Part 3 Case study
5 Decision-making practice on maintenance notifications (case study)
5.2 Recommended inputs of data-driven decision-making practice on maintenance notifications
5.2.2 Recommended data architecture on maintaining drawworks
Com o intuito de contextualizar a formação de São José do Rio Pardo, vamos retroagir no tempo para os primórdios da chegada dos colonizadores à região. No final do século XVII, os paulistas abriram a estrada para o sertão dos Goiases em busca de ouro. O traçado do percurso passava pelas atuais localidades de Jundiaí, Campinas, Casa Branca, Franca e Igarapava, no estado de São Paulo, Uberaba e Cascalho Rico, em Minas Gerais, e Catalão, Santa Cruz de Goiás e Pirenópolis, no estado de Goiás. Casa Branca, cidade a qual pertenceu São José do Rio Pardo até o século XIX, provavelmente foi um rancho criado pelos bandeirantes para as paradas e o retorno das entradas e bandeiras. Em 1770, Pedro Taques de Almeida Paes Leme, num pequeno panorama do caminho para Goiás, descreve as vilas de Jundiaí e Mogi-Mirim, ambas possivelmente
criadas a partir da trajetória em direção ao oeste, mas não menciona Casa Branca, indicando a pequena importância da localidade no caminho para os Goiases.29 A freguesia de Casa Branca só foi criada em 181430, mas acreditamos que um pequeno povoado já existia no local, no último quartel do século XVIII, por estar às margens da mencionada estrada.31 Provavelmente, havia alguns engenhos, já que era comum naquela região a produção de açúcar e aguardente para o abastecimento interno.32
No início do século XIX, São José do Rio Pardo pertencia a então freguesia de Casa Branca e era, provavelmente, apenas um conjunto de fazendas sem uma sede ou núcleo. Nesse momento, o sertão do Rio Pardo era disputado por mineiros que vinham do sul de Minas e das áreas decadentes de mineração.33 Eles buscavam pastos para o gado, novas terras para a produção e novas faisqueiras.34 As primeiras migrações de mineiros se estabeleciam no Sertão da Farinha Podre, no Triângulo Mineiro, onde encontravam bons pastos, mas também índios bravos e altos índices de malária. Uma segunda leva se dirigiu para o Sertão do Rio Pardo, área com terras férteis e menos doenças tropicais que o Sertão da Farinha Podre.35 Nesse processo, esses
29
LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. História da Capitania de São Vicente. Brasília: Edições do Senado Federal, 2004, vol. 25. Carta Corográfica da Capitania de São Paulo. 1766. Disponível em <http://www.novomilenio.inf.br/santos/mapa106g.htm> Acesso em ago 2007.
30
Alvará do Príncipe Regente, de 25 de outubro de 1814. Cópia manuscrita. Caixa 45, ordem 282. Apud TREVISAN, Amélia Franzolin. A povoação dos Ilhéus, Casa Branca. São Paulo: Edições Arquivo do Estado, 1982, p. 50.
31“Hei por bem que no sertão da estrada de Goiás, do Bispado de São Paulo, d´aquém do Rio Pardo no
lugar denominado da Casa Branca seja ereta uma nova Freguesia com a invocação de Nossa Senhora das Dores, a qual os moradores do dito sertão edificarão à sua custa no prefixo termo de quatro anos, e ficará limitada esta nova Freguesia desde o Rio Jaguari até o pouso do Cubatão.” (Alvará do Príncipe Regente, de 25 de outubro de 1814. Cópia manuscrita. Caixa 45, ordem 282. Apud TREVISAN, 1982, p. 50. Apud
MOTTA, José Flávio; VALENTINE, Agnaldo. “Dinamismo Econômico e Batismos de Ingênuos – A
Libertação do Ventre da Escrava em Casa Branca e Iguape, Província de São Paulo (1871-1885).” Est.
econ., São Paulo, 38(2): 211-234, abr-jun 2008). 32
SIMONSEN, Roberto C. Aspectos da história econômica do café: contribuição para o Congresso de História Nacional, promovido pelo IHGB, em outubro de 1938. Rio de Janeiro: IHGB, 1938.
33
CHIACHIRI FILHO, José. Do Sertão do Rio Pardo à Franca do Imperador. Ribeirão Preto: Ribeira Gráfica e Editora Ltda., 1986.
34
A exceção a essa regra é a cidade de Caconde que tinha algumas faisqueiras no final do XVIII, mas não renderam e a exploração terminou rapidamente.
