Falar uma língua estrangeira é necessariamente estar exposto a novas práticas culturais e lingüísticas. A sensação de estranheza e de desconforto é uma experiência necessária na aprendizagem da LE, porém a aceitação desse novo mundo só se realiza no momento em que se reconhece a diferença que constitui cada língua e cultura. Entretanto, vale lembrar aqui que nem sempre essa aceitação acontece, pois o diferente representa, muitas vezes, uma possível ameaça.
Quando se aprende uma nova língua, o caráter singular da linguagem, que constitui a afirmação do sujeito enquanto ser do mundo, pode se desestruturar, visto que
48 PRADO, Ceres. “Língua materna e língua estrangeira na escola: o exemplo da bivalência”. Belo
a impossibilidade de correspondência biunívoca entre significante e significado torna-se evidente para os estudantes de LE. O arbritário do signo lingüístico passa a ser experimentado pelos alunos e esse contato com a língua estrangeira lhes faz reconhecer que não existe um único ponto de vista sobre as coisas e que a tradução termo a termo não produz sentidos.
As novas descobertas podem motivar os estudantes, visto que se torna possível repensar todos os conceitos de língua e de sujeito da linguagem já vividos anteriormente, porém nota-se que, na maior parte dos casos, os estudantes desistem, visto que esse confronto com a segunda língua vem desarrumar conceitos que o sujeito traz consigo ao longo de sua história. Nem todo estudante está disposto a viver essa nova experiência, pois se sabe que ela é capaz de questionar uma afirmação já sedimentada anteriormente. O estranhamento e a inquietação de entrada num universo novo e vago de sentidos fazem com que o aluno sinta-se sem saber absoluto. Tal aprendizagem pode causar a sensação de regressão, pois neste novo mundo existe a dificuldade de se expressar e de ser entendido, o mesmo sentimento vivido por uma criança que começa a falar. Trata-se, na verdade, do sentimento de retorno a uma fase de impotência de se fazer entender.
Christine Revuz, 1992, afirma que até mesmo o desejo, sendo considerado o grande responsável pelo eficaz aprendizado de uma segunda língua por muitos estudiosos, não é capaz de preencher o vazio experimentado por aquele que enuncia em língua estrangeira. A “dimensão afetiva”, como por exemplo, a motivação por parte do próprio aprendiz, pode levá-lo a aceitar as diferentes maneiras de construir significações, mesmo que elas possam vir a modificar e interferir toda a sua forma de conceber a linguagem. Todavia, esse fator não permite que o sentimento perturbador vivido por quem tem um bom domínio das estruturas de uma língua estrangeira simplesmente
desapareça, pois como afirma Revuz “O eu da língua estrangeira não é, jamais, completamente o da língua materna.”
Já Charaudeau define “intercultural” como “o domínio no qual ocorre a conquista da identidade” e afirma que “não é possível observar o outro sem observar a si próprio”. Segundo o autor, esta observação mútua permite um diálogo das diferenças e semelhanças culturais, gerando ao mesmo tempo uma relação de atração e de rejeição. Caso estas duas forças sejam equivalentes, temos como resultado uma sensação de fascínio experimentada por ambas as partes envolvidas.
Nas palavras de Charaudeau,
“Essa fascinação se sustenta na contradição que ela é ao mesmo tempo descoberta do outro e descoberta de si. Em outras palavras, é o conflito que é a priori interessante no encontro entre os seres de culturas diferentes, pois ele é o fator de dinâmica social.” (CHARAUDEAU, 1990).
Ao produzir seus textos, alunos expressam sentimentos que marcam esse encontro.
“Estudo francês para descobrir outra realidade e para aprender a me posicionar dentro dela”. (Francês IV- 2004/1)
“Antes de começar a estudar a língua, eu não tinha idéia de todas as implicações, de todo o mundo que descobriria ao estudar esse idioma. Da civilização ao discurso, completamente diferentes daquele a que eu estou acostumada”. (Francês VII-2004/1)
“... para mim representa a chave que permite abrir a porta de um mundo desconhecido porque novo; é o código de entrada no não-conhecido”. (Francês VIII- 2004/1)
“A língua francesa representa pra mim um estilo tanto no sentido de pensar, como no sentido de agir”. (Francês IV-2005/1)
“Uma forma que consigo de me transportar para um mundo bem diferente do que vivo. Me remete uma liberdade. Quando estou estudando francês, ouvindo ou lendo, sinto como se estivesse em outro lugar o qual eu não pertenço”. (Francês IV-2005/1)
“Na minha formação pessoal, o francês significa o aprendizado de um modo diferente de se comunicar”. (Francês VI-2004/1)
Nota-se que os alunos redatores dos textos mencionados souberam encarar essa nova realidade ao reconhecer a alteridade necessária à prática enunciativa em língua francesa, embora não seja possível afirmar que os fragmentos constituem a realidade do curso de Português/Francês da Faculdade de Letras, uma vez que o percentual de desistência e evasão é bem maior do que o número de alunos que conseguem levar adiante os estudos.
