TAULA COMPARATIVA DELS CENTRES
9. REFERÈNCIES BIBLIOGRÀFIQUES
Quando a colônia do Cabo, durante os anos de 1822 -1823, soube da exis- tência das turbulências em Natal, no vale do Caledon e no Highveld, inúmeros colonos só se encontravam lá no máximo há dois anos. Entre eles se encontra- vam ingleses levados para o Cabo em 1820 para aumentarem uma população ainda esparsa e essencialmente holandesa. A maioria destes colonos – aproxi- madamente 5.000 – tinha sido enviada ao distrito de Albany onde exploravam quase 100 acres cada. Ainda que talvez não intencional, um dos objetivos prin-
9 De fato, as guerras da fronteira oriental do Cabo são geralmente chamadas as “guerras cafres” nos livros de história sul -africanos. Os xhosa eram considerados “selvagens que só temiam a força e o castigo” (C. W. De Kiewiet, 1968, p. 51). Os xhosa eram considerados incorrigíveis ladrões de rebanho que deviam ser combatidos (E. A. Walker, 1957, p. 116 -119).
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cipais do povoamento de Albany, para o governador Somerset, era fazer com que os colonos participassem da defesa e da estabilização da fronteira oriental de triste reputação.
As perspectivas econômicas da colônia do Cabo nunca tinham sido muito brilhantes. A perigosa situação militar da fronteira somente agravava os pro- blemas econômicos. A situação dos colonos em 1820 era pior do que aquela dos fazendeiros holandeses dos antigos distritos da colônia. A agricultura, tida como principal atividade econômica de Albany e fonte essencial de subsistência, apresentava, em 1823, todos os sinais de desmoronamento. Em primeiro lugar, vários fazendeiros estavam pouco qualificados para o trabalho ao qual tinham sido destinados na África. Reclamava -se comumente do pequeno tamanho dos lotes de terra. Depois, em 1822, houve inundações que destruíram todas as lavouras. Em 1823, inúmeros fazendeiros haviam abandonado as suas terras e os que haviam permanecido tinham perdido o entusiasmo e estavam desanimados. As poucas poupanças trazidas da Inglaterra diminuíam rapidamente; inúmeros fazendeiros estavam pesadamente endividados com o governo ou beiravam a miséria. O alcoolismo aumentava rapidamente, já que mais de um homem arruinado tentava esquecer os seus dissabores na bebida10.
Em 1823, somente restava um terço dos fazendeiros de Albany em suas terras. Eles tinham que enfrentar problemas imensos e o futuro agrícola do dis- trito parecia muito incerto. Como já assinalamos, os outros fazendeiros tinham abandonado suas terras: alguns tinham optado por outras formas de emprego nos centros urbanos; outros se tornaram comerciantes; e a maioria se tornou pecuarista.
Os fazendeiros dos assentamentos mais antigos, assim como os Albany, enfrentavam um problema ainda mais grave: a ausência de mão de obra. Mesmo a este respeito, a situação dos colonos em 1820 era pior do que aquela dos colonos holandeses. Ao passo que estes últimos podiam empregar os xhosa, os khoisan, ou até escravos, os colonos de 1820 não tinham o direito de recorre- rem a este tipo de mão de obra11. Os fazendeiros do “Anglostão”, como Buttler
chama o distrito de Albany, deveriam empregar a mão de obra livre, vinda da Grã -Bretanha. Mas a maioria dos trabalhadores agrícolas enviados da Inglaterra fugiu de seus senhores ao chegar à África do Sul para os centros urbanos onde as perspectivas lhes pareciam melhores. Esforços desesperados foram feitos para incentivar novamente a imigração para a colônia. Entre os que responderam a
10 G. Butler, 1974, p. 176; E. A. Walker, 1957, p. 157. 11 E. A. Walker, 1957, p. 157.
figura 6.1 Bonecas à venda no Cabo no início do século XIX, representando um homem e uma mulher san. [Fonte: J. Vansina, Art history in Africa, 1984, Londres, Longman. © Staatl. Museum für Völkerkunde, Munique.]
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este apelo – em sua maioria, irlandeses –, somente alguns poucos punhados deles chegaram aos distritos da fronteira oriental. Muitos compraram a sua liberdade ao chegarem ao Cabo e partiram para fazer carreira em outros lugares. Nestas condições, os novos colonos foram obrigados a contar consigo mesmos, suas mulheres e filhos para realizar “as tarefas mais baixas”, normalmente executadas unicamente pelos trabalhadores agrícolas e escravos12. Todas estas dificuldades
foram ainda agravadas pela obrigação dos fazendeiros e dos homens mais vigo- rosos de se dirigirem para a fronteira oriental a fim de defendê -la.
