The wind assisted ship model
9.1 Recommendations for future work
A região estudada insere-se no contexto da Bacia do São Francisco, a qual recobre a parte centro- sul do cráton homônimo (Figura 6.1 - Almeida, 1977; Alkmim, 2004). A Bacia do São Francisco compreende um embasamento estabilizado em torno de 1.9 Ga (Teixeira et al. 2000, 2008), constituído por granitos e gnaisses arqueanos e paleoproterozóicos, além de supracrustais dos Supergrupos Rio das Velhas e Minas, na parte mais ao sul da bacia. As coberturas sedimentares da Bacia do São Francisco são o Supergrupo Espinhaço (Paleo-Mesoproterozóico), o Grupo Bambuí (Neoproterozóico), os sedimentos paleozóicos do Grupo Santa Fé e as unidades cretácicas dos Grupos Areado, Mata da Corda e Urucuia (Alkmin & Martins Neto, 2001; Sgarbi et al, 2001).
O Grupo Bambuí é uma unidade carbonática-siliciclástica neoproterozoica da Bacia do São Francisco (Alkmim et al. 1993, Alkmim & Martins Neto 2001, Martins Neto & Alkmim, 2001; Misi, 2001; Zalan & Romeiro Silva 2007). Consiste de uma sequência de rochas sedimentares e metassedimentares, de baixo grau metamórfico, dividida nas formações Jequitaí / Carrancas (diamictitos, arenitos), Sete Lagoas (carbonatos), Serra de Santa Helena (siltitos), Lagoa do Jacaré (carbonatos), Serra da Saudade (siltitos) e Três Marias (arcósios), conforme Costa & Branco (1961) e Dardenne (1978, 1981).
Geneticamente, as formações do Grupo Bambuí representam três ciclos de sedimentação regressiva, todos eles num contexto de ambiente marinho raso, com influência de ondas de tempestades (Dardenne 1978, Martins 1999, Uhlein et al. 2004b). A base da Formação Sete Lagoas representa um carbonato de capa fruto de sedimentação pós-glacial ocorrida durante o evento Marinoano (~635 Ma), conforme Vieira et al. (2007b) e Caxito et al. (2012). O Grupo Bambuí possui sua evolução relacionada à geração de uma bacia do tipo foreland, associada ao desenvolvimento orogênico da Faixa Brasília (Chang et al. 1988, Guimarães 1997, Castro & Dardenne 2000, Dardenne 2000, Martins-Neto & Alkmim 2001 - Figura 6.1). Mais recentemente, Zalan & Romeiro Silva (2007) descrevem o Grupo Bambuí com características de bacia intracratônica na base, transicionando para uma bacia foreland apenas nas suas unidades superiores.
84 Figura 6.1: Margem oeste do Cráton do São Francisco e unidades tectonoestratigráficas da Faixa Brasília. Modificado de Pimentel et al. (2011).
85 Trabalhando na margem oeste do Grupo Bambuí, nas proximidades de Lagoa Formosa, Patos de Minas e Carmo do Paranaíba, na região do Alto Rio Paranaíba, MG – conforme Figura 6.1, 6.2 e 6.3 – Uhlein et al. (2011b) apresentam um trabalho abrangente sobre a Formação Lagoa Formosa, levando em consideração suas características sedimentológicas e estratigráficas. Os autores descrevem seis litofácies distintas para a unidade: diamictitos, siltitos, arenitos, conglomerados, jaspilitos e carbonatos. Estas litofácies formam duas associações de litofácies (Figura 6.3 e Figura 6.4): (1) Associação de Diamictitos. Os diamictitos são maciços, pouco estratificados, amalgamados, com sugestões de geometria lenticular. Os clastos são constituídos, basicamente, de siltitos laminados e maciços. Em segundo plano, clastos de arenitos arcozianos e carbonatos, e, mais raramente, conglomerados; (2) Associação de Siltitos. Esta associação de litofácies constitui uma sequência bem estratificada, caracterizada pela alternância de camadas, com espessuras que variam de centímetros a metros, de siltitos, arenitos finos a grossos, ortoconglomerados, paraconglomerados e/ou diamictitos e, também, intercalações de jaspilitos e carbonatos, às vezes estromatolíticos.
O empilhamento estratigráfico definido para a Formação Lagoa Formosa próximo à cidade de Lagoa Formosa e Areado é do tipo engrossamento ascendente (coarsening upward), com a Associação de Diamictitos acima da Associação de Siltitos. A estrutura homoclinal nem sempre é facilmente interpretada para toda a Formação Lagoa Formosa. Dobramentos são por vezes observados em campo, bem como cavalgamentos e finas lascas de empurrão, tornando o empilhamento estratigráfico, por vezes, de difícil compreensão.
