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5. Data, parametrization and calibration

5.2 Real return on savings

Vale ressaltar que o processo de captação das imagens e de filmagens segue o desenho metodológico criado por Ungar (2008), aplicado em sua pesquisa intercultural “Negotiating resilience project: protective process of children in transition across cultures and contexts”, realizada na China, Tailândia, África do Sul, Canadá, Índia e Brasil (coordenada aqui pela orientadora dessa pesquisa).

Antes do período de captação de imagens por meio das fotografias e filmagens, realizei no 1º semestre de 2012, com os seis participantes selecionados, uma entrevista inicial (ANEXO A), com média de trinta minutos cada, sendo que as mesmas foram gravadas em um aparelho Panasonic (Zoom Mic Panasonic RR-US470), seguindo um roteiro de perguntas que possibilitou a compreensão de alguns dos mecanismos mediadores de risco e proteção nos contextos familiares, escolares e comunitários, associados aos processos de “resiliência em- si”, bem como prepará-los/provocá-los para a coleta de imagens. O roteiro de entrevistas foi elaborado a partir do roteiro utilizado por Libório (2011), Ungar et al., (2005), Ungar et al., (2007), Teron et al., (2011) e Ungar (2011), sendo que fiz a inclusão de várias questões que entendo serem essenciais na perspectiva do Método Materialista Histórico Dialético, a fim de analisar o bullying escolar e a “resiliência em-si” como um todo, frente aos determinantes sociais. Assim, na entrevista inicial procurei abordar os seguintes elementos:

- O que acham da escola onde estudam (estrutura, funcionamento, colegas, funcionários); sobre a presença de conflitos (tipos, opinião sobre os mesmos); o que pensam sobre o papel do governo frente ao funcionamento da escola; espaços existentes ou não para os estudantes mobilizarem-se coletivamente frente as suas necessidades; participação dos estudantes nesses espaços e como funcionam.

- Os tipos de situações que são mais desafiadoras para que possam viver em sua comunidade, bem como se esses desafios são vivenciados por outros adolescentes e se conhecem algum tipo de grupo de pessoas que são tratados injustamente.

- O que eles fazem diante das dificuldades em suas vidas, exemplos de situações/desafios e onde buscam forças (apoio).

- O como os relacionamentos na vida dos adolescentes são importantes para os mesmos (adequei as pessoas que os mesmos apontavam) e o que significam; o que acham que as pessoas mais velhas pensam dos mais jovens e se respeitam suas opiniões; como são seus amigos, o que os amigos gostam de fazer e por que os entrevistados gostam desses amigos.

- Que tipo de apoio, recursos, programas e serviços estão disponíveis na comunidade e que eles podem utilizar.

- O como percebem o papel do governo na garantia dos seus direitos, como por exemplo, o acesso à educação básica (escola) e as informações necessárias para que possam crescer bem na sua comunidade e se contam com lugares para o seu divertimento/lazer; como reivindicam espaços/serviços que consideram importantes e que não existem; o que pensam sobre a sociedade, em termos de condições para o desenvolvimento de todos.

- Como eles contribuem para a comunidade com sua presença; o que acreditam ser necessário para que outros adolescentes da mesma idade possam crescer bem no seu bairro e as expectativas de futuro (desejos, objetivos, se sentem capazes de realizá-los e as dificuldades que acreditam encontrar pela frente).

Ao final dessas entrevistas, conversei com os adolescentes sobre a captação de imagens e que, ao usarem as câmeras fotográficas digitais (Kodak easyshare m522)35 deveriam fotografar todos os elementos (pessoas, lugares, espaços, objetos) que consideravam positivos ou negativos em suas trajetórias de vida. De posse de duas câmeras digitais eu fazia a entrega das mesmas para que dois adolescentes, por vez, ficassem com as câmeras por um período entre 15 e 21 dias, dependendo da necessidade para tirar 28 fotografias. Ao final, descarregava as fotografias e deixava a câmera “vazia” para que outros adolescentes realizassem o mesmo processo.

Após a revelação das fotografias, os adolescentes passaram por outra entrevista (ANEXO B) sobre o conteúdo das fotos tiradas e que duraram em média 20 minutos cada. Esse roteiro de entrevista foi baseado a partir de Libório (2011); Ungar et al., (2005); Ungar et al., (2007); Teron et al., (2011) e Ungar (2011):

- A fotografia que mais e menos gostaram (o que elas significam e a que os remetiam).

- Qual fotografia foi capaz de representar algo bom em suas vidas, e qual mostra algo difícil em suas vidas; por que escolheram essas fotos e que podiam falar sobre as mesmas.

- As fotografias que mostram aquilo que os fazem apreciar em morar na sua comunidade, bem como o inverso e as explicações para tal.

- Sobre as demais fotografias (o que significam), se gostariam de conversar sobre algo não abordado até então.

