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Last, management broadly concurs with the recommendations, with some nu- nu-ances and clarifications

Na perspectiva da Análise do Discurso, o ethos não é uma estratégia de análise de persuasão, mas sim parte constitutiva da cena de enunciação. Tem o mesmo estatuto do vocabulário ou dos modos de difusão implicados pelo modo de existência do enunciado Maingueneau (2005) esclarece suas duas razões para recorrer à noção de ethos: (i) seu laço crucial com a reflexividade enunciativa; (ii) a relação entre corpo e discurso que ela implica. O ethos mantém a reflexividade enunciativa e também permite articular corpo e discurso em uma dimensão diferente da oposição empírica entre oral e escrito.

É insuficiente ver a instância subjetiva que se manifesta por meio do discurso apenas como estatuto ou papel. Ela se manifesta também como “voz” e, além disso, como “corpo enunciante”, historicamente especificado e inscrito em uma situação que sua enunciação ao mesmo tempo pressupõe e valida progressivamente (MAINGUENEAU, 2005:70).

Maingueneau começou a considerar a noção de ethos em 1980. Esta envolve a enunciação e permite articular o discurso para além do empírico, em um processo de descrição das modalidades, dos usos da linguagem e da interação sociodiscursiva. Seu interesse, hoje, é crescente em relação ao ethos ligado às mídias digitais, audiovisuais e impressas.

O autor, ao explicitar a noção de ethos, recorre à retórica antiga, precisamente ao conceito de ethos advindo da retórica aristotélica, relacionado à oralidade em assembléias e sessões solenes cujo orador constrói uma imagem de si capaz de persuadir e convencer o auditório por meio de seus argumentos e de sua maneira de dizer. Por meio da arte do bem falar, o locutor mobiliza a afetividade do público. A prova do ethos aristotélico é causar boa

impressão e apresentar uma imagem de si capaz de convencer o auditório, de maneira a ser digno de fé, de inteira confiança. Para apresentar a imagem positiva de si mesmo, o orador pode mobilizar: a prudência (phronesis), a virtude (areté) e a benevolência (eunoia).

Hoje, a retórica não repercute em uma única disciplina. Por esse motivo, a noção de ethos, por mais simples que possa parecer, gera múltiplos desdobramentos. “[...] O que era uma disciplina única, a retórica, é hoje dividida em disciplinas teóricas e práticas que têm interesses distintos e captam o ethos em diversas facetas” (MAINGUENEAU, 2006a:60).

Não se limitando à Retórica Aristotélica, Maingueneau apresenta sua concepção pessoal sobre ethos; concorda com algumas ideias, sem prejulgar a forma pela qual elas poderão, eventualmente, ser exploradas:

 O ethos é uma noção discursiva; ele se constitui por meio do discurso, não é uma “imagem” do locutor exterior à sua fala;  O ethos é fundamentalmente um processo interativo de

influência sobre o outro;

 É uma noção fundamentalmente híbrida (sociodiscursiva), um comportamento socialmente avaliado que não pode ser apreendido de fora de uma situação de comunicação precisa, ela própria integrada a uma conjuntura sócio- histórica determinada (MAINGUENEAU, 2006a:60).

O ethos é sempre captado na cena de enunciação e não pode ser apreendido fora dela. Por meio do ethos, o coenunciador está convocado a um lugar na cena de enunciação. A perspectiva na qual o autor investe sinaliza que a noção de ethos vai além da argumentação do enunciador; é uma experiência sensível do discurso, ou seja, mobiliza a afetividade do coenunciador. Por exemplo: um professor que queira passar uma imagem de bonzinho, pode parecer aos seus alunos que não é sério naquilo que faz; o político que é muito simpático para o povo pode passar a imagem de demagogo. O ethos é construído pelo coenunciador, como noção discursiva que se constrói pelo discurso. “Isso posto, a concepção de ethos que proponho se inscreve num quadro de análise do discurso. Mesmo que esse quadro seja diferente do da

retórica antiga, parece que não chega a ser infiel às linhas de força da concepção aristotélica” (MAINGUENEAU, 2008:17).

