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3.4 ENERGY

3.4.1 KINETIC ENERGY

desempenhar seu papel na sociedade, executar as suas tarefas e viver de forma digna na sociedade exercendo a sua cidadania.

Diariamente as pessoas demandam informações relacionadas ao seu cotidiano. Seja buscando informações sobre assuntos voltados à saúde, seja planejando uma viagem ou mesmo decidindo qual opção de lazer está disponível para um final de semana. O fato é que existe um amplo campo de pesquisa envolvendo informações para o cotidiano. A depender do contexto, a finalidade social de uma pesquisa envolvendo este tipo de informação torna-se latente, pois um cidadão bem informado pode exercer em melhor qualidade o seu papel em nossa sociedade. Neste contexto enquadram-se as necessidades informacionais experimentadas pelas pessoas quando buscam uma melhor gestão de suas reservas financeiras.

4.7.1 A importância da educação financeira e a Ciência da

Informação

Existe uma tendência mundial em difundir informações sobre finanças pessoais para os indivíduos. Se as pessoas vivem em um mundo onde é quase impossível não ter que lidar com o dinheiro diariamente, é essencial que estas pessoas tenham acesso a informações que as ensinem a lidar com seus recursos financeiros.

A divulgação de informações e o ensino sobre finanças pessoais é tão importante que a Organização das Nações Unidas (ONU) expediu no ano de 2003 um documento que salienta os princípios que os governos devem perseguir em relação à educação financeira da população, a saber:

a) a proteção dos consumidores quanto a riscos para sua saúde e segurança;

b) a promoção e proteção dos interesses econômicos dos consumidores;

c) acesso dos consumidores à informação adequada que os habilitem a tomar decisões conscientes conforme suas necessidades e desejos individuais;

d) educação do consumidor, incluindo educação quanto aos impactos econômicos, socais e no meio ambiente decorrente de suas escolhas;

e) possibilidade real de redirecionamento do consumidor

f) liberdade para formar grupos de consumidores e outros relevantes grupos ou organizações para apresentarem suas visões no processo de tomada de decisão que os afeta; g) a promoção de modelos de consumo sustentáveis (ONU,

2003, p. 2 - 3, grifo e tradução nossos).

A educação é assunto importante para qualquer sociedade. O desenvolvimento econômico e social de um país está intrinsecamente ligado ao alcance e qualidade da educação oferecida a seu povo. Martins (2007, p. 74) afirma que “a educação é fator de mudança e, portanto, está em constante interação com o sistema social, recebendo deste solicitações das mais diversas naturezas”. Sendo assim, entende-se que as políticas públicas devem atentar às transformações econômicas e sociais vividas por uma sociedade de modo a ser um instrumento de promoção da cidadania, formando “o homem desenvolvido simultaneamente nos planos físico e intelectual, que tem consciência clara de suas possibilidades e limitações” (MARTINS, 2007, p. 83).

De fato, a preocupação em educar os indivíduos para que estes possam lidar sabiamente com seus recursos financeiros é uma realidade em diversos países. Verifica-se que a preocupação quanto à educação financeira pessoal da população é em parte decorrente

do desenvolvimento dos mercados financeiros e da inclusão bancária, bem como das mudanças demográficas, econômicas e políticas. Os mercados de capitais estão se tornando mais sofisticados e novos produtos, cujos riscos e retornos não são de imediato discernimento são oferecidos. Os consumidores possuem, atualmente, acesso à maior diversidade de instrumentos bancários, de crédito e de poupança, disponibilizados por grande variedade de canais, desde correspondentes bancários, serviços on-line de bancos e de corretoras, até organismos que oferecem aconselhamento e suporte financeiro às famílias de baixa renda (BRASIL, 2010, p.6).

A Educação Financeira Pessoal consiste em fornecer informação à população de modo a oferecer conhecimento e suporte a decisões sobre seus próprios recursos, possibilitando que as pessoas tenham um relacionamento

equilibrado com o dinheiro e adotem decisões qualitativamente melhores para o consumo.

Entende-se que a Educação Financeira seja o processo mediante o qual os indivíduos e as sociedades melhoram a sua compreensão em relação aos conceitos e produtos financeiros, de maneira que, com informação, formação e orientação claras, possam desenvolver os valores e as competências necessários para se tornarem mais conscientes das oportunidades e riscos neles envolvidos e, então, poderem fazer escolhas bem informadas, saber onde procurar ajuda, adotar outras ações que melhorem o seu bem-estar e, assim, tenham a possibilidade de contribuir de modo mais consistente para a formação de indivíduos e sociedades responsáveis, comprometidos com o futuro (ENEF, 2010, p.20).