35 A princípio no projeto inicial fiz menção à utilização de máquinas fotográficas descartáveis, contudo, em

outras pesquisas realizadas em nosso grupo de pesquisa, quando do momento da impressão (revelação) das fotos, muitas estavam sendo perdidas (queimadas ou com defeito). Diante de tal ocorrido, optei por utilizar câmeras digitais (adquiridas com recursos da FAPESP).

- Houve alguém ou alguma situação que queriam ter fotografado e que não foi possível, seja por não ter encontrado a pessoa ou por outros motivos; o que essas situações significam.

Em um terceiro momento, realizei uma filmagem de um dia de suas vidas “a Day in the life” Gillen, Cameron, Tapanya et al., (2006 apud, LIBÓRIO, 2011), na qual os adolescentes foram filmados nas atividades cotidianas comuns (totalizando 8 horas de filmagem de cada), sendo que utilizei dois dias de filmagens para cada adolescente. Nas filmagens sempre contei com a ajuda de uma auxiliar de pesquisa para fazer anotações no diário de campo.

Após o período de filmagens, ainda no 1º semestre de 2012, conforme proposições de Libório (2011); Ungar et al., (2005); Ungar et al., (2007); Teron et al., (2011) e Ungar (2011) iniciei o processo de assistir com o auxílio da orientadora da tese e de uma de suas mestrandas que já utilizou esse recurso metodológico em suas pesquisas, as aproximadamente 48 horas de filmagens (gastou-se uma semana nesta atividade). Posteriormente, editou-se na forma de um DVD com 5 a 6 clipes, compondo um vídeo de aproximadamente 30 minutos, sobre as filmagens de cada participante. Para a edição utilizou-se o software PINNACLE versão 11.0. Para a concretização da atividade gastou-se mais de uma semana. Após esta tarefa convidei os adolescentes, individualmente, para assistirem aos vídeos feitos sobre suas respectivas filmagens e realizei uma última entrevista (ANEXO C). Destarte, diante das práticas/atividades socioculturais em diferentes espaços que apareceram nas filmagens, analisei com os mesmos uma a uma e, fiz ainda alguns questionamentos, a fim de buscar mais subsídios para a análise do material. Cada entrevista durou aproximadamente 2 horas, sendo que procurei problematizar junto aos adolescentes os seguintes elementos:

- Esclarecer o que estávamos vendo nos clipes (perspectiva dos adolescentes).

- O que significava ter acesso/contato com as práticas socioculturais analisadas; o que pensavam de algumas pessoas não terem/fazerem aquilo que estava sendo analisado; o que acreditavam gerar tal situação em nossa sociedade; se achavam que a referida situação precisaria ser modificada; o que poderia ser feito.

- Os sentimentos decorrentes da situação e como reagiam (lidavam).

- Com relação à prática sociocultural analisada (quais os aspectos que eles percebiam como positivos e negativos); acreditavam ser possível as pessoas viverem sem essa prática e se eles conseguiriam viver.

- Os trechos que mostravam que eles gostavam de morar em sua comunidade, bem como o inverso e suas explicações; analisar se os trechos selecionados contemplaram suas forças

pessoais e redes de apoio social (quando tiveram dificuldades ou buscaram ajuda) e se havia algum evento filmado que deveria fazer parte do clipe, bem como suas justificativas.

Frente a tais apontamentos e dialeticamente, o próximo capítulo da tese (análise dos dados) será apresentado da seguinte forma: 1- Num primeiro momento serão enfocados aspectos que remetem a articulação entre a tese e as categorias analíticas apresentadas na sequência. Tal procedimento será feito com os dados obtidos com os seis participantes da pesquisa. 2- Posteriormente, elegerei um dos participantes, vítima do bullying escolar, tendo em vista que na história de sua vida fica mais visível a identificação dos elementos que facilitam a análise sobre o processo de formação de sua personalidade, baseando-me na tese doutoral de Martins (2001). Assim, focarei: a) nos dados biográficos que configuram sua história de vida; b) na análise de sua história de vida e, c) o processo de constituição de sua personalidade frente aos paradigmas da singularidade à universalidade.

As categorias analíticas presentes no primeiro momento são as seguintes:

1 – Atuação em diferentes práticas/atividades sociais e culturais e a formação da personalidade humana.

Neste eixo priorizarei uma interlocução entre a atuação dos participantes desta pesquisa em práticas/atividades sociais que os mesmos têm acesso/contato (apropriação) e que foram objetivadas socialmente. Tal configuração visa apresentar como se efetiva o processo de apropriação das objetivações materiais, culturais e intelectuais produzidas em nossa sociedade e suas interfaces com o processo de constituição de suas personalidades.

2- A importância das redes mediadoras de apoio e proteção frente ao processo de formação da personalidade humana.

