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Part 2 Theory descriptions

2 Literature review

2.4 Technical integrity management

2.4.2 Integrated work process

A razão de não haver atuação de professores surdos concursados nas escolas, tanto estaduais como municipais, foi pontuada pelos professores surdos entrevistados.

Nunca prestei concursos, porque não tem intérprete. Deveria ser obrigatório o intérprete nos concursos, porque há significados de palavras que eu não entendo, impossível escrever, fazer a prova. Eu não sei português. Amaria se fosse obrigatória a atuação do intérprete nos concursos (S.3).

Não fui aprovado nos concursos. Os concursos têm prova teórica que um candidato ouvinte pode passar, mas o surdo não consegue, porque a escrita e o entendimento da língua portuguesa é difícil. O professor ouvinte que quer dar aulas para surdos faz um curso de pós-graduação com poucas horas de Libras e acham que já podem ensinar. Quando começa a prática, percebe que não sabe Libras. Como passam no concurso? O surdo é sempre excluído e perde espaço no trabalho (S.5).

Eu nunca tentei fazer concursos. Nunca! A minha filha surda tentou, está na fila de espera. Minha filha é surda e formada em pedagogia, já tentou várias vezes e o resultado é sempre o mesmo: é chamada como substituta de outros professores. Não é justo isso. Já que passou no concurso, o trabalho dela deveria ser equiparado ao de outros professores (S.7).

Eu já prestei concurso e não consegui. Os textos da prova são difíceis. Não existe tradução para a Libras. Para participar, eu preciso entender claramente. Muito difícil. Principalmente redação, é preciso mencionar leis, práticas pedagógicas do órgão. Muito difícil. Já tentei, mas não consegui (S.4).

Sabemos que, atualmente, a presença do intérprete de Libras é obrigatória nos concursos, como acessibilidade da pessoa surda, e pode ser exigida a sua presença no ato da inscrição aos concursos, porém é vedado ao intérprete a explicação do significado de alguns vocábulos que são fundamentais para o entendimento do enunciado. Além disso, existem provas de redação em língua portuguesa o que

dificulta ainda mais o processo. Alguns dos entrevistados fizeram a fazer a prova sem sucesso, outros nem se arriscaram a uma tentativa, temerosos dos resultados que anteviram, dadas as circunstâncias de aplicação da prova. As experiências citadas podem ter o efeito de desestimular os jovens surdos que queiram investir no magistério para atuar em órgãos públicos.

Dessa forma, os professores surdos que atuam na educação em escolas públicas ou instituições conveniadas, embora tenham longa experiência e formação adequada e equiparável a dos professores ouvintes, atuam em regime de contratação por tempo determinado. O Quadro 2, na próxima página, resume atuação e o tipo de profissionais surdos e ouvintes nas instituições de ensino.

Quadro 2 - Atuação e vinculação institucional dos professores entrevistados

A) PROFESSORES SURDOS

CÓDIGO FORMAÇÃO TEMPO NA ÁREA CAMPO DE ATUAÇÃO REGIME DE CONTRATAÇÃO S.1 Pedagogia, Pós em Edac*, Letras/Libras 24 anos Conveniada Universidade contrato S.2 Letras/Libras 15 anos Escola municipal contrato S.3 Pedagogia e Pós 5 anos Escola estadual contrato S.4 Pedagogia/Pós

Edac/Letras Libras

15 anos Escola municipal contrato S.5 Matemática/Edac/

Letras Libras

10 anos Escola municipal contrato S.6 Pedagogia/Letras Libras 23 anos Conveniada contrato S.7 Letras/Letras Libras/ Pós

educação inclusiva

15 anos Conveniada contrato S.8 Pedagogia/Mestrado em

Educação/Letras Libras

27 anos Escola estadual Universidade

concursada *Estudos dos Distúrbios de Audio Comunicação.