Matta (2007, p. 59) traz um conceito de educação financeira pessoal com foco no usuário de informação e afirma que consiste no “conjunto de informações que auxilie as pessoas a lidarem com a sua renda, com a gestão do dinheiro, com gastos e empréstimos monetários, poupança e investimentos a curto e longo prazo”.

Matta (2007, p.61) afirma que é verificado “um número crescente de países que estão criando organizações, políticas públicas e direcionando seus recursos financeiros e humanos com o intuito de promover a educação financeira dos seus cidadãos”. Como fruto dessas ações, a própria sociedade passa a se organizar e gerar esforços em prol da difusão do conhecimento sobre finanças pessoais. Alguns exemplos de ações desenvolvidas em países que experimentam boa estabilidade econômica podem ser vistas no Quadro 7.

Quadro 7: Entidades atuantes na divulgação de informação de finanças pessoais País/Região Associação ou organização Comentários

Estados Unidos

Coalizão Jump$tart para alfabetização em finanças pessoais

Estimula o enriquecimento curricular do ensino fundamental e médio de modo a desenvolver habilidades básicas para o gerenciamento financeiro pessoal

Young Adult Consumer Education Trust (YACET)

Organização sem fins lucrativos dedicada a prover a vida dos jovens adultos de habilidades que necessitam para serem consumidores responsáveis e informados.

Portugal

Associação de Defesa dos Consumidores (DECO)

Federação Nacional de Cooperativas de Consumo (FENACOOP)

União Geral dos Consumidores

Organizações que atuam na defesa do consumidor e na promoção de sua educação

Participam, junto com o Instituto do Consumidor (IC), da Rede de Educação do Consumidor

Leste Asiático

Consumers International (CI) - Asia Pacific Office

É parte da Rede de educadores do consumidor (CEN), formada por organizações e pessoas de todo o mundo Prega a educação financeira nos currículos escolares, a adoção de atividades extracurriculares e a disponibilização de informação financeira pessoal para professores e sociedade em geral

Fonte: Consumers International, Instituto do Consumidor, Jump$tart, YACET

Em dezembro de 2009, realizou-se na cidade do Rio de Janeiro a Conferência Internacional em Educação Financeira. Com a presença de representantes de diversos países como Brasil, México, África do Sul, Canadá, Estados Unidos, Índia, Nova Zelândia entre outros. No evento foram apresentadas palestras e discussões relatando desafios, impressões e experiências sobre educação financeira pessoal em todo o mundo2.

Historicamente no Brasil, o movimento voltado à educação financeira pessoal obteve pouca atenção por parte do Estado. Matta (2007, p.68 a 70) fez um levantamento da situação da educação financeira do país até aquele momento e verificou que a participação governamental na educação financeira

2

A Conferência Internacional sobre Educação Financeira em 2009 foi co-organizada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), com patrocínio do Governo Japonês. Maiores informações no site http://www.conference2009-oecd-cvm.cvm.gov.br/

pessoal da sociedade brasileira estava presente de modo mínimo e manifestava-se por meio de poucas iniciativas independentes e descentralizadas promovidas por algumas organizações públicas, dentre elas o Banco Central do Brasil com o Programa de Educação Financeira e a Bolsa de Valores do Estado de São Paulo (BOVESPA) com o Projeto Educar. O guia de fontes de informação sobre planejamento e educação financeira pessoal feito por Matta (2007, p. 165 a 201) evidencia a pouca presença do Estado brasileiro nesse tema ao possuir predominantemente fontes criadas e geridas pela iniciativa privada ou por organizações não governamentais. A qualidade das fontes disponíveis demanda cuidado por parte do usuário, principalmente quanto às fontes criadas por pessoas físicas e pela iniciativa privada, pois muitas vezes o propósito final da fonte de informação não é a educação financeira do usuário em si, mas a venda ou promoção de produtos e serviços de interesse dos autores, trazendo, não raramente, informações distorcidas e parciais de modo a levar o usuário a sentir necessidade de consumi-los (MATTA, 2007, p71).

No entanto, este quadro de ausência do poder público na educação financeira pessoal da sociedade brasileira tem diminuído. Em 2008, foi dado início aos estudos para o desenvolvimento de ações governamentais coordenadas voltadas ao tema. Tal ação por parte do governo brasileiro supre uma lacuna existente até então no cenário brasileiro a respeito do desenvolvimento de conteúdos informacionais voltados à gestão financeira pessoal identificada por Matta (2007) em sua pesquisa sobre oferta e demanda de informação financeira pessoal.