Compreende as redes mediadoras de apoio e proteção (relações interpessoais, familiares ou de diferentes segmentos sociais), que têm papel significativo na ajuda e fortalecimento da autoestima, bem como na construção da personalidade daqueles que foram/são vitimizados por situações de bullying escolar e que conseguem se posicionar frente às mesmas, todavia apenas no âmbito da “resiliência em-si”.

3- Projetos de vida e a busca pela formação universal da personalidade humana.

Abarca os posicionamentos dos participantes sobre o seu futuro, bem como o ensejo de superarem a condição socioeconômica que se encontram. Contudo, farei a problematização dos apontamentos por meio do conceito de ‘indivíduo para-si’ apresentado por Duarte (1999, 2007), tendo em vista que a formação que concerne a tal aporta uma relação consciente com o gênero humano. Nesse sentido, para que essa relação possa ser efetivada, será enfocado o papel da educação escolar na perspectiva teórica aqui assumida. A escola passa a ser vista

como um espaço contra-hegemônico de formação da consciência crítica dos alunos, a fim de desenvolver a busca pela superação das relações sociais, bem como o pleno desenvolvimento da personalidade humana.

A escolha das categorias apresentadas se deu a partir dos grandes temas presentes na tese a ser defendida, ou seja, procurei contemplar elementos que demarcam as condições objetivas presentes na vida dos participantes e que exercem influências no processo de construção de suas personalidades. Atrelado a isso, estou entendendo que dialeticamente, tais condições auxiliaram no enfrentamento do bullying escolar experienciado, ainda que no âmbito da “resiliência em-si”. É importante destacar que na segunda categoria, após apresentar algumas análises sobre as redes mediadoras de apoio e proteção, ilustro a importância da escola pública como um espaço ímpar de formação da consciência crítica e de classes das camadas populares, na busca pela transformação das relações sociais. Por fim, finalizo apresentando alguns dos projetos futuros de vida dos estudantes, na expectativa de ilustrar o processo de busca pela formação universal da personalidade humana (individuo para-si).

Vale apontar que as categorias, mesmo que analisadas de maneira geral serviram de base, para que em momento posterior eu pudesse analisar detalhadamente o processo de construção da personalidade de uma das participantes da pesquisa, como expressão da tese defendida.

Nesse momento, na perspectiva destacada, fica claro que um fenômeno não pode ser apenas descrito, deve ser explicado historicamente, desde sua gênese, sendo que se houvesse apenas sua descrição, isso contribuiria para a manutenção das relações sociais instauradas no modo capitalista de viver e que pouco ou nada auxiliariam os processos de relação entre indivíduo e sociedade. É importante frisar que não estou negando a descrição, até mesmo porque há uma complementaridade dinâmica entre descrição e explicação, uma descrição detalhada e bem feita, seletiva dos aspectos que permitem chegar à essência do objeto/sujeito da pesquisa tem seu valor, inclusive como denúncia, e passo importante para o entendimento das relações causais entre os fenômenos. Tais questões são exploradas por Gonçalves (2005):

[...] considera-se que a linguagem contém os registros sociais, produzidos historicamente (significados), mas contém também, os registros pessoais, com as dimensões subjetivas correspondentes: ações, cognições, afetos (sentidos). Trata-se de considerar o processo por meio do qual, a partir da atividade, e tendo como mediações a linguagem e as relações sociais, a subjetividade é constituída. São utilizadas as categorias da dialética, numa perspectiva materialista e histórica, a fim de descrever, compreender e explicar o processo de relação indivíduo-sociedade como um processo objetivo-subjetivo (GONÇALVES, 2005, p. 103).

Assim, espero com esta pesquisa defender a tese de que os indivíduos durante sua vida vão se apropriando de algumas objetivações materiais, culturais e intelectuais produzidas socialmente, que os orientam frente à formação social de sua personalidade. A personalidade de cada indivíduo se constrói a partir do contato com a realidade objetiva, incorporadas ou não as possibilidades para uma atividade consciente. Quanto menores forem essas possibilidades, mais fragmentados serão os motivos e ações presentes na atividade humana. Decorrente disso, no sistema de organização capitalista, há uma contradição expressa, pois mesmo que eles se posicionem frente ao bullying escolar experienciado, por meio dos processos de “resiliência em-si”, que são desenvolvidos na relação dialética entre mecanismos mediadores de risco e proteção, o enfrentamento do bullying escolar será momentâneo e pontual. O fenômeno continuará sendo produzido na dinâmica escolar. Os estudantes por sua vez continuarão centrados no modelo de organização social que produz o bullying escolar, com a impressão de que pouco há que se fazer. A emancipação se faz possível por meio de um processo de tomada de consciência, bem como pela superação das atuais relações sociais, o que reforça a importância que a educação escolar numa perspectiva revolucionária pode ter nesse processo. A escola precisa cumprir com sua função social, a de socializar a todos, o conhecimento científico produzido historicamente pelo gênero humano. O desenvolvimento livre e universal da personalidade humana depende de uma possível transformação social.