As imagens de obras de arte de artistas consagrados são integradas à prática discursiva do enunciador.
Embora o texto da autora Ana Maria Falsarell, Professor? Professores..., da revista PRESENÇA Pedagógica, v. 11, n. 66, nov./dez. 2005, não se classifique dentro do tempo delimitado para o corpus escolhido, a cenografia construída no recorte, a seguir, apresenta paradoxos e contradições existentes no ofício de professor:
Ser professor é mais que ser um prático, uma vez que o professor não se vale somente do saber que lhe traz a experiência, mas também de saberes adquiridos na sua formação inicial e contínua. Nesse cenário, não são poucos os paradoxos que envolvem a profissão docente ou o ofício, se preferirmos. Pede-se ao professor que planeje cuidadosamente suas aulas, mas que saiba lidar com o imprevisto, improvisando. Que tenha criatividade, ou „jogo de cintura‟, mas que se adapte às „regras do jogo‟ Que utilize formas inovadoras para ensinar, mas que se conforme com classes lotadas e más condições de trabalho. Que pense no coletivo de sua classe, mas ensine a cada aluno de acordo com suas particularidades. (p.73) (grifos meus).
Pode-se depreender que o enunciador defende a formação intelectual do professor, a fim de que este não seja meramente um prático sem reflexão acerca de sua atividade de trabalho. Enuncia, também, faz uma crítica ao sistema educacional, que exige a formação continuada do professor no sentido de que deixe de ser meramente um prático para ser um professor que procura aprimoramento para a sua condição profissional, mas que se conforme com classes lotadas e as más condições de trabalho. Pela crítica do enunciador, é possível perceber os conflitos e paradoxos que envolvem a prática docente.
Para dar continuidade à reflexão sobre a imagem discursiva do professor, analiso um recorte do artigo O pedagogo e a formação de professores, produzido por Beatriz Nunes Santos e Silva44 e Edna Mariana Machado45, da revista PRESENÇA Pedagógica, v. 14, n. 83, set./out. 2008:
Por uma formação “na e para” a vida exige um comprometimento com a pesquisa, a filosofia, a literatura, a ética e a estética e com o respeito aos saberes do outro. Exige, também que ao se apropriar dos conteúdos básicos, o professor desenvolve a criticidade diante deles, uma vez que precisa levar seus alunos a se reconhecerem como sujeitos produtores de história (grifos meus).
A materialidade linguística, por meio dos itens lexicais: comprometimento, pesquisa e criticidade, revela a importância da pesquisa para a formação do professor e, também, de seus alunos, a fim de que
44 Beatriz Nunes Santos e Silva. Mestre em Educação (UNITRI). 45 Edna Mariana Machado. Doutora em Educação (UNITRI).
construam suas histórias de vida. O texto visual traz as marcas do discurso do enunciador, recorrentes em todos os textos da revista PRESENÇA Pedagógica, analisados neste trabalho.
Figura 16. Bailarino estudo para o Pano de Boca do Bailado Estranha Farândola, Matisse, 1937.
Ao analisar os textos visuais, o professor recorre ao seu conhecimento enciclopédico. Como um movimento da dança que evolui a cada ritmo, a cada melodia e se constrói permanentemente, o sentido da imagem do bailarino (de Matisse) sinaliza as imagens de professor. O modo de enunciação aponta para um discurso mais voltado a um profissional que lê e estuda com frequência. Um profissional, assim como o bailarino, que, além do constante movimento corporal-espacial, estuda e pesquisa, para melhor desenvolver sua atividade, sendo o seu bailado a busca ininterrupta pela formação adequada para que os passos necessários ao exercício da sua função sejam dados com mais segurança. Fiel ao seu propósito, o enunciador não recorre a itens lexicais que
possam ser relacionados à educação mercadológica e, também, não descarta a complexidade e as exigências do mundo contemporâneo, que esperam do professor um caráter crítico, comprometido com a pesquisa e com a produção da história.
Prosseguindo, apresento um recorte da seção Ponto de Vista, retirado do artigo O adulto, a criança e a educação, da revista PRESENÇA Pedagógica, maio/jun. 2008.
