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5. Data, parametrization and calibration

5.3 Productivity

O primeiro aspecto a ser destacado refere-se ao papel das atividades escolares no processo de apropriação e objetivação do conhecimento humano produzido historicamente. Os seis participantes da pesquisa frequentam o ensino regular em uma escola pública, vinculada à Rede Estadual de Ensino Paulista, sendo que apenas Rosiane, foi reprovada no ano anterior e cursa o 9º ano do Ensino Fundamental pela segunda vez. Um aspecto que chama atenção e que contraria outros estudos (CAMARGO, 2009; GONZAGA, 2010; GRACIANO, 2007) é que os participantes apontam gostar da escola onde estudam. O que não significa que os mesmos não percebam falhas nesse processo ou que algumas mudanças devam ocorrer. Sendo assim, num primeiro momento Elenita destaca que gosta da escola, aliada à estrutura, funcionamento e ao ensino que recebe. Irineu e Rosiane pontuam que a escola oferece um bom ensino, consideram os professores e funcionários qualificados, além de terem uma boa relação com eles, contudo não gostam da estrutura física, sendo que algumas mudanças deveriam se fazer presentes. Andréia gosta da escola, da sua estrutura física, acha a instituição disciplinada e a compara com outra unidade escolar da cidade onde estudou e ressalta que os professores nunca faltaram com respeito a sua pessoa. Na mesma linha, Renata a considera como uma escola bem interessante e, ao fazer elogios sobre os professores e funcionários, os qualifica como ótimos e eficientes e faz comparações com outra unidade escolar que conhece. Achilles também a considera uma boa escola e gosta dos funcionários, porque os mesmos dialogam, sabendo conversar com os alunos. Todavia, acredita que além de algumas mudanças na estrutura física, a mesma precisaria de mudanças de atitudes por parte da direção na condução dos casos de indisciplina.

Quando questionados sobre como percebiam o papel do governo no funcionamento da escola, há um contrassenso no discurso dos participantes e em alguns casos eles não apresentam coerência e consciência sobre o papel do governo nesse processo. Andréia

acredita que nessa escola o apoio seja maior se comparado a outras escolas da cidade, em função da biblioteca contar com um grande acervo de livros, além dos professores serem bons e a merenda ser de boa qualidade. Rosiane defende que o governo começou a desempenhar um bom papel, em função dos materiais didáticos entregues (cadernos dos alunos). Elenita até chegou a apresentar um discurso de negatividade sobre o papel do governo, contudo não soube explicitar os motivos da crítica. Na contramão, Achilles questiona o papel do governo e que ele deveria melhorar sua função, ao estabelecer comparações com alguns problemas físicos que a escola vem apresentando. Por vez, Renata aponta a ineficiência do governo frente ao funcionamento da escola, por meio de críticas com relação aos cadernos dos alunos, ao sentir a necessidade de que o ensino fosse mais amplo e diversificado. Tal aspecto também se fará presente na fala de Irineu, aliado a outros elementos nas críticas referentes à gestão da educação feita pelo governo:

O governo não investe em nada na área de educação, o ensino é muito escasso, sabe este material que vem pra gente é uma coisa muito básica (referindo-se aos cadernos do aluno). Ele não manda auxílio para as escolas melhorarem a estrutura, as salas de aula são muito pequenas para uma grande quantidade de alunos. Com relação à remuneração dos professores é muito pouco e eu acho que não há muitos investimentos (IRINEU, PARTICIPANTE DA PESQUISA DE CAMPO, 2011-2012).

Independente dos posicionamentos contrários ou favoráveis ao papel do governo é importante observar o quanto a escola apresenta-se como objeto de preocupação dos sujeitos, os quais anseiam por um espaço de desenvolvimento, considerando que para as camadas populares, a escola acaba se tornando um dos únicos espaços de aprendizagem e desenvolvimento, dada a carência absoluta de outros espaços públicos com essa finalidade.

Todavia é importante reforçar as proposições de Duarte (2007, 2009) e Martins (2009) que apontam que as escolas públicas dentro do sistema capitalista vêm sendo utilizadas pelas classes dominantes como um forte instrumento ideológico. Dessa forma criam mecanismos, a fim de manter os escolares em níveis de consciência que permitam a sua manipulação e adaptação à vida social. Os exemplos de tal processo foram denunciados acima por Irineu.

Sanfelice (2010), ao analisar as políticas educacionais implementadas no Estado de São Paulo, nas últimas duas décadas, em especial nos mandatos dos governantes: Mário Covas, Geraldo Alckmin, Cláudio Lembo e José Serra pontua que as mesmas sempre reforçaram a visão neoliberal de educação. Sobre as políticas mais recentes, Sanfelice questiona que o governo fez a adoção de um currículo único e fechado, a utilização de material instrucional padronizado, além de acompanhamento das escolas por meio de

avaliações fechadas, sendo ainda que os resultados servem de critério para conceder “bônus salariais” aos professores além do incentivo monetário para aumento da produtividade do trabalho.

