A linguagem oral num contexto de interação é a mais usada na nossa vida diária e, por isso, esse tipo de linguagem é alvo de interesse de etnólogos, sociolinguistas, psicólogos e, principalmente, entre sócio-semioticistas. Afiliados com esta última perspectiva, os sistemicistas-funcionais estudam, sobretudo, a linguagem em uso e, em grande medida, a linguagem oral de tipo conversação. O paradigma sócio-semiótico, provê um modelo compreensivo e integrado da linguagem na medida em que teoriza os vínculos entre linguagem e vida social e, por isso, de acordo com essa perspectiva, a linguagem constrói dimensões de identidade social e de relações interpessoais.
Segundo Eggins e Slade (1997, p. 6) “apesar de sua aparência sem sentido e seu conteúdo aparentemente trivial, a conversação cotidiana é, de fato, uma atividade semântica altamente estruturada e funcionalmente motivada”. Tanto essas autoras quanto Thornbury e Slade (2006, 2010) usam o termo conversação no lugar do termo mais genérico, linguagem oral, para denominar seu campo de estudos. Isso se deve aos esforços empreendidos por eles para caracterizar e descrever de forma pormenorizada as especificidades da linguagem oral. Assim, conversação é definida pelos autores como linguagem falada, que acontece espontaneamente num tempo real, num local/contexto compartilhado, sendo construída reciprocamente num jogo interativo, com função primeiramente interpessoal, informal, e com conteúdos expressivos de negociação de identidades sociais, manifestação de desejos, sentimentos, atitudes e julgamentos.
Para o contexto desta tese, denominaremos a linguagem do corpus como conversação, por considerarmos que ela está de acordo com as definições acima, apesar de acontecer num ambiente formalizado, como o espaço de um grupo focal. Salientamos que, apesar de identificar essa diferença, não conseguimos verificar nenhuma incongruênca descritiva e/ou teórica entre a conversação tal qual descrita nos estudos liguísticos e a interação de tipo
conversa que acontece dentro do grupo reflexivo. Por isso, passaremos agora a descrever as características semióticas e as características gramaticais da conversação.
2.5.1 Características semióticas da conversação
A conversação é a forma de linguagem mais comum e mais cotidiana e, talvez por causa disto, há diferentes definições do que ela seja. Obviamente, nos referimos à linguagem falada e que acontece em tempo real. Por causa dessas características, a conversação é recheada de recursos vocais tais como ênfase, intonação, ritmo, altura da voz, tempo etc., e de aspectos disfluentes, como hesitações, repetições de palavras, falsos começos, reparações e/ou abandono de sentenças, aspectos agramaticais. O fato de a conversação acontecer como uma pressão no tempo e no espaço faz com que ela partilhe desses aspectos (THORNBURY e SLADE, 2006).
Na fala, há baixa densidade lexical, segundo Halliday (1985), mas esse fato é balanceado, pois os falantes constroem elaboradas coreografias de padrões semânticos no fluxo da conversação e, por isso, a conversação partilha de altos padrões de emaranhados e embaraçamentos semânticos que trazem coerência à comunicação. O fato de a conversação acontecer também num contexto partilhado faz com que os recursos utilizados pelos falantes incluam o conhecimento temporal e espacial momentâneo para se comunicarem e, segundo Thornbury e Slade (2006), essa característica é a que mais distingue a fala dos textos escritos.
A conversação é interativa, ou seja, coconstruída no fluxo espaço-temporal no qual acontece. Assim, os falantes constroem reciprocamente a fala e, por isso, os elementos de troca comunicativa são enfatizados nesse contexto eminentemente interpessoal. Ainda segundo Thornbury e Slade (2006), a conversação é informal e expressiva de identidade, pois, quando nos relacionamos, apresentamos um quantum de valores, nos mostramos e nos posicionamos.
2.5.2 Características gramaticais da conversação
Considerar a gramática oral como uma espécie de escrita falada ou como menos complexa do que a gramática escrita são os dois equívocos mais comuns sobre a linguagem oral, segundo Thornbury e Slade (2006, 2010). Há muito a gramática escrita foi considerada
padrão, e somente a partir das décadas de 1960 e 1970 os pesquisadores começaram a investir nesse campo de estudos, mapeando as formas gramaticais mais frequentes da linguagem oral.
Segundo Thornbury e Slade (2006, 2010), é comum haver duas incompreensões relacionadas à gramática da linguagem oral: que ela seria equivalente à linguagem escrita, porém realizada através da oralidade, e que ela seria menos complexa do que sua contraparte, a escrita. Segundo esses autores, esses pressupostos nos colocam alguns problemas, pois teríamos que considerar a linguagem escrita como padrão e desconsiderar as especificidades de uma e de outra.
No trabalho com a linguagem oral, é necessário estar atento a sistemas complexos, de natureza diversa da linguagem escrita, como, por exemplo, o material não oracional, denominado por Biber et al (1999 apud THORNBURY e SLADE, 2010) como peças extras, tais como os léxicos de resposta (ah, sim); marcadores de discurso (né?); dispositivos de feedback (mesmo?); e interjeições (graças a Deus!). Consideradas como itens isolados, essas peças extras não se relacionam sintaticamente com outras estruturas oracionais. Uma segunda classe de material não oracional proveniente da linguagem oral “consiste em frases isoladas ou fragmentos oracionais que são capazes de formar elementos de estrutura oração-e- sentença” (THORNBURY e SLADE, 2010, p. 199). Denominadas unidades sintáticas não oracionais, tais estruturas podem ser respostas curtas a perguntas, repetições ou elaborações de conteúdos prévios e comentários avaliativos. Biber et al (1999 apud THORNBURY e SLADE, 2010) usam o termo Unidade-C para essas ocorrências oracionais e não oracionais, salientando que elas são constituintes da linguagem oral, equivalentes ao que as sentenças são na linguagem escrita.