No campo da educação, sobretudo a partir de Emílio, de Rousseau, o pensamento pedagógico impôs a necessidade de colocar a criança no centro das atenções escolares. Assim, de forma sistemática, a partir do século XIX os tratados de pedagogia e de educação foram unânimes em afirmar que uma boa prática pedagógica é aquela que consegue se deslocar do professor para o aluno, do ensino para aprendizagem, do adulto para a criança. (grifos meus) (p. 77).
O texto é acompanhado da seguinte imagem:
O texto faz referências à obra de Jean Jacques Rousseau, “Emílio ou Da Educação”. Rousseau defende a ideia de que a educação tem um só objetivo: formar um homem livre, respeitando a liberdade da criança. Faz referências à educação centrada na aprendizagem da criança/aluno. A imagem que acompanha o texto verbal é de Georgia Totto O‟Keeffe, considerada uma das pintoras de maior sucesso no séc. XX. O‟Keeffe pintava flores imensas e dizia: “ninguém viu uma flor-de-verdade – tão pequena – não temos tempo - e ver toma tempo... Vou pintar as flores bem grandes e as pessoas ficarão surpresas ao passar o tempo olhando para elas”46. A obra de O‟Keeffe sugere pensar na educação da criança que necessita de tempo e cuidados especiais, no tempo da educação reflexiva, retratada por meio da semântica global da revista PRESENÇA Pedagógica. O interdiscurso que atravessa o trabalho de O‟Keeffe vem ao encontro do pensamento de Rousseau: “A humanidade tem seu lugar na ordem das coisas, e a infância tem o seu na ordem da vida humana: é preciso considerar o homem no homem e a criança na criança” (ROUSSEAU, 1999:69). A imagem que acompanha o texto verbal, intitulada No pátio I, apesar de ser uma arte não figurativa, lembra uma janela que permite olhar o desenvolvimento e a socialização da criança. Todos os detalhes que compõem o artigo, do texto verbal ao texto visual, refletem o ethos reflexivo do enunciador.
São muitos os textos que exploram conteúdos históricos na educação brasileira, possibilitando, ao professor, uma formação intelectual de forma permanente. A cenografia construída na cena de enunciação cristaliza o ethos histórico e intelectual do enunciador
O recorte, a seguir, de Didática Magna e sua influência na pedagogia contemporânea, artigo escrito por Ronaldo Aurélio Gimenes Garcia, no v. 14, n. 84, nov./dez. 2008, constrói uma cenografia no espaço discursivo entre o texto científico e a imagem histórica, o que, de certa maneira, vem confirmar o ethos do enunciador. Vejamos:
46 STRICKLAND, Carol. Arte comentada: da pré-história ao pós-moderno. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999. p.141.
Podemos dizer que a Didática Magna, escrita sob uma perspectiva barroca (tentando conciliar religião e ciência), no século XVII, possui elementos mais do que suficientes para justificá-la como uma obra precursora da pedagogia moderna. Ali estavam os elementos que marcaram e continuam a exercer uma forte influência sobre as pedagogias contemporâneas. Para isso basta um trabalho comparativo entre Comênio e as teorias construtivistas. Pensando no Brasil e na nossa realidade educacional, podemos verificar que a proposta básica da Didática Magna sequer foi consolidada entre nós, ou seja, “a arte de ensinar tudo a todos” ainda não conseguiu se impor no país como um todo. (grifos meus).
O enunciador discorre sobre a Didática Magna47 para compreender o processo de educação para todos. Quando diz que é preciso um trabalho comparativo entre Comênio e as teorias construtivistas, pressupõe o aluno como o centro da aprendizagem. As grandes preocupações das teorias construtivistas estão relacionadas a: como o aluno aprende e de que forma ele aprende.
Figura 18. Le lecteur de bréviaire, Le soir, Carl Spizweg, 1845-1850.
47 Didática Magna -
Escrita por João Amós Comênio, no século XVII. “A arte de ensinar tudo a todos”.
Embora a imagem retrate o século XIX e o texto verbal, o século XVII, há uma coesão entre o espaço-tempo e esses domínios semânticos, que não são do século XVII, nem da modernidade. As ideias de Comênio ainda influenciam o discurso educacional, o que o torna muito discutido e presente no coletivo do trabalho docente.