Enquanto ex-aluna do curso de graduação da referida universidade, arriscaria dizer que a situação em que se encontra a universidade no que concerne o número de formandos por semestre é bastante inferior se comparado à quantidade de alunos que ingressam na mesma universidade, entretanto, justifico as minhas premissas com a
Letras da UFRJ. O gráfico abaixo é, na verdade, uma forma ilustrativa de representar os dados coletados49: 30 5 30 14 30 12 30 7 0 5 10 15 20 25 30 2005-2 2005-1 2004-1 2003-2 Calouros Formandos
Sabendo que a cada semestre são disponibilizadas 30 vagas para alunos que ingressam através de vestibular, observamos quatro semestres e percebemos que o índice de formandos é infinitamente menor do que o de ingressantes, constituindo uma média de 9,5 alunos formados por semestre.
Ora, como se pode perceber no fragmento abaixo, mais um aluno busca a reafirmação da necessidade de superar as barreiras lingüísticas:
“Quando se aprende uma língua estrangeira é preciso se entregar e superar as barreiras lingüísticas e gramaticais sem hesitar”. (Francês V-2004/1)
Levando em conta os dados estatísticos acima apresentados, podemos concluir que o aprendizado de línguas estrangeiras se caracteriza pelo elevado índice de desistência, sobretudo quando se trata de alunos que receberão habilitação para formar outros alunos. Trato aqui especificamente dos alunos da UFRJ enquanto futuros profissionais de FLE, aqueles que não devem ter apenas o domínio de formas prontas capazes de estabelecer uma comunicação inteligível, mas sim aqueles que devem ter a capacidade de assimilar todo o mundo expresso e implicado nesta linguagem. Nesse sentido, é interessante enfatizar, mais uma vez, que são poucos os estudantes que vêem essa nova experiência como algo encantador, pois como diz Revuz:
“Toda tentativa para aprender uma outra língua vem perturbar, questionar, modificar aquilo que está escrito em nós com as palavras dessa primeira língua. Muito antes de ser objeto de conhecimento, a língua é o material fundador de nosso psiquismo e de nossa vida relacional” (REVUZ, 2001).
Assim, concluir que os alunos capazes de se expressar em língua francesa são aqueles que reconhecem, sem qualquer desconforto, o encontro supracitado, é negar uma realidade, pois a estranheza é inevitável nesse universo de aprendizagem. O que se vê é a postura diferenciada diante dessa nova experiência desconfortante.
O processo de aprendizagem de uma língua estrangeira pode proporcionar o contato com as crenças, costumes e valores de seus falantes nativos, aproximando horizontes culturais e estabelecendo um processo dinâmico de trocas e possíveis transformações. O contato com uma língua estrangeira pode levar o aluno a pensar criticamente e, assim, comparar significados, criar sentidos e reconhecer sua própria identidade através de uma outra identidade social, num processo recíproco. Todavia, nem sempre esta troca é tão fácil de ser compreendida:
“... o francês é um constante desafio e sempre tenho a impressão de nunca ser capaz de dominá-lo com perfeição”. (Francês V-2004/1)
Nesse fragmento, a palavra usada pelo aluno a fim de expressar como ele se coloca diante da aprendizagem em língua francesa é “desafio”. Desafio aqui é aceitar o diferente e o desconforto, visto que a língua lhe será sempre “estrangeira”. A sensação de incompletude não será solucionada e cabe a ele aceitar e encarar essa realidade como um “constante desafio”.
Além de todas as angústias experimentadas pelos estudantes de uma segunda língua no que concerne às dificuldades de se desligar da língua materna, é preciso que estes reconheçam como os aspectos culturais de um povo determinam cada significado em particular. A evidência do sentido deve ser algo sempre questionável. Caso contrário, a falsa interpretação poderá comprometer o sentido do texto ou da situação de comunicação, pois os choques culturais são eminentes, sobretudo quando visões estereotipadas sobre o Outro estão em jogo.