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Overall Conclusions and Next Steps

As capas são gêneros discursivos que apresentam domínios de linguagem verbal e não verbal. Anunciam e sinalizam matérias veiculadas em cada edição, selecionadas pelos enunciadores de modo a atrair os coenunciadores. Pela análise das capas, submetidas à mesma grade semântica da revista como um todo, pode-se depreender o conteúdo, o estilo e a composição da mesma.

4.1.1 Na revista ABCeducatio

A chamada central da capa apresenta uma aposta: PÓS-GRADUAÇÃO A APOSTA CERTA. O texto visual da capa da revista ABCeducatio n. 71, 2008, traz a figura masculina de um professor careca, usando jaleco ou guarda-pó, calça jeans e tênis, tentando escalar uma pilha de livros velhos; ao seu lado, uma caneta aberta.

Figura 3. ABCeducatio. n. 71, 2008.

O texto visual suscita algumas reflexões: a primeira diz respeito à desproporção do tamanho da figura do professor em relação à pilha de livros que está escalando, o que parece traduzir seu despreparo, no sentido de superá-la: o conhecimento é muito maior do que ele, parecendo inatingível. Os livros são velhos e a caneta também é antiga, sugerindo que o professor ainda busca por conhecimentos ultrapassados, na medida em que enfrenta novos desafios com armas antigas.

Podemos fazer uma segunda reflexão: o professor está de costas; não é possível ver seu rosto, o que indica falta de identidade profissional. Finalmente, ele é colocado sozinho em sua caminhada rumo ao conhecimento, o que reflete na busca individual que ele empreende para melhorar seu trabalho, uma

vez que a culpa pelos problemas educacionais recairá sobre ele e não sobre o sistema econômico, político e social do país. Trata-se de um modelo centrado no indivíduo, com poucoou quase nenhum sentido de coletivo. Nesse modelo, a competitividade é acirrada e os vínculos não são fortes nem permanentes.

A chamada central da revista, PÓS-GRADUAÇÃO: UMA APOSTA CERTA, grafada em letras maiúsculas – PÓS-GRADUAÇÃO em negrito e UMA APOSTA CERTA em vermelho –, indica o movimento de qualificação do professor, uma das exigências do mercado atual. No entanto, quando o enunciador grafa a palavra aposta, sinaliza outro efeito de sentido. A palavra aposta pode significar um palpite, uma incerteza, um jogo, cujo resultado não se conhece e não se pode prever. Se a revista quer valorizar a pós-graduação – que exige empenho pessoal, disciplina e dedicação –, é paradoxal a afirmação de que o estudo continuado e especializado seria uma aposta “certa”. Captando o imaginário do coenunciador, o enunciador, na chamada principal, usa estratégias discursivas frente aos apelos de um valor presente na sociedade atual, o status da profissão do professor, e reafirma seu ethos pragmático e funcional. Há, ainda, na capa, chamadas para a leitura dos artigos com formas diferenciadas de escrita, para mobilizar a atenção do destinatário:

ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL, O QUE EU VOU SER QUANDO EU CRESCER?

MATEMÁTICA: O BRASIL ESTÁ ENTRE OS PIORES DO MUNDO

SAIBA COMO CONTORNAR: A INDISCIPLINA NA ESCOLA.

As frases em negrito refletem os problemas atuais da educação brasileira. O interdiscurso que atravessa o enunciado revela que o professor precisa dar conta da indisciplina da escola, além de colocar o Brasil no ranking dos melhores do mundo em Matemática e de orientar o aluno para sua vocação profissional. O discurso construído pela cenografia da capa dessa edição engendra um ethos pragmático que sugere uma imagem discursiva de professor polivalente e multifuncional.

Existem várias representações culturais do professor que são cristalizadas coletivamente. Podemos perceber, nas práticas sociais e

semiológicas, formas estereotipadas da figura do professor. A capa da edição, a seguir, apresenta uma delas. Vejamos:

Figura 4. ABCeducatio. n. 59, 2006.