O enunciador da revista PRESENÇA Pedagógica tem-se caracterizado pelo tom do conhecimento reflexivo. O recorte intitulado Prática Pedagógica, da seção Dicionário Crítico, v. 14, n. 79, jan./fev. 2008, vem reafirmar o ethos intelectual e pesquisador do enunciador. O artigo está assinado por Giseli Luz48 e Verônica Gesser49.
A seguir, apresento um recorte do artigo:
É necessário que o professor investigue e reflita sobre a sua prática pedagógica, buscando intencionalmente modificá-la. Considerando a importância da prática reflexiva, é interessante retomar as idéias de Schön (1992), que apresenta o paradigma do professor reflexivo no qual a reflexão ocorre dentro da ação. Este professor é aquele que reflete sobre sua prática pedagógica, à luz da metodologia científica de pesquisa, reformulando esta prática e compartilhando os resultados obtidos. Assim, poderá contribuir para (re)significar práticas, espaços, tempos escolares, fatores fundamentais para romper com a linearidade e fragmentação dos currículos e, consequentemente, das práticas pedagógicas ainda em foco. (p.65) (grifos meus)
Observa-se que, no texto verbal, o enunciador usa modalizações deônticas, determinando condutas para o professor: é necessário que o professor investigue e reflita sobre sua prática pedagógica, buscando intencionalmente modificá-la; é interessante retomar as idéias de Schön (1992) que apresenta o paradigma do professor reflexivo no qual a reflexão ocorre dentro da ação. Com esses dizeres, o enunciador reforça o ethos da revista que, implicitamente, assume a educação voltada à investigação epistemológica e à reflexão do trabalho pedagógico do professor.
48 Giseli Luz - Mestre em Educação UNIVALI.
Figura 19. Ad Parnassum. Paul Klee, S/D
Na cena de enunciação, apresentada no recorte, é possível perceber que a cenografia.faz emergir, mais uma vez, o tom da reflexão e da pesquisa. Tanto a linguagem verbal quanto a linguagem visual refletem este tom que está encarnado no ethos do enunciador. “Em termos visuais, nossa percepção do conteúdo e da forma é simultânea. É preciso lidar com ambos como uma força única que transmite informação da mesma maneira” (DONDIS, 2007:134).
A construção intelectual do ethos do enunciador de PRESENÇA Pedagógica é assumida, explicitamente, por meio das ilustrações que acompanham os artigos editados em cada seção da revista.A imagem que acompanha o texto verbal é a Ad Parnassum, considerada a obra prima, no estilo pontilista, de Paul Klee (1932), artista considerado revolucionário para o seu tempo. Estudou hieróglifos e marcas em cavernas para inspirar os seus trabalhos. Acreditava na força primitiva, marcada nesses lugares. O texto visual, embora pareça não refletir o texto verbal, sinaliza um efeito de sentido entre o trabalho do pontilista e o trabalho do professor, ou seja, ambos precisam ser criativos, pacientes e detalhistas, no âmbito de sua profissão.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não é nada simples pensar em concluir um trabalho, considerando que somos inacabados, incompletos e inconclusos, relembrando as palavras do educador Paulo Freire. Mergulhados nessa incompletude, penso ser possível aqui sinalizar e estabelecer algumas considerações sobre os efeitos de sentido percebidos nos discursos analisados das revistas, com base nos fundamentos teóricos da Análise do Discurso, propostos por Maingueneau (1984/2005); nos princípios da Ergologia, que, cunhados por Yves Schwartz (2010), compreende o trabalho como atividade humana; e nos estudos sobre Educação, basicamente provenientes de Giroux (1997) e Gentili (2008). Com base nesses fundamentos, apresento o modo como foi perseguido o objetivo geral proposto a fim de depreender que imagem(s) de professor – e de suas atribuições profissionais – foi construída nas revistas especializadas em educação: ABCeducatio e PRESENÇA Pedagógica.
Hoje, o exercício da docência transformou-se, em muitos países, numa atividade profundamente precarizada. Atribui-se ao professor a culpa pelo fracasso da aprendizagem do aluno, pela evasão escolar, pela violência dentro e fora da escola e pela falta de oportunidade de trabalho para os egressos das universidades. (GENTILI, 2008). Exige-se dele um comportamento polivalente e multifuncional e, além disso, que ministre suas aulas seguindo os prescritos que lhe são impostos.
