O tema gestão financeira pessoal envolve grande complexidade. Quando se trata de analfabetismo financeiro pessoal, em princípio, remete-se à falta de informação e à falta de educação técnica formal sobre o tema. No entanto, existe outro fator tão importante quanto o aprendizado técnico sobre o tema. Este fator é o comportamento humano. Não que o ensino técnico seja descartável ou de menor importância, mas de nada adianta o conhecimento técnico se não for acompanhado de uma conscientização do correto uso desses conhecimentos e da disposição em se comportar de maneira adequada à boa gestão financeira pessoal.
Lucey e Giannangelo (2006, p. 270 tradução nossa), concordam com a importância do fator comportamental no ensino de finanças pessoais e, ao desenvolver um estudo com crianças em período elementar, concluíram que “se a criança desenvolve os moldes comportamentais e cognitivos antes e durante a escola elementar, a educação financeira deve ocorrer durante os primeiros estágios de desenvolvimento comportamental e cognitivo”.
Giannetti (2005) em seu livro “O Valor do Amanhã” realiza um estudo filosófico e apresenta, dentre outros assuntos, sua visão sobre a importância e presença do tempo em todos os aspectos ligados às leis da natureza, ao comportamento animal e ao comportamento humano.
O desejo incita a ação; a percepção do tempo incita o conflito entre desejos. O animal humano adquiriu a arte de fazer planos e refrear impulsos. Ele aprendeu a antecipar ou retardar o fluxo das coisas de modo a cooptar o tempo como aliado dos seus desígnios e valores (GIANNETTI, 2005, p.9).
Giannetti (2005) refere-se à chamada troca intertemporal que
consiste na ação de manipular de alguma forma a seqüência de eventos no tempo de modo a favorecer a realização de um determinado fim. Ela representa uma tentativa, não necessariamente bem sucedida, de contornar o efeito restritivo do fluxo temporal que nos confina ao agora e de colocá-lo, na medida do possível, a nosso favor (GIANNETTI, 2005, p.69)
Sendo assim, existem duas posições que um ser pode assumir quando realiza uma troca no tempo. Pode-se optar pela posição credora que “é aquela em que abrimos mão de algo no presente em prol de algo esperado no
futuro. O custo precede o benefício” (GIANNETI, 2005, p.9). Em lado oposto, encontra-se a posição devedora, onde se opta por usufruir algo mais cedo acarretando “algum tipo de ônus ou custo a ser pago mais a frente” (GIANNETI, 2005, p.10). O autor afirma que tal conflito existente nas trocas intertemporais está presente em diversos aspectos da vida, inclusive quando relacionados ao dinheiro. Quando se pensa em troca intertemporal e emoção, uma tendência é verificada. Se existe a perspectiva do prazer, “mais é melhor do que menos; antes é melhor do que depois. Quando a dor finca os dentes, a equação se inverte: menos e depois é melhor” (GIANNETTI, 2005, p.54)
Diante do exposto, verifica-se que decisões envolvendo dinheiro, não sofrem influência unicamente do conhecimento técnico e capacidade lógica da pessoa, mas também de sua estrutura emocional e comportamental, pois o ato de consumir ou não consumir desperta sentimentos e sensações nas pessoas como prazer, felicidade, tristeza, dor, angústia, realização, frustração dentre outros.
Mischel, Ayduk e Mendoza-Denton (2003) pesquisaram crianças de quatro a 12 anos quanto à capacidade de esperar uma recompensa maior no futuro em troca de uma abstenção no presente. As crianças foram submetidas a uma situação de escolha, na qual elas poderiam ganhar um confeito imediatamente, ou esperar para ganhar dois em um momento futuro. Para ganhar o confeito imediatamente, bastava a criança acionar um botão que um adulto prontamente entraria na sala e a presentearia com a recompensa. Caso ela optasse por não acionar o botão e aguardasse a entrada espontânea do adulto, ela receberia o dobro do prêmio na ocasião. Verificou-se que as crianças mais velhas foram as que tiveram maior tendência a optar pela espera. Tal resultado deve-se ao “equipamento cerebral e mental da escolha intertemporal que amadurece e começa a se fazer mais atuante” (GIANNETTI, 2005, p.90 - 91). Isso reflete a importância do controle cognitivo e comportamental para que se tomem decisões que envolvam o tempo, situação essa muito comum ao se lidar com recursos financeiros.
O dinheiro é um recurso limitado e muitas vezes escasso que as pessoas têm que lidar. Consiste em um problema básico onde se verifica a existência de um número ilimitado (ou muito grande) de desejos de consumo e uma escassez de recursos para realizá-los. Dessa forma as pessoas tomam
decisões de consumo e utilizam seus recursos financeiros sob a influência da realidade da troca intertemporal. Nesta realidade, nem sempre as pessoas tomam suas decisões baseadas em aspectos puramente técnicos e de eficiência financeira, mas também ligadas a suas emoções, definindo o seu comportamento em relação ao seu próprio dinheiro. As pessoas vivenciam um conflito, uma luta de forças entre a racionalidade da escolha e as emoções por ela trazidas.
