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Prochaska e Diclemente (1982) analisaram o crescimento das terapias disponíveis aos terapeutas e comentaram que, “em 1979, a revista Times informou que existiam mais de 200 (tipos de) terapias” (DICLEMENTE e PROCAHASKA, 1982, p.276 tradução nossa). Diante de tamanha diversidade de terapias a respeito do comportamento humano, os profissionais e pesquisadores deparam com um problema de escolha: em qual terapia se pode acreditar e a qual(is) delas se deve confiar o tratamento de um paciente ou em qual(is) delas se basear para o desenvolvimento de novas pesquisas?

Dessa forma, houve o interesse em se estudar as diversas teorias disponíveis e desenvolver pesquisas para a identificação de fatores comuns e/ou complementares de modo a encontrar um modelo que pudesse ser efetivo em sua aplicação e que unisse os diversos conhecimentos disponíveis a respeito do comportamento humano.

A ausência de uma teoria geral de orientação, a busca por princípios fundamentais, o crescente reconhecimento de que nenhuma terapia individual é mais correta que outra, a proliferação de novas terapias e a insatisfação geral com suas abordagens geralmente limitadas levou muitos pesquisadores em psicologia a esperar uma abordagem integrativa para a terapia (PROCHASKA, NORCROSS E DI CLEMENTE, 1994, p. 23, tradução nossa)

Sendo assim, estudos em busca de um modelo que atendessem às demandas de integração das teorias foram iniciados por James O. Prochaska, que, em 1979, apresentou os resultados de suas pesquisas envolvendo análise comparativa de 18 principais sistemas de terapia (PROCHASKA, 1979).

Prochaska (1979) notou que apesar das principais terapias discordarem sobre como as pessoas mudam o seu comportamento e verificar as discussões surgidas entre elas sobre o porquê uma pessoa possui um determinado problema comportamental, o pesquisador notou que existia uma grande concordância no modo como as mudanças acontecem. Sendo assim, foi verificado que

todas as centenas de teorias terapêuticas podem ser resumidas por alguns princípios essenciais os quais denominamos de processos de mudança. Esses processos podem ser simplesmente definidos como: qualquer atividade que o individuo inicie para ajudar a modificar os pensamentos, sentimentos ou comportamento (PROCHASKA, NORCROSS e DICLEMENTE, 1994, p. 25, tradução nossa)

Dentre as cinco principais teorias terapêuticas existentes naquele momento (Psicanalítica, Humanística / Existencial, Gestalt / Experimental, Cognitiva e Comportamental), foram identificados nove processos de mudança que são utilizados isolados ou simultaneamente durante os tratamentos baseados em tais teorias, a saber:

a) Sensibilização de consciência: este processo de mudança comportamental é o que mais aparece nas teorias terapêuticas estudadas. Consiste em trazer à consciência o inconsciente. O princípio que rege esse processo de mudança é que aumentando o número de informações a respeito do problema e da própria pessoa em tratamento, ela possa tomar decisões melhores e mais inteligentes referentes ao problema enfrentado

b) Libertação Social: “este processo envolve quaisquer novas alternativas que o ambiente externo possa lhe fornecer para iniciar ou continuar os esforços para mudança” (PROCHASKA, NORCROSS E DICLEMENTE, 1994, p.28 tradução nossa). Tal processo possui

características observadas externamente, como a escolha de apenas freqüentar ambientes públicos onde o fumo é proibido. Tal atitude é aconselhável para aqueles que pretendem deixar de fumar e os auxilia no sucesso de sua mudança comportamental.

c) Excitação emocional: é o processo no qual a pessoa “torna-se consciente de suas defesas contra a mudança” (PROCHASKA, NORCROSS E DICLEMENTE, 1994, p.28 tradução nossa). Possui características paralelas com a sensibilização de consciência, no entanto difere pelo fato de que, normalmente, essa consciência é obtida por meio de pedidos de pessoas queridas, ou que a pessoa dá alto valor, ou por meio de uma tragédia, como a perda de um filho em acidente de trânsito levando o pai a não mais beber antes de dirigir conforme antes era costume fazer.

d) Auto-reavaliação: O processo de auto-reavaliação propõe que a pessoa se torne consciente do seu problema, dos males a ela trazidos e como ela poderá ser quando conseguir vencer o comportamento indesejado. Prochaska, Norcross e Diclemente (1994, p. 29 tradução nossa) afirmam que “este processo requer que a pessoa faça uma reavaliação mental e emocional de seu problema, e uma investigação do tipo de pessoa que ela pode ser uma vez conquistado o objetivo de mudança”.

e) Compromisso: Tal processo de mudança preconiza que a pessoa é a principal responsável, senão a única apta a falar por si mesma. A pessoa aceita a responsabilidade pela sua própria mudança comportamental. Este processo possui duas etapas:

o primeiro passo do compromisso é privado, falando para si mesmo que se está escolhendo mudar. O segundo passo envolve a publicidade desta decisão, anunciando a outras pessoas que você tomou uma firme decisão em mudar o seu comportamento (PROCHASKA, NORCROSS E DICLEMENTE, 1994, p.29 e 30 tradução nossa).

