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O lugar de prestígio ocupado pela língua francesa no Brasil sempre me despertou curiosidades. Confesso que, envolvida, muitas vezes, também por estereótipos, resolvi debruçar-me sobre os estudos que acercam as imagens veiculadas sobre a língua francesa no contexto brasileiro. Para tanto, busquei verificar tais dados num contexto particular, no meio acadêmico, acreditando que imagens fossilizadas pudessem ser evitadas.

Em um primeiro momento, apliquei as redações para formar o corpus da pesquisa e, em seguida, comecei por fazer uma primeira leitura dos textos dos alunos. O que me possibilitou a seleção do corpus foi essa primeira análise, na qual percebi duas grandes recorrências, sendo a primeira marcada, sobretudo, pela associação de que uma língua representa necessariamente uma cultura e a segunda pelo contato-confronto de inscrição em língua estrangeira.

Valendo-me principalmente de fatos históricos que demarcam a influência francesa sobre nós, procurei fazer um estudo que pudesse esclarecer como a idéia apresentada pela primeira recorrência havia sido construída. Assim, pude concluir que a relação estabelecida entre língua e cultura só se constitui tal e qual após a expansão dos conceitos propagados pela Revolução de 1789.

Não tendo a França exercido domínio político sobre o país, não se tem por ela o sentimento comum de aversão, pelo contrário, sempre a vimos como uma possibilidade

de evasão. É notório o fascínio que a cultura francesa exerce sobre os artistas e intelectuais brasileiros, sobretudo a partir do século XVIII, pois nela encontrávamos a garantia de liberdade e dos direitos democráticos que almejávamos.

Assim, os alunos, envolvidos por uma memória discursiva sobre a qual não têm domínio, propagam formulações anteriores e embora o fenômeno da globalização tenha vindo perturbar os conceitos tradicionais, os alunos, apoiados na crença de que a língua francesa adquire exatamente as mesmas características veiculadas sobre a França, continuam a supervalorizá-la.

Valendo-me principalmente das idéias de Coracini sobre como a França se apresenta nos manuais didáticos de FLE, procurei desenvolver minhas reflexões, apoiada na crença de que a França, enquanto representante da Francofonia, não faz jus a sua função de impulsionar o reconhecimento mútuo dos diferentes povos. Ela faz parte de um grupo defensor da diversidade cultural, opondo-se assim ao modelo globalizante vigente, porém sua posição de ascendência ainda é muito forte.

Seguindo as pistas que Pêcheux propõe para a interpretação e análise do discurso, cheguei à conclusão de que os alunos, ao tecerem imagens sobre a língua, deixam transparecer as imagens que eles fazem de si mesmos a partir do aprendizado da língua francesa. A posição ocupada pela “capital da Europa” é tão profundamente marcada no Brasil que os alunos buscam aproximar-se desta cultura para, desse modo, apagar a diferença e constituir-se numa outra identidade social. Percebi, ao longo da seleção e recorte que fiz do corpus, a tentativa por parte dos alunos de absorver as características francesas, apropriando-se de sua língua e cultura, como forma de ganhar status social.

No que concerne à segunda recorrência, busquei desfazer algumas idéias sobre a inscrição em língua estrangeira, particularmente em língua francesa, pois sob a ótica de Michel Pêcheux, não era possível acreditar na subjetividade que envolve aquele que

enuncia tanto em língua materna como em língua segunda. Nesse sentido, chegamos à conclusão de que os alunos precisam ter consciência de como os aspectos culturais são utilizados e funcionam em cada situação de comunicação, pois, assim, poderá ser evitado que imagens fossilizadas interfiram em situações de comunicação concretas.

Assim, é válido reforçar que as muitas imagens falsas de língua e cultura francesas cristalizadas no Brasil, por conta da idealização que sempre se fez sobre a França, podem gerar distorções no campo discursivo, pois a distância entre a França idealizada e realidade virá à tona no momento da situação de comunicação. É por esse motivo que sustento a idéia de que aprender uma língua estrangeira é aceitar estar exposto a novas identificações expressas por essa língua. Entretanto, como apresentei numa análise que destaca o número de alunos de francês que se forma a cada semestre na Faculdade de Letras da UFRJ, percebo que não são muitos os que ousam um diálogo com a estranha diferença que caracteriza cada língua em particular.

Apesar de a influência francesa estar presente em diversos domínios de nossa cultura, na década de 60 o governo brasileiro aboliu do currículo obrigatório o ensino da língua francesa. Tal mudança ocorre por conta da valorização de uma política de uniformização, sendo apenas uma língua reconhecida no mercado, o inglês. De fato, o mundo atual tende cada vez mais a globalização e, no que diz respeito aos discursos dos alunos, tal ruptura é temível de distorções e de efeitos sociais, porém eles continuam desejosos em adotar a língua e os modelos da sociedade francesa.

Por fim, como tentei mostrar, seja simplesmente por conta de nossa admiração ou pela presença de políticos, artistas e intelectuais franceses50 que acabaram deixando seus

50 Falo aqui de políticos citados na revista História Viva como, por exemplo, Villegaigon e até mesmo o

Conde da Barca e D. Pedro I que, embora fosse de origem portuguesa, era admirador de Napoleão, além de ter hábitos franceses e, por esse motivo, muito contribuiu para a constituição da imagem que fazemos hoje da França. Quanto aos artistas franceses, refiro-me sobretudo aqueles que chegaram no Brasil em 1816 e

princípios por aqui, além da força da literatura francesa sobre a construção da literatura nacional, a França esteve presente em nosso processo de consolidação nacional e, os brasileiros, ao tecerem imagens sobre a língua francesa, são envolvidos pelo interdiscurso, retomando discursos preexistentes que reforçam o mito do estrangeiro, embora não tenham consciência sobre como toda essa construção ideológica é capaz de determinar seus discursos.

teve, entre seus primeiros professores, intelectuais franceses como Lévi-Strauss e Roger Bastide. Além de outros que não passaram por aqui, mas que certamente, por vias distintas, deixaram marcas significativas na memória coletiva dos brasileiros.