Para diminuir as dificuldades financeiras dos colonos em penúria, algumas pessoas criaram uma organização destinada a coletar fundos. Esta Sociedade para o alívio dos colonos em penúria coletou efetivamente recursos, de modo que, em 1824 ela pôde ajudar alguns fazendeiros e fornecer -lhes o capital, do qual tinham muita necessidade. Mas nenhuma ajuda financeira poderia eliminar as duas dificuldades crônicas que oprimiam a colônia: a ausência de mão de obra e a situação móvel da fronteira oriental. Estes problemas ainda não haviam sido resolvidos quando, cerca de 1822 -1823, os efeitos do Mfecane atingiram a colônia do Cabo através de Orange e Natal.
O Mfecane
Os detalhes dos acontecimentos ocorridos no Norte do território nguni, no vale do Caledon e no Highveld, não nos dizem respeito aqui.13 Queremos
somente analisar como estes acontecimentos acabaram por afetar a região nguni do Cabo e a própria colônia. Tentaremos precisar quais foram as novas formas sociais, as novas relações entre os diferentes grupos da região e as novas formas socioeconômicas que o Mfecane suscitou.
Como já vimos, o movimento se iniciou em Natal, entre os grupos do Norte que falavam a língua nguni. As causas exatas do Mfecane não são conheci- das. Parece, todavia, que a população desta região aumentara muito em poucas gerações. Esta tendência tinha levado a uma superpopulação, tendo em vista os métodos agrícolas à época. Como resposta a este problema, novas formas de organização política foram implementadas. Nas últimas décadas do século XVIII, um certo número de chefias poderosas apareceu – as mais conhecidas foram as dos ndwandwe, ngwane e mthethwa. Nas duas primeiras décadas do
12 G. Butler, 1974, p. 178; G. M. Theal, 1891, p. 238 -239.
século XIX, todas estas chefias – inclusive a dos zulus – tinham se transformado em poderosos Estados militares liderados por chefes semimonárquicos: respec- tivamente, Zwide, Sobhuza, Dingiswayo e Shaka.
Se este novo sistema de estado não tivesse sido acompanhado de uma revo- lução dos métodos e das estratégias militares, a tensão e os violentos conflitos abertos que caracterizavam as relações entre os Estados meridionais nguni a partir de cerca de 1815 certamente não teriam conduzido a guerras de grande escala. É possível também que, sem a eficácia da estratégia militar empregada mais tarde pelos diversos exércitos nguni do Norte – e, em particular, os zulus – os aconteci- mentos não tivessem afetado as regiões situadas além das terras nguni do Norte. Pelo que se sabe, o primeiro grande conflito aberto começou em 1815 entre os ndwandwe de Zwide e os ngwane de Sobhuza. Os ngwane foram vencidos e obrigados a cruzar o Pongolo, região onde eles estabeleceram as fronteiras da nação swazi. De acordo com J. D. Omer -Cooper, este conflito marcou o início do Mfecane. Com a partida de Sobhuza, o conflito entre Zwide e Dingiswayo tornou -se quase inevitável. De fato, no fim de 1817, o conflito entre os ndwandwe e os mthethwar teve lugar. Dingiswayo, o rei dos mthethwa foi morto durante esta guerra, deixando o seu povo desmoralizado, disperso e privado de chefe.
Se uma nova potência não tivesse surgido sob o patrocínio de Dingiswayo, após a queda deste, os ndwandwe teriam obtido uma vitória total e o domí- nio de todo o território situado entre o Tugela e o Pongolo. Tratava -se de Shaka, o filho de Senzangakhona, o chefe de um grupo zulu, até então muito insignificante. Em sua juventude, Shaka formara -se em um dos regimentos mthethwa de Dingiswayo. Graças a sua inteligência e a sua capacidade de ini- ciativa, ele foi rapidamente promovido aos altos escalões do exército. Quando do conflito entre os Ndwandwe e os Mthethwa, Shaka não era somente um oficial superior do exército mthethwa: ele sucedera a seu pai como chefe de um pequeno grupo zulu até então colocado sob o comando dos mthethwa. Quando Zwide matou Disginswayo, Shaka e seus zulus constituíram o único centro de resistência séria contra ele e os ndwandwe. Shaka se preparou para um confronto decisivo com Zwide fazendo passar para o seu controle diversas chefias, entre elas os mthetwa desmoralizados. Ele aperfeiçoou também os seus novos métodos de guerra e arrolou para o seu exército todos os jovens com idade para a escola de iniciação. Esta foi abolida e substituída por centros de treinamento para a juventude.
