O campo da multimodalidade pretende explorar a produção de significados, levando em consideração os vários modos e meios possíveis de significação à disposição dos atores
socioculturais. Esse é o ponto comum de todos os trabalhos da área, que explora os arranjos de significado, ou seja, investiga o trabalho intersemiótico em questão. Smith et al (2009) propõem nomear tal modelo como a investigação da orquestração de significado, que supõe, portanto, a abertura do campo analítico da multimodalidade. Dentro dessa perspectiva, vários Modos Semióticos (linguagem, imagem, música, gestos, arquitetura, dentre outros) que são realizados a partir de várias modalidades sensoriais (visual, auditiva, tátil, olfativa, gustativa e cinética) passam a ser considerados como participantes do denominado fenômeno multimodal (O’HALLORAN, 2011; KRESS, 2010). Para além da complexidade explícita da organização de significados enquanto conjugação de vários Modos, vale lembrar que, conforme desenvolvido no item anterior, toda articulação, produção e interpretação está mergulhada na ideologia e no poder.
Assim, no panorama da orquestração de significados, considerado a partir da multimodalidade, o conceito de Modo se torna central. Segundo Kress (2010, p. 79),
Modos são recursos semióticos socialmente enquadrados e culturalmente dados para produzir significado. Imagem, escrita, layout, música, gestos, fala, imagem em movimento, trilha sonora e objetos em 3D são exemplos de modos usados na representação e na comunicação.
Esse autor explica que outros produtos sociais transmitem significados em seu ambiente cultural, como é o caso de mobília, roupas, comida etc., porém eles não são considerados como Modo. O critério de reconhecimento de um Modo deverá passar pelo potencial de produção de significado existente no mesmo, com base nos três níveis de produção de significado propostos pela Linguística Sistêmico-Funcional, ou seja, ideacionalmente (representando ações, estados e eventos no mundo), interpessoalmente (representando significados sobre as relações sociais daqueles engajados na comunicação) e textualmente (representando uma mensagem-entidade completa, com coerência interna e com seu ambiente).
Cada Modo tem diferentes origens, materialidades e possibilidades de ação latente (affordances). Kress (2010) lembra a diversidade de potencial de significados dos Modos comentando que a escrita é recebida pelo aparelho visual e vem realizada por palavras, orações e sentenças organizadas por regras gramaticais. Seus recursos semióticos gráficos giram em torno de tamanho e forma de fonte, organização espacial (espaçamento, enquadramento), cores e pontuação. A fala é recebida pelo aparelho auditivo e vem realizada por volume e maciez produzindo variação de energia; ritmo e sotaque criando a organização rítmica e a acentuação das palavras; e tom e entonação para marcar as unidades de
informação. Os gestos e imagens em movimento combinam tempo e espaço. Gestos têm significados e usos diferentes em domínios sociais, comunidades e culturas. Eles são impermanentes, pois, uma vez encenados, não restam traços dos mesmos, além de produzirem significados de forma bem diversificada. Assim, os diferentes Modos, a partir de suas materialidades e seus potenciais de ação latentes, produzem diferentes significados.
A abertura do campo de estudos da multimodalidade traz, segundo Smith et al (2009), um contexto de grande criatividade investigativa, na qual os interesses relacionados a áreas diversas, tais como linguística, psicologia, antropologia, sociologia, estudos culturais, estudos de mídia, crítica e prática das artes (pintura, fotografia, música, filme, escultura, arquitetura) passam a ser potencialmente importantes. Vários teóricos produzem atualmente diversificadas pesquisas nesse campo de multimodalidade, com leituras de espaços arquitetônicos (RAVELLI, 2008), arquitetura e sua funções interativas nos contextos educativos (VAN LEEUWEN, 2008), significados interpessoais de espaços arquitetônicos (STENGLIN, 2008), combinações de palavras, imagens e gestos na produção de significados (HERMAN, 2010; O’HALLORAN, 2004; RODRIGUES, 2006) e outros.
Na pesquisa sobre espaços arquitetônicos – considerando sua perspectiva tridimensional –, Ravelli (2008) argumenta a favor da leitura destes como textos produtores de significado, proposição já formulada por Kress e Van Leeuwen (1996, 2001, 2006) quando concebem o conceito de texto ambiente. Considerando as construções arquitetônicas como produções sociais planejadas e atualizadas a partir do uso que as pessoas fazem do espaço físico, esta autora resgata o modelo tripartite das metafunções da Linguística Sistêmico- Funcional e aquelas propostas por Kress e Van Leeuwen (1996, 2006), tematizando-as e adaptando-as com alguns desdobramentos.
Dentro da metafunção interpessoal, Ravelli (2008) formula a categoria analítica controle/liberdade, fazendo referência à experiência que as pessoas têm na interação com os lugares que podem variar de um contínuo de fácil acesso a de difícil acesso, frequentemente relacionando tal conceito com a forma de movimentação das pessoas no espaço físico. Para ela, é importante analisar a extensão na qual os usuários podem ter acesso livre tanto ao edifício quanto dentro dele e, para tal, analisa os tipos de caminhos desses lugares – se os acessos/caminhos são facilitados ou não – e as formas de circulação interna – se são espaços fechados com várias paredes ou com mais ou menos liberdade, o que permite que a interação ocorra de forma mais livre.