O texto visual, estereotipicamente construído, traz a figura feminina de uma criança/menina, usando óculos pretos, capelo e um diploma na mão. A cenografia depreendida da capa, representada metonimicamente (a parte pelo todo) pelo diploma (produto), é de valorização do produto da educação, mais do que de seu processo. Ao mesmo tempo, confere à educação um traço de infantilidade e imaturidade. Expõe, também, uma representação histórica do professor como sendo alguém do gênero feminino, considerando-se a associação que o imaginário constrói da profissão como sendo conduzida por mulheres. A capa sugere, ainda, que se pense na “professorinha”, que deve ser maternal e pouco profissional, aspecto negativo da profissão docente.

Por outro lado, a imagem da criança, alegre e jovial, parece articular-se a um modelo de educação neoliberal, que preconiza o novo. O título verbal central da capa, A carreira profissional do educador, escrito em letras minúsculas, em cores marrom e amarelo, completa a cenografia e aponta para um ethos jovem, alegre, motivador.

A capa apresenta, ainda, três chamadas para a leitura de artigos:

1ª chamada: O artigo de Max Haetinger (2007)24: As dimensões da aprendizagem, sobre a perspectiva qualitativa e não quantitativa do ato de aprender. Ou seja, de que modo podemos favorecer a aprendizagem e quais ações pedagógicas o professor deve adotar para facilitar a construção do conhecimento. A discussão sobre a aprendizagem é inerente à atividade do trabalho do professor. “[...] Aprender é uma aventura criadora, é construir e reconstruir, constatar para mudar, o que não se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito” (FREIRE, 1996:69).

2ª chamada: O artigo de Evelise Portilho25: Como mudar para aprender e como aprender para mudar. A autora reflete sobre as estratégias de aprendizagem e inscreve o professor como um condutor do processo de aprendizagem do aluno.

3ª chamada: O artigo de Vicente Martins26, Como avaliar os alunos com baixo rendimento escolar, baseado na Lei de Diretrizes e Bases 9394/96 (LDB)27, reflete sobre os impasses que ocorrem durante a avaliação da aprendizagem de alunos com baixo rendimento escolar.

A cenografia, construída pelos elementos visuais e verbais da capa, sinaliza um mundo ético voltado ao pensamento neoliberal da educação, que preconiza que os desafios impostos ao professor, relacionados à sua carreira e à aprendizagem dos alunos, devem ser eficazmente enfrentados e resolvidos. O professor vive a tensão entre a educação reflexiva e a educação

24Max Haetinger

– Mestre em Educação. Psicopedagogo e autor de vários livros. 25 Evelise Portilho - Doutora em Educação pela Universidad Complutense de Madrid. 26 Vicente Martins- Mestre em Educação, Arte e História da Cultura.

mercadológica. Embora Schwartz (2010) não tenha observado o trabalho do professor, é possível pensar na tensão no trabalho, denominada por ele de dramáticas do uso de si, o que implica na dialética e no olhar que se lança à atividade do trabalho. É uma espécie de drama vivido pelo trabalhador ao fazer escolhas, bem como a tensão do seu engajamento em um mundo humano atravessado de valores que são desafios permanentes.

Essa tensão entre esses dois modos de pensar a educação, na qual se encontram os docentes atualmente, parece, de algum modo, não mais existir na terceira capa examinada.

O enunciador da revista ABCeducatio, nesta capa, faz um apelo à formação do professor e às dificuldades de aprendizagem dos alunos.

Figura 5. ABCeducatio. n. 56, maio 2006.

A chamada da capa, Por que meu aluno não aprende?, faz referência ao artigo central da revista, assinado pela psicopedagoga Márcia C. B. Moraes Toledo, que traz um apelo aos professores para que fiquem atentos aos sintomas que crianças e adolescentes com problemas de aprendizagem apresentam, a fim de encaminhá-los a especialistas da área.

Do ponto de vista de sua produção gráfica, a capa chama a atenção pelo título: traz um enunciado em forma de pergunta e sobre ele incide um processo de negação. O item lexical NÃO e o ponto de interrogação (?) foram grafados em caixa altos, com letras grandes, em vermelho, bem destacados. Se considerarmos que os recursos gráficos são elementos constitutivos do sentido, vemos que, ao reforçar tais elementos, potencializou-se o efeito do prejuízo cognitivo que as dificuldades de aprendizagem podem ocasionar em crianças e adolescentes em idade escolar. A modalização em 1ª pessoa (meu aluno) reforça o fato de a revista considerar-se porta-voz dos professores, “falando por eles”, pretensamente imbuída do compromisso de disseminar os obstáculos que estes encontram no cumprimento de suas tarefas e oferecer- lhes algumas soluções para seus problemas.