87 Figura 6.2: Mapa geológico da região do Alto Paranaíba, oeste de Minas Gerais. FSL: Formação Sete Lagoas; FSSH: Formação Serra de Santa Helena; FLJ: Formação Lagoa do Jacaré; FLF: Formação Lagoa Formosa (AD: Associação de Diamictitos; AS: Associação de Siltitos); FSS: Formação Serra da Saudade; FTM: Formação Três Marias. Compilado a partir dos mapas geológicos 1:100.000 de Fragoso et al. (2011), Uhlein et al. (2011c), Dias et al. (2011), Martins et al (2011) e Reis (2011). Para localização regional, ver Figuras 6.1 e 6.2.
Figura 6.3: Seção geológica SW-NE do município de Lagoa Formosa até o distrito de Areado. Localização esquemática das várias amostras coletadas ao longo do perfil. Para localização regional, ver Figura 6.3. Modificado de Baptista (2004) e Uhlein et al. (2011b).
As associações de fácies são caracteristicamente de leque submarino, depositadas numa bacia foreland, com influência do soerguimento da Faixa Brasília (Baptista, 2004; Uhlein et al., 2011b) a qual soergueu também blocos do próprio Grupo Bambuí, reciclando os sedimentos recém depositados como material clástico para a Formação Lagoa Formosa. Leque submarino é aqui entendido como um sistema deposicional marinho, com amplo predomínio de sedimentação gravitacional, caracterizada por avalanches submarinas (cujo produto sedimentar é o diamictito) e correntes de turbidez (responsáveis pelas fácies de turbiditos – arenitos com estratificação gradacional, arenitos e pelitos interestratificados). Para norte-sul e também para leste, as fácies da Formação Lagoa Formosa parecem interdigitar com fácies da Formação Serra da Saudade (Figura 6.3).
88 O modelo clássico para deposição em uma bacia tipo foreland, mostra uma sucessão de sedimentos de água profunda sin-deformacionais, sobrepostos por sedimentos de água mais rasa a continental. As unidades mais próximas à frente orogênica abrigam os sedimentos mais grossos e imaturos, podendo haver reciclagem sedimentar dentro da própria bacia (Einsele,1992; DeCelles & Giles, 1996; Catuneanu, 2004; Allen & Allen, 2005, Sinclair et al., 1991). Segundo Uhlein et al. (2011b), o modelo de empilhamento em uma bacia foreland proximal é similar ao modelo do Grupo Bambuí em Lagoa Formosa (Figura 6.3 e Figura 6.4).
A idade de deposição do Grupo Bambuí ainda é tema de intenso debate. Babinski et al. (2007) consideram a sedimentação da base da Formação Sete Lagoas como iniciada em torno de 740±20 Ma, a partir de isócronas Pb-Pb em carbonatos. Recentemente Caxito et al. (2012), a partir de dados litoestratigráficos, isotópicos e geocronológicos inéditos e compilados, sugerem que toda a Formação Sete Lagoas represente a sedimentação pós-glacial do evento Marinoano (~635 Ma). A partir de dados U-Pb em zircões detríticos, Rodrigues (2008) e Pimentel et al. (2011) também assumem uma idade mais nova para o Grupo Bambuí, com zircões detríticos marcando idades máximas de sedimentação em torno de 610 Ma nas porções intermediárias e superiores da Formação Sete Lagoas, e idades de ~612 Ma para as formações Serra da Saudade e Três Marias. Na borda oeste do Grupo Bambuí, nas proximidades das áreas de ocorrência da Formação Lagoa Formosa, determinações K-Ar em muscovita de rochas deformadas das nappes exteriores da Faixa Brasília, que cavalgam unidades do Grupo Bambuí, sugerem uma idade mínima de deposição para as mesmas em ~567 Ma (Valeriano et al., 2000). De maneira análoga, na borda leste, todo o Grupo Bambuí é afetado pela deformação, vergente para oeste, provinda da Faixa Araçuaí, cujo pico metamórfico foi atingido em torno de 575 Ma (e.g.: Pedrosa-Soares et al., 2011). Dessa forma, a nível preliminar, a Formação Lagoa Formosa teria sua idade deposicional limitada superiormente pelos zircões detríticos da Formação Serra da Saudade (~612 Ma), os quais aparentam terem sido retrabalhados durante a deposição da Formação Lagoa Formosa, e, inferiormente, pela idade de posicionamento das nappes externas da Faixa Brasília (~567 Ma).