Existe um campo fértil para ações de educação financeira, criação e proliferação de conteúdos informacionais voltados à saúde financeira da população brasileira. As necessidades existem e devem ser identificadas para que possam ser traçados planos para atendê-las. Parece que o Brasil está produzindo informações sobre finanças pessoais, não para atender políticas públicas ou para conscientização da sociedade de um modo geral, mas pela simples oportunidade de mercado, excetuando-se nobres exceções como as experiências relatadas, mas que esbarram na falta de apoio político e regulamentar (MATTA, 2007, p. 74).

Como fruto desses estudos, foi criada a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF). Tal estratégia é conduzida pelos órgãos constituintes do Comitê de Regulação e Fiscalização dos Mercados Financeiro,

de Capitais, de Seguros, de Previdência e Capitalização (COREMEC)3

integrado pelo Banco Central do Brasil, pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), pela Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) e pela Secretaria de Previdência Complementar (SPC).

Os objetivos perseguidos pela ENEF são:

x Promover e fomentar a cultura de Educação Financeira no país; x Ampliar o nível de compreensão do cidadão para efetuar escolhas

conscientes relativas à administração de seus recursos;

x Contribuir para a eficiência e solidez dos mercados financeiro, de capitais, de seguros, de previdência e de capitalização (BRASIL, 2010, p.20)

A ENEF foi criada como um programa de Estado e não como um programa de governo (BRASIL, 2011), pois é necessário que tal estratégia tenha um caráter constante e duradouro na sociedade brasileira e não seja vulnerável a diretrizes partidárias e de movimentos políticos. Seu alcance é de caráter nacional, com uma direção centralizada, mas de execução descentralizada, possibilitando o alcance de toda sociedade brasileira. A ENEF se desenvolve em três níveis de atuação, a saber:

x Informação: envolve dar conhecimento aos consumidores de fatos, dados e conhecimentos específicos para torná-los informados a respeito de oportunidades e escolhas financeiras, bem como suas conseqüências;

x Formação: envolve assegurar que os indivíduos adquiram as capacidades e habilidades necessárias para entender termos e conceitos financeiros, por meio de treinamento e orientação

x Orientação: envolve prover consumidores com orientação genérica sobre assuntos e produtos financeiros, para que o consumidor possa fazer o melhor uso da informação e da instrução recebidas.(BRASIL, 2011)

Diante do analfabetismo da população brasileira sobre a educação financeira pessoal (MATTA, 2007), verifica-se que a ENEF vêm em momento oportuno e pode ser o caminho para que os brasileiros adquiram informações que possibilitem a modificação do seu comportamento em relação a sua gestão financeira pessoal. Desse modo, é importante entender o comportamento informacional desses brasileiros, usuários da informação, auxiliando a ENEF

nos seus objetivos e em suas ações como, por exemplo, no desenvolvimento de fontes de informação sobre o tema.

A Ciência da Informação como ciência que tem como objeto o estudo da própria informação, não pode se omitir ante um desafio tão grande. Diversas áreas já se pronunciam a respeito e desenvolvem pesquisas que tem contribuído para o desenvolvimento e alfabetização da sociedade brasileira. No entanto, nota-se que a Ciência da informação está atrasada e desconscientizada quanto ao seu papel neste importante tema. Poucas pesquisas são realizadas e é necessário que tal área do conhecimento deixe de apenas apregoar o seu caráter interdisciplinar e abrir os seus horizontes para que de fato seja desenvolvido o seu potencial de criação de conhecimentos nos mais diversos temas da sociedade, em especial no tema finanças pessoais.

É necessário que os usuários de informação financeira pessoal recebam atenção dos pesquisadores da área, pois é nítida a importância de que “antes de conhecer qualquer tarefa, temos de aprender a fazer a seguinte pergunta: De que tipo de informação necessito, sob que forma e quando? (...) As perguntas seguintes ... são: A quem devo que tipo de informação? Quando e onde?” (DAVENPORT, 1998, p. 43).

Os usuários da informação são aquelas pessoas que buscam informações e utilizam sistemas informacionais levadas “pela existência de um problema a resolver, de um objetivo a atingir e constatam a existência de um estado anômalo de conhecimento, insuficiente ou inadequado” (LE COADIC, 2004, p. 39).

É necessário que os pesquisadores da Ciência da Informação busquem aumentar o seu conhecimento sobre os usuários de informação financeira pessoal, pois ao falar de finanças pessoais, deve-se pensar nas informações necessárias a serem produzidas, geridas, usadas e armazenadas de modo a propiciar que os usuários deste tipo de informação possam ser supridos em suas demandas e necessidades informacionais.