35
CUNHA, Maísa Faleiros da. Mineiros em terras paulistas: população e economia. Anais do XIV
Seminário sobre a Economia Mineira [Proceedings of the 14th Seminar on the Economy of Minas Gerais], 2010. Disponível em < http://www.cedeplar.ufmg.br/seminarios/seminario_diamantina/
“entrantes” de Minas Gerais constituíam as localidades e, mais tarde, as vilas. Confirmando essa premissa, o memorialista Rodolpho José Del Guerra afirma que os primeiros fazendeiros que chegaram à região de São José do Rio Pardo eram de Minas Gerais e adquiriram sesmarias de sesmeiros anteriores ou receberam-nas do governador ainda no primeiro quartel do século XIX.36
Carlos de Almeida Prado Bacellar afirma que mineiros ocuparam o oeste paulista a partir dos anos de 1810.37 Rodrigo Fontanari reafirma a mesma proposição para Casa Branca, povoada por mineiros e paulistas que chegaram à região para produzir café.38 Amélia Trevisan também corrobora essa afirmação da presença mineira e a dispõe em um quadro, indicando as ocupações e origens dos migrantes em 1825.
Tabela 1
Origem e ocupação de alguns dos moradores de Casa Branca, em 1825 Ocupação
Origem Lavradores Criadores Jornaleiros Negociantes Total %
São Paulo 145 45 18 4 212 51,1
Minas
Gerais 105 31 23 9 168 40,5
Outras 25 8 1 1 35 8,4
Fonte: TREVISAN, Amélia. F. Casa Branca, a povoação dos ilhéus. São Paulo: Dissertação (Mestrado em História), FFLCH-USP,1979, p.126-128 (adaptações nossas).
A partir dessa tabela, podemos perceber que a maioria dos moradores de Casa Branca em 1825 ainda era de origem paulista, números que se modificaram nas décadas seguintes.
2010/D10A127.pdf > Acesso em 24 fev 2012. A autora menciona como um exemplo ilustrativo citado por Chiachiri Filho em sua obra “Do Sertão do Rio Pardo à Franca do Imperador” a família de Hipólito Antônio Pinheiro, que seguiu esse caminho, do Sertão da Farinha Podre para o Sertão do Rio Pardo. CHIACHIRI FILHO, op. cit., 1986, p. 36.
36
DEL GUERRA, Rodolpho José. No ventre da terra mãe (São José do Rio Pardo). São José do Rio Pardo, SP: Graf-Center, 2001.
37
BACELLAR, Carlos de Almeida Prado; BRIOSCHI, Lucila Reis (orgs). Na estrada do Anhanguera:
uma visão regional da história paulista. São Paulo: Humanitas FFLCH/USP, 1999. 38
FONTANARI, Rodrigo. O problema do financiamento: uma análise histórica sobre o crédito no
Os dados coletados por Fontanari indicam a evolução demográfica da região de Casa Branca entre 1765 e 1875, período em que São José do Rio Pardo pertencia àquela vila. Nesses dados, podemos perceber que a população cresceu muito em um século de ocupação, e, no último ano do quadro, ela aumentou seis vezes em 50 anos. Esse aumento populacional foi ocasionado, provavelmente, pela chegada dos mineiros que compraram terras na região, como afirmam Bacellar, Fontanari e Trevisan.
Quadro 1
Evolução demográfica da região e depois município de Casa Branca, 1765-1875
Anos Sertão Rio Pardo
1765 124
1814 925
1825 2635
1875 12134
Fonte: FONTANARI, Rodrigo. O problema do financiamento: uma análise histórica sobre o crédito
no complexo cafeeiro paulista. Casa Branca (1874-1914). Franca: [s.n.], 2011. BRIOSCHI, L. R. et. al. Entrantes do Sertão do Rio Pardo: o povoamento da freguesia de Batatais, séculos XVIII e XIX.
São Paulo: CERU, 1991. GODOY, J. F. de. A província de São Paulo: trabalho estatístico, histórico e noticioso. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: FUNDAP, 2007.
A dinâmica de aquisição de terras e ocupação do espaço físico do sertão do rio Pardo se mostrou mais complexa que os dados dos índices populacionais. Bacellar analisa os registros de terra antes de 1850 e discute a maneira pela qual eram realizados. Os termos de divisas das propriedades eram vagos, demarcados por córregos, árvores e pelos vizinhos. As posses se davam por meio do preparo de roças, das derrubadas de matas e dos levantamentos de cruzeiros. Após a Lei de Terras, de 1850 e sua regulamentação em 1854, as grandes glebas já estavam divididas em porções menores e isso se intensificou com chegada de novas levas de mineiros.39 Em São José do Rio Pardo, observamos que alguns migrantes não se fixavam necessariamente à terra adquirida e se mudavam para outras localidades após algum tempo. As fazendas eram
39
negociadas para a aquisição de novas propriedades em outros lugares próximos, mais a oeste ou a norte do estado de São Paulo.