B) PROFESSORES OUVINTES

CÓDIGO FORMAÇÃO TEMPO NA ÁREA

CAMPO DE ATUAÇÃO

REGIME DE CONTRATAÇÃO

O.1 Letras 1 ano Escola estadual concursado

O.3 Letras/Mestrado em Educação

1 ano Escola municipal concursado

O.4 Português - Escola municipal concursado

O.5 Pedagogia 27 anos Escola municipal concursado

O.6 Biologia - Escola municipal concursado

O.7 Letras/Português/ Libras e pós educação

2 anos Escola municipal concursado

O.8 Pedagogia

Pós educação inclusiva

28 anos Escola municipal concursado Fonte: elaborado pela autora.

Os professores surdos afirmam ainda que, mesmo para a contratação em escolas conveniadas e outras instituições de ensino, encontram dificuldades pela falta de conhecimento em libras dos coordenadores de cursos e, sendo assim, não conseguem causar uma boa impressão.

Durante a entrevista, o entrevistador tem dificuldade de entrevistar a pessoa surda e, ao contrário, consegue se comunicar muito bem com o ouvinte. Daí, a escolha recai sempre no ouvinte, porque esse pode falar e explicar claramente o que o entrevistador precisa saber (S.5).

Vemos que o tratado de Salamanca, que rege a política de educação inclusiva, é seguido de forma parcial pelo menos no que se refere ao recrutamento e treinamento de educadores, diz o tratado que um dos maiores problemas dos sistemas educacionais é a falta de modelos para estudantes portadores de deficiências, visto que tais alunos necessitariam interagir com adultos bem sucedidos para que possam espelhar-se e que os mesmos além disso deveriam ser treinados para liderança e colaboração na elaboração de políticas que poderão afetá-los futuramente.

Sistemas educacionais deveriam, portanto, basear o recrutamento de professores e outros educadores que podem e deveriam buscar, para a educação de crianças especiais, o envolvimento de indivíduos portadores de deficiências que sejam bem sucedidos e que provenham da mesma região (DECLARAÇÃO DE SALAMANCA, 1994, item 40).

O treinamento de professores especiais necessita ser reconsiderado com a intenção de lhes habilitar a trabalhar em ambientes e de assumir um papel- chave em programas de educação especial (DECLARAÇÃO DE SALAMANCA, 1994, item 45).

Percebemos que apesar das inúmeras dificuldades encontradas para a lida com alunos surdos e, a evidência de que essas dificuldades poderiam ser minimizadas com um maior conhecimento das línguas de sinais e especificidades que envolvem a pessoa surda e ainda o reconhecimento de que a atuação de professores e instrutores surdos é fundamental para o sucesso do trabalho, a atuação desses profissionais ainda é tida apenas como mais um material de apoio, sem que a eles seja dada a oportunidade de participar, elaborar e participar de treinamentos para que, em contrapartida, possam apropriar-se dos processos pedagógicos que envolvem a educação e melhorar sua própria atuação.

Pode-se dizer que a formação de professores e profissionais de educação dos surdos é deficiente para atender as necessidades desses sujeitos. Percebemos o grande esforço que é dispendido pelos profissionais de educação envolvidos nesse difícil processo de educação de pessoas com deficiências. Não há tempo suficiente para a formação de professores para a lida com todas as diferenças e mesmo que houvesse, não há tempo suficiente para aplicação de estratégias diferenciadas em turmas tão diversas.

No que tange a educação dos surdos, existe a falta do que eles mais necessitam: estratégias de ensino baseadas na sua língua e cultura e respeito às diferenças que existem dentro dessa diferença, além do conhecimento adquirido pela vivência e contato que torna agradável e produtivo o processo de ensino aprendizagem, bem como uma maior participação e interesse da família e da sociedade como um todo.

Nem se pode pensar que a metodologia aplicada para a educação de ouvintes possa ter resultados satisfatórios na educação do surdos, nem que o domínio das línguas de sinais possa resolver a questão. O currículo surdo deve ser pensado a partir das experiências vividas em contato com alunos surdos, experiências que narrem suas particularidades (LOPES, 2007).