No mais, a política educacional do Estado de São Paulo vem se caracterizando por empreendimentos pontuais, nem sempre duradouros, de efeitos midiáticos e de duvidosos resultados qualitativos. Os profissionais da educação da rede pública que trabalham hoje com contratos precários, os baixos salários quando comparados nacionalmente e a ausência de um Plano Estadual de Educação são questões essenciais, não solucionadas pelos últimos governos, que comprometem profundamente o trabalho docente, a aprendizagem do aluno e o papel de um Estado educador [...] (SANFELICE, 2010, p.153).

Por mais que sejam travestidas e aliadas a um discurso que diz estar promovendo avanços na educação paulista, é fato que tais medidas apenas contribuem para a imobilização social das pessoas e a formação de personalidades adaptadas a realidade. As medidas assumidas escancaram os propósitos de uma educação nada emancipadora.

Todos esses argumentos reavivam a tese a ser defendida, tendo em vista que a educação escolar pública deveria favorecer o processo de tomada de consciência, por parte dos estudantes das classes oprimidas, bem como dos participantes aqui mencionados (Achilles, Andréia, Elenita, Irineu, Renata e Rosiane). Por mais que os estudantes, em vários momentos, um mais e outros menos, apresentem discursos com certo grau de consistência frente à realidade, é importante não se perder de vista que há evidências também de concepções fragmentárias, reflexo do desenvolvimento limitado de suas personalidades.

Entendo que um dos desencadeadores desse processo, se deve ao fato de que os indivíduos frente às diferentes problemáticas vivenciadas em suas vidas, reflexo das condições sociais objetivas, por mais que se posicionem ou enfrentem “satisfatoriamente”, tais infortúnios, acabarão presos à realidade vivida.

Contraditoriamente, a escola poderia auxiliá-los a exceder qualquer tipo de posicionamentos superficiais, ao retomarem para si o controle consciente das transformações, das circunstâncias e de si mesmos, na superação da alienação e no pleno desenvolvimento da personalidade, ao se apropriarem do conhecimento científico produzido historicamente pela humanidade em suas diferentes nuances. Mais adiante darei exemplos de como a escola pode intervir, mediante o processo de constituição da consciência dos participantes na relação com as atividades escolares, visando à transformação social.

Ainda é importante refletir sobre o que Oliveira (2005) nomina de “conhecimentos cotidianos espontâneos”. Ao passo que esse tipo de conhecimento é usado nos posicionamentos da maioria das pessoas, sendo fragmentados, casuais, inconsistentes e

ideológico, pois refletem muitas vezes a falsa de consciência da realidade. A autora pontua ainda que esse imediatismo do pensamento cotidiano, na sociedade alienada, vem se expandindo e abarcando também o pensamento científico.

Pensando nas situações escolares que podem funcionar contra-hegemonicamente, na esfera escolar, questionei os estudantes, se há espaços ou momentos para reivindicarem sobre seus anseios ou necessidades onde estudam. Contudo, os participantes destacaram que não. Apenas Rosiane percebe o ‘Conselho de classe participativo’ realizado ao final de todos os bimestres, em que se discute o desempenho dos alunos, como um espaço para os estudantes se posicionarem frente aquilo que lhes incomoda. Na perspectiva do método de investigação, tentei conduzir os estudantes a apresentarem suas percepções sobre o Grêmio Estudantil e pensarem um pouco sobre tal espaço, pois quando bem articulado e estruturado, pode servir como mais um espaço de formação crítica e consciente dos estudantes, frente às problemáticas que se fazem presentes na sociedade atual e que têm impacto sobre a esfera escolar, bem como no desenvolvimento de suas personalidades. Todavia, um aspecto impactante é que o grêmio como vem sendo concebido pelos estudantes e difundido na escola, pouco ou nada cumpre a sua função social. Elenita e Rosiane não têm clareza sobre o papel do Grêmio Estudantil. Achilles e Andréia alegam respectivamente não se envolverem, pois o grêmio não tem um papel ativo e os integrantes não são bons exemplos de alunos.