Um exemplo desse processo migratório de mineiros para o oeste paulista e do contínuo fluxo para novas regiões é a fazenda Pião do Rio Pardo. Segundo Maria do Carmo Di Creddo, a fazenda Pião do Rio Pardo era de propriedade de Francisco de Assis Nogueira40. Seu filho, de mesmo nome, foi um dos empreendedores das obras da capela de São José em 1865.41 Ele e sua mãe, herdeiros daquelas terras, teriam as vendido, nos anos de 1870, para se mudarem, ele para Rio Novo – MG, e sua mãe para Botucatu – SP.42 Acreditamos que a fazenda foi adquirida pelo coronel José Antônio de Sousa Lima43, mineiro e investidor na região que, ao que tudo indica, a entregou em dote a seu sobrinho e genro, Manoel Corrêa de Sousa Lima44, nos anos de 1870.45 Nos anos de 1890, Manoel Corrêa de Sousa Lima vendeu a fazenda e se mudou para Igarapava, mais ao norte do estado de São Paulo. Podemos perceber que, em cerca de 30 anos, a propriedade teve quatro possuidores, que investiram dinheiro na compra da terra e a venderam, sendo que eles se mudaram para outras localidades, não permanecendo em São José do Rio Pardo.
Há três questões importantes que podemos identificar. A primeira e a segunda se aplicam ao oeste paulista. Houve uma migração de mineiros para a região, mas eles não foram os únicos, também havia um fluxo de paulistas para aquelas áreas,
40
Segundo Rodolpho Del Guerra, a fazenda já havia sido de Alexandre Luiz de Mello, proprietário da primeira sesmaria. DEL GUERRA, op. cit., 2001.
41
Descendants of Cap. Mór Tomé Rodrigues Nogueira do Ó: Notes. Disponível em < http://www.genealogia.villasboas.nom.br/DescAncestrais/trno/pafn20.htm#243> Acesso em 12 out 2011,
17:40. NEGRÃO, Joaquim “Tininho”. História da fundação de Avaré (fatos e ficção) &causos 2.
Avaré – SP: Joaquim negrão, 2007.
42
DI CREDDO, Maria do Carmo Sampaio. Terras e índios: o povoamento e a propriedade no Vale do
Paranapanema. São Paulo: Arte e Ciência, 2003. 43
O coronel José Antônio de Souza Lima era negociante de café e fornecia crédito a pequenos proprietários por meio de hipotecas.
44
Manoel Corrêa de Sousa Lima foi um dos líderes da revolta riopardense. Ele era mineiro, natural de Nepomuceno, sul de Minas.
45
especialmente, antes do aumento dos preços das propriedades, como indicou os quadros e tabelas anteriores. A segunda questão e mais relevante é que as terras do oeste paulista passaram a ser bens negociáveis, vendidas, compradas e oferecidas em garantia de empréstimos.46 E, por fim, a terceira e última questão diz respeito a São José do Rio Pardo. Observamos que a migração para aquela localidade não foi estável, os migrantes se mudaram das cidades do oeste de São Paulo para outras, sem se fixar ao local, como é o caso dos diversos proprietários da fazenda do Pião do Rio Pardo. Outros personagens também se mudaram da região após adquirir terras na localidade, como a maioria dos fundadores da capela de São José, em 1865, que se mudaram para Avaré na década seguinte, vendendo suas fazendas para os entrantes que chegaram posteriormente e se estabelecerem ali. Nesse sentido, podemos perceber que a região de São José do Rio Pardo sofreu grandes mudanças populacionais pelo aumento do número de famílias de origem principalmente mineira, mas também vivenciou um fluxo de migrantes que não se fixava necessariamente à terra e se revezava com outras famílias que chegavam àquela área.
Com esse fluxo populacional em crescimento, tornou-se necessária a criação de uma capela para atender a comunidade e, com isso, a constituição de uma sede. Assim, em 1865, alguns fazendeiros se reuniram para edificar o templo e doaram terras para o patrimônio da igreja. Politicamente, isso significava o desejo de se criar uma futura freguesia e em seguida uma vila, constituindo-se, nesse sentido, uma partição do poder, com uma Câmara municipal separada da de Casa Branca. Para os historiadores de São José do Rio Pardo, esse é o mito fundador da cidade. Em 4 de abril de 1865, Antônio Marçal Nogueira de Barros, José Teodoro de Noronha, Francisco de Assis Nogueira, Raimundo Estelino Ribeiro da Silva, Luciano Ribeiro da Silva, João
46
Damasceno Negrão e Ananias Joaquim Machado47 se reuniram na casa de um deles, provavelmente, do Sr. Antônio Marçal Nogueira de Barros, para escrever a ata de fundação da capela de São José.
