Nesta brevíssima abordagem à temática das redes, não pode deixar de se abordar alguns marcos fundamentais. A Sociedade em Rede de Manuel Castells (1999) é um deles. Apesar de não estar focada especificamente no impacto na “governação em rede”, a obra contextualiza o “pano de fundo” de uma sociedade em profunda transformação, pelo efeito das redes e dos fluxos, que desenham uma nova Sociedade de Informação, com profundas transformações na economia, na sociedade e na cultura. Esta transformação
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cria uma tensão entre a rede e o “eu”. Apesar da relevância de Castells, não é no seu contributo teórico que nos ancoramos para o presente trabalho.
Da sociedade em rede decorre a tendência crescente na aposta em parcerias e redes para alcançar resultados através de políticas públicas, bem como para proceder à prestação de serviços (Klijn, 2008).
Um dos contributos para esta abordagem decorre da Teoria da Rede Social (Williams & Sullivan, 2007). O conceito de “rede social” envolve a relação entre indivíduos/organizações e o padrão das suas interações, a partilha com qualquer outra tipologia de rede, a existência de nós e de ligações que os interligam. Esta perspetiva “é caracterizada por um interesse em relações recorrentes que ligam atores que constituem a estrutura do sistema social” (Kenis & Oerlemans, 2008: 289). Assim, o conceito mais importante no modelo das redes sociais é a relação entre atores (indivíduos ou instituições), tornando vital esta dimensão.
As componentes de uma rede incluem não só “atores” (também designados por “nós” ou “vértices”) e “ligações” (ou “relações”), como já referido, mas também “díades”, “redes egocêntricas”, “propriedades posicionais nas redes” e “propriedades estruturais das redes” (ibidem: 290).
Na rede identificam-se “grupos” (clusters) de indivíduos próximos entre si, em que a maioria se conhece entre si e “pontes”, constituídas entre uma pessoa de um “grupo” em contacto com outra de outro “grupo”, o que assume particular relevância se estes estão distantes, tornando-os próximos. Acresce igualmente o conceito de “limiar” que quando é ultrapassado, desencadeia um processo de “cascata” de interações através da rede (Hartzog, 2004).
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A existência de uma rede pressupõe também a definição de uma fronteira, identificando o que está dentro e o que está fora da rede, os atores que a integram e os que lhe são estranhos. Esta realidade pode ser mais ou menos dinâmica, consoante as tipologias de redes, com uma fronteira que se redesenha permanentemente, com movimentos de expansão da rede, tornando atores não-locais em membros da rede ou perdendo nós da rede quando um ator se dissocia da rede.
A melhoria da coordenação interna e do fluxo de informação entre os membros da rede cria benefícios para a rede como um todo (Kenis & Oerlemans, 2008).
Vários autores deram contributos relevantes para esta teoria, entre os quais se destacam Stanley Milgram, com a sua abordagem em Small World Problem (Milgram, 1967: 61) e os “seis graus de separação”, bem como Mark Granovetter, com o contributo em torno da “força das ligações fracas” (Granovetter, 1973, 1983).
A correlação da organização em rede com a inovação é uma outra dimensão sublinhada na literatura, sendo correlacionada com a cooperação e a autonomia.
“A organização em rede pode constituir um espaço alargado para a inovação tecnológica e organizacional. Para que assim seja, é importante que funcione de acordo com a lógica da cooperação e autonomia ligadas a uma divisão equilibrada do trabalho entre as empresas que compõem a rede.” (Kovács, 2006: 48).
Na Teoria das Redes consideram-se, desde logo, os “jogos” e as “arenas” como conceitos estruturantes para analisar uma rede de políticas. Segundo Bueren et al (2003) “jogos de políticas” (policy games) são interações entre atores focados na influência da formulação do problema, das soluções e dos procedimentos tendo em vista uma abordagem de um problema específico. Já as “arenas” são espaços onde grupos específicos interagem sobre um assunto e fazem escolhas em aspetos específicos desse assunto. Os jogos de políticas
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podem ocorrer numa ou em mais arenas, com um mais “rounds” e com impasses e avanços. De igual forma, numa arena pode ocorrer um ou mais jogos de políticas. Finalmente, considera-se uma “rede de políticas” como a coleção de relações estáveis entre atores mutuamente dependentes que se desenvolve ao longo do tempo através de interações frequentes numa (ou em mais do que uma) arena.
Os problemas complexos, no campo da Teoria das Redes, são também analisados enquanto “jogos de políticas”, focando-se no grau de sucesso das partes interessadas na redução da incerteza própria da complexidade através da interação e da cooperação, bem como quais são os fatores contribuem ou bloqueiam esta dinâmica.
Os problemas complexos são gerados não só por lacunas no conhecimento científico (incerteza cognitiva), mas também por fatores estratégicos e institucionais (incerteza
estratégica e institucional) (Bueren et al, 2003). Como consequência destas incertezas, as decisões para enfrentar problemas complexos só podem ser tomadas adequadamente através do reforço e intensificação das interações entre as partes interessadas. É neste contexto que se dá particular atenção à perspetiva teórica das relações interorganizacionais (RIO) e às redes delas decorrentes. A sua abordagem neste capítulo é essencial, pois assume-se como um campo teórico prioritário para a presente tese. O campo de estudo das “relações interorganizacionais” (RIO), enquanto tal, é relativamente recente, com as primeiras referências no final dos anos 50 e coloca o seu foco nas propriedades e no padrão de relações entre organizações que prosseguem interesses comuns, mantendo, no entanto, a sua autonomia, a sua independência e outros interesses distintos para além dos que os unem (Cropper et al, 2008).