Maingueneau optou por uma concepção mais encarnada do ethos, que diz respeito não somente à dimensão verbal, mas também ao conjunto de determinações físicas e psíquicas. Atribui ao enunciador um caráter e uma corporalidade, que variam de acordo com os gêneros textuais. Caráter corresponde aos traços psicológicos e corporalidade está associada ao aspecto físico. O coenunciador identifica o enunciador apoiando-se num conjunto de representações sociais, implicando um mundo ético, o que indica certo número de situações estereotípicas associadas a comportamentos. A publicidade contemporânea apoia-se maciçamente no mundo dos executivos, dos esnobes, das celebridades etc. Nessa direção, o ethos se constrói na interação entre enunciador e coenunciador, em situação de enunciação. Maingueneau (2008) denomina incorporação à maneira pela qual o coenunciador se apropria do ethos do fiador23, sob três registros:

 A enunciação da obra confere uma “corporalidade” ao fiador que lhe dá corpo;

 O co-enunciador incorpora, assimila o conjunto de esquemas que correspondem a uma maneira específica de se remeter ao mundo habitando seu próprio corpo;

 Essas duas primeiras incorporações permitem a constituição de um corpo da comunidade imaginária dos que aderem ao mesmo discurso (MAINGUENEAU, 2008:18).

A incorporação, segundo o autor, não é um processo linear e uniforme; em função dos gêneros e dos tipos de discurso, ela se ajusta. Nesse sentido, o ethos de um texto escrito não implica, necessariamente, uma relação direta com um fiador que não é sempre explicitado, mas o texto o mostra pela maneira de dizer.

A representação do ethos do fiador será legitimada pela cena de enunciação e não por estratégias de oratória previamente combinadas, portanto não há uma relação direta com um fiador encarnado e socialmente

23 Fiador - construído pelo destinatário a partir de índices liberados na enunciação (MAINGUENEAU, 2008:18).

determinado. A incorporação do coenunciador vai além de uma simples identificação com o fiador, ou seja, o mundo ético do qual o fiador participa é que dá acesso à incorporação do coenunciador.

O coenunciador constrói a representação social do fiador, a partir dos indícios textuais que sinalizam um caráter e uma corporalidade. Todo texto escrito tem sua oralidade representada por cenas validadas ou não socialmente.

Não se pode entender o ethos como na retórica tradicional, que o ligava à eloquência, como um meio de persuadir o outro. É preciso alargar o seu alcance para textos orais e escritos. Na Análise do Discurso, ele é constitutivo da cena de enunciação com o mesmo estatuto do vocabulário, do tema, do modo de coesão e do modo de enunciação. Este é um ponto crucial, porque o público constrói as representações do ethos, antes mesmo que ele fale. “O ethos recobre não só a dimensão verbal, mas também o conjunto de determinações físicas e psíquicas ligadas ao “fiador” pelas representações coletivas e estereotípicas” (MAINGUENEAU, 2008:18).

Nessa perspectiva, o ethos não é persuasivo, mas sim articula entre o verbal e o não-verbal, provocando efeitos multisensoriais nos coenunciadores. A noção de ethos remete a fatores muito diferentes: o ethos visado não é necessariamente o ethos produzido. O discursivo é construído na enunciação, porém, é preciso entender que o coenunciador constrói previamente o ethos do enunciador, antes que ele se manifeste, o que Maingueneau chama de ethos pré-discursivo.

O público constrói uma imagem discursiva do enunciador pelo posicionamento ideológico. Ou seja, mesmo não sabendo quem é o enunciador, o coenunciador pode tirar conclusões a respeito de seu ethos, levando em conta o gênero do discurso que irá enunciar ou o seu posicionamento ideológico.O ethos se elabora, assim, por meio de uma percepção complexa, mobilizadora da afetividade do intérprete, que tira suas informações do material linguístico e do ambiente (MAINGUENEAU, 2008).