O primeiro alqueire já fora doado por João José de Souza, em 6 de fevereiro de 1865, com título passado na Fazenda da Laje. As outras doações foram de Cândido Faria Moraes, três alqueires, com título passado na Fazenda da Cachoeira da Boa Vista, em 17 de junho; Antônio Marçal Nogueira de Barros, três alqueires, com título passado na Fazenda Becerábia; José Teodoro Nogueira de Noronha, quatro alqueires, com título passado em São José do Rio Pardo e Cândido de Miranda Noronha, um alqueire, com título passado em São José do Rio Pardo. Os três últimos títulos foram passados em 19 de junho de 1865.48
As terras doadas para o patrimônio da igreja de São José ficavam no alto do morro, a cerca de 500 metros das margens do rio Pardo, e a aproximadamente 150 metros acima do leito.49
Mesmo depois da doação, o bispo só autorizou o início da construção da capela em março de 1870. As obras foram feitas, possivelmente, por escravos dos fazendeiros que fizeram as doações das terras. O Sr. João Baptista Blandim foi nomeado fiscal do templo e supervisionou as obras.50 Em 1872, a igreja ficou pronta e foi abençoada pelo bispo depois da regularização dos registros do patrimônio doado.51
A localidade foi elevada à freguesia pela Lei n° 43 de 16 de abril de 1874, pertencendo à vila de Casa Branca. Em 8 de maio de 1877, pela Lei nº 40, a freguesia de São José do Rio Pardo foi transferida para Caconde e, em 14 de abril de 1880, pela Lei nº 70, ela foi novamente anexada a Casa Branca. A elevação à freguesia
47
Para a biografia desses personagens, ver quadro anexo.
48
ATA de fundação da "Futura Freguesia de São José do Rio Pardo”. Disponível em <http://www.saojoseonline.com.br/himatriz.htm> Acesso em 13 jun 2013.
49
O ato de fundação para a posteridade foi arquivado na matriz de São José.
50
João Baptista Blandim era mineiro de São João Del Rei e se mudou para o oeste paulista na primeira metade do século XIX. Ver quadro anexo.
51
DEL GUERRA, Rodolpho José. No ventre da terra mãe (São José do Rio Pardo). São José do Rio Pardo, SP: Graf-Center, 2001 e DEL GUERRA, Rodolpho José. O décimo terceiro. São José do Rio Pardo, SP: Graf-Center, 2007, p. 312.
era o primeiro passo para a constituição de uma futura vila, já que ela era uma parte territorial vinculada às vilas,52 uma divisão administrativa e eclesiástica em que o padre, responsável pela igreja, também se responsabilizava pelos registros de batismo, casamento e óbito. Além disso, os líderes da localidade tinham o respaldo para as eleições de vereadores e podiam disputar um espaço na Câmara.
A conquista da freguesia de São José do Rio Pardo foi uma vitória dos liberais e republicanos riopardenses perante os conservadores de Casa Branca e, provavelmente, a transferência dela para Caconde também. Com o retorno para Casa Branca, os riopardenses perderam uma batalha política e, provavelmente, deram início ao processo de emancipação da localidade. Na liderança desse grupo, despontava Antônio Marçal Nogueira de Barros.
Em 1878, o Sr. Antônio Marçal Nogueira de Barros, o mesmo que doou as terras para a formação da freguesia, tornou-se vereador em Caconde, cidade da qual pertencia São José do Rio Pardo, e definiu durante seu mandato o traçado das ruas do povoado.53 Em torno da igreja foram erguidas algumas casas de fazendeiros das proximidades, uma farmácia de propriedade de Antônio Marçal e, provavelmente, uma venda. João Baptista Blandim, fiscal da localidade, ao descrever o início da povoação de São José do Rio Pardo em uma entrevista concedida em 1917 para o jornal “Álbum Riopardense”, diz que:
(...) recordou-se de casas esparsas, cobertas de sapé, no meio do mato. Morou numa delas, onde, tempos depois, ergueu-se o palacete de Antônio Ribeiro Nogueira (Nhô Ribeiro) (...), hoje, substituído por um
52
A freguesia na concepção do século XIX se assemelha a um distrito atual, que recebe esse nome porque tem um cartório para registro de pessoas.
