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Como já foi dito anteriormente, essa investigação pautou-se na realização de entrevistas semi-estruturadas. Para tanto, foi elaborado um roteiro prévio que alcançasse dados que pudessem contribuir para melhor compreensão do objeto em questão. Esses dados emergiam na interação com o entrevistado, o que possibilitou ampliar o objeto de investigação. Procurou-se elaborar um roteiro que buscasse assegurar a objetividade na tentativa de captar informações que melhor contribuíssem para a compreensão do objeto delimitado. As informações explicitadas na interlocução com as docentes constituíram a base dos dados para que se pudesse compreender as relações entre as concepções e as práticas de avaliação desses sujeitos e estabelecer relações com o desenvolvimento da proposta de avaliação da PB e, dessa forma, compreender suas contribuições e efeitos nas práticas de alfabetização.

Assim, a entrevista tinha como principal objetivo coletar dados sobre as concepções das docentes sobre as suas práticas de avaliação dos alunos e sobre a sua compreensão da proposta da avaliação da PB, como também informações sobre suas percepções a respeito das contribuições das avaliações externas para a organização de suas práticas de alfabetização.

A escolha pela entrevista semi-estruturada deu-se, portanto, a partir das considerações apresentadas por Triviños (1987, p. 147).

[...] de certos questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses que interessam a pesquisa, e que, em seguida, oferecem amplo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão surgindo, a medida que recebem as respostas do informante.

Desta maneira, o informante, seguindo espontaneamente a Iinha de seu pensamento e de suas experiências dentro do foco principal colocado pelo investigador, começa a participar na elaboração do conteúdo da pesquisa.

Para a realização das entrevistas, foi elaborado um roteiro constituído de três partes: a primeira voltada para a caracterização das instituições de ensino, a segunda com questões para a caracterização dos docentes entrevistados e a terceira com questões semi- abertas direcionadas aos professores, que focalizaram o objetivo do estudo. As entrevistas foram previamente agendadas, autorizadas pela coordenação da escola e todas aconteceram dentro do espaço escolar nos horários em que os alunos encontravam-se com outros professores.

As entrevistas foram gravadas em áudio e transcritas, com o consentimento dos sujeitos dialogantes, com o intuito de melhor compreender os discursos proferidos, uma vez que a transcrição permitiu um olhar mais preciso quanto ao processo analítico, de forma a evitar interpretações errôneas do discurso apresentado e garantir a compreensão dos aspectos verbais e não verbais. Assim, considera-se, de acordo com Zago (2003, p. 299), que

A gravação do material é de fundamental importância pois, com base nela o pesquisador está mais livre para conduzir as questões, favorecer a relação de interlocução e avançar na problematização. Esse registro tem uma função também importante na organização e análise dos resultados pelo acesso a um material mais completo do que as anotações podem oferecer e ainda por permitir novamente escutar as entrevistas, reexaminando seu conteúdo.

Lemke (1990 apud FREITAS, 2002, p.43) afirma que "a linguagem só se torna dado de pesquisa quando transposta da situação originária para a atividade de análise". Um dos instrumentos utilizados para essa transposição é a transcrição, que consiste em passar para a forma escrita os dados coletados na forma oral. Por isso, as entrevistas foram transcritas.

Ao analisar os dados das entrevistas, tem-se como princípio considerar as reais condições em que o discurso foi produzido. Nesse caso, os textos produzidos pelas docentes de escolas diferentes foram considerados como discursos carregados de um conteúdo ideológico e correspondendo a uma realização simbólica que se instaura no momento da interação face a face, em que tanto o pesquisador como as professoras ocuparam lugares institucionais distintos e carregados de significação.

Além disso, considerar as falas das profissionais, como representantes de duas instituições que ocupam lugares com representações distintas nas avaliações externas – classificações que reproduzem hierarquias de excelência –, pressupõe também considerá- las como sujeitos que se posicionam de lugares sociais distintos com efeitos diversificados

para a construção de sentidos. Assim, do ponto de vista dos discursos das professoras, é preciso considerar quais são as condições para a sua produção e os fatores que os condicionam.

Isso significa que foi necessário considerar que a pesquisa envolve instituições escolares inseridas num determinado contexto social. Nesse sentido, é importante recorrer à noção de habitus, Bourdieu (1997), que é um sistema de disposições socialmente constituídas e, por isso, é uma “estrutura estruturada”. Mas é também “estruturante”, pois é através dessas disposições que os indivíduos são informados, mesmo que inconscientemente, dos princípios que organizam as práticas. O habitus seria formado por um sistema de disposições gerais que precisariam ser adaptadas pelo sujeito a cada conjuntura específica de ação. Pensando nesse sentido, o próprio ato de avaliar traz consigo uma série de princípios que organizam essa prática.

Conforme Bourdieu (1997), o modelo de produção e circulação linguística consiste em uma relação entre os habitus linguísticos (as disposições, socialmente modeladas) e os mercados linguísticos nos quais eles oferecem seus produtos. A análise do autor sobre a economia das trocas linguísticas oferece instrumentos para se compreenderem fenômenos relativos à produção, à distribuição e ao consumo da linguagem inscritos nas relações sociais, dentre elas, a escolar.

É necessário também entender quem é esse professor, esse sujeito participante da pesquisa, em que lugar ele se encontra como sujeito/assujeitado, Fairclough (2001). Assim, por meio da análise do discurso dos professores participantes da entrevista, deve-se ter em mente que a fala dos sujeitos da pesquisa não pode ser vista como um objeto a ser lido e/ou escutado com um fim em si mesmo, mas que deve ser entendido como uma realização concreta da atividade interacional; marcado pela interação entre pesquisado e pesquisador e que deve ser analisado dentro de um contexto sociocomunicativo a partir das marcas que a situação discursiva mostra.

Em síntese, a proposta desta pesquisa é fazer o exercício de análise para compreender o conteúdo das mensagens que as docentes apresentam. O que significa analisar as falas das docentes, registradas nas entrevistas, e o discurso pedagógico presente nas atividades e ações que se realizam nas práticas de avaliação e de alfabetização de seus alunos, sempre levando em conta as condições em que foram produzidos.

CAPÍTULO 3 - PROVINHA BRASIL: OS LIMITES E POSSIBILIDADES