissional resultante do desajuste pessoa – trabalho pode conduzir o profissional ao burnout. As formas de coping utilizadas intervêm igualmente no processo, e embora nos modelos transacionais adoptados para a compreensão do burnout o coping seja conceptualizado como uma variável que interage e codetermina a experiência de stress e que medeia a sua relação como burnout, está no entanto por verificar empiricamente o seu papel mediador ou moderador na relação stress – burnout (linhas a tracejado). Este processo tem tendência para se auto-perpetuar quer pelo efeito do coping disfuncional no stress que tende a torná- lo crónico, quer pelos efeitos do burnout em termos de desgaste de recursos de coping e em termos de stress profissional acrescido. Note-se que os fenómenos de stress, coping e burnout profissional se situam em contextos sociais e culturais com os quais estabelecem relações transacionais e dinâmicas, de tal forma que as ideologias prevalecentes em determinadas épocas e contextos podem

Objectivos, motivações, expectativas, pessoais Condições de trabalho adversas STRESS COPING BURNOUT Exaustão Emocional Despersonalização Perda de Realização Pessoal no Trabalho

moldar o burnout em função dos pressupostos adoptados quanto à sua natureza e designadamente quanto à legitimidade da sua expressão.

Pensamos que esta proposta de integração do processo de burnout na perspectiva transacional de stress e coping e sua articulação com variáveis do contexto socio-cultural se pode constituir como um modelo conceptual abrangente capaz de enquadrar teoricamente o estudo do burnout e de orientar as tão necessárias investigações dedutivas neste domínio. Este modelo retira- nos igualmente do habitual quadro de disputa bicéfala entre as perspectivas sociológicas do burnout - que remetem o indivíduo em burnout para o papel passivo de vítima das condições sociais - e algumas perspectivas psicológicas - que ao estudarem as variáveis determinantes das diferenças individuais na experiência de burnout correm o risco de culpar a "vítima" - uma vez que nos permite não só explicar os mecanismos psicológicos e as fases de desenvolvimento do burnout a nível dos individuos mas simultaneamente dar conta da influência do social nesse processo.

Face à escassez e fragilidade de estudos que adoptem uma perspectiva societal no estudo do fenómeno do burnout (Schaufeli & Enzmann, 1998; Sleegers, 1999) propomo-nos de seguida, ao longo do capítulo três, contribuir para uma compreensão mais aprofundada da dimensão social do burnout, situando-nos para tal no quadro da Teoria das Representações Sociais (Moscovici, [1961] 1976).