Faço questão de ressaltar o papel da escola na articulação desse espaço, a fim de garantir o seu funcionamento efetivo. Tal aspecto se faz presente na fala de outros dois estudantes:

A escola poderia dar mais liberdade para o grêmio [...] mas eles não fazem mais coisas porque a escola não permite ou não se posiciona. (IRINEU, PARTICIPANTE DA PESQUISA DE CAMPO, 2011-2012)

Sempre são os mesmos. Todo ano sempre são os mesmos, porque não há participação. Muitos alunos não participam e não se reúnem muito bem. Daí é sempre os mesmos. Na minha sala mesmo, quando tem essas coisas, são sempre as mesmas pessoas. Eles não chegam e discutem, ah você quer participar? Você não quer? Entendeu? (RENATA, PARTICIPANTE DA PESQUISA DE CAMPO, 2011-2012).

Diante disso, destaco as pesquisas realizadas por Amaral (2005), Gusson (2008) e Leher (2007) que destacam a importância do movimento estudantil, um espaço ímpar de politização que teve a sua constituição de forma maciça, no contexto brasileiro, em especial a partir da década de 1960, em oposição ao governo militar e nas causas de diferentes lutas político-sociais. O governo militar, por sua vez combatia de todas as formas à mobilização

dos estudantes, por meio da repressão via processos judiciais, perseguições e em muitos casos com o exílio (AMARAL, 2005; GUSSON, 2008).

Conforme Amaral (2005), os estudantes por meio da UNE eram mobilizados nessa época por ideais, tais como os de independência política e emancipação econômica do país, bem como pela construção de uma nova sociedade com menos desigualdades. Se o movimento teve um papel protagônico até o fim do Regime Militar em meados de 1985, o mesmo ainda escancarou sua utopia e luta no movimento dos “Caras Pintadas”, que foi capaz de destituir o presidente Collor, envolvido em escândalos de corrupção. Todavia, após esses atos o movimento estudantil parece ter perdido suas bandeiras de luta, e como reflexo a população assistiu passivamente o ensino público ser substituído pela escola privada e o ensino universitário se transformar em empreendimento empresarial. Como exemplo, a autora cita que atualmente, aproximadamente 80% dos universitários frequentam universidades pertencentes ao setor privado. Longe de ter um discurso saudosista do movimento estudantil de outrora, a pesquisadora indaga sobre o que então diferencia o movimento estudantil atual? E, as suas conclusões são as de que a sociedade contemporânea não tem um Projeto Nacional arraigado de utopias de um sentimento nacional; os jovens são cada vez mais pragmáticos e a sociedade vem sendo difundida e propagada como se tudo estivesse pronto e acabado. Aspectos esses que apenas contribuem para a preservação do status quo.

Leher (2007) destaca que após esse período de “dormência” do movimento estudantil, como destacado acima, a luta social pelo público, na defesa de uma educação não mercantilizada, teve grande repercussão na última década, com a ocupação da Universidade de São Paulo (USP), no ano de 2007. Os estudantes inconformados e ao não aceitarem a ofensiva neoliberal do então governador do Estado de São Paulo, José Serra, que por meio de vários decretos, que tinham implicações no sucateamento da universidade e na minimização do poder público nos investimentos sobre a mesma, mobilizaram-se fortemente, mesmo sob ameaça de repressões como a que vários estudantes sofreram. No mesmo período, influenciado por esse movimento da USP, várias reitorias das universidades federais foram ocupadas pelos estudantes contra as medidas impostas também pelo presidente Lula. Esses atos que inicialmente na USP impediram uma vitória estadual contra a autonomia (mesmo que incompleta) da referida universidade, foi decisivo nas federais pela luta contra o inchaço dos cursos superiores de curta duração, à distância e ministrados pelos pós-graduandos. É importante destacar que nenhum setor dominante manifestou simpatia pela causa, os estudantes foram qualificados como baderneiros e sequer consideraram as questões concretas que moveram os estudantes. Todavia, o medo de que tal movimento tomasse proporções

maiores fez com que a velha e a nova direita e os setores dominantes por meio da figura do governador revogasse os decretos.

Gostaria apenas de salientar que em nenhum noticiário (TV, jornais e imprensa escrita), pelo menos dos que tenho contato, não vi uma matéria sequer, no período em questão, comentando sobre a vitória dos estudantes nesse caso. Isso nunca acontece. Silenciam as conquistas para que as pessoas percam a dimensão das mesmas e se produza cada vez mais subjetividades mais resignadas com os abismos da sociedade, e que passem assim a reprovar tais movimentos. As manchetes nos noticiários só ganham difusão quando do momento “das ocupações”, ou quando os diferentes movimentos sociais adotam posturas mais firmes contra o autoritarismo daqueles que os tentam “intimidar” firmemente por meio da violência. Violência que se inverte, no plano dos discursos midiáticos, sendo que os violentos passam a serem considerados aqueles que lutam por princípios que congregam a defesa da coletividade.