Ducrot (1987/1988) trata da negação como um fenômeno de polifonia, no qual há dois enunciadores: um enunciador positivo que afirma um dado ponto de vista, e um enunciador negativo que contesta esse ponto de vista. Para ele, a negação metalinguística opõe dois locutores, contradizendo uma fala anterior, enquanto que a negação polêmica, relativa à maior parte dos enunciados negativos, opõe dois enunciadores com pontos de vista antagônicos. Assim, em “Por que meu aluno não aprende?”, há dois enunciadores: E1, que afirma um enunciado positivo: “Meu aluno não aprende”, e E2, que refuta este ponto de vista, fornecendo o enunciado negativo: “Meu aluno aprende”. Quanto ao locutor, este se identifica com o enunciador negativo E2 e rejeita o ponto de vista do enunciador positivo E1.

Chamo “metalinguística” uma negação que contradiz os próprios termos de uma fala efetiva à qual se opõe. Direi que o enunciado negativo responsabiliza, então, um locutor que enunciou seu positivo correspondente (DUCROT, 1987:203- 204).

Nesse sentido, o enunciado, em forma de pergunta sobre a qual incide a negação, admite dois pontos de vista assumidos por dois enunciadores. O enunciador 1, representando o professor que não sabe o que fazer diante de alunos que não aprendem; e o enunciador 2, rejeitando o ponto de vista do enunciador 1, representando aquele que, por ser bem informado e realmente conhecedor da problemática, sabe como lidar com a situação.

A imagem desfocada que acompanha o texto verbal - uma criança dormindo, envolta num halo de luz que parece sinalizar um ambiente etéreo - compõe uma representação do processo educacional no qual, pela ausência de professores bem-preparados, são comuns os casos de desmotivação e defasagem cognitiva dos alunos. Nesse sentido, a imagem interpela o professor a promover mudanças que possam retirar a criança desse grau de apatia, por meio de metodologias mais modernas e eficientes.

Em segundo plano, vê-se a imagem da educadora brasileira, professora Terezinha Azeredo Rios28, que enfatiza, na seção Entrevista: a docência não é um sacerdócio (grifos meus). Embora, no senso comum, a palavra sacerdócio remeta à ideia de doação, caridade, sabe-se que o exercício do sacerdócio é também intelectual e considerado um trabalho como outro qualquer, com remuneração, inclusive. Nesse sentido, o enunciado negativo da educadora Terezinha Azeredo Rios, a docência não é sacerdócio, refere-se, assim como no caso anterior, a uma outra posição que confirmaria a docência como um sacerdócio bastante comum nos dias de hoje. Grande parte da sociedade defende a idéia de que a profissão de professor deveria ser considerada um dom, contrariamente a um segundo posicionamento que a vê como resultado da luta histórica dos professores pelo reconhecimento do seu ofício, pela dignidade dos salários e por melhores condições de trabalho. Há, portanto, nessa negação, dois pontos de vista: um que diz que a docência não pode ser somente doação (sacerdócio) e outro, que a profissão docente ainda é considerada um sacerdócio.

O sociólogo Giroux (1997) afirma que os professores devem ser vistos como intelectuais transformadores, que precisam desenvolver um trabalho capaz de unir a crítica com a possibilidade, a fim de promover mudanças, manifestando-se contra as injustiças econômicas, políticas e sociais, dentro e fora da escola.

A categoria de intelectual é útil de diversas maneiras. Primeiramente, ela oferece uma base teórica para examinar-se a atividade docente como forma de trabalho intelectual, em contraste com sua definição em termos puramente

28 Terezinha Azeredo Rios: Docente da cadeira de Introdução ao Pensamento Teológico do Departamento de Ciências da Religião da PUC-SP e do Mestrado em Educação do Centro Universitário Nove de Julho.

instrumentais ou técnicos. Em segundo lugar, ela esclarece os tipos de condições ideológicas e práticas necessárias para que os professores funcionem como intelectuais. Em terceiro lugar, ela ajuda a esclarecer o papel que os professores desempenham na produção e legitimação dos interesses políticos, econômicos e sociais variados através das pedagogias por eles endossadas e utilizadas (GIROUX,1997:161).

