Chamando a atenção para o facto de a maioria dos modelos do burnout o conceptualizarem como um fenómeno psicológico subjectivo, decorrente das características pessoais do individuo ou de um desajustamento entre estas e as exigências interpessoais ou organizacionais, alguns autores referem uma abordagem societal ou sociológica em que destacam o papel de determinantes objectivos, de natureza social e cultural, no burnout. Por exemplo Byrne (1999) na sua revisão das perspectivas teóricas sobre o burnout distingue uma perspectiva histórico- social em que inclui o trabalho de Sarason (1983); da mesma forma, Schaufeli e Enzmann (1998) referem os modelos de Meyerson (1994), Karger (1981) e Handy (1988, 1991) no quadro de uma abordagem societal do burnout.
O modelo de Meyerson (1994), que seguidamente analisamos com detalhe, embora não seja o pioneiro merece-nos particular destaque dada a relevância dos seus pontos de vistas para a proposta de articulação que fazemos ao longo deste trabalho com a perspectiva das representações sociais.
Constatando o aumento das queixas de stress entre os trabalhadores e procurando analisar este fenómeno como uma construção social e cultural de significados, Meyerson (1994) adopta o ponto de vista de Abbott e de Barley e Knight, de acordo com o qual o stress funciona como um poderoso símbolo cultural porque conota uma tensão fundamental na nossa sociedade, definida pela dualidade sociedade / individuo: ".. o indivíduo ´stressado` que é simultaneamente
prejudicado pela sociedade e desajustado da sociedade…" (Abbott, 1990, p. 442, citado por Meyerson, 1994, p. 629).
Neste quadro Meyerson (1994) vai estudar o burnout na sua relação transacional e dinâmica com os sistemas institucionais. As instituições são por ela encaradas como sistemas cognitivos e simbólicos (Berger & Luckman, 1967, citados por Meyerson, 1994, p. 630) determinantes da cultura e das formas de compreensão individuais uma vez que legitimam e produzem padrões de cultura no seio das organizações, as quais moldam e, por sua vez, são moldadas por acções, interpretações e concepções individuais.
O estudo etnográfico realizado por Meyerson (1994) procurou clarificar de que forma as interpretações individuais que os profissionais fazem do burnout reflectem e reforçam macro processos institucionais e culturais. Para tal a autora analisou as interpretações e experiências concretas, do ponto de vista do burnout, de assistentes sociais que trabalhavam em hospitais em que se distinguiam diferentes sistemas institucionais e culturais: "… Tal como a mistura e domínio relativo dos diferentes sistemas institucionais varia num contexto organizacional, o mesmo deve acontecer aos contornos das culturas e subculturas organizacionais e ao padrão das acções e interpretações quotidianas dos indivíduos no interior desses sistemas …" (Meyerson, 1994, p. 632)
Na maioria dos hospitais estudados, o modelo médico tradicional emergiu como sistema institucional dominante no departamento de serviço social. A ideologia médica emergente incluía três crenças fundamentais sobre a saúde-doença: tudo o que não é estatisticamente normal é doença; o indivíduo é o locus da doença; e a ordem e o controlo são fundamentais. Contudo, num dos hospitais em que a investigação foi realizada a ideologia dominante, reflexo de uma lógica institucional distinta, baseava-se num modelo psicossocial da saúde-doença que obedecia às seguintes crenças: existem múltiplas noções e manifestações de normalidade; as condições dos pacientes têm uma origem social (por oposição a individual); e a auto-determinação ou auto- controlo por parte dos pacientes é fundamental.
As interpretações do burnout construídas pelos assistentes sociais nos dois tipos de hospital reflectiam como esperado o sistema cultural neles dominante. Nos primeiros, marcados
pela ideologia médica, o burnout era considerado como uma doença, contraída pelo indivíduo e de sua inteira responsabilidade, e o individuo em burnout era tido como pouco profissional e marginalizado - "… Eu não trabalharia mais com eles porque eles deveriam demitir-se… " (Meyerson, 1994, p. 643); consonantemente, havia uma clara relutância em admitir a existência de problemas de burnout no departamento de serviço social e de facto apenas foram "encontrados" dois casos de burnout. Por seu lado, no hospital dominado pela ideologia psicossocial o burnout era interpretado de forma qualitativamente diferente, como uma condição normal ou até mesmo como uma resposta saudável às condições sociais existentes, como parte integrante da vida profissional - "… Se as pessoas não entram em burnout neste trabalho, não devem estar a trabalhar com suficiente afinco …" (Meyerson, 1994, p. 648) – e efectivamente foram identificados diversos casos de burnout.
Meyerson (1994) vem assim chamar-nos a atenção para o poder do pensamento médico na determinação de significados – designadamente na determinação do significado do burnout, mas de uma maneira geral de todas as condições que possam ser classificadas como doença. Mas a conclusão fundamental, retirada por Meyerson (1994), é a de que as interpretações do burnout reflectem e reforçam os sistemas institucionais e culturais dominantes.
Os outros três modelos incluídos nesta abordagem societal do burnout, vão sublinhar igualmente dimensões sociais e culturais deste fenómeno: o modelo de Karger (1981), que tem sido explorado empiricamente (Powell, 1984), baseia-se no pensamento marxista e parte da premissa de que a alienação decorrente de desenvolvimentos sociais como a "…´objectificação` dos meios de produção… " (Karger, 1981, p. 275) está na origem do burnout; o modelo de Handy (1988), também ilustrado por um estudo empírico (Handy, 1991), chama a atenção para o papel das discrepâncias socialmente induzidas entre as funções manifestas e latentes e entre a estrutura superficial e profunda das organizações, as quais influenciam a compreensão e a acção dos profissionais e contribuem para o desenvolvimento do burnout; finalmente Sarason (1983) salienta o impacto dos actuais valores sociais, em que o individualismo impera sobre um sentido comunitário e de preocupação pelos outros, no desenvolvimento do burnout, muito em particular nas profissões de ajuda.
Trata-se, em síntese, de uma abordagem do burnout ainda relativamente inexplorada, tanto em termos conceptuais como empíricos, mas que se nos afigura reveladora das raízes sociais e culturais do fenómeno do burnout.
Como comentário geral, e como referido anteriormente a propósito das concepções de saúde e de doença e dos modelos transacionais de stress e coping, diríamos que também a análise dos principais modelos de burnout nos revela um ênfase primordial nos mecanismos e processos psicológicos, excepção feita para algumas tentativas pontuais de análise da dimensão social e cultural das formas de compreensão individuais relativamente ao burnout.