Essas exigências seguem normas estabelecidas pelo modelo de trabalho pautado pelo discurso neoliberal que, por sua vez, apóia-se nos valores do mercado e indica novos procedimentos de gestão para as instituições educacionais, sejam elas públicas ou privadas. A educação, que deveria ser um bem comum e direito de todos, passa a ser comandada pelas leis do mercado, que preveem um professor treinado para preparar os alunos para competirem no mercado nacional e internacional.
A avaliação dos resultados e do preparo desses alunos fica centrada nas competências e habilidades que os conteúdos oferecidos a eles possibilitam, a fim de promoverem sua rápida inserção no mercado de trabalho. Essa nova ordem tem causado impactos nos currículos das instituições escolares, do
ensino básico ao ensino superior e, consequentemente, como abordado no segundo capítulo, no trabalho do professor.
Com essas mudanças, o sistema educacional, pressionado pelos poderes econômico, político e social, exerce pressões no trabalho do professor, que já vem, de longa data, lutando contra as interferências desses poderes nas questões educacionais e a consequente proletarização da categoria.
Historicamente, a educação reproduz os modelos vigentes de cada época. Quando a educação estava sob o controle dos jesuítas, os ideais religiosos eram reproduzidos para as novas gerações; na época do comando militar, o Estado controlava os conteúdos e a forma de trabalho, reproduzindo os ideais militares e ditatoriais. Hoje em dia, os ideais estão voltados para o mundo capitalista, cuja ordem do dia é gerar novos conhecimentos que tragam resultados imediatos para serem consumidos rapidamente, como bens de consumo. Nesse sentido, o professor que escolhe a carreira para trabalhar pelo bem comum, o que requer um trabalho mais reflexivo e em longo prazo, adoece e perde o encantamento pela profissão. Por todas essas pressões e controles, o trabalho do professor não é valorizado e deixa de atrair pessoas para o ingresso na profissão. Esse é um fenômeno cada vez mais comum, haja vista o número escasso de candidatos aos cursos de licenciatura e formação de professores nas universidades brasileiras.
Há uma pergunta feita ao professor, seja de forma ingênua ou não, que sugere várias hipóteses: Você trabalha ou só dá aulas? Diante dela, que é recorrente e feita em tom pejorativo, surgiu meu interesse como pesquisadora em resgatar, afinal, a imagem discursiva de professor em revistas educacionais, considerando que as mídias cumprem seu papel de construir e consolidar essa nova ordem de educação, na qual a imagem do professor vem sendo submetida a grandes transformações.
Foram seguidos alguns passos, durante os capítulos desenvolvidos neste trabalho, até chegar-se ao objetivo proposto. No primeiro capítulo, apresentei a escolha e a caracterização do objeto de análise. A escolha ocorreu a partir do interesse em refletir sobre as mudanças que vêm ocorrendo na educação, trazidas pelos ventos do chamado novo capitalismo ou capitalismo flexível, agora sob a égide do neoliberalismo, quando traduzidas em duas expressivas revistas de circulação nacional, vistas como porta-vozes
de anseios e interesses dos profissionais da educação, principalmente no que se refere a uma nova constituição de materialidade da profissão e da subjetividade de seus profissionais..
Foram grandes os desafios para a delimitação dos corpora. O primeiro fator preponderante para as análises dos textos verbo-visuais foi distanciar meu olhar de professora, para que não expressasse pré-noções a respeito do objeto a ser pesquisado. O segundo, foi levantar as hipóteses para a escolha dos corpora, tarefa que teve início com a análise do Decálogo apresentado na revista de negócios, Vida Executiva (2007); posteriormente, foi elaborado um estudo comparativo com base no Decálogo do Bom Professor, extraído da revista ABCeducatio (2006). Esse trabalho foi apresentado, em forma de projeto piloto, no III Simpósio de Análise do Discurso da UFMG, em 2008, e serviu como ponto de partida em busca da resposta à a pergunta de pesquisa: Que imagens do que é “ser professor” sustentam as revistas ABCeducatio e PRESENÇA Pedagógica?