Segundo o autor, o ethos de um discurso integra e mobiliza alguns fatores: o ethos pré-discursivo ou prévio (representação construída antes que o enunciador se manifeste), o ethos mostrado e o ethos dito, inscritos nos extremos de uma linha contínua. Não há como definir uma fronteira entre o

ethos dito sugerido pela fala ou pela escrita e o ethos mostrado pela enunciação.

Se cada conjuntura histórica se caracteriza por um regime específico dos ethé, a leitura de numerosos textos que não pertencem a nossa esfera cultural (no tempo e no espaço) é frequentemente dificultada não por lacunas graves em nosso saber enciclopédico, mas pela perda dos ethé que sustentam tacitamente sua enunciação (MAINGUENEAU, 2006a:69).

Cada ethos tem sua especificidade, de acordo com a conjuntura histórica, e essa especificidade remete ao mundo ético que o enunciador faz surgir por meio do discurso. Não se trata de uma interpretação, de uma simples decodificação do processo verbal, mas remete à adesão do co-enunciador, que é convocado a um lugar inscrito na cena de enunciação.

É impossível traçar uma linha entre o ethos dito e o ethos mostrado. Eles se inscrevem nos extremos de uma linha contínua, uma vez que é impossível definir o que é dito e o que é mostrado pela enunciação. O ethos dito, além da figura do fiador e do antifiador, pode também incidir sobre um conjunto de uma cena de fala, apresentada como um modelo ou um antimodelo da cena do discurso (MAINGUENEAU, 2005:80).

O ethos mostrado é construído pelo coenunciador a partir das escolhas lexicais traçadas pelo enunciador. O ethos não se refere apenas à dimensão verbal, mas implica também um conjunto de representações físicas e de estereótipos ligados ao “fiador”, o que confere a essa figura um mundo ético. No caso desta pesquisa, falamos em mundo ético dos professores. “[...] Esse “mundo ético”, ativado por meio da leitura, é um estereótipo cultural que subsume um certo número de situações estereotípicas associadas a comportamentos”(MAINGUENEAU, 2006a:62).

Na obra Discurso Literário (2006b), Maingueneau refere-se ao ethos como um articulador de grande polivalência. Ou seja, não separa o texto e o corpo, bem como estabelece uma ponte entre eles e o mundo que os fez surgir. “[...] Encontramos aqui o paradoxo de toda cenografia: o fiador que sustenta a enunciação deve a legitimar por meio de seu próprio enunciado seu modo de dizer” (MAINGUENEAU, 2006b:278).

O autor recorre ao conceito de habitus, cunhado pelo sociólogo Pierre Bourdieu, dizendo que o ethos parece indissociável de uma “arte de viver”, de uma “maneira global de agir”. De acordo com Maingueneau, as tomadas de posição no campo literário efetuam-se por meio da escolha de um gênero e da instauração de uma cena de enunciação (uma cenografia). Essa última permite a articulação entre o campo literário (o mundo) e o discurso (a obra): A cenografia constitui, de fato, uma insubstituível articulação entre a obra considerada objeto estético, de um lado, e o status do escritor, os lugares, os momentos da escrita, do outro.

Na sociedade, coexistem certo número de habitus ligados às práticas discursivas de lugares os mais variados. É por eles que as obras instauram suas cenografias. O autor exemplifica, citando, entre outros, o caso das Fábulas de La Fontaine ou o dos Contos de Voltaire, cujo vínculo com a mundanidade é conhecido.

O ethos não é um meio de persuasão, não é mera decodificação e interpretação. É um processo geral de adesão dos sujeitos a um discurso. Ele é parte constitutiva da enunciação e os enunciados suscitam a adesão dos coenunciadores pela maneira de dizer e, também, pela maneira de ser.

CAPÍTULO 4: ANÁLISE DAS UNIDADES VERBAIS E