53
Rodolpho Del Guerra afirma que isso ocorreu em 1868, mas, nessa data, Antônio Marçal Nogueira de Barros não era vereador em Caconde e São José do Rio Pardo pertencia a Casa Branca. Porém, segundo Adriano Campanhole, ele foi eleito presidente da Câmara em 1878. Por isso, acreditamos que tenha havido um erro de grafia na obra de Del Guerra e o arruamento da freguesia foi decidido em 1878. CAMPANHOLE, Adriano. Memória da cidade de Caconde: freguesia antiga de Nossa Senhora da
Conceição do Bom Sucesso do Rio Pardo. São Paulo: Editora Gráfica Latina, 1979 e DEL GUERRA,
prédio de morada e casas comerciais, na esquina da Praça XV de novembro com a rua Marechal Floriano.54
Este mesmo João Baptista Blandim permitiu, em 1878, que edificações fossem erguidas sobre os arruamentos demarcados por Antônio Marçal Nogueira de Barros e foi demitido do cargo de fiscal de quarteirão. Isso sugeria que Barros tinha poder político na vila de Caconde que permitisse definir quem ficaria como funcionário municipal no distrito. A transferência de jurisdição de uma vila para outra, como foi o caso de Casa Branca para Caconde e desta de volta para Casa Branca, pode revelar quais eram as lideranças envolvidas nas disputas de poder da freguesia de São José.
Há dois pontos a serem observados nesse caso: os valores de impostos arrecadados relativos ao café e correspondentes ao território de São José do Rio Pardo e o número de eleitores naquele território. Em relação aos impostos, a lavoura cafeeira em São José do Rio Pardo estava em expansão e a arrecadação financeira aumentava. Isso representava um ganho para a vila que sediava aquele distrito, sendo assim, importante mantê-lo dentro da jurisdição, o que gerava certa disputa pelo território riopardense. Quanto à questão eleitoral, ao que tudo indica, a situação política em Casa Branca se diferenciava em muito do quadro em Caconde. Na primeira, a maioria dos partidários e políticos era de tendência monarquista conservadora. Segundo João Silveira, havia 43 anos que a cidade era governada por conservadores.55 Já São José do Rio Pardo era formada por liberais e republicanos, sendo a maioria adepta às ideias republicanas. Nesse sentido, enquanto subordinada a Caconde, provavelmente, Antônio Marçal Nogueira de Barros fosse mais influente que quando subordinada a Casa Branca.
54
ROCHA, Octávio. Álbum Riopardense. São José do Rio Pardo, 1917. Apud. PORTAL DO
TURISMO. São José do Rio Pardo. Roteiros do Brasil, Região Estradas e Bandeiras: História da
Cidade. Disponível em <http://www.ferias.tur.br/informacoes/9658/sao-jose-do-rio-pardo-sp.html>
Acesso em 20 dez 2013. Para o arruamento da cidade, ver mapa anexo.
55
João Silveira foi orador da causa de emancipação de São José do Rio Pardo a vila. Correio Paulistano. Assembleia Provincial, 10ª. Sessão Ordinária aos 25 de fevereiro de 1885, São Paulo, domingo, 08 mar 1885, ano XXXI, n° 8564.
Interessado em elevar a freguesia à condição de vila, Antônio Marçal Nogueira de Barros, juntamente com outros cidadãos riopardenses, submeteu uma solicitação à Assembleia Legislativa de São Paulo. A Lei n° 49, de 20 de março de 1885, que elevou a localidade à vila, não aconteceu sem discussões e disputas. Na reunião da Assembleia Legislativa, em 11 de fevereiro de 1885, foi lançada a solicitação de emancipação de São José do Rio Pardo. Segundo o orador do pedido, Sr. João Silveira, a localidade não havia sido contemplada no censo de 1873 por não ter população suficiente naquele período mas, em 1885, já contava com “seis mil almas
aproximadamente” e era, então, uma freguesia com povo e economia suficientes para
ser emancipada.56
Em 25 de fevereiro de 1885, na 10ª sessão da Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado Antônio José Corrêa, de Casa Branca, entrou com um requerimento solicitando que o território de São José do Rio Pardo se resumisse ao trecho entre o rio Pardo e o rio Fartura e não a porção correspondente à freguesia pleiteada pelos riopardenses. Com essa divisão territorial requerida pelo deputado, Casa Branca não perderia grandes fazendas produtoras de café que garantiam arrecadação de impostos para a municipalidade. Outro importante ponto era a estação do ramal do rio Pardo que seria construída em São José do Rio Pardo e, se ainda pertencesse a Casa