Ainda a partir de uma perspectiva interacional, Ravelli (2008) resgata as categorias vínculo e ligação propostas por Stenglin (2004, 2008), apontando-as como importantes
ferramentas para se aplicar na leitura de uma gramática de espaços. Para Stenglin (2004, p. 50), “vínculo é a escala que organiza espaços entre extremamente aberto e extremamente fechado”, sendo que, pensando em um contínuo, os extremos dessas categorias evocam ao mesmo tempo respostas claustrofóbicas e/ou agorofóbicas, ao passo que as formas intermediárias produzem significados de conforto, segurança, liberdade e/ou possibilidades. Para a categoria ligação, a autora afirma que ela tem a ver com produções de significado de afiliação mais do que insegurança, pois “ela explora formas de união, inclusão e solidariedade através da conexão” (STENGLIN, 2004, p. 50). Tal produção de significados pode ser experiencialmente confirmada e lida a partir das diferentes formas de interação social das pessoas em um espaço, ou mesmo através do alinhamento de determinadas atitudes compartilhadas em grupo. Outra característica de articulação dessa categoria é o denominado ícone de ligação, que pode ser um líder, uma música, um edifício, símbolos, medalhas, troféus e até mesmo uma pintura, como é o caso de Mona Lisa. Esses ícones articulam e produzem significados de pertencimento social, ou seja, alinham pessoas em grupos com disposições compartilhadas.
Numa outra perspectiva de afiliação, Knight (2010) propõe investigar o humor na conversação enquanto estratégia de negociação identitária comum, ou seja, enquanto processo social que diz respeito ao compartilhamento de valores. Essa autora propõe uma expansão da categoria vínculo, apontada por Stenglin (2004, 2008), argumentando que é preciso tematizar como as pessoas se alinham e também como rejeitam valores em um grupo, através, por exemplo, de um riso de desacordo ou de ironia. Amparada na perspectiva de combinação do significado nos níveis ideacional e interpessoal, a autora procura identificar como esses significados aparecem acoplados e unidos numa interação, ou seja, como uma afirmação junto a um riso assume a característica avaliativa de discordância e/ou outros significados. A autora ressalta ainda que muitos significados só podem ser articulados e interpretados por uma comunidade específica, pois a afiliação que perpassa o grupo é o pano de fundo em que a mensagem será traduzida.
As categorias vínculo e ligação (STENGLIN, 2004, 2008), controle/liberdade (RAVELLI, 2008) e afiliação (KNIGHT, 2010) se apresentam como importantes ferramentas analíticas a serem utilizadas nesta pesquisa, que pretende investigar uma interação em grupo, pois elas tratam de características interpessoais da comunicação. No entanto, parece-nos que tais categorias foram exploradas de forma diferenciada pela psicologia dos grupos, que as nomeia como configurações vinculares, como já foi exposto no capítulo 1 Nessa perspectiva, manifestações grupais de solidariedade e/ou disputa; conformidade e/ou desvio de regras; e o
próprio clima do grupo são entendidos como mecanismos vinculares. Para a psicologia de grupos, os sentimentos de atração vigentes entre os membros do grupo; o compartilhamento de valores; as atitudes não verbais, tais como sentar-se mais perto, prestar atenção um ao outro e mostrar sinais de afeição; as participações ativas nas conversas, com engajamento em narrativas pessoais ou narrativas colaborativas, e até mesmo a exposição de segredos no ambiente do grupo, demonstrando confiança, são sinais de mais ou menos vínculo grupal.
Nesta pesquisa, em que analisamos uma interação em grupo, propomos utilizar a categoria configurações vinculares – advinda da psicologia de grupos – para tematizar as expressões de vínculo, ligação (STENGLIN, 2004, 2008), controle/liberdade (RAVELLI, 2008) e afiliação (KNIGHT, 2010) propostos por essas linguistas, pois a consideramos (a categoria configurações vinculares) contextualizada aos nossos propósitos. Propomos também utilizar a categoria jogos de posicionamento – advinda também da psicologia de grupos e explorada no item 1.6 – para tematizar e classificar os desdobramentos das configurações vinculares, ou seja, os efeitos delas na dinâmica social, entendida como posicionamentos performáticos e/ou identitários dentro de um grupo social.
Julgamos que as configurações vinculares equivalem a um ordenamento interpessoal inicial, um campo de possibilidades de elos e movimentações. São afetos, expressões de julgamentos e apreciações que tomam configurações dinâmicas e com vários usos de Recursos semióticos (olhares, gestos, sorrisos, posições corporais, itens lexicais). Enquanto campo de base, a partir das configurações vinculares e de como elas se organizam e se acoplam, podemos identificar os jogos de posicionamento que surgem, se mantêm ou se modificam numa interação. Assim, em um movimento sintagmático, consideraremos as configurações vinculares como organizadoras de afetos, cumplicidade, autorização e/ou desautorização, julgamentos e outros mecanismos, ou seja, significados que os sujeitos usam para produzir determinados sentidos de vínculos no processo grupal. Num movimento paradigmático, consideramos os jogos de posicionamento como desdobramentos das configurações vinculares, ou seja, os lugares que os participantes assumem na interação enquanto formas identitárias com diversas posições pessoais e morais. Assim, os jogos de posicionamento dizem respeito às várias posições performáticas dos sujeitos/atores sociais enquanto possuidores de determinadas identidades e/ou pertencimentos a determinados grupos.
Dessa forma, as configurações vinculares e os jogos de posicionamento serão analisados, a partir da perpectiva multimodal, por meio do mapeamento dos Modos/Recursos semióticos utilizados pelos sujeitos de pesquisa, seus potenciais de significação latente e sua
forma de articulação, produção e interpretação. Para tanto, exploraremos a seguir algumas características da interação face a face e da linguagem oral, selecionando e tematizando alguns Recursos multimodais mais utilizados pelos participantes da pesquisa.