Em termos gerais, para compreensão de relações interorganizacionais é necessário ter em conta as dimensões e atributos das organizações, das suas relações (não-interativas ou
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interativas e, neste caso, o seu conteúdo, mecanismos de governação e estrutura), dos contextos em que se desenvolvem e dos processos de desenvolvimento. Numa outra perspetiva, as RIO podem ser estudadas a partir de cinco eixos: as suas regras e formalização; os seus objetivos e atividades; os seus níveis de operação; os recursos envolvidos e a ameaça à autonomia organizacional de cada parte (Rogers & Whetten, 1982).
As relações das organizações com o seu ambiente, e dado que este é constituído por outras organizações, é sinónimo de relações interorganizacionais e determina que as organizações não devam ser vistas isoladamente, mas como membros de um conjunto de organizações, que constituem campos organizacionais (Lomi et al, 2008).
RIO e a teoria da dependência de recursos
A sua aparição começa por surgir associado à Teoria da Dependência de Recursos, que via nas RIO forma de suprir necessidades, por procura desses recursos junto de outras organizações (Klijn, 2008) e como forma de gerir incerteza ambiental (Kenis & Oerlemans, 2008).
Neste enquadramento teórico, assume-se que “há uma competição entre organizações por recursos escassos, entre os quais os financeiros e os de estatuto. Por isso, o poder é importante e a motivação para interagir é assimétrica, com uma ou mais das organizações a induzir ou forçar outras a colaborar, sendo o processo caracterizado pela negociação e conflito” (Williams & Sullivan, 2007: 24).
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RIO e a Teoria dos Custos de Transação
As RIO podem ser olhadas a partir da “lente” da Teoria dos Custos de Transação (TCT), que procura explicar essas relações a partir da unidade básica de análise – a transação – que deve gerar ganhos, a partir de redes de interdependências. Estas só se organizam se os ganhos proporcionados pelas transações forem superiores ao seu custo, sendo que, em algumas ocasiões, os ganhos potenciais não se tornam reais, porque as partes não são capazes de organizar as transações a um custo suficientemente baixo, face ao ganho expectável (Hennart, 2008).
Como pressupostos da TCT estão dois atributos – a racionalidade limitada e o oportunismo – que dão origem aos custos de transação. O primeiro pressupõe que a natureza humana conduz a um comportamento racional, mas apenas de uma forma limitada e não absoluta, pois não consegue deter à priori toda a informação necessária para uma escolha plenamente racional. Já o oportunismo leva a que se escolha em função do interesse próprio em cada ocasião, independentemente da honestidade da decisão (Hennart, 2008: 342).
Dois autores deram contributos essenciais à TCT, nomeadamente Ronald Coese, considerado o criador desta corrente, com o seu artigo The Nature of the Firm, de 1937 e Olivier Williamson, este com a sua obra seminal Markets and Hierarchies: Analisys and
Antitrust Implications, publicada em 1975. Este último, estrutura o seu argumento em torno da ideia de que a produção capitalista conhece duas formas de organização – mercados e hierarquias – com a dimensão da empresa condicionada pela possibilidade de ter menores custos de produção e de transação (Pessali, 1999). Williamson (1975) propõe um terceiro modelo – ficando assim mercados, hierarquias e híbridos – vocacionado para níveis intermédios de incerteza.
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RIO e Teoria Crítica
A escola da Teoria Crítica, inspirada entre outros, por Marx, Horkheimer ou Habermas, tem uma visão mais cética quanto ao potencial das relações interorganizacionais, em particular no que se refere à colaboração. Ao contrário de outras visões, como a funcionalista, muito focada no contributo para maior eficácia e eficiência do que as RIO podem trazer, os críticos focam-se mais no reconhecimento da existência de interesses diferentes e no facto de que as relações de poder entre organizações não são simétricas, bem como procuram ter em conta a perspetiva de atores tendencialmente marginalizados (Lotia & Hardy, 2008).
A questão do poder, sobretudo nas suas assimetrias, está no centro da sua atenção sobre as RIO. Afirmam que é ingénuo considerar que a colaboração é sempre benéfica para todas as partes interessadas e que o que as motiva a colaborar não é o “bem maior”, mas sim os seus interesses particulares. Têm ainda a convicção de que a colaboração permite que algumas organizações adquiram maior poder e a partir daí possam influenciar os impactos a obter a partir do processo colaborativo, na defesa dos seus interesses. Ao invés, outras organizações podem ser submetidas, nesse contexto, ao poder dos mais fortes. Assim, a colaboração serviria para que algumas organizações protegessem os seus privilégios e promovessem os seus interesses, de uma forma mais ou menos oculta.
RIO e as perspetivas evolucionistas
Outra abordagem teórica decorre da perspetiva evolucionista, em que se atende à evolução das RIO como processos de mudança cumulativa das organizações relacionadas entre si, o que pressupõe uma particular atenção à dinâmica interorganizacional, em
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mudanças “cegas” ou com intencionalidade (Lomi et al, 2008). Assim, as teorias evolucionistas das organizações são, na sua essência, teorias da mudança.
Estas são algumas evidências da literatura quanto ao olhar sobre as relações interorganizacionais a partir de várias lentes teóricas, que dá em alguma medida a expressão da sua importância. Mas dentro das relações interorganizacionais importa particularmente para este trabalho a perspetiva da colaboração.
No centro das RIO está, indubitavelmente, um continuum relacional que vai da simples troca de informação até níveis mais desenvolvidos de colaboração. Dada a relevância deste tema, importa aprofundar o que se entende por colaboração.