Tais dilemas comportamentais em parte são explicados pela neurociência. Paul MacLean, neurocientista do Instituto Nacional de Saúde Mental da Escola de Medicina de Yale, desenvolveu a teoria do cérebro triuno. MacLean (1989, p. 9, tradução nossa) afirma que “o cérebro humano se expande ao longo das linhas de três formações básicas que anatomicamente e bioquimicamente refletem uma relação ancestral”. Segundo MacLean (1989), cada parte do cérebro humano surgiu decorrente do processo de evolução da espécie. Andrade (2007) afirma que
na leitura de MacLean, os três encéfalos operam como computadores biológicos interconectados, cada um com sua própria inteligência, sua própria subjetividade, seu próprio senso de espaço e tempo e sua própria memória. Cada um desses encéfalos é conectado aos outros dois, mas opera como um cérebro individual com capacidade própria” (ANDRADE, 2007, p.45)
Segundo a teoria do cérebro triuno, as principais partes do cérebro humano são:
a) Cérebro primitivo ou reptílico (R-complex): Esta parte do cérebro humano é a mais antiga. Compõe-se basicamente do cerebelo e do tronco encefálico. É a parte do cérebro responsável pelos processos básicos de sustentação da vida, como funcionamento de músculos autônomos como o do coração, realização de processos digestivos. É também responsável pelos instintos de sobrevivência primitiva como medo, fome, necessidade de procriação dentre outros. O cérebro reptiliano não possui capacidade de aprendizado, não fazendo proveito de experiências anteriores. É responsável pelos comportamentos mecânicos e de cunho essencialmente instintivos.
b) Cérebro límbico (Limbic system): Parte do cérebro que trabalha as emoções. É nesta área que ocorre a manifestação de emoções como amor, paixão, alegria, tristeza, angústia. Muito desenvolvido nos mamíferos, pois a
emoção e o afeto são primordiais para a sobrevivência desses animais que dependem muito da genitora para sobreviver, principalmente nos anos iniciais de vida. MacLean (1989, p. 16, tradução nossa) afirma que “durante a transição evolucionária dos répteis para os mamíferos, três comportamentos foram desenvolvidos: (1) o cuidado maternal, (2) comunicação áudio-vocal para manter o contato maternal e (3) o brincar”. O sistema límbico é composto pelo hipotálamo, o tálamo, o hipocampo e a amígdala. Andrade (2007) afirma que o cérebro límbico é responsável pelas
emoções relacionadas à alimentação, competição e sexo. É capaz de aprender, pois retém memórias de emoções que resultam de experiências nas quais o animal sentiu prazer ou dor em maior ou menor grau. O cérebro mamífero ou complexo límbico, responde pelo comportamento emocional, está diretamente relacionado ao instinto de rebanho, de massa. Quando o complexo límbico é acionado, queremos ser como os outros, aceitos pela comunidade da qual fazemos parte, desejamos ser igual ao outro, fazer o mesmo que o outro faz por conta de nossa afetividade (ANDRADE, 2007, p.36).
c) Cérebro racional ou neocortex: parte responsável pelo raciocínio e consciência e a linguagem. O neocórtex faz-se presente em todos os mamíferos. No entanto ele é mais desenvolvido nos primatas. No caso do ser humano, ocupa cerca de cinco sextos do tamanho total do cérebro.
Em sua evolução, o neocórtex [...] sofreu uma progressiva capacidade de solucionar problemas, de aprendizagem e de memorização de detalhes. Nos seres humanos, provê o substrato neural para a tradução lingüística e comunicação [...]. Devido a sua capacidade de gerar comunicação verbal o novo encéfalo humano é capaz de promover a procriação e preservação de ideias (MACLEAN, 1998, p. 17).
Figura 17: O cérebro humano segundo a teoria do cérebro triuno
Fonte: http://fotolog.terra.com.br/neuroscience:156
O funcionamento independente, mas coordenado das partes que compõem o cérebro humano é responsável pelos dilemas e lutas internas a serem administradas pelas pessoas durante a administração de suas vidas. Quando o assunto é dinheiro, este conflito entre sistema límbico e o córtex, entre a emoção e a razão, assume destaque e é refletido no comportamento de consumo das pessoas.
Lidar com os recursos financeiros pessoais envolve grandes dilemas decisórios e emocionais. A troca intertemporal e os conflitos entre as partes que compõe o cérebro humano são componentes que influenciam diretamente o comportamento das pessoas. Ensinar a técnica consiste em suprir o neocórtex de dados sólidos para decisões racionais. No entanto, constitui-se um erro focalizar-se apenas no ensino técnico, pois é necessário atentar para as influências que essas informações possuem sobre as emoções humanas administradas pelo sistema límbico, destacando, assim, a importância de entender o comportamento das pessoas em relação ao dinheiro, de modo a possibilitar melhor ensino e criação de materiais informativos sobre o tema finanças pessoais.