Para o corpus de referência, foram selecionadas as capas das revistas, os editoriais, a matéria central de capa e dois textos, um de cada revista, que apresentam as práticas discursivas do enunciador. Os demais textos, extraídos de outras seções das revistas, constituíram o que denominei corpus complementar. Revistas educacionais de circulação nacional e pesquisas acadêmicas relacionadas ao tema também formaram um acervo de consulta para este trabalho. Foram realizados estudos a respeito do histórico das revistas educacionais brasileiras e sua influência na formação profissional dos professores, em especial, da educação básica.
No segundo capítulo, fiz uma breve incursão na história do trabalho até os dias atuais, para compreender como a natureza humana se transforma a partir do processo laboral e como a própria natureza transforma o ser que trabalha. Os estudos sobre a ergologia, ciência que compreende o trabalho como atividade humana, sustentou as análises no sentido de depreender a atividade de trabalho do professor diante da mercantilização do sistema educacional. Encerrei o capítulo apresentando questões voltadas ao trabalho docente.
No terceiro capítulo, abordei os aspectos teóricos da Análise do Discurso, propostos por Maingueneau (1984/2005). Tais dispositivos teóricos
serviram de aportes para as análises dos textos verbais e imagéticos. Ainda, no terceiro capítulo, refleti sobre os princípios da semântica global e duas de suas dimensões: cenografia e ethos.
O capítulo quatro foi o momento crucial de “tecer” as análises, de “depurar” os dados. Os textos das revistas ABCeducatio e PRESENÇA Pedagógica, nos anos de 2006 a 2008, revelaram-se espaços discursivos privilegiados para investigar o modo de configuração dos discursos sobre a educação e a imagem do professor.
Os resultados das análises da revista ABCeducatio sinalizaram alguns efeitos de sentido cruciais para a depreensão de uma nova identidade do professor. Na 1ª capa, foi possível notar o culto a um subjetivismo fragmentado e a desvalorização do professor diante do conhecimento, reafirmndo o ethos pedagógico e pragmático do enunciador; a 2ª capa apresentou traços de imaturidade e infantilização do professor; na 3ª capa, o professor passa a ser apresentado como um profissional que não conhece, efetivamente, as dificuldades de seus alunos.
Os editoriais das revistas ABCeducatio analisadas foram construídos por meio do gênero carta aos leitores, uma estratégia que aproxima o enunciador de seu coenunciador, de maneira mais assertiva. Nesse sentido, sinalizaram o tom pedagógico e pragmático do ethos do enunciador. A cenografia construída nos editoriais revelou um discurso voltado à educação como um bem de consumo, sinalizado pela superfície linguística e pela escolha dos itens lexicais como: reciclagem, busca de superação, preparar para acertar, capacitados. De forma assertiva, a revista recorre a itens lexicais usados nos treinamentos de suas equipes de trabalho.
Nas análises de recortes dos artigos da revista ABCeducatio, foi possível perceber que as cenografias sinalizaram mundos éticos em que ora predominava o tom missionário da imagem de professor, ora apontavam para uma visão utilitarista e pragmática da educação. Os textos verbo-visuais retrataram um professor muitifuncional, polivalente, que precisa motivar os alunos e correr atrás da carreira, mas, ao mesmo tempo, subserviente, lembrando a imagem apresentada junto ao Decálogo do Bom Professor e a análise feita como projeto piloto em busca de entender as primeiras hipóteses.
A cenografia que emerge do corpus de referência da revista ABCeducatio apresenta um caráter didático; os textos são construídos como se fossem receitas para melhorar o ensino e a qualidade do ensino
Um exemplo de ethos pragmático e utilitarista do enunciador caracteriza- se na análise do último texto do corpus de referência, intitulado O que é qualidade total na educação. A depreciação do profissional professor aparece quando o articulista do texto aponta o professor como um “facilitador da aprendizagem”, “um colaborador”, que cria um ambiente favorável para que o aluno aprenda e garanta a sobrevivência e o crescimento da instituição. Na materialidade linguística, foi possível notar indícios de uma educação mercadológica voltada ao crescimento da organização.
Ainda, no corpus complementar, foi possível perceber, no texto Representações do Ofício Docente para o século XXI, que o articulista fala de uma escola de qualidade, voltada ao bem comum, e contesta, de certa forma, o