Nesse sentido, o enunciado da professora Terezinha Rios vai ao encontro do pensamento de Giroux, ao apontar que a docência não é sacerdócio, mas sim um trabalho transformador, que se propõe a educar estudantes para serem cidadãos críticos. Trata-se de um trabalho difícil e complexo, porque há um recriar constante. A abordagem ergológica do trabalho nos coloca em uma história que se recria constantemente por meio de debates de valores e do uso de si. “Meu trabalho como „uso‟ é atravessado pelos outros. Reciprocamente, a maneira pela qual eu trabalho diz qualquer coisa da sociedade na qual eu quero viver” (SCHWARTZ, 2010:192).

Na mesma capa, com letras menores, há duas chamadas sobre artigos, nas seções: Comportamento e Ponto-de-Vista. Na seção Comportamento, a chamada é para Os conflitos de adolescer na idade da mídia. Embora o título da seção esteja em letras maiúsculas, na cor vermelha, o tamanho é menor do que o da chamada de matéria principal, o que mostra ser este um tema secundário, que ocupa as páginas 28 a 30, na edição da revista.

Na seção Ponto-de-Vista, o tema é o resgate do “ser mestre”. O título dessa seção, como o da anterior, também está grafado em letras maiúsculas, na cor vermelha, com tamanho menor do que o da chamada de matéria principal, apontando para o texto de última página (48), na referida edição.

A cenografia construída pela capa desta edição sinaliza a imagem discursiva do professor que precisa ser um bom mestre, resolver os problemas da aprendizagem e os conflitos pessoais dos alunos. Ou seja, ele é responsabilizado pelas mazelas da educação e pela falta de interesse do aluno.

4.1.2 Na revista PRESENÇA Pedagógica

A prática discursiva da revista PRESENÇA Pedagógica se entrelaça a uma prática intersemiótica voltada às obras de artistas plásticos consagrados, haja vista a escolha das imagens que compõem as cenografias das capas de suas revistas. O destaque da capa, a seguir, traz a imagem de uma obra de Johannes Vermeer29, A moça com brinco de pérola. Essa obra é considerada como a “Mona Lisa holandesa”. O autor era considerado um mestre na cor e na luz de suas composições; enquanto os outros artistas da época usavam cinza e verde, suas cores eram mais puras e vívidas.

Figura 6. PRESENÇA Pedagógica. v. 14, n. 79, jan./fev. 2008.

29 VERMEER, Johannes. 1665-1667. A moça com brinco de pérola. Óleo sobre tela. (46,5 x 40 cm). Mauritshuis, Haia.

Todo o enunciado, seja ele de natureza textual ou visual, está submetido a um discurso que de certa forma o legitima. Os elementos paratextuais apresentados nas capas das revistas, além de ilustrar, legitimam ou não o ethos discursivo do enunciador. Numa prática intersemiótica é preciso considerar que “os enunciados estão submetidos por sua prática discursiva a certo número de condições que definem sua legitimidade” (MAINGUENEAU, 2005:148).

Nessa capa, o ethos do enunciador da revista é mostrado pelo elemento pictórico que compõe a cenografia, pela chamada central, Ler os clássicos na escola, e pela chamada localizada no canto à esquerda da capa, convidando à leitura da entrevista com Marcos Bagno30, intitulada Preconceito Linguístico.

O discurso, por meio do texto visual, produz efeitos de sentido diferentes, de acordo com a enciclopédia interior do coenunciador. Aquele coenunciador que conhece a obra Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, fará uma correspondência; o que não conhece achará que a obra de Veermer, A moça com o brinco de pérola, não faz alusão à obra de Leonardo da Vinci.

O texto verbal Ler os clássicos na escola não contém marcas de pessoa, nem marcas de tempo; traz somente marcas de lugar, ou seja, na escola. Não expressa necessariamente uma injunção na forma positiva, tampouco na forma negativa. Ele pode ser interpretado como um convite, uma ordem ou um aconselhamento.