Thornbury e Slade (2010) ressaltam seis aspectos gerais dos textos orais: cabeça/cauda, incompletude gramatical, elipses, dêiticos, tempo/aspecto e modalidade. Sobre o primeiro destes, os autores comentam que é comum encontrar formas tipicamente não oracionais inseridas ora no início (cabeça), ora no fim (cauda) do corpo das orações. A cabeça é tipicamente uma frase nominal que carrega uma informação-chave, ou seja, o tópico que tem a função de organizar o fluxo da interação, como, por exemplo: Oh, seus amigos de Paddington, eles tiveram que sair do apartamento (grupo nominal funcionando como cabeça). Assim, “enquanto a cabeça cumpre uma função prospectiva, a cauda é mais retrospectiva no seu uso, servindo para estender, reforçar, atenuar, esclarecer e até mesmo comentar sobre o que o falante está dizendo ou acabou de dizer” (THORNBURY e SLADE, 2010, p. 200), como, por exemplo: Ela estava sentada na sala, aquela velha mulher italiana (grupo nominal funcionando como cauda). Os tipos de cauda são: orações interrogativas
simples ou ao final de orações (equivalentes às question tags); peças de reforço (não é?); orações nominais funcionando como identificadores (Detesto os iuguslavos, os croatas); adjetivos avaliativos (Ele os deixa em qualquer lugar, terrível); categorias identificativas vagas (você sabe isto e todo o resto) e orações de comentário (As coisas que ela faz, eu não sei). Marcadores de discurso, sinais interacionais e vocativos também são formas comuns que podem ser encontradas na linguagem oral funcionando como cauda, ou seja, como retrospectivos. No caso dos vocativos, quando estão na cabeça, cumprem a função de solicitar atenção e, quando estão na cauda, têm a função de ajustar ou reforçar a relação social entre o falante e quem foi endereçado por ele. Assim, segundo Mc Carthy e O’Keeffe (2003 apud THORNBURY e SLADE, 2010), se há uma distribuição equitativa de vocativos em uma interação, o fato pode ser interpretado como uma forma de solidariedade. A escolha de vocativos pelos falantes diz muito sobre a forma interpessoal em termos de postura e de atitude.
Sobre a segunda característica da linguagem oral, denominada incompletude gramatical, ou seja, dizeres incompletos dos falantes, Thornbury e Slade (2010, p. 201) afirmam que, “por causa da pressão presente no planejamento (da fala) juntamente com a natureza construtiva da conversação, a linguagem oral é frequentemente agramatical, até mesmo por causa de seus padrões ‘relaxados’”. Assim, muitos enunciados são abandonados (o falante abandona ou reinicia outro), interrompidos (por causa da intervenção de outro falante), completados por outros falantes e/ou misturados (com várias informações e tópicos). A terceira característica da linguagem oral é o uso frequente de elipses que podem omitir os sujeitos e os complementos verbais das sentenças, o que é considerado uma omissão deliberada de termos, pois eles podem ser recuperados no contexto imediato da interação. Por exemplo: “(Você) vai na casa da sua mãe? Sim, (eu) vou, provavelmente.”
Sobre a quarta característica – uso de dêiticos –, o fato de os falantes interagirem de forma compartilhada e simultânea no tempo e no espaço faz com que eles façam referências diretas à situação imediata usando expressões dêiticas. Por exemplo: “Olhe, eu fiz isto.”
O uso do tempo presente com referência a eventos passados é a quinta característica da linguagem oral apontada por Thornbury e Slade (2010). Por exemplo: “Eu estou de dieta e minha mãe sempre compra essas balas para mim”. Esse aspecto sugere que, na linguagem oral, as formas verbais operam como uma macrofunção discursiva num nível além da sentença, permitindo aos falantes organizar a mensagem de forma diferenciada. O mesmo acontece com o uso da voz passiva, que tem menor ocorrência na linguagem oral, pois ela está, na maioria das vezes, orientada para as ações, pensamentos e posturas dos falantes, de
forma que o sujeito oracional, no caso, o falante, seja geralmente aquele presente em tempo e espaço.
A sexta característica dos textos orais se refere ao uso da modalidade que tradicionalmente foi estudada a partir dos verbos modais do inglês (may, should, can, must, will). Tais recursos denotam escalas de verdade da realidade, como os conteúdos de atitudes e julgamentos dos falantes. A produção de significados desses recursos pode variar dentro de uma escala de “sim, sempre” a “não, nunca”, ou então “sim, todos” e “não, ninguém” (HALLIDAY, 1985). Para além dos verbos modais, um grande número de léxicos carrega sentidos de modalidade, tais como adjetivos, substantivos e advérbios. O uso da modalidade é abundante na linguagem oral, fato condizente com a marcante característica de troca interpessoal da fala, e mais especialmente numa situação de conversação. Thornbury e Slade (2010) propõem uma classificação da modalidade nos textos orais em: 1) modalidade extrínseca – julgamentos de probabilidade (preditabilidade, segurança e possibilidade teórica) do falante sobre um evento do passado, presente ou futuro. Exemplo: “Ela não tem ideia do que pode acontecer (pode = possibilidade)”; e 2) modalidade intrínseca – julgamentos de deserabilidade, necessidade ou permissividade num evento que está acontecendo. Exemplo: “Eu disse que ela pode ir no sábado (pode = permissão)”.
No próximo capítulo, descreveremos os passos metodológicos utilizados para a organização da análise dos dados e, posteriormente, passaremos à análise propriamente dita.