A famosa guerra entre os ndwandwe de Zwide e Shaka aconteceu em 1818 e Zwide foi completamente derrotado após uma série de campanhas. J. D. Omer- -Cooper muito justamente descreveu a derrota dos ndwandwe como um marco
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na carreira de Shaka e na história do Mfecane14. Sem encontrar oposição séria
nas terras nguni do Norte, Shaka prosseguiu as suas campanhas para edificar seu Estado militar zulu. Seu principal meio de expansão foi a conquista e a integra- ção das chefias vencidas à nação zulu. Inúmeras chefias menores foram também subjugadas. Mas um grupo ainda maior se formou para evitar o domínio de Shaka fugindo da região de Natal. Nos anos que se seguiram à morte de Zwide, em 1818, numerosas chefias vencidas e dispersas, famílias ou indivíduos desterrados fugiram para o Oeste, do Drakensberg ao Highweld, o que deslanchou uma onda de migrações à medida que as terras eram devastadas e as lavouras destruídas. Outros nguni do Norte se locomoveram para o Sul pelo Tugela e o Umzimkulu. Em 1822 -1823, este movimento migratório de pessoas perdidas, esfomeadas e miseráveis que vinham do Nordeste chegara às terras dos mpondo e dos tembu, semeando o terror e a destruição por todo lugar onde passavam os grupos de fugitivos. Em 1823, as terras mpondo foram particularmente perturbadas com a chegada dos imigrantes nguni do Norte. Os tembu do Norte se instalaram por lá, com seu chefe Ngoza, um pouco antes de retornar às terras zulus. Na No Man’s
Land (Terra de ninguém), a Oeste das terras dos mpondo, se encontravam os bhele
de Mdingi, aos quais se juntaram mais tarde os wushe e os bhaca, comandados por Madikane. Depois, aconteceu a invasão zulu às terras mpondo em 1823 -1824. Embora Faku, muito sabiamente, tenha impedido o seu povo de atacar os zulus, os invasores levaram consigo uma grande parte do rebanho mpondo.
Quando as novas dos acontecimentos chegaram ao Cabo – onde os refu- giados nguni do Norte, os vagabundos e os invasores tornaram -se conhecidos pelo nome de fetcane –, a colônia já havia sido ocupada em sua porção seten- trional pelos grupos de fugitivos. Diferentemente dos fetcane, os refugiados que chegavam à colônia tinham perdido toda coesão e toda identidade. Como os primeiros, eles eram miseráveis, desmoralizados, esfomeados e dispersos. Os mantatees15 ou bechuana, como eram geralmente chamados, tinham fugido do
14 J. D. Omer -Cooper, 1966, p. 33.
15 As expressões “Mantatees” (escrita também “Mantatis”) e “Fetcane”, tal como as utilizaram os colonos brancos, os escritores e os funcionários do governo do Cabo, exigem algumas explicações resumidas. Na boca destas pessoas, estas expressões se aplicavam aos agentes do Mfecane. A expressão “Mantatees”, tal como a emprega, por exemplo, Robert Moffat, se refere coletivamente a grupos como os gatunos phuting, hlakoana e fokeng, os quais invadiram a capital tlaping de Dithakong em 1823. Denominar estes grupos deste modo pode levar ao equívoco, na medida em que não tinham elo algum com Mma -Nthatisi, a qual era a chefe dos Tlookwa. Mais tarde, esta expressão foi de novo empregada de maneira errônea para designar os refugiados tswana e sotho que afluíam na colônia, vindo do Orange e do Caledon – particularmente após Dithakong. “Fetcane” ou “Mfecane”, por outro lado, quando eram aplicados a estas pessoas, se referiam aos invasores nguni do Norte, isto é, aos zulus e aos ngwane de Matiwane. Ver J. D. Omer -Cooper, 1966, p. 93 -96; W. G. A. Mears, 1970, p. 5 -13; L. Thompson, 1969b, p. 393; G. Butler, 1974, p. 182; R. H. Dugmore, 1958, p. 44.
vale do Caledon e da Trans -Orangia após as invasões ngwane e hlubi, e os efeitos devastadores das operações tlookwa, dirigidas por uma mulher, Mma -Nthatisi. Alguns vinham também de locais do Norte, tão distantes quanto o Vaal, expul- sos pelos invasores do Mfecane. Inúmeros refugiados tswana tinham deixado as suas regiões do Botswana após o ataque da capital tlaping de Dithakong pelos phuting, pelos hlakoana e os fokengs em 1823.
Os refugiados se acumularam em distritos como Graaff -Reinet e Albany. Eles não constituíam uma ameaça militar, já que estavam desarmados e sem chefias. Tudo o que buscavam era um pouco de ajuda e proteção.