Desse modo ,a cenografia da capa da revista faz emergir um fiador , uma instância subjetiva que é voltada ao estudo da história e da arte. Toda obra de arte não se oferece ao leitor, mas exige dele concentração, atenção, capacidade de raciocínio e letramento. Corresponde a um preparo intelectual que a educação deveria propiciar ao aluno no sentido de incitar a reflexão e a capacidade de discernimento sobre o mundo.

Na próxima capa da PRESENÇA Pedagógica pode-se notar certa similaridade com a capa anterior.

30 Marcos Bagno: Mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Federal de Pernambuco e doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo.

Figura 7. PRESENÇA Pedagógica. v. 14, n. 80, mar./abr. 2008.

O texto visual traz a obra de Pablo Picasso31, A menina do pombo, pintada em 1901, durante o período em que o pintor morou em Paris. Ele provocou a maior revolução da arte do século XX: a invenção do Cubismo. “O texto pictórico, por mais solitário que pareça, pelo simples fato de pertencer à prática discursiva, supõe tacitamente o conjunto virtual daqueles com os quais ele pode legitimamente ser associado” (MAINGENEAU, 2002:149). A escolha da imagem não é mera ilustração. Isso quer dizer que a obra escolhida reforça as restrições semânticas da revista e o ethos do enunciador, sinalizando a imagem discursiva do professor voltado a uma educação que valoriza a reflexão e o tempo de aprender. De forma assertiva, o texto verbal vem assinado pela artista Ana Mae Barbosa32, Arte na Educação não é mero exercício escolar.

31 PICASSO, Pablo. 1901. A menina do pombo. Óleo sobre tela.

32 Ana Mae Barbosa: um dos nomes mais importantes e respeitados em arte-educação. Percorre o Brasil e o mundo dando palestras e cursos para a formação de professores.

Pela leitura dessa capa, é possível depreender que, para o mundo ético do enunciador, a arte deve ser conteúdo obrigatório nas escolas e não como mais uma disciplina ou como um mero exercício escolar. O enunciador implicitamente convoca o coenunciador para estudar a história da arte.

A seguir, PRESENÇA Pedagógica apresenta na capa a imagem da obra Doçura Oriental, de Paul Klee33, que pertence ao grupo de expressionistas liderados por Wassily Kandinsky.

Figura 8. PRESENÇA Pedagógica. v. 14, n. 81, maio/jun. 2008.

As obras de Klee imitam as artes produzidas pela imaginação e sonhos das crianças, reduzindo as formas a recortes diretos, cheios de ambiguidades. Ele acreditava que a racionalidade interferia, de forma destrutiva, na criação. Sua obra “Doçura Oriental” retrata o tema principal da revista, a alfabetização,

33 KLEE, Paul. 1938. Doçura oriental. Óleo sobre tela.

caracterizada na capa como a Reinvenção da Alfabetização. Traços infantis revelam um tom primitivo, de início da alfabetização, período de descobertas maravilhosas pelas crianças.

O expressionismo está estreitamente ligado ao estilo primitivo, é comum que o detalhe exagerado do primitivo seja parte de uma tendência para a representacionalidade, uma tentativa de fazer com que as coisas se pareçam reais, tentativa que fracassa pela falta de técnica (DONDIS, 2007:171).

Pode-se depreender dessa cenografia construída que o enunciador sugere a imagem discursiva de um professor sensível, capaz de pensar a respeito da alfabetização. Compondo a cena da enunciação, pode-se ler, pelo texto verbal, que o enunciador faz uma chamada para o artigo principal da revista, Magda Soares reflete sobre as muitas facetas do letramento e da alfabetização34. A autora reflete sobre aquisição da língua escrita, alfabética e ortográfica, e também sobre as habilidades do uso de leitura e escrita nas práticas sociais que envolvem a língua escrita. No artigo principal da revista, Magda Soares reforça a importância de uma formação plena do professor das séries iniciais do Ensino Fundamental, no sentido de compreender que a alfabetização deve ser desenvolvida num contexto de letramento a fim de que as crianças desenvolvam habilidades e competências para uso da leitura e da escrita nas práticas sociais.

Nesse sentido, desenha-se a presença do enunciador que cristaliza o efeito de sentido de um saber enciclopédico, de um professor pesquisador, de uma educação mais complexa e mais sutil, aspectos percebidos a partir das imagens que compõem a cena da enunciação das capas analisadas da revista PRESENÇA Pedagógica.