f) Contracondicionamento: consiste na realização de atividades e tomadas de atitudes que façam com que os hábitos indesejáveis sejam refreados devido a tais atos. Prochaska, Norcross e Diclemente (1994) ensinam que os comportamentos são condicionais, logo tendemos a

abusar da alimentação ao comer fora de casa do que quando no conforto do lar, ou a fumar quando se ingere bebida alcoólica. Sendo assim, o esforço em evitar esses ambientes e atitudes faz com que o sucesso da mudança comportamental seja maior.

g) Controle ambiental: similar ao condicionamento contrário, no entanto, enquanto este se preocupa com as reações internas das pessoas, o controle ambiental preconiza a mudança no ambiente de modo a facilitar a mudança comportamental. Simples ajustes no ambiente como retirar bebidas alcoólicas da casa ou do escritório de quem tem problemas de alcoolismo configura-se em um exemplo desse processo.

h) Recompensa: consiste no ato de recompensar a cada vez que tomar uma atitude ou efetuar algo desejável e que auxilie na conquista de mudança comportamental. Em caso de pessoas consumistas que possuem um número de calçados nitidamente além do necessário e do normal, ao se depararem com a tentação de comprar mais um par de sapatos e evitarem a compra, essas pessoas podem se presentear com outro produto que de fato estejam precisando no momento, ou com um jantar com uma pessoa querida.

i) Relação de ajuda: este processo visa à aproximação com pessoas e grupos que possam auxiliar a pessoa no processo de mudança comportamental. Como exemplo, tem-se o grupo vigilantes do peso que serve de auxílio emocional, teórico e social às pessoas com dificuldades alimentares.

O Quadro 5 apresenta ilustra as principais teorias terapêuticas e os processos de mudança por elas utilizados.

Quadro 5: Resumo das principais teorias da psicoterapia

Teoria Representante notável Processo de mudança primário Psicanalítica Sigmund Freud Carl Jung x Sensibilização de consciência x Excitação emocional Humanístico / Existencial Carl Rogers Rollo May

x Libertação Social x Compromisso x Relação de ajuda Gestalt / Experimental Fritz Perls Arthur Janov x Auto-reavaliação x Excitação emocional

Cognitivo Albert Ellis Aaron Beck x Contracondicionamento x Auto-reavaliação Comportamental B. F. Skinner Joseph Wolpe

x Controle ambiental x Recompensa

x Contracondicionamento Fonte: Prochaska, Norcross e Diclemente (1994, p.26 tradução nossa)

Cada um desses processos de mudança utiliza variadas técnicas visando aplicação prática na vida das pessoas. É comum fazer confusão entre as técnicas de mudança e os processos de mudança. Os processos envolvem um conjunto de estratégias com objetivos definidos a serem alcançados, enquanto as técnicas são os modos pelos quais os processos serão executados. Para fins de elucidação, o Quadro 6 expõe os processos de mudança, seus objetivos e as principais técnicas utilizadas.

Quadro 6: Técnicas de processos de mudança

(continua)

Processo Objetivos Técnicas

Sensibilização de consciência Aumentar informação sobre si mesmo e sobre o problema

x Observação x Confrontamento x Interpretação x Biblioterapia

Libertação Social Aumento de alternativas sociais para comportamentos que não são problemáticos

x Defesa dos direitos do reprimidos

x Empowering x Intervenções práticas Excitação emocional Experimentação e expressão de sentimentos sobre problemas e

soluções

x Psicodrama x Assunção de papeis

Auto-reavaliação Avaliação de sentimentos e pensamentos sobre si com respeito ao problema

x Clarificação de valores x Correção de experiência

emocional

Compromisso Escolhendo e escolhendo agir ou acreditar na habilidade de mudar

x Clareza de valores x Correção de experiências

emocionais x Imagens

Processo Objetivos Técnicas

Contracondicionamento Substituindo alternativas para problemas comportamentais

x Relaxamento x Dessensibilização x Afirmação

x Auto-afirmação positiva

Controle ambiental Evitando estímulos que despertem problemas de comportamento

x Reestruturação ambiental (ex.: remover álcool ou comidas calóricas em excesso)

x Evitando sugestões de alto risco

Recompensa Auto-recompensa ou ser recompensado por outros por efetuar mudanças

x Contratos de contingência x Reforço explícito e

encoberto Relação de ajuda Atrair ajuda de alguém que se importe

x Aliança terapêutica x Suporte social x Grupos de auto-ajuda Fonte: Prochaska, Norcross e DiClemente (1994, p.33 tradução nossa).

Prochaska, Norcross e Diclemente (1994, p.34) afirmam que “uma fraqueza em diversas terapias consiste no fato de confiarem em selecionar duas ou três técnicas para cada processo e não fornecerem aos clientes alternativas adequadas”. Tal conclusão decorreu de observações de pessoas que, sem auxílio profissional, foram bem sucedidas na tentativa de mudança comportamental. Verificou-se que, a depender do estado psicológico do indivíduo em processo de mudança comportamental, houve a opção por técnicas e processos que melhor lhe serviam para o desafio experimentado naquele momento específico e conforme o seu estado psicológico momentâneo.