Somos seres linguísticos e sempre nos encontramos dentro da linguagem e da cultura, sem possibilidades de definição fora destas. Essa formulação marca a chamada virada linguística na ciência contemporânea, na qual os interesses dos pesquisadores se voltam para uma filosofia que considera os espaços da intersubjetividade e do social como formadores das dinâmicas sociais e dos sujeitos. É certo que, nas interações sociais, ativamos vários significados em vários níveis: trocamos informações e negociamos determinadas posições particulares e individuais e, ao mesmo tempo, “o que falamos é preenchido por padrões de organização social” (JAWORSKI e COUPLAND, 1999, p. 12). A Semiótica Social está em congruência com essa perspectiva porque parte do pressuposto de que a construção de significados constitui-se pela ativação de vários modos representacionais e comunicativos, operados nos textos por atores sociais sociopoliticamente posicionados (HODGE e KRESS, 1988).
Tomando como base essas formulações, torna-se imprescindível comentar a moldura sobre a qual e Semiótica Social tematiza os atores sociais: ativos, contextualmente sensíveis e ideologicamente posicionados. Esses comentários, que em um primeiro momento podem parecer desnecessários, tomam importância singular para o entendimento da dinâmica de leitura proposta pela Semiótica Social. Trata-se de uma abordagem dialógico-crítica, direcionada para os textos e seus produtores, considerando a dinâmica de ir e vir constantes que tece os significados em contextos de poder e de ideologia.
Em primeiro lugar, esse tipo de abordagem de ator social ativo está em congruência com a psicologia sócio-histórica proposta por Bock, Gonçalves e Furtado (2009), na qual o ser humano é (está) organizado pelas relações sociais do seu entorno. Isso significa dizer que, ao tematizar o sujeito e sua subjetividade, não falamos de algo que pertence à natureza, ou que é preexistente. A noção de construção social e de movimento constante subjaz o conceito de sujeito/ator, que é, portanto, dinâmico e em constante troca com seu meio socioeconômico e cultural.
Entender os atores sociais como ativos significa abranger suas práticas de produção de significados como guiadas por interesses e escolhas, ou, como explicita Scott (2006, p. 13), entender a agência humana como “o elemento dinâmico dentro do ator que traduz a capacidade potencial em prática concreta”. Conforme já vimos, para a Semiótica Social, enquanto atores sociais, temos à nossa disposição formas representacionais e comunicacionais que podem ser ativadas de acordo com o que consideramos mais apto e plausível no processo de significação e, ancorados aos nossos julgamentos, afetos e apreciações, criamos efeitos no mundo à nossa volta. A Semiótica Social considera, portanto, um sujeito eminentemente social, cultural e histórico.
Em segundo lugar, quando reconhecemos os atores sociais, além de ativos, como contextualmente sensíveis, lembramos que a produção de significados depende de pelo menos dois aspectos: o contexto de situação e o contexto de cultura. O primeiro diz respeito a uma instância mais imediata da interação e, se falamos com uma criança, com um adulto ou com uma autoridade, construímos o significado de formas diferentes. O segundo se refere a uma instância mais ampla, pois abarca as práticas sociais tomando como base as culturas e, por isso, um mesmo modo semiótico pode significar coisas diferentes em culturas distintas. Assim, a cada contexto, a cada interação, o significado é produzido e interpretado de forma diferenciada. Neste momento, cabe ressaltar a importância de se considerar as relações de gênero como referencial teórico que será utilizado para ancorar as análises desta tese, pois os conteúdos das discussões dos participantes levitam em torno de suas relações de intimidade. Assim, ler os significados produzidos pelos participantes sobre suas relações e sobre os eventos violentos que as envolvem a partir das lentes críticas das relações de gênero – mergulhadas em posicionamentos hierárquicos e cambiantes – faz com que a investigação siga parâmetros complexos, conexos e heterogêneos.
Em terceiro lugar, compreender os atores sociais como ideologicamente posicionados diz respeito ao reconhecimento dos contextos de poder – e também de violência – em que as trocas interacionais estão mergulhadas, considerando sua produção, articulação e
interpretação. Aqui, o conceito de ideologia tem importância fundamental, pois ela é entendida como uma prática, um modo de operação, de estratégia e de ação. Segundo Guareschi (1998, p. 95), tal conceito focaliza nossa atenção nas “maneiras como as formas simbólicas são usadas e transformadas em contextos sociais específicos” e nos ajuda a observar como as relações sociais são criadas e sustentadas por formas simbólicas que nos orientam para certas direções. Para Thompson (1995, citado por GUARESCHI, 1998, p. 76), “estudar a ideologia é estudar as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de dominação”. Essa concepção de ideologia traz algumas implicações: primeiro, entendê-la como uma concepção crítica e nunca neutra; segundo, pesquisar e valorizar os sentidos e formas simbólicas dos processos ideológicos; e terceiro, mapear modos e estratégias organizadas para estabelecer e sustentar relações de dominação.
Pensando ainda na prática dos atores sociais, podemos definir a dominação como uma relação que se dá quando “determinada pessoa expropria poder (capacidades) de outro, ou quando relações estabelecidas de poder são sistematicamente assimétricas” (GUARESCHI, 1998, p. 96). Mapear modos e estratégias organizadas para estabelecer e sustentar relações de dominação pode ser considerado o ponto mais prático e útil para a análise ideológica. Responder a perguntas do tipo quais os modos e estratégias empregados na criação e manutenção das relações de dominação e também como a produção de significados pode estabelecer e sustentar tais relações pode ser valioso passo para a análise da ideologia.
Dessa forma, quando tomamos contato com a totalidade da linha filosófica da Semiótica Social, procuramos, irremediavelmente, tematizar quem produz o significado, as escolhas eleitas para construí-lo, o contexto no qual ele é veiculado e que marcas ideológicas e de poder ele perpetua, modifica ou subverte. Assim, podemos dizer que as análises gerenciadas pela Semiótica Social têm a intenção de promover reflexões políticas, críticas, historicizadas e culturalmente sensíveis. Nos itens a seguir proporemos, seguindo as tendências atuais de leitura sócio-semiótica, incluir a perspectiva de orquestração de significados e, para isso, abordaremos o campo atual de desenvolvimento teórico da multimodalidade, explicitando o que será utilizado nesta pesquisa.