A discussão que destaquei acima é apenas para mostrar o quão necessário se faz os espaços ligados ao movimento estudantil, desde a educação básica. Os estudantes participantes da pesquisa precisam refletir sobre a realidade que se encontram inseridos, e o Grêmio Escolar seria um ótimo espaço para que eles pudessem criar uma simpatia pelos movimentos sociais, além de perceber sua importância na defesa de seus direitos, embora isso não venha ocorrendo, conforme seus relatos. E, os professores, aqueles adeptos das abordagens decorrentes do Materialismo Histórico Dialético têm papel fundamental na busca pelo fortalecimento desses espaços, nos locais onde trabalham, pois a luta dos estudantes também deve ser a sua luta, a busca pela transformação social.

Conforme Leontiev (1983) a consciência humana é influenciada pela estrutura de classes presente na sociedade capitalista, de tal forma que os indivíduos se encontram em relações opostas aos meios de produção e ao produto social. Não diferente, a consciência humana sofre influências desse processo, de tal forma que os critérios ideológicos passam a ser internalizados ao processo de conscientização dos indivíduos concretos. As significações humanas vão se subordinando as leis histórico-sociais, e o desenvolvimento dos indivíduos vai se dando pela interação entre os planos filogenético e ontogenético.

Por vez, a personalidade também é vista como um produto da interação dialética entre tais planos. Todavia, ninguém nasce com sua personalidade definida, ela é decorrente das condições objetivas presentes, ou seja, é reflexo de um processo histórico-social (LEONTIEV, 1983; MARTINS, 2001, 2004, 2011). Tais aspectos reforçam a ideia de que quanto mais espaços e situações a educação escolar oferecer aos seus estudantes, no intento de

que os mesmos ampliem seu movimento de consciência da realidade, mais efetiva será sua contribuição para com a busca pela superação das relações sociais.

Ainda sobre o acesso e contato com a esfera escolar, é importante destacar que muitas vezes os alunos acabam se tornando dependentes de posturas autoritárias por parte dos professores e gestores, como se somente eles fossem capazes de resolver qualquer problema educacional. As práticas sociais de cunho coletivo, como são as escolares, e que reconheço não serem fáceis de desenvolver, tendo em vista que, todos os dias dentro do sistema capitalista e do discurso neoliberal apregoado pelos aparelhos ideológicos de estado ensinam as pessoas a agirem em prol do individualismo. Nesse sentido, é válido mencionar a postura do participante Achilles, sobre a participação e organização das atividades que seriam apresentadas por sua turma em um evento promovido na escola. Ele questiona que os eventos organizados pelos alunos acabam virando baderna, acha que os mesmos deveriam ser organizados somente pela direção da escola e que o que for decidido, deve ser acatado pelos alunos, sem contestarem, o que entendo ser reflexo de uma postura submissa de Achilles, diante de uma postura autoritária da escola. É importante refletir que não estou negando a participação da direção escolar no processo de condução dessas atividades. Contudo, acredito que as melhores decisões advêm de processos de debates e de decisões coletivas. Infelizmente as relações sociais na sociedade capitalista, levam os indivíduos a acreditar que uns devem pensar e planejar, enquanto a maioria deve apenas obedecer e executar, o que é bastante coerente com a fragmentação presente no trabalho alienado.

Sanfelice (2010) aponta que na busca por uma “escola democrática” (não coercitiva) e que desenvolva alternativas de fortalecimento da “autonomia escolar” e do pleno desenvolvimento da personalidade, em oposição aos ideários neoliberais, faz se necessário os espaços de discussão e construção de suas ações com a participação de todos. Há que se minimizar ainda, o autoritarismo presente nas ações de professores e gestores na relação com pais e alunos.

Oliveira (1996) destaca que na perspectiva de Dermeval Saviani (Pedagogia Histórico- Crítica), a participação nas atividades escolares, deve ter como objetivos mais amplos a transformação social. “A educação não transforma imediatamente a sociedade”. Ela deve transformar de maneira mediatizada, as consciências dos sujeitos que atuam na prática social, a partir de uma determinada escolha de valores perante a história humana. Para tanto, deverá assumir uma posição de classe, já que a sociedade está dividida em classes antagônicas. Ao desenvolver tais proposições, o trabalho educativo auxiliará na passagem do ser ao dever-ser.

Esse tipo de trabalho intencional, com vistas à transformação da realidade, será concernente a uma maior consistência entre os motivos e ações presentes na atividade humana, que impactarão no desenvolvimento de personalidades mais livres e universais. Por exemplo, na dimensão da participação nas atividades escolares, ou das relações interpessoais, ficarão expressos posicionamentos que contribuirão para que os estudantes realizem uma leitura crítica